You Are Not Alone
8 Realidade
Notas iniciais
Boa leitura.
- Não, chega, já comi demais.
Reita respirou fundo, quase desistindo. O que o fazia continuar, assim como os outros, eram as caretas que Uruha fazia recusando a comida. Todos riam e o ciclo recomeçava.
— Você tomou cinco colheradas da sopa, Uruha, precisa comer mais. – Viktor e Felipe observavam mais perto da porta, rindo também.
- Mas eu to enjoado. – O loiro fez um bico, levando todos a rirem. Novamente.
- Mas precisa comer. Com a quimioterapia destruindo as células saudáveis também, sua anemia vai ficar forte. Precisa se alimentar direito.
Outro bico voltou aos lábios fofos e Uruha acabou assentindo, tomando que mesmo a contragosto mais uma colherada. Não era lá uma comida agradável, mas era o que ele podia comer. Era leve o suficiente para que ele não vomitasse e tinha os nutrientes que ele precisava.
Ademais, não era como se ele pudesse comer um boat com seus trinta e oito sushis. Com certeza faria mal para seu corpo e voltaria com força total por causa dos vômitos, então era realmente melhor que comesse sua sopa leve, tomasse o suco também leve e comesse sua maçã. Seria o melhor no momento.
E claro, para tentar manter um clima descontraído, as brincadeiras precisavam surgir.
— Uruha, tomar banho com ajuda é muito ruim? – Aoi zombou, recebendo a língua do loiro como resposta, o que fez os outros rirem novamente.
- Não é tão bom, mas também não é um karma. Certamente sem ajuda eu ficaria lá pelo banheiro mesmo.
- Pelo menos você não canta as enfermeiras. Algumas já me disseram que receberam diversas cantadas. Depois disso enfermeiros que iriam começar a ajudar no banho, mas acho que os pacientes não gostaram da idéia e se acalmaram.
Os sete riram, imaginando como seria um banho com ajuda de um enfermeiro. Provavelmente muito constrangedor, e Uruha, que estava vivendo aquilo, realmente se sentia mais confortável na presença de uma mulher.
Não que as desejasse carnal e sentimentalmente. E, aliás, esse era provavelmente o maior motivo que o fazia se sentir a vontade tomando banho com outra pessoa lhe vigiando. Parecia, para quem visse de fora, realmente uma situação ruim, mas para o guitarrista estava bom.
E provavelmente muito melhor do que comer ‘forçadamente’.
— Chega Reita, já está bom.
- Tente comer tudo Takashima-san. Ou pelo menos um pouco mais. Vai fazer bem.
Outro bico. Mais risadas. Quatro babás. Definitivamente estava sendo um começo de tarde bom, apesar de ainda ser o início de todo o tratamento. Algumas coisas, como sintomas mais fortes ainda estavam para surgir e certamente todos estariam ali para Uruha.
No entanto, Kai sentia que algo estava faltando, e quando tateou pelos bolsos, pegou o pedaço de papel dobrado, sorrindo.
— Uru, o Koga-san pediu para te entregar e disse que acredita nos mil.
O guitarrista pegou o tsuru das mãos de Kai, sorrindo e pedindo que Aoi colocasse na cômoda, já que nada ficava em cima da mesma.
— Eu também acredito. Mas, certamente deixaríamos os médicos desesperados se aparecem mil tsurus aqui no quarto.
- Certamente que tantos não fariam bem para a sua saúde, Takashima-san. – Viktor sorriu recebendo algumas risadas de todos.
- Nada pode entrar aqui? – Indagou Ruki quando as risadas cessaram.
- Não em abundância, e bem, caso a medula seja completamente destruída pela quimioterapia, Takashima-san teria que ficar totalmente isolado até que as coisas voltassem ao normal.
- E isso pode acontecer? – Reita perguntou ligeiramente preocupado.
- Pelo avanço da doença, sim. Mas, isso somente com mais alguns dias de tratamento para ter absoluta certeza.
Os cinco entreolharam-se rapidamente e Uruha ainda conseguiu tomar mais um pouco da sopa, ingerindo todo o suco e por fim mordendo algumas vezes a maçã, mas sem terminar também. Logo uma enfermeira retirou as coisas do quarto e Viktor e Felipe ausentaram-se por alguns momentos, deixando-os sozinhos.
As conversas então recomeçaram leves e por breves momentos Uruha e Aoi trocavam olhares rápidos, torcendo para não corarem. Aos poucos as próprias situações pareciam moldar seu relacionamento sem que muitas palavras precisassem ser ditas.
Não que elas fossem desnecessárias, em um relacionamento que se preze conversa é algo importante; mas, desde que Uruha fora diagnosticado com LMA, certas coisas como relacionamentos amorosos que, no momento pareciam superficiais demais, foram deixados de lado.
Todavia, entre os dois os laços estavam começando a se formar, lentamente, sem necessidade de atropelar outras coisas, dando espaço para a preocupação com a leucemia, assim como moldando aquelas cinco vidas.
Sim, porque se podia englobar perfeitamente o relacionamento que Reita e Ruki estavam começando, assim como Kai que se via diante de um desafio como líder, que seria conseguir tomar decisões diante da doença de Uruha, assim como lidar com os fãs, a imprensa, e os chefões PSC.
E a vida pessoal do baterista? Bem, fora sua mãe, ele não tinha compromissos carnais ou afetuosos com um conjugue, então não precisava se preocupar tanto com isso.
E falando no líder, o mesmo sobressaltou-se um pouco quando ouviu seu celular tocar, pedindo licença ao ver o número e saindo rapidamente do quarto.
— Koga-san, pode falar.
- Já conversei com os superiores, eles também ficaram surpresos e mandaram melhoras para o Uruha. Mas bem, a comitiva foi marcada para sexta-feira, e deverá conter os dois médicos, vocês quatro e eu, e eles pediram que a verdade fosse dita caso seja possível.
- Certo. Eu havia falado com o Uruha e ele já havia concordado, só faltava mesmo falar com a gravadora. Eu vou avisar os quatro e creio que vocês da PS avisem o hospital, certo?
- Sim, isso está nas mãos da gravadora. Esse mês vocês devem ter alguma paz, pelo menos enquanto aí dentro do hospital, mas o ponto-chave está depois desse mês.
- Que quer dizer com isso, Koga-san?
- Que a PSC vai ter um festival três semanas depois que vocês voltarem das férias, em comemoração aos meses frios que se aproximam. E com o novo single para mais três semanas depois do festival, só o que podemos adiar é o último.
- O que significa que?
- O Uruha vai precisar ser substituído, Kai.
A realidade atingiu Kai em cheio fazendo a bile subir até sua garganta. Podia sentir o gosto da amargura tomando-lhe por inteiro e o deixando sem reação por alguns minutos.
— Não há nada a ser feito, Koga-san?
- Infelizmente não. Depois da comitiva os chefes vão se reunir conosco para uma reunião relâmpago e isso vai ser dito de fato. Então você decide se avisa de antemão ou se espera até quinta. Logo depois começarão as buscas por um guitarrista temporário.
- Ele vai ficar realmente mal com isso. E como já passou mal algumas vezes pelo tratamento, eu vou ver se é bom falar hoje.
- Faça o que achar melhor Kai. Eu sinto realmente, mas o GazettE precisa ir em frente.
Kai assentiu, desligando e mordendo o lábio inferior. Era uma situação realmente dolorosa, e mesmo que o sentimento de abandono jamais fosse acometer os corações ali, certamente Uruha sofreria com aquilo. Seria outra pessoa em seu lugar, tocando com os outros.
Era um momento delicado e por um momento Kai se viu sem saber o que fazer. Tinha medo pela saúde do amigo acabar ficando mais debilitada do que já estava e certamente só falaria caso os médicos dessem uma opinião sobre isso.
Não que fosse esconder para sempre, claro. O que queria, no entanto, era tentar adiar o máximo possível, visando que a recuperação de Uruha era mais importante que o tal festival de outono/inverno de Tokyo.
Só que nesse momento a sorte parecia não estar ao lado do baterista e logo Viktor apareceu, fazendo-o abordar antes mesmo de adentrar o quarto.
— Aconteceu alguma coisa, Yutaka-san?
- Eu preciso de uma opinião, doutor. E só pode vir de você.
- Pode dizer. – Viktor ajeitou o jaleco, fitando Kai.
O baterista respirou fundo e contou rapidamente o que estava acontecendo, trazendo uma feição um pouco assustada ao rosto levemente cansado de Viktor, o que só confirmava que a situação era realmente delicada e qualquer frase, qualquer atitude errada podia fazer todo o frágil edifício que era a saúde do loiro no momento, desabar.
As coisas precisavam ser esclarecidas, era verdade, mas tudo deveria ir a seu tempo, e dito de forma tranqüila para que todos pudessem absorver bem.
Não iria ser nada fácil.
— Pode tentar hoje, quanto antes melhor, não acha?
- Eu não sei bem, tenho medo que ele fique nervoso, tenha crises, passe mais mal do que o necessário, se eu pudesse nada disso aconteceria.
- Eu lhe entendo, Kai-san, se eu também pudesse não estaria tendo uma conversa tão dolorosa com você, mas creio que não há muito que discutir, não é? Uruha-san precisa ser avisado disso.
Kai respirou fundo, fitando o médico.
— Então eu vou dizer logo.
Viktor assentiu e sorriu fraco, abrindo a porta do quarto. Deixou o baterista entrar primeiro, silencioso, o fazendo em seguida, fechando a porta e postando-se perto da mesma enquanto visualizava o momento de paz deles que estaria para ser quebrado por outra tormenta.
— Minna, eu estava falando com o Koga-san, e as notícias são boas e ruins. E dessa vez eu não vou perguntar qual querem primeiro, prefiro falar as boas.
- Pelo jeito é algo ruim mesmo. – Reita comentou, levantando-se. Uruha fitou Kai e aos poucos um bolo foi se formando em sua garganta.
- Primeiro de tudo nossos superiores mandaram melhoras, Uruha, e disseram que já estão entrando em contato com o hospital para a comitiva que será realizada na sexta-feira. Foi pedido que as informações fossem reveladas caso possível, e nesse mês de férias nós poderíamos ficar tranqüilos que nada mais seria marcado. A última notícia boa é que o single pôde ser adiado e será lançado depois da recuperação do Uruha.
Kai respirou fundo, engolindo seco. Deixou claros os dois movimentos, levantando a cabeça como que pedindo ajuda e deixando todos apreensivos.
— Kai, o que houve? – Aoi indagou também se levantando, assim como Ruki. Todos fitavam o líder preocupados.
- Vai ter um festival de outono/inverno três semanas depois do nosso mês de férias. Como o tempo não está a nosso favor, Uruha, o Koga-san foi imparcial. Você precisa ser substituído até estar recuperado da leucemia.
...
Lágrimas.
Lágrimas incessantes começaram a escorrer fervorosamente pelo rosto de Uruha quando Reita o abraçou como podia e Kai fechou os olhos, tentando absorver tudo. Ele não podia cair se não todos também cairiam.
Mas, ouvir Uruha chorar tão forte fazia as forças irem embora. O baterista queria fazer algo, dizer que tudo ia ficar bem e que as coisas iriam se acertar, mas parecia tudo tão perdido, tão fora de sincronismo e do eixo que o líder se permitiu deixar que as lágrimas escorressem.
Silenciosas, era verdade, mas ainda assim, lágrimas. Pesadas, carregadas de dor, mas que no momento não serviriam de muito, talvez apenas de consolo passageiro, já que a cura de Uruha dependia de tempo e isso eles não tinham.
Era dolorido, mas a realidade estava batendo na porta deles e nada podia ser feito a não ser deixar que ela entrasse.
— Eu sabia que isso ia acontecer Akira. – Reita retesou, sabia que Uruha o chamava pelo nome apenas quando estava realmente machucado, e sentir que era desta forma que estava no momento partia seu coração em dois.
- Calma Kou, calma, vai ficar tudo bem. – Ele disse rente ao ouvido, tentando acalmar o outro, mesmo sentindo a dificuldade em sua ação. Uruha estava inconsolável.
- Hei Uru, você não vai ser expulso, acredite em mim. – Aoi foi até o outro lado da cama e segurou fielmente uma das mãos de Uruha, beijando a costa em seguida. Podia ver o desespero nos olhos do loiro e não queria vê-lo daquela forma.
- Você disse Aoi, disse que não ia acontecer. Mas, me parece tão distante agora.
- Não é Uru, não é você não vai ser chutado. Infelizmente vai ser necessário, mas não significa que essa tal pessoa vai ser o novo guitarrista da banda.
Uruha pareceu ponderar sobre o assunto, mas ainda estava abraçado forte a Reita. Seus olhos estavam vermelhos e marejados e ele podia notar os olhares preocupados dos amigos sobre si, inclusive do médico, apesar deste estar focando mais os aparelhos do que si.
— Eu tenho medo. – Disse, desvencilhando-se de Reita. – Medo que essa nova pessoa agrade que os fãs gostem demais dele. Que eu não saia vivo daqui.
- Não diz isso, é claro que você vai viver Uruha. – Aoi tentava se segurar, mas as lágrimas insistiam em querer se formar e enevoar sua visão. – E vai sair daqui bem e como sendo o guitarrista do the GazettE como sempre foi.
- É uma previsão? – Uruha fungou, tentando se controlar.
- É um desejo.
Os dois pareciam estar em um novo mundo aonde somente eles existiam. As lágrimas escorriam pela face de Aoi, mas ele não se importava. Só queria mostrar para Uruha que ele não era substituível e que as coisas iriam ficar bem.
Era seu desejo, como ele havia dito.
Desejo de que tudo ficasse bem, que as coisas dessem certo e que no final de tudo eles estariam juntos, tanto como banda como pessoalmente, ainda que esse fosse um desejo mais íntimo, não que não fosse compartilhado pelo outro.
Mas, no meio de tanta dor, não parecia certo que Aoi deixasse transparecer seu sentimento que começava a crescer? Quer dizer, poderia ser importante para Uruha, ele talvez fosse se sentir bem, por mais que o moreno tivesse medo de arriscar.
Suas atitudes poderiam parecer erradas e ele não queria passar má impressão, apesar de não ter pensado duas vezes ao lhe abraçar, sentindo a pele levemente fria sobre seus dígitos, preocupando-o um pouco. Uruha tremia levemente em seus braços por causa do choro repentino, e certamente continuaria abraçado a si se não tivesse sido repelido para que o loiro vomitasse toda a comida em cima de sua roupa de cama, alarmando a todos.
Viktor pediu que se afastassem e foi até ele, fazendo-o levantar a cabeça e examinando rapidamente, enquanto Aoi juntava as peças.
— Está tudo bem Uruha, você está nervoso, não precisa ficar com vergonha.
- Mas, eu-
- Está tudo bem, realmente não se preocupe. Eu vou pedir agora mesmo para trazerem outro conjunto enquanto Reita-san enche a bacia com água e traz aqui para que você possa limpar a boca.
- Sem problemas. – Reita pegou o objeto embaixo da cama do amigo e foi rapidamente até o banheiro, enchendo com um pouco de água e voltando em seguida, enquanto Viktor colocava uma luva e pegava um pano devidamente esterilizado, passando em torno da boca de Uruha.
- Eu... Sinto muito. – O guitarrista sussurrou, fazendo o médico sorrir leve, mesmo que não fosse possível ver.
- Eu te entendo, Takashima-san, mas não precisa se preocupar. Está tudo bem, você vai ficar bem, só precisa descansar, e dessa vez, bastante.
Duas enfermeiras trouxeram rapidamente a roupa de cama nova, colocando sobre Uruha e ajeitando prontamente enquanto ele se deitava, cobrindo-se até a altura dos ombros.
— Minna-san – Viktor virou-se para os outros. – vou pedir que apenas um de vocês fique aqui e soe a campainha caso necessário. Os outros precisarão sair para Uruha-san descansar melhor.
Todos se fitaram rapidamente, os olhares caindo sobre Aoi.
— Eu fico. – o moreno disse, sorrindo leve.
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