Notas iniciais
Huum, não sei bem se tenho algo a dizer, de fato, só espero que aproveitem.
Boa leitura.

- Minna-san, ele não vem.

O empresário repensou a própria frase e fitou os outros quatro, que não esboçavam uma reação imediata, apenas entreolhavam-se, os olhares caindo sobre Kai, por fim, que respirou fundo, fitando o homem que havia acabado de adentrar a sala de ensaios do GazettE.

— É a quarta vez em duas semanas. Isso me preocupa. O que ele lhe disse, Koga-san?

- Que anda muito cansado e com problemas familiares, mas disse que está ensaiando em casa.

- Ensaiar em casa não ajuda muito. — Ruki coçou a cabeça, fitando o chão. — Tem alguma coisa acontecendo com ele.

- Ele me disse – Reita tomou a frente da conversa, atraindo os olhares dos outros. – que andava realmente fadigado e isso tem tido reflexo aqui, mas o que mais me estranha é essa coisa de problemas familiares.

- Acha que ele está mentindo Reita?

O baixista, que havia baixado a cabeça, ergueu-a de imediato, fitando o empresário. Sua mente estava realmente longe da sala de ensaios da banda, e as duas palavras que Uruha vinha pronunciando há algum tempo estavam mexendo com ele.

— Acho que em partes, Koga-san.

O homem cruzou os braços e fez um meneio de cabeça, indicando que Reita continuasse.

— Bem, creio que ele esteja realmente doente. Quer dizer, não sei se lembram que eu comentei, mas semana passada, na primeira vez em que não veio eu fui até a casa dele e ele estava ardendo em febre. Consequentemente, na segunda vez, ele estava muito cansado e foi embora depois da segunda música, e ontem eu vi uma marca esquisita no braço dele, roxa, como se tivesse batido em alguma coisa, mas ele disse não lembrar de nada assim. – Reita limpou a garganta antes de continuar. – Com isso é mais que lógico que ele está doente, mas o que me encabula é essa coisa dele dizer que está com problemas familiares. Ele não fala muito com a família.

Os outros olharam um pouco surpresos, mas não esboçaram nenhuma reação muito forte. O empresário então acabou tomando a frente novamente.

— Ele está com problema com algum de vocês?

Os quatro entreolharam-se, negando qualquer coisa.

— O Uruha não é de arrumar inimigo e ele fala muito bem com todos nós, duvido que seja algum problema pessoal com a banda em si. – A voz de Aoi fez-se soar na sala, levando o homem engravatado a pensar novamente.

- Então não sei o que imaginar. Ele pelo menos tem dito que vai ao médico? Reita?

O baixista negou, seguido dos outros.

— Ele não me disse que ia, mas também não desconversou, então não tenho uma certeza. – Reita respondeu em seguida.

- Mas, voltando à família, não acha que justamente por não falar muito com eles, eles o estejam pressionando?

O baixista mordeu o lábio inferior, contendo-se. Não podia sair por aí contando a vida do amigo para os outros como se fosse um livro aberto, mesmo que isso estivesse colocando em jogo mais do que o passado de Uruha. Sua saúde era deveras importante, assim como a banda.

Mas Reita não podia falar. E só tinha uma última coisa que podia fazer.

— Pode ser que seja isso, Koga-san. Mas, acho que realmente ele deve ter pegado algum vírus como gripe forte ou algo parecido e talvez esteja com vergonha de nos dizer, por isso fala da família.

- Acha que pode ser? – Kai indagou um pouco surpreso.

- Acho que sim. Quer dizer, vocês conhecem o Uruha, se ele precisasse ficar em casa caso machucasse o braço certamente inventaria que arrumou briga com o mundo inteiro para poder realmente descansar. Sabem como ele teria imensa vergonha de dizer que está ‘só’ – Reita fez as aspas no ar. – doente.

Novamente silêncio. Todos se entreolharam e o baixista torcia para que seu plano estivesse dando certo. Claro que iria até a casa de Uruha lhe dar uma boa bronca por estar se descuidando, mas primeiro precisava baixar a poeira com relação à família do amigo, sabia como aquilo lhe machucava, e com a saúde já debilitada, poderiam ocorrer outros problemas.

— Pode ser que seja isso mesmo. Ainda mais que semana que vem nós saímos de férias. – Kai disse, por fim. – Mas, precisamos tentar falar com ele, seja hoje ou no máximo amanhã e pedir que vá ao médico. Depois podemos tentar falar com ele e ver se quer desabafar um pouco sobre esse problema com seus familiares. Ele pode visitar eles nas férias.

Reita se conteve pela segunda vez, respirando fundo, mas discretamente. Kai havia pensado a mesma coisa que ele, salvo pela visita aos familiares e sabia que deveria agir logo, mesmo que tudo isso fizesse parecer que o guitarrista era vilão de alguma coisa e o baixista seu cúmplice.

Naquele momento o falso loiro teve de conter uma risada e foi salvo pelas palavras de seu empresário.

— Eu faria vista grossa caso vocês não fossem sair de férias, mas o que me acomete agora é a preocupação. Eu também vi a tal marca no braço dele ontem e passei a mão, mas ele negou que estivesse doendo, o que me deixou intrigado, já que uma marca como aquela deveria ser realmente dolorosa. Mas, como vocês estão para aproveitar um pouco a vida, peço que alguém vá até ele e tentem descobrir o que está acontecendo. Até mesmo o pessoal do Staff está preocupado.

Os quatro assentiram e o empresário saiu da sala, deixando-os sozinhos. Eles permaneceram imersos em pensamentos, cada um de sua forma peculiar, tentando imaginar o que estava acontecendo com o amigo. Nem Reita, que era o mais próximo do guitarrista conseguia entender porque ele estava usando a família para ficar em casa.

Quer dizer, se Uruha estava doente não tinha como ir até a gravadora de qualquer forma e ele não precisava se usar de desculpas para isso, principalmente num momento como este, onde eles estavam para sair de férias.

Estava acontecendo algo maior Reita tinha certeza, e talvez nem o próprio guitarrista estivesse ciente do que exatamente. O que o baixista sabia que precisava fazer, e urgente, era ir até o amigo e o levar ao médico de qualquer maneira.

E certamente era o que faria.

— Reita.

O baixista ouviu seu nome ser chamado por Kai e só então se deu conta de que Aoi e Ruki também o observavam, parando na soleira da porta e fazendo um sinal para o líder continuar.

— Você vai até a casa dele?

Reita assentiu.

— Reita, o que está acontecendo?

- Para ser sincero Kai, — O baixista suspirou. – eu não sei ao certo, mas não acho que ele tem ido ao médico. Quer dizer, acho que só vai ir de verdade se a febre piorar ou algo pior acontecer.

Os três entreolharam-se e Aoi engoliu seco, tentando não pensar num pior.

— E aquela mancha roxa me preocupa também. – O baixista concluiu, colocando o estojo do baixo num dos ombros.

- Eu só não entendo porque ele está tão diferente assim. Será que aconteceu algo?

Reita fitou Ruki e dessa vez sabia que não poderia esconder.

— Não é nada com nenhum de nós. Ele não gosta de ficar doente.

- Reita, o que está acontecendo? Você sabe tantas coisas sobre o Uruha. – Kai insistiu na pergunta. Sabia que algo maior estava acontecendo.

- Sei sim Kai, e acredite, se eu pudesse contaria para todos vocês, mas eu quero que ele me autorize para isso.

Reita mordeu o lábio inferior e não viu quando Kai se aproximou e postou-se entre ele e a saída da sala.

— Reita eu acho todos esses sintomas dele realmente estranhos. Ele anda até mais magro e isso está preocupando realmente. Então, por favor, me prometa que se ele precisar ir ao hospital você vai nos contar que problema é esse que o deixa tão distante quando ele fica doente.

Reita sabia perfeitamente que em algum momento isso iria acontecer. Sempre que Uruha ficava doente seus pensamentos ficavam longe, dispersos e ele deixava isso tão claro que era realmente difícil não perceber. E depois de nove anos juntos a bomba teria de explodir.

— Está bem, eu prometo.

Kai respirou aliviado e deu um leve sorriso, dando espaço para o outro sair.

— Eu vou passar em casa e depois vou até lá. Até o começo da noite eu ligo para um de vocês.

Os três assentiram e Reita saiu da sala de ensaios da banda com um sentimento nostálgico rondando por sua volta. Não muito bom claro.

— Acha que ele está com alguma coisa grave? – Indagou Kai, talvez mais para si mesmo do que para Ruki ou Aoi.

- Só o que eu espero, — Disse o vocalista. – é que tudo se resolva e ele fique bem.

Aoi concordou mudo, mas seu coração estava levemente angustiado. Guardou sua guitarra no estojo e o colocou no ombro, saindo da sala. Precisava ir para casa tentar relaxar e colocar certas coisas no lugar. Acabou fechando a porta da sala, o que fez Kai dar um leve sorriso.

— Como anda a vida Ruki? – O baterista arrumava as próprias coisas e falava sem fitar o outro.

- Como? – O vocalista ainda tentou mudar o rumo do assunto, mas raramente algo era escondido de Kai.

- Ah você sabe do que eu to falando.

O líder soltou uma risada e acabou tirando um sorriso do outro.

— Nós estamos tentando Kai, admito. Mas, agora com essa suposta doença do Pon, o Reita anda distante. Acha que é algo grave?

- Eu espero realmente que não. Apesar de distante, o Uruha nunca me pareceu ter algo tão sério. Espero que meus pensamentos estejam certos.

Ruki sentou-se pelo chão mesmo e fez um meneio, chamando o outro, que não hesitou.

— Eu não acho que seja algo realmente ruim, mas agora, parando para pensar, ele realmente fala pouco da família. Acha que ficou doente por causa deles?

- Será? – Kai ponderou um pouco sobre o assunto.

- Talvez, não? Quer dizer um afastamento para alguém sensível como ele pode machucar muito.

Kai concordou mudo. Uruha era sentimental mesmo que se controlasse bem. E mesmo que não o fosse um mau relacionamento com a família realmente faria mal para qualquer um.

— Hei, não está dizendo isso só para me fazer mudar de assunto né?

Ruki levantou os braços entregando-se e Kai caiu na risada, acarinhando suavemente a cabeça do vocalista.

— Nós estamos indo bem Kai. E espero que isso continue cada vez melhor.

O líder assentiu, concordando. De fato ia ser uma alegria na vida dos dois.

xXx

Reita chegou a seu apartamento cerca de quarenta minutos depois de ter saído da PSC. Guardou seu baixo no devido lugar junto com os outros e sentou-se em sua cama, tirando o celular e discando para um número já conhecido.

— Moshi?

- Uruha é o Reita.

- Vocês estão muito bravos comigo? – A voz do guitarrista estava mais baixa que o normal e ele parecia realmente exausto.

- Está tudo bem Kou, nós estamos apenas preocupados, você anda com sintomas muito ruins.

- Eu sei Aki, mas não acho que deve ser algo grave.

- Uruha, eu vou pegar algumas coisas aqui em casa e vou agora para aí te levar para um médico.

- Mas Akira...

- Nada de ‘mas’. – Reita cortou. – Uruha você precisa ver o que está acontecendo e principalmente me dizer o que é esse tal de problema familiar.

Uruha permaneceu em silêncio por algum tempo. Respirou fundo e levou uma das mãos até a cabeça tentando pensar em algo, apesar de saber que raramente conseguia esconder as coisas de Reita.

— Está bem Reita, eu prometo que vou. Mas, então não demore, por favor.

- Estarei aí logo, prometo.

Reita mal esperou que Uruha dissesse algo e desligou. Entrou num banho realmente rápido apenas para tirar todo o gel do cabelo e se arrumar como um cidadão japonês normal e não um rock star. Vestiu calças jeans pretas, um tênis da mesma cor, uma camiseta sem mangas branca e uma camisa da mesma cor de mangas compridas por cima, deixando apenas os três primeiros botões abertos. Colocou novamente a faixa no rosto e pegou seus documentos saindo imediatamente de seu apartamento.

As ruas estavam com um movimento normal e Reita dirigia calmamente, apesar da pressa. Sabia que para Uruha desejar ir ao médico é porque as coisas estavam num nível relativamente ruim e não perderia a chance que tinha em mãos, apesar de que se fosse preciso o levaria a força.

Não que o fosse fazer no sentido literal da palavra, afinal de contas não era nenhum monstro, mas certamente pressionaria o outro, o que agradeceu não precisar fazer, pois, Uruha acabou pedindo para ir antes que ele precisasse insistir.

Quando parou, por fim, no último farol antes de adentrar a rua que levava ao apartamento do amigo, Reita fitou seu relógio que marcava vinte e cinco minutos desde que havia falado com ele. Não era lá nenhuma demora significativa e por sorte não chegou aos quarenta minutos, visto que depois de sair do farol o baixista chegou a menos de dez em frente do prédio.

Conhecido pelo porteiro, nem precisou se identificar. Adentrou os dois portões que davam acesso as pesadas portas de vidros que davam para o hall principal. Rapidamente foi até o elevador, comandando-o para o oitavo andar. Por sorte estava sozinho e o cubículo metálico não parou em nenhum andar, a não ser no qual o baixista indicou.

Saiu rapidamente do elevador, pegando a chave extra que o próprio Uruha havia lhe dado e abriu a porta, deparando-se com o local totalmente escuro e fechado, o ar parado, misturando-se de imediato com o ar que vinha de fora.

— Uruha? – Reita chamou, ouvindo uma resposta vinda do quarto.

Fechou a porta atrás de si e caminhou até o dormitório do amigo, abrindo a porta e deparando-se com outro ambiente abafado e fechado e Uruha por baixo de dois cobertores.

— Agora entendi porque me pediu pra te levar ao médico. – Reita foi até o amigo e abaixou-se, levando uma das mãos até sua testa. – Kou, porque deixou chegar a isso?

- Akira, o que mais me assusta é que eu não fiz nada demais nesse tempo que passou desde o fim da última turnê, quando eu comecei a ter febre.

- O que, desde aquele tempo? – Reita bateu na lateral da cama, amaldiçoando-se por não ter percebido antes.

- Sim, já faz quanto tempo? Dois meses nee? Mas só agora piorou realmente.

Reita levantou-se e descobriu o outro de leve, que usava um pijama e logo começou a tremer.

— Sim Kou, dois meses. Mas, não se preocupa eu vou te levar para o hospital. Enquanto isso tenta se levantar, sim?

- Sim, mas pega um copo de água para mim, por favor?

Reita concordou e saiu do quarto, dirigindo-se até a cozinha. Realmente estava preocupado com o amigo e seu estado não parecia dos melhores, então tratou de não demorar, pegando um copo de vidro dentro do armário e enchendo quase por inteiro com água do filtro que havia acoplado na geladeira do guitarrista e mencionou voltar rapidamente para o quarto.

No meio do caminho, no entanto, ouviu um barulho brusco e saiu correndo, soltando o copo quando chegou à soleira da porta do quarto do amigo. Levou uma das mãos ao rosto e o coração acelerou.

— Kou...

O guitarrista estava desmaiado perto de sua cama, as bochechas rubras, a marca roxa no braço direito e sangue escorrendo por entre os lábios fofos.