Notas iniciais
Três leitores novos se juntaram a nós, bem-vindos à You Are Not Alone, espero que apreciem *---*.
Como estão amores? Desculpem a demora eu ainda não formatei o pc então a fic ta em outro lugar e foi um martírio pra conseguir achar, desculpem por isso.
Boa leitura.

' – Aposto que é a primeira vez em quase um mês que ele consegue descansar calmamente. ' – Os pensamentos de Aoi estavam todos voltados desta maneira desde que adentrara o quarto de Uruha há duas horas. Em nenhum momento seu semblante havia formado alguma careta desgostosa, na verdade oscilou entre o sorriso que exibiu assim que dormiu, e a bonança subseqüente quando a curvatura dos lábios se desfez, e apesar de todo o corpo fragilizado e maculado Yuu somente conseguia se encantar, deixando um sorriso mais aberto tomar seu rosto quando aos poucos Kouyou foi acordando, fitando o relógio e agradecendo pelo amado acordar sem que fosse necessário que Viktor o tirasse de seu mundo perfeito para poder almoçar.

Mas, diferente do que Aoi imaginou Uruha não lhe sorriu ou ao menos o fitou por muito tempo. O ex-loiro levou uma das mãos à cabeça e apertou os olhos fazendo uma expressão de dor que alarmou o moreno. Takashima podia sentir os efeitos de sua cura destrutiva atacando primeiramente sua cabeça, parecia uma bomba prestes a explodir, latejando quase insuportavelmente. Mal conseguia abrir os olhos dado que a sensação de dor parecia pior do que já era, ou seja, tudo que ele definitivamente não precisava.

— Dói... – A palavra foi dita num sussurro, sendo quase arrastada e fundida com o sibilar de dor que os lábios machucados deixaram escapar, mal conseguindo ouvir Aoi se levantar bruscamente e soar a campainha ao lado de sua cama para chamar Viktor. Só conseguia focar sua própria dor que parecia querer lhe matar de tão intensa, tentando abrir os olhos novamente, mas deixando lágrimas escapar tanto pela claridade que lhe atingiu, quanto pela dor, desejando voltar a dormir imediatamente, mesmo sabendo que não aconteceria.

Trincou os dentes e voltou a fechar as pálpebras, apertando-as novamente. A dor parecia não amenizar nem por um segundo e mesmo respirar parecia insuportável. Tentou morder o lábio inferior esquecendo-se totalmente das rachaduras, mas sentiu uma dor aguda no ato e parou abruptamente, sentindo a sequidão de sua boca e gemendo baixo. Estava totalmente embargado pela dor que foram necessários alguns segundos para que ouvisse a voz de Viktor, sentindo a mão do médico na sua.

— É a cabeça que dói, não é? – O loiro inquiriu baixo, recebendo a resposta positiva com uma leve gesticulação da cabeça de Uruha. Como o soro já estava guardando a quimioterapia, o médico cobriu a mão com uma luva e abriu de leve sua boca, fitando rapidamente a papeleta presa à sua cama, verificando seu peso e pingando algumas gotas de remédio enquanto a enfermeira que acompanhava o tratamento do guitarrista erguia sua cabeça de leve para que pudesse engolir sem se engasgar. Ajudou-a acomodá-lo novamente e o cobriu até a altura dos ombros, fitando Aoi.

— Deixe-o descansar. Com essa dor ele não vai conseguir almoçar, então algo será trazido mais tarde. Por hora é bom que ele durma. O remédio que eu lhe dei não é muito forte, mas vai amenizar um pouco a intensidade da dor. Se acontecer mais alguma coisa não hesite em chamar.

- Tudo bem. – Virou-se para Uruha, provavelmente já havia adormecido novamente. Sua expressão não era mais tão calma e serena, mas parecia realmente melhor do que os poucos minutos que passou acordado, que para si provavelmente pareceram intermináveis horas. Não sentia sua dor, mas podia imaginar o quão torturante era. Queria poder conversar com ele, mas com o sono sendo sua anestesia tão desejada, o moreno podia apenas pedir fortemente que ele não sentisse dor enquanto descansava, seria torturante demais.

Ademais, seu coração se machucava cada vez mais quando o via sofrendo daquela maneira. Queria poder tomar aquela dor para si, sofrer em seu lugar para o ver sorrir e ficar feliz, coisa que não o fazia há muitos dias. Dias que pareciam mais longos que o normal, mas que ao mesmo tempo passavam tão rápido quanto já o faziam. Dali a três suas férias acabavam, e Aoi sabia mais que perfeitamente que não descansaria; tanta coisa ainda tinha para acontecer. Ficaria longe de seu Uruha, teria que escolher um substituto para ele e já de antemão tinha plena certeza que o tal festival não seria a mesma coisa sem Takashima consigo.

Ele, que tanto pensava na banda, se pudesse não tocaria, ou ao menos sairia do hospital para não ficar longe de seu amado. Já sofria ao saber que não subiria no palco com ele e o vendo doente dessa forma só desejava que ele tivesse menos informações possíveis sobre o que aconteceria. Não queria vê-lo sofrendo e sabia que se os visse com outro guitarrista, seu coração se partiria mais ainda.

E como bom amante, como aquela pessoa que se entrega de verdade, sem medo de sofrer, Aoi não conteve as lágrimas. Estava sufocado com tudo que estava acontecendo, e há muitos dias não chorava. Precisava desabafar, mesmo que fosse sozinho, mesmo que seus soluços não fossem descobertos por ninguém, sentia que cada lágrima levava embora um pouco da dor intensa que preenchia seu ser.

Só não sabia ou ao menos imaginava que seu amado não dormia. A dor não conseguiu deixar Uruha relaxar e ele podia ouvir perfeitamente cada soluço de Yuu. Queria abrir os olhos e se levantar, poder abraçar ele e dizer que tudo ia ficar bem, mesmo que no momento fosse ele mesmo quem precisasse daquilo. Mas apesar disso deixou que o moreno pensasse que estava dormindo. Certamente ele precisava daquele momento e não queria lhe interromper.

Só não esperava que sua mão fosse segurada pelas outras trêmulas, e sentiu os lábios encostando em sua costa. Um arrepio preencheu todo seu ser, mas evitou se mexer muito.

— Eu juro por tudo que eu amo e acredito que vou fazer da sua vida a melhor possível depois que todo esse inferno acabar Uru. Nunca mais vou te deixar sofrer desse jeito. Eu te amo tanto... Tanto.

Mal se deu conta que respirou fundo quando ouviu aquelas palavras, sem saber que levou um sorriso ao semblante machucado de seu Aoi. Havia sido um pequeno gesto inconseqüente, mas que trouxe felicidade ao moreno. Ele talvez precisasse de algum tipo de resposta vinda de Uruha, e conseguiu se acalmar com aquela, enquanto que o dono de seus sorrisos conseguiu finalmente relaxar depois daquilo, adormecendo finalmente.

Mas, apesar disso, não acordou muito melhor. Sua dor de cabeça havia amenizado apenas para que ele conseguisse se sentar e conversar um pouco com Aoi, mas quando o vômito veio finalmente, no fim da noite acompanhado pela janta que ele custou tanto a conseguir comer, suas chances de continuar acordado foram reduzidas a nada. O ato pareceu fazer a dor aumentar e às nove horas Aoi lhe cobria novamente, ouvindo um desgastado 'me desculpe', antes de ver Kouyou fechar os olhos, torcendo para que ele dormisse logo.

Aquele era seu ponto de paz e Yuu o guardaria para que nada o incomodasse.

Três dias depois, segunda-feira.

Dor. Era essa a palavra que estava estampada no rosto dos cinco, colocados frente a frente às oito da manhã daquele dia nublado e triste. Reita e Aoi não conseguiram segurar as lágrimas, mas ainda assim choravam em silêncio, o que os destruía mais ainda. Ruki estava mais perto do amigo, sentado em sua cama segurando uma das mãos enquanto Kai tentava se manter bem, tentando esconder o quão balançado ficou ao saber que eles deveriam estar às dez horas na gravadora, para uma reunião onde eles foram os últimos a descobrirem. Claro que essa parte escondeu de Uruha.

Todos queriam dizer algo, mas as palavras não vinham. Os olhares se encontravam vez ou outra, mas nenhuma palavra fora mencionada, nenhum gesto mais brusco foi tomado. Faltava-lhes coragem, mesmo que durante a vida tivessem lutado para estarem aonde se encontravam, agora se sentiam impotentes, mudos diante da figura de Takashima.

E só o que conseguiram depois de verem o amigo apertar os olhos para tentar impedir as lágrimas de descer, foi, — Começando por Reita e Aoi. – baixar a cabeça e sair mudamente dali, engolindo a vontade de ficar, de abraçar Uruha, que acabou deixando a dor escapar quando Kai e Ruki fizeram o mesmo, não se importando com nada. Não gritava porque sua garganta não deixava, mas o que sentiu foi a mais pura dor sendo cravada em seu coração. Sentia-se sozinho e desolado, e como previra, não estava preparado para a despedida.

Mas, não era o único. Reita arrancou a máscara num puxão só e se deixaria escorrer pela parede caso Aoi não o tivesse amparado. Havia perdido o chão, tendo apenas consciência de que não poderia chorar alto pelo lugar em que se encontrava, sentindo além das mãos do moreno – Que também não estava em estado melhor. – a mão de Kai sobre um dos ombros.

— Melhor vocês lavarem o rosto. Tem um carro nos esperando na entrada principal e parece que há repórteres na frente só esperando fotos e entrevistas, então é melhor que todos nós estejamos o mais 'apresentáveis possíveis'. Já basta tudo que está acontecendo, não é necessário mais especulações.

Reita desvencilhou-se aos poucos, fitando o líder e assentindo leve. Dirigiu-se com Aoi até o banheiro enquanto Ruki e Kai enxugavam as lágrimas com as costas das mãos, tentando sorrir para passar a falsa imagem de que 'estava tudo bem'. Nenhum deles queria abandonar Uruha, mas não havia escolha, ainda que não fosse essa a forma de colocar a situação. De nenhuma maneira eles o deixariam para trás, era apenas uma necessidade imposta que não podia ser passada por cima. Mas, mesmo que os cinco entendessem aquilo, a dor era inevitável.

Aoi e Reita não voltaram muito melhores, mas não choravam mais. Suas expressões eram tristes e isso era inevitável, mas não podiam e nem queriam mudar aquilo. Apenas concordaram mudamente e caminharam em silêncio pelos corredores, permanecendo da mesma forma dentro do elevador, podendo ouvir da recepção os burburinhos das pessoas que estavam do lado de fora.

Burburinhos esses que somente aumentaram quando as portas foram abertas e os seguranças do hospital começaram a afastar os repórteres para dar passagem aos quatro. Seus semblantes eram sérios e não precisavam palavras para saber que eles não desejavam conversar. Não prestavam atenção em nenhuma das perguntas feitas e conforme cada um adentrava o automóvel, a sensação de abandono e a saudade já lhes abatiam, mas nada mais podia ser feito. Eles só podiam se conformar, por mais que aquilo doesse.

E para Uruha...

Bem, para ele restou uma sedação forçada alguns minutos depois que os quatro saíram do quarto. Sua cabeça voltara a doer com força e misturando nervoso com o choro e o choque de ficar sozinho, todo seu café havia sido vomitado junto com uma boa quantidade de líquido que o deixaria desidratado caso continuasse a passar mal sem controle. Viktor esperou apenas que o enjôo cessasse e rapidamente lhe deu uma injeção meio sem consentimento, mas que o fez dormir quase instantaneamente, para seu alívio.

— Por favor, troque apenas as cobertas ele não sujou o lençol que cobre a cama, e tente tomar cuidado, não vai ser bom ele acordar agora. – Disse num tom realmente cansado, recebendo um sorriso fechado da enfermeira particular de Uruha que assentiu mudamente e deu uma batidinha num dos ombros do médico, tentando lhe dar força. Viktor devolveu o sorriso e saiu do quarto, mas apenas para tomar uma água. Oficialmente era o acompanhante de Takashima e agora deveria ficar em seu quarto.

Encontrou Felipe no caminho, mas só pôde lhe dirigir um sorriso fechado, mesmo que precisasse de um abraço. Sentia as pernas doerem e acabou indo até seu consultório para descansar um pouco. Pediu para uma enfermeira que passava lhe comprar uma garrafinha de água e assim que a tomou em mãos bebeu uns bons goles e fechou os olhos por alguns momentos, necessitava de um pouco de descanso.

xXx

Nenhuma palavra podia ser usada no lugar de 'abatidos'. Era dessa maneira que os quatro se encontravam quando adentraram a PSC, suas mentes atordoadas e avoadas, puro reflexo do chão que haviam perdido. Nenhum deles estava preparado para dar 'até logo' para Uruha e mesmo Kai que achava que seria pouco complicado, se arrependera das próprias palavras.

Mas de certo modo só lhes restava que mascarassem aquilo, afinal de contas fora eles ninguém mais se importava. Não desde que o dinheiro lhes viesse fartamente. E por mais repugnante que fosse, e mesmo sem mudar as feições tristes, os quatro adentraram a sala de reuniões da banda, encontrando seu empresário, os diretores de produção e alguns Staffs. Sentaram-se em seus costumeiros lugares, o espaço vago de Uruha deixando um silêncio destruidor e intimidador no recinto. Não que não tenha sido quebrado.

— Está mais do que claro que os ânimos de vocês quatro não estão nos melhores dos dias, então vamos ser rápidos e objetivos. Daqui a três semanas ocorrerá o festival, então vocês têm pouco tempo, já que mesmo conhecendo as próprias músicas precisam ter um entrosamento com o guitarrista substituto para-

- Temporário senhor diretor. – Reita cortou o homem engravatado, encarando-o. Ele era um dos responsáveis pela companhia, sendo como um vice-presidente, mas com um poder menor. Ainda assim tinha certo comando dentro da hierarquia da PS, mas nada que intimidasse Akira.

- Temporário, sim. Como não devem ter escolhido ninguém vou pedir que o façam com a ajuda de seu empresário e que entreguem alguns nomes de pessoas que conheçam até hoje. O tempo é curto e vocês terão até quarta-feira para me apresentar o guitarrista temporário do the GazettE.

Os quatro membros e o empresário arregalaram os olhos, dois dias era praticamente impossível para arrumar alguém com tamanha interação entre eles. Mas, de alguma forma não havia como discutir. Os quatro passaram todo o mês com Uruha e se descuidaram, sem pensar nesse detalhe. Para Kai, então, bastou apenas baixar abruptamente a cabeça, assustando a todos, mas sem perder a seriedade ou a sanidade.

— Houve um descuido que não pode ser reparado, senhor diretor, então como líder do the GazettE eu lhe prometo que até quarta-feira terá o guitarrista aqui na companhia.

- Agradeço à força das palavras, Kai-san. Sei que vão conseguir. Koga já havia separado um dos auditórios, podem começar a entrar em contato com as pessoas que acham que podem ajudar. Não creio que Uruha-san esteja disponível para ajudar, então lhes desejo boa sorte e até quarta-feira.

Os cinco agradeceram e se retiraram o mais rápido possível daquela sala, o ar havia ficado rarefeito e todos estavam sufocando pela pressão, podendo respirar melhor quando se viram em sua sala de descanso, Kai massageando as têmporas o máximo que conseguia. Poucos minutos lá dentro conseguiram lhe dar uma bela dor de cabeça.

— Minna, quem tiver números pode me passar que eu vou ajudar a ligar. Sei perfeitamente bem que adiaram isso por que não queriam precisar passar por algo assim, mas agora é hora de correr atrás do prejuízo.

- Tem razão Koga-san. – Kai pegou um bloquinho e algumas canetas que ficavam perto de onde estava sentado, dividindo as folhas entre os quatro, assim como as canetas. – Quem souber de números de contatos do Uruha pode colocar também que serão de grande ajuda.

- Dependendo de quantas pessoas souberem, podem colocar entre dois e três números cada um que o auditório é nosso até quarta-feira. Mesmo que estejamos atrasados não adianta atropelar as coisas. Eu vou pedir alguns cafés enquanto vocês escrevem e já volto para lhes ajudar.

- Obrigado, Koga-san.

xXx

Uruha acordou já de noite, as luzes de seu quarto apagadas, mas a TV ligada, levemente baixa para não lhe incomodar. Teve que piscar algumas vezes para focalizar direito, agradecendo pelo menos por não estar com dor de cabeça. Conseguiu fitar Viktor que o fazia de volta, aos poucos se lembrando que havia sido sedado.

— Como está? – O médico inquiriu baixo, sorrindo leve.

- Melhor que mais cedo. – Sorriu de volta, fitando a base do soro, só agora notando que a bolsa da quimioterapia não estava mais presa. – Já acabou?

- Sim, acabou tem quase dois dias. Mas, como eu troquei com você dormindo, acho que não se lembrou dela. Agora estou te dando apenas soro para suprir a comida. Como passou muito mal, prefiro deixar a alimentação para amanhã.

- Obrigado. – Sorriu novamente, aconchegando-se e fechando os olhos de novo.

- O efeito do sedativo não deve ter passado direito. Descanse esta noite, vai precisar estar bem amanhã para lidar com essa fraqueza.

Uruha concordou com a cabeça, sorrindo fechado. Não demorou muito e logo dormira novamente.