You Are Not Alone
12 Segredos
Notas iniciais
Pelo amor do papai noel, não me matem, não ter beta acaba com a vida.
AAH e para quem leu a minha fanfic 'Cicatrizes da Alma' vai sentir nolstagia em certa parte do capítulo XD.
Boa leitura.
PS: 27 leitores, 09 favoritos. Amo vocês ♥
Uruha sentiu-se corar ao mostrar o relicário aberto para os amigos, mas nenhum deles esboçou qualquer frase, apenas sorriram ternamente para si, confirmando, de certa forma, algo que já estava praticamente claro para todos.
Não que os guitarristas já tivessem uma intimidade profunda, na verdade ainda estavam se conhecendo. Seus sentimentos eram claros e haviam surgido há algum tempo, era verdade, mas ainda assim, não se podiam comparar nove anos de amizade com algumas horas de namoro. Eles sabiam que tudo era novo e que deveriam construir sua nova vida aos poucos, intensificando seu amor.
Mas, sabiam também que não deveriam – e nem queriam – apressar nada, deixando que as conseqüências de seus atos criassem os frutos necessários para que eles tivessem real certeza do que escolheram para si, podendo se entregar de corpo e alma um ao outro.
Entretanto, no momento só podiam ficar atentos à doença do loiro que mesmo estando sempre ‘para cima’ e feliz, já tinha em seu rosto e corpo as marcas da quimioterapia. Seus lábios começaram a ressecar levemente e sua pele, antes sempre macia e com bonito aspecto, agora se encontrava num tom mais branco puxado para o pálido, dando um ar quase fantasmagórico para ele.
E ainda que nenhum deles tivesse percebido no momento, alguns pêlos de seus cílios e sobrancelhas começaram a se desprender de seus devidos lugares, caindo por sobre a pele fragilizada.
E mesmo com todos aqueles momentos tranqüilos, todos sabiam que a guerra estava só começando, e sempre que paravam para refletir um pouco a realidade lhes atingia em cheio, mostrando que apesar de tudo, a batalha contra a leucemia ainda se encontrava longe do fim.
E foi dessa forma que se sentiram quando Uruha bocejou e colocou a caixinha em cima da bandeja acoplada a sua cama e se deitou, cobrindo-se e sentindo as pálpebras pesarem. Nem ao menos havia jantado ainda e seu corpo já se deixava bailar pelo sono.
— Parece que cada vez mais, cada dia que passa eu fico mais cansado. Ainda é meio cedo, não? – O loiro fechou os olhos, aconchegando-se na cama.
- Cinco e meia. Parece cedo realmente, mas é melhor te deixar descansando. – Reita ditou e os outros dois anuíram, levantando-se e se preparando para sair do quarto.
- Reita, você é o acompanhante do Uruha, então acho melhor que passe a noite com ele. Nós vamos procurar o Aoi e ir para a sala de espera.
O baixista assentiu mediante as palavras do líder e se aconchegou na poltrona, observando o amigo que já dava sinais de estar praticamente dormindo, o que constatou quando lhe chamou de leve e o mesmo não reagiu.
Acabou por sorrir fechado de canto, um sentimento melancólico se instalando em si. Ainda lhe parecia mentira que Uruha estava tão doente daquela forma, debilitado ao ponto de não poder tocar com eles por um tempo, o que não era a primeira coisa principal da lista, mas ainda assim deveras preocupante.
E sim, Reita sabia muito bem que o amigo iria ficar sentido e machucado com aquilo, mesmo que negasse. Sabia como a banda era importante para Takashima e mesmo que sorrisse para todos dizendo que estava tudo bem, não estava.
Sentiu uma lágrima solitária descer por seu rosto, mas não podia se deixar fraquejar. Se perdesse o chão não poderia mais ajudar Uruha e definitivamente não precisava daquilo. Queria estar perto e apoiar o amigo em tudo sem pestanejar ou hesitar, e rapidamente enxugou a gotícula intrusa, voltando a si.
Sim, Suzuki sabia que era dessa forma que deveria ser. Precisava ser forte pelo amigo debilitado.
— Ele já dormiu. — Viktor disse mais para si do que para terceiros, mas foi o suficiente para Reita despertar de seus pensamentos, fitando o médico ir até o amigo e colocar uma das mãos em sua testa enquanto a outra segurava a prancheta com a papeleta, fitando detalhes como o número de células saudáveis do corpo do loiro, mais especificamente da medula.
- Ele tem feito muito isso? – O baixista indagou, fitando preocupadamente o médico.
- Não há essa hora, mas tem sentido mais sono sim. É a quimioterapia agindo. – Ditou, sentando-se na cadeira do lado oposto da poltrona de Reita.
- É tão estranho. – O músico começou num tom triste, olhando o nada, mas dando a entender que era para Viktor aquelas palavras. — Para ele ficar bom, tem que ficar pior antes.
O médico suspirou rapidamente, colocando a prancheta no lugar e fitando o baixista.
— A quimioterapia não distingue as células boas das ruins, por isso o paciente fica tão fragilizado. – Respondeu aquela indagação que saiu em tom afirmativo, fazendo um suspiro sair dos lábios do outro.
- E isso tende a piorar? — Desta vez o loiro fitou o médico, tendo a ação recíproca.
- A segunda dose que normalmente é aplicada depois de dez dias da primeira, volta para destruir as células malignas e como o corpo do paciente já está debilitado, tende há piorar um pouco sim. – Disse sinceramente como havia fazendo desde o início.
- E não há muito que ser feito não é?
- Não ao nível que normalmente todos desejam.
Reita respirou pesadamente, assentindo e fechando os olhos por um momento. Era informação demais para si, mas sabia que não poderia fazer muito.
— Ele vai precisar ficar isolado? – Inquiriu; talvez a maior das dores que sentiria no meio de toda essa bagunça.
- Se os antibióticos para tratamento da anemia e restabelecimento de glóbulos brancos e vermelhos não surtirem efeito, sim. Por enquanto as coisas estão caminhando bem e a transfusão que foi feita ontem para aumento das células saudáveis parece estar surtindo efeito. Se tudo ocorrer assim não será preciso isolamento.
Akira torcia por dentro para que nada mais grave precisasse ser feito. Se assim fosse era muito provável que se plantaria junto com Aoi na porta do quarto do amigo sem mencionar sair enquanto ele não estivesse bom, já sabendo de antemão que nada nem ninguém os tirariam dali, mesmo que contraíssem dores horríveis nas pernas.
— Reita-san, esses altos e baixos que todos vocês estão sentindo não são anormais como pensam. Uruha-san está sempre bem, ou pelo menos é o que mostra, mas isso não mascara o que ele tem e acontecem esses surtos de dores emocionais. Não se culpem ou se achem fracos, tudo isso é normal.
- Obrigado por tudo. Você e o Felipe têm arriscado suas carreiras com certas coisas que fazem e falam, e nem adianta esconder. Quem sabe um dia nós sete não podemos sair e comemorar a cura da leucemia do Uruha.
A face de Viktor mudou para algo sapeca como se fosse contar um segredo e ele chegou perto de Reita, abrindo o jaleco e levantando a camisa branca que usava, deixando à mostra a tão comum camiseta com os escritos Gazerock Is Not Dead.
— Vocês são... – Reita levou uma das mãos à boca, fazendo Viktor rir baixo, levando as mãos ao rosto.
- Acompanhamos desde 2002. Mas, claro que não podemos surtar por causa disso. Então pode ter certeza que o convite está mais que aceito.
Os dois deram uma piscadela cúmplice para o outro e desataram a rir, tendo de colocar as mãos no rosto para abafar, já que quase não conseguiam se controlar. Viktor e Felipe talvez nunca tivessem imaginado que cuidariam de um ídolo e nenhum dos membros do GazettE imaginou algum dia que fossem ser tratados por médicos que eram seus fãs.
Era uma coincidência inusitada que certamente marcaria os cinco quando todos estivessem cientes daquilo. Desde o começo tiveram a noção de que provavelmente os dois médicos seriam seus amigos e agora sabendo que são seus fãs certamente o contato seria maior.
— Como se sentiram quando viram o Uruha aqui?
- Foi uma coisa boa sabe? – Viktor deu mais uma olhada no loiro para constatar que não tinha febre. – Algo bom de verdade, mas encontrar seus ídolos num hospital é um pouco ruim também.
Reita concordou mudo, fitando o loiro em seu sono que parecia extremamente agradável. Deveria estar sonhando com Aoi, claro.
— Mas, sabe, eu queria que as ataduras no rosto do Felipe e a faixa que ele usa às vezes fossem por sua causa, Reita-san. – O loiro falou com um claro tom de tristeza e melancolia na voz.
- Eu nunca cheguei a associar o nome à pessoa, mas agora que comentou... Porque ele usa?
O médico respirou profundamente, erguendo de leve a manga do jaleco e fitando uma das cicatrizes de seu braço.
— Pode parecer grosseiro falar dessa forma, mas, por favor, guarde segredo. O Felipe se odeia por causa de seu rosto. – Pediu implorativo.
- Claro sem problema nenhum. – Reita sentiu a seriedade emanada por aquela frase e certamente era algo que machucava os dois.
- Eu e o Felipe começamos a namorar na oitava série. Meus pais eram muito preconceituosos e não gostavam de japoneses, mas precisaram ficar aqui por causa de trabalho. Para eles o mais importante era o dinheiro, apesar de eu lembrar perfeitamente como eles tratavam à única empregada nipônica que nós tínhamos. Eu fazia aula de bateria e meu professor estava ciente do que eu passava. E eu sabia que meus pais não iam aceitar eu ser gay e o Felipe não ser alemão, então a gente mantinha em segredo. Mas, num dia em que saímos da escola e fomos ficar um pouco juntos aonde costumávamos, não vimos que nossos pais nos seguiam. O meu me viu beijar o Felipe e me levou arrastando pelo cabelo até em casa e me bateu até me deixar em coma como eu já havia lhe dito aquela vez.
Reita concordou sentindo o sangue esquentar pelo preconceito do pai do médico, assim como a dor que emanava de cada palavra dele.
— E do outro lado, o pai do Felipe queria que ele fosse advogado, mas ele sempre quis ser médico ou músico, tanto que ele tocava baixo. Mas, nesse dia que ele seguiu a gente, ele descobriu que o Felipe tinha destruído tudo de advocacia que ele tinha ganhado e os dois discutiram muito em casa. O pai dele quebrou o baixo dele partindo em três e arrastou ele para a cozinha jurando que ia deixar uma marca nele que jamais seria esquecida. Então ele-
- Jogou óleo fervendo no meu rosto, Reita-san.
Viktor levantou a cabeça de imediato fitando Felipe parado na soleira da porta. O hematologista começou a retirar de leve as ataduras, mostrando para Reita a marca perfeita da queimadura que estava um pouco vermelha por causa da cobertura das gazes. Ele não parecia bravo ou com qualquer mudança de humor e foi até o marido, abraçando-o e abafando o pequeno choro que se iniciou.
— Isso é tão horrível. – Reita comentou, fitando o nada.
- Mas, é tão lindo ao mesmo tempo. O amor de vocês dois sobreviveu a tudo isso.
Os três se viraram para o dono da voz rouca, fitando Uruha e sua expressão cansada e frágil. O guitarrista sorria para eles e as pequenas rachaduras em seus lábios, outrora tão bonitos, agora começavam a aparecer, e a região empalidecia aos poucos. Era visível a fragilidade dele.
— Desculpe Uruha-san nós te acordamos. – Viktor se recompôs e ajudou Felipe a arrumar as ataduras, fitando seu paciente em seguida.
- Está tudo bem, acho que foi mais um cochilo inesperado. – Disse simplista, sorrindo.
Os três acabaram rindo daquilo um pouco mais descontraídos tentando não focar naquela dor. De certa forma Uruha e Reita haviam se tornado cúmplices dos dois e não trairiam sua confiança, podiam ver perfeitamente como aquilo doía neles, então permaneceriam em silêncio.
Ademais tinham seu passado também turbulento, apesar de não tão grave e horrível como o dos médicos, mas ainda assim sabiam perfeitamente como abrir certas feridas podia machucar.
— Pelo menos está conseguindo dormir bem, imagino. – O oncologista indagou já mais calmo.
- Sim não está tão ruim e pelo menos eu não fico enjoado toda hora. – Uruha sorriu amavelmente, apertando levemente os olhos para tentar espantar o sono.
Os médicos sorriram de volta para ele e anunciaram que precisariam ver outros pacientes, saindo do quarto e deixando Takashima com Akira.
— Uru sabe o que está se passando por minha mente agora, não sabe? – O baixista endireitou-se na poltrona, fitando o amigo que começara a se sentar.
- O passado, não é?
Reita afirmou com a cabeça.
— Mas, desde que você não fique tão alterado e passe mal. – Retomou, mostrando preocupação.
- Então como acha que dá para contar? – Uruha passou levemente um dos dedos pelos lábios, sentindo o ressecamento que se apoderava deles.
- Talvez contar lá na sala de espera ou aqui no corredor.
O loiro virou-se totalmente para o amigo assimilando suas palavras.
— Você quer me livrar de ouvir de novo? – Indagou surpreso, achava que participaria daquilo.
- Eu acho mais seguro. Você está debilitado demais, não deve ficar lembrando de coisas que só vão machucar.
É claro que Reita tinha razão e Uruha concordava com ele. Sentia-se absolutamente fraco e acabado, como se toda sua força tivesse sido drenada e um ínfimo movimento pudesse ser mais cansativo do que o normal. E certamente reviver coisas dolorosas só lhe traria mais problemas.
— Então eu confio que você conte para eles. Mas, acho que tem que ser na hora da janta, já que fica alguém aqui comigo e você pode sair. – Disse simplista, deixando as coisas nas mãos do amigo, que respirou fundo, assentindo.
- É melhor acabar com todo esse segredo de uma vez. – Ditou, sorrindo leve e tentando passar confiança tanto para Takashima, quanto para si mesmo.
No fim das contas o guitarrista somente pôde concordar, sorrindo leve.
— Mas, — Akira continuou. – Esquecendo um pouco o mundo, como está?
- Acabado. Simples assim. – Kouyou riu fraco recebendo um sorriso fechado do amigo. – Parece que tem toneladas de coisas em cima de mim e eu vou quebrar a qualquer momento. – Deixou cair os ombros num exemplo claro do que havia acabado de anunciar.
- Mesmo que o tratamento tenha apenas começado? – Akira inquiriu, recebendo um ‘sim’ de Uruha gesticulado com a cabeça.
- O Viktor disse que é por causa da anemia que está forte. A quimioterapia tem pegado pesado com a minha medula, e mesmo que ele diga que está tudo ocorrendo bem, eu penso que talvez seja necessário ficar isolado. – Estava quase certo disso e soltou aquelas palavras claramente conformado.
- Não diga isso Uru, vai ser angustiante te ver de longe apenas por uma janela. – Akira aproximou-se um pouco da cama, segurando uma de suas mãos.
- Eu também não quero e espero conseguir ficar aqui, mas às vezes parece que vou quebrar com uma lufada de vento.
xXx
A conversa entre os dois continuou até uma das enfermeiras aparecer com o jantar do loiro em mãos, avisando de antemão que não seria mais possível que um deles lhe desse comida, já que podia ser perigoso para ele. Reita, claro, não reclamou e saiu rapidamente do quarto, indo até a sala de espera e encontrando os amigos lá. Todos o fitaram curioso, mas ele levou um dos dedos aos lábios, indicando silêncio, para então falar.
— Minna, está na hora de conversar sobre o meu passado com o Uruha.
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