Notas iniciais
Wee mais um cap ♥
O triste é que eu só tenho mais um escrito, vou precisar escrever mais logo logo 8D
Queria agradecer os reviews, os amo, e queria dizer também que a fic não é 'Death Fic' não se preocupem.
Boa leitura.

Ruki estava em choque e Aoi teria ficado sem qualquer reação se não tivesse precisado segurar Reita junto com Felipe para que o baixista não viesse ao chão. Suas pernas haviam perdido as forças e por um momento esqueceu-se de como respirar, sentindo o peso das palavras dos médicos caindo sobre si.

Mesmo que não quisesse, mesmo que Kai tentasse clarear tudo, Reita sentia-se culpado. Não cuidou direito daquele que mais precisava de si e agora, depois de uma enxurrada de sintomas horríveis ele recebe um soco, descobrindo que seu amigo pode ter uma doença como aquela.

As mãos tremiam sem parar e com um esforço sobre-humano foram até o rosto já molhado novamente, os dígitos apertando com força cada pedacinho de pele que tocava; o baixista respirando o mais fundo que conseguia deixando-se levar pelo choro que carregava cada ínfimo pedaço da dor e angústia que ele sentia.

Kai tentava manter a sanidade em meio às fervorosas lágrimas que escorriam por seu rosto, todos os problemas do mundo caindo por sobre seus ombros. Sentia-se impotente, principalmente por ser o líder. Era como uma mãe para os outros quatro e saber que um deles estava tão doente assim lhe partia o coração em uma rajada de facas que parecia lhe atravessar a alma.

Balançava a cabeça de um lado para o outro tentando voltar a si, sabia que precisaria. Não podiam perder as esperanças de que fosse algo de menor voracidade, mas com as suspeitas dos dois especialistas sobre leucemia as coisas mudavam de figura.

O que mexeu absurdamente com Ruki também. Os médicos chamaram duas enfermeiras para levar um chá até os quatro e se retiraram, deixando-os imersos na realidade. O vocalista, antes sem reação agora sentia os olhos arderem com força e as quentes e pesadas lágrimas descendo em silêncio e queimando a pele fria de seu rosto. Os olhos fitavam o nada e aos poucos iam fechando-se e Ruki os apertava ajudando a expelir as gotículas numa última tentativa de expulsar também a dor.

Aoi, que havia trazido os lanches agora não sabia o que era comida ou qualquer outra coisa. Um nó se formava em sua garganta e a vontade de gritar lhe subia ferozmente, mas ele tentava se conter. A pergunta de Ruki sobre a morte do amigo agora lhe parecia mais real e dilacerante, rasgando seu coração em dois.

E todo o sentimento negativo trazia junto à impotência de somente poder ficar sentado, chorando, enquanto numa daquelas salas grandes e brancas a pessoa pela qual o guitarrista começava a despertar sentimentos estava provavelmente inconsciente e sem saber que, se o diagnóstico fosse comprovado, estaria diante de uma cruel realidade que trazia junto uma doença tão ruim.

E no meio do choque e da dor, um silêncio arrebatador tomou conta dos quatro, era como se abafadores de som tivessem sido colocados em seus ouvidos e nem mesmo sua respiração era ouvida. Mesmo Kai e Aoi que não fitavam um único ponto estavam imersos em suas dores e em seu mundo, provavelmente sem saber como sair de lá.

Parecia que algo maior os houvesse puxado para uma realidade negra onde nenhum ponto de luz atingia, sugando a cada ínfimo segundo suas forças, deixando-os vulneráveis para qualquer ação externa. Até mesmo Reita havia silenciado seu choro e o passado com Uruha voltava com força total como uma tormenta bloqueando qualquer resquício da bonança que deveria vir em seguida, mas que naquele momento parecia inalcançável.

Pelo menos até o som de rodinhas sendo deslizadas pelo chão liso do hospital caminhar por entre os ouvidos dos quatro e os trazerem para a realidade novamente, quando Viktor veio acompanhado de uma enfermeira que trazia a maca com Uruha. Kai ainda tentou se levantar, mas sentiu as pernas fraquejarem e apenas observou de longe o médico entrar com o amigo no quarto e logo em seguida a porta se fechar.

— Vocês deveriam beber o chá e comer alguma coisa. Vão precisar estar bem para o bem de vocês mesmo e de seu amigo.

A voz suave da enfermeira pareceu clarear um pouco a mente dos quatro e eles acabaram aceitando o líquido levemente adocicado e voltaram à atenção para as sacolas na mão de Aoi, comendo lentamente. Reita teve de ser incentivado por Ruki, mas acabou aceitando também, tentando separar o que já passou do presente, afinal de contas, sabia que Uruha precisaria de todos.

Viram Felipe passar alguns minutos com outra prancheta em mãos, — já que uma estava na mão do médico menor — e adentrar o quarto de Uruha, tomando cuidado para não bater a porta. A enfermeira que estava no local saiu quase que imediatamente, deixando os médicos finalizarem a arrumação da aparelhagem no paciente.

— Acha que é leucemia, Viktor? – O maior puxou a pergunta sem desviar a atenção do que fazia.

- Com todos esses sintomas, sim. E o que mais me intriga é ele não ter procurado ajuda logo. Dois meses é um longo tempo para uma doença dessa.

- Oncologistas são muito otimistas.

O menor deu uma risada baixa.

— Meus pacientes perdem pedaços de pele a todo o momento e mesmo assim eu sou otimista, não finja que não me conhece. Mas, com os sintomas agravados desta forma a doença certamente está avançada. O mielograma já foi marcado?

- Sim. – Felipe entregou uma folha da prancheta para o outro e colocou a mesma pendurada em frente à cama de Uruha com suas informações. – Para as dez da manhã.

- Para as dez? Então vamos precisar colocar ele no soro, não me parece que comeu algo há pouco tempo.

- Não acha melhor acordá-lo? Ele está apenas dormindo agora.

- Você decide. Se ele não acordar muito tarde e ainda for possível lhe dar algo você pede, se não ele vai precisar ser monitorado e ficar no soro até o exame terminar.

O hematologista assentiu e terminou de cobrir Uruha até a altura do peito, mencionando sair do quarto logo em seguida.

— Posso autorizar que entrem?

Viktor estava de costas, mas assentiu. O hematologista saiu do quarto e voltou-se para os quatro.

— Seu amigo já foi instalado nesse quarto. Vocês podem entrar e ficar um pouco com ele, mas somente uma pessoa pode ficar lá dentro e passar a noite com ele. Caso vocês precisem voltar para casa, vou pedir que o responsável pelo paciente fique, no caso, o senhor Suzuki. Você pode ir para a casa, mas se for possível que seja na parte da manhã. Seu amigo vai ficar aqui por mais ou menos uma semana, que é o tempo que demora a sair o resultado do mielograma.

Os quatro assentiram e o médico se retirou.

— Vocês estão melhores para ficar em pé? – Kai indagou também para si, as palavras ditas pareciam ter mais força sobre si.

E como os outros assentiram, se levantaram e foram até o quarto. Ruki abriu a porta e entrou primeiro, seguido dos outros. Viktor ainda fazia algumas anotações, mas virou-se para o quarteto e sorriu leve.

— Doutor, que sangramento era aquele na boca dele? – Reita lembrou-se do detalhe que o fez entrar em desespero fitando o amigo que agora dormia tranquilamente como se o mundo fosse o mais doce possível.

- Esse sintoma é mais um que nos leva a achar que é Leucemia. Não é conseqüência de nenhum trauma, foi um sangramento na gengiva que é causado justamente pela redução das plaquetas que são responsáveis por coagular o sangue.

- Mas, vai ficar tudo bem?

- Se a leucemia for confirmada os sangramentos vão parar sim, mas outros sintomas decorrentes da quimioterapia vão aparecer. Mas, se querem o conselho desse médico, tentem não apressar a dor, deixem as coisas caminharem, nós vamos cuidar bem dele. E amanhã, quando ele estiver perto de fazer o exame, vocês podem estar juntos assim vão entender com ele como tudo vai começar a funcionar.

A dor em seus corações era visível, assim como o cansaço de seus corpos, mas eles sabiam que o médico tinha razão. Não podiam e nem deviam apressar nada e apenas viram o homem da altura de seu vocalista sair do quarto e voltaram a atenção para Uruha.

O guitarrista dormia calmamente e apenas o barulho do monitor cardíaco quebrava o silêncio dentro daquele recinto que, no momento, exalava apenas dor e angústia.

xXx

Uruha acordou ainda na noite em que foi internado, mas os amigos resolveram não falar nada sobre o mielograma ou mesmo as suspeitas sobre leucemia. Aproveitaram que ele estava calmo e bem e resolveram permanecer assim, trocando conversas bobas e risadas aleatórias sem nem mesmo perguntar sobre os motivos do guitarrista ter escondido seus sintomas.

Eles sabiam que haveria o momento certo para isso, e definitivamente não era aquele.

Na manhã seguinte, no entanto...

— Porque vocês esconderam isso de mim?

Uruha era amparado por Ruki e chorava muito, ainda chocado pela notícia. Era por volta de oito da manhã e os médicos acabaram decidindo que o hematologista contaria sobre o mielograma, que, estava quase por um fio, caso o guitarrista não se acalmasse.

— Takashima-san, você precisa se acalmar. – Felipe foi até o lado de Ruki, tentando acalmar Uruha enquanto permanecia fitando o monitor cardíaco. – Eu sei que é uma notícia chocante, mas é importante que você se acalme, o exame é daqui a duas horas e se seu sistema nervoso estiver tenso assim nós vamos ter de adiar.

Aoi, Kai e Reita observavam de longe os dois homens tentarem acalmar o guitarrista e agradeceram mentalmente quando o loiro pareceu absorver aquelas palavras e afrouxou um pouco o abraço que dava em Ruki, erguendo a cabeça e fitando o médico, que esboçou um sorriso.

— Bem, acho que nós precisamos começar de novo, certo? Eu quero deixar claro para todos vocês o que exatamente eu sou o que o mielograma faz e o que ele vai nos revelar.

Uruha ia falar, mas o homem gentilmente levou um dos dedos aos próprios lábios, indicando que o guitarrista não deveria se precipitar.

— E caso as suspeitas estejam certas, aos poucos vocês também vão começar a entender o que é a leucemia. Mas, por favor, não se exaltem, vocês precisarão de forças caso as coisas se comprovem.

Uruha fitou Ruki e os amigos e com um meneio os chamou para mais perto.

— Eu sou um hematologista, e sou responsável por cuidar do sangue, por isso mesmo sou eu quem vai fazer o mielograma. Normalmente, quando aparece um quadro de leucemia, o oncologista costuma ser o médico principal, mas é normal que às vezes apareça um hematologista para dar uma opinião a mais.

O médico limpou a garganta e continuou.

— Basicamente é isso que os pacientes e mesmo os acompanhantes precisam saber para não ficarem muito perdidos. E o mielograma em si, dependendo do paciente, nós costumamos comentar sobre ele muito por cima para não deixar na ansiedade, então vou perguntar se vocês preferem saber agora ou depois, principalmente o paciente.

- É muito ruim? – Uruha indagou, fazendo uma careta.

- Dói um pouco, é verdade, mas a anestesia ajuda e muito. Claro que tem um desconforto, mas não chega a ser algo insuportável.

O guitarrista fitou o médico e acabou pedindo para que continuasse.

— Como qualquer exame normal, o paciente não pode comer apenas beber coisas saudáveis como sucos naturais não muito ácidos e água. Quando ele está pronto para o exame é levado até uma sala especial e fica com a parte de cima do corpo desnuda. Então se deita de bruço e fica imóvel e o médico passa um anti-séptico em toda a região lombar. Depois se aplica um anestésico local que adormece o local da injeção. Não é lá algo que você não sente, mas ajuda bastante.

Todos se mostravam realmente atentos e o hematologista tirou uma agulha relativamente longa de seu jaleco, assustando-os.

— Por favor, não me denunciem, mas eu costumo mostrar antes os materiais dos exames, quando possível, claro. Bem, essa é a primeira agulha que é usada, e se o paciente estiver relaxado e bem, ele só vai sentir a picada, embora seja normal uma pessoa ficar meio nervosa.

- Concordo. – Uruha respondeu de imediato levando todos a rir.

- Essa agulha entra no osso, e o que você pode sentir é um desconforto, lembrando que se sentir dor deve avisar na hora.

O loiro assentiu de prontidão.

— Assim que chegar ao osso, uma agulha, dessa vez mais ‘normal’ – O médico fez aspas no ar, fazendo-os rir. – é inserida dentro da primeira e um pouco do líquido cefalorraquidiano é extraído. Por fim é injetado o contraste, aonde, normalmente o paciente sente algo parecido com calor e esse contraste vai servir na hora de serem realizadas as radiografias. A agulha é então retirada e o exame termina. E apesar de parecer longo, não costuma passar de dez minutos.

- Tem algum cuidado muito especial a ser tomado após o exame?

Reita indagou, chamando a atenção do médico.

— O paciente fica sob monitoração e deve ficar deitado de costas por pelo menos duas horas com a cabeça meio elevada, porque o exame pode causar dor de cabeça, enjôo e vômito. Esses sintomas não costumam durar muito e bebendo bastante água fica mais fácil de minimizar todos eles. A alimentação pode ser feita depois das duas horas deitado, mas é bom comer pouco e devagar para não forçar demais o próprio organismo. E é importante que o paciente avise caso os sintomas fiquem muito fortes. Por fim podem ocorrer fraqueza e desconforto nos braços e nas pernas assim como nos músculos dos olhos, mas o normal é que eles vão embora dentro de vinte e quatro horas.

Os cinco ouviram tudo atentamente e Uruha mostrou-se relativamente bem, apesar do medo que estava sentindo. O médico indagou se alguém tinha mais alguma dúvida, mas todos estavam bem a par do que aconteceria com Uruha então o homem saiu do quarto, deixando-os a sós.

— Depois de uma turnê tão longa eu vou passar meu único mês de férias num hospital. Tenho medo do que pode acontecer.

- Nós também estamos com medo Uru, mas você vai sair bem dessa, vai ver.

- E o que eu mais desejo Kai. Fora as inúmeras explicações que eu sei que devo para vocês.

- Pon. – Ruki chamou o amigo, atraindo a atenção de todos. – Deixe essas explicações para lá, o importante agora é a sua saúde. Nós temos um mês para sumir da mídia e focar na sua recuperação.

- Mas, vocês não deveriam passar seu tempo aqui comigo, logo esse mês passa e o descanso vai acabar.

- Uruha, pense em você agora, o que realmente importa no momento é descobrir o que está acontecendo. Mídia, banda, companhia, férias, tudo isso vai ficar para depois, foque apenas em você agora, está bem?

O guitarrista focava o líder, que torcia para não ter hesitado. Kai não era líder à toa e sabia que tudo ia repercutir na mídia e a companhia ia se pronunciar passando por cima de qualquer coisa por causa do contrato, então o que mais era preciso no momento era que Uruha guardasse forças para si mesmo.

Sendo eles cinco, o baterista sabia que esse obstáculo não os derrubaria.

xXx

— Boa sorte, Uru.

Reita beijou a testa do amigo e sentou-se no corredor junto com os outros enquanto uma enfermeira levava Uruha numa cadeira de rodas até a sala de exames onde Felipe o esperava.

— Ainda lembra tudo que eu lhe disse? – O médico indagou e o guitarrista assentiu, levantando-se da cadeira enquanto a parte de trás de sua roupa era solta até a altura do quadril.

O guitarrista então foi ajudado a se deitar de bruços na maca e fechou os olhos tentando ao máximo relaxar.

Sentiu o anti-séptico ser passado pela extensão de suas costas e logo em seguida algo que deveria ser a anestesia. A todo o momento o médico falava com ele, acalmando-o.

— Eu vou inserir a primeira agulha. Por favor, não se mexa e não precisa se assustar.

- Está bem.

Uruha semi-cerrou os olhos quando sentiu a agulha entrando por suas costas, mas permaneceu imóvel. Respirava fundo tentando manter a calma e foi relaxando conforme o incômodo inicial foi dando espaço apenas para um desconforto.

Sentiu a segunda agulha ser inserida e alguns segundos depois algo quente adentrando por seu canal vertebral, notando que aos poucos a primeira agulha ia sendo retirada conforme os médicos terminavam de tirar as radiografias.

Por fim sentiu uma das mãos enluvadas de Felipe em seu ombro nu.

— Pronto, acabou a sua agonia.

O guitarrista sorriu, fitando o médico e fechou os olhos, começando a sentir levemente alguns dos efeitos que lhe havia sido ditos.

Mas, apesar disso, tudo saiu bem.