You Are Not Alone
39 Declínio
Notas iniciais
Sem enxer línguiça hoje porque ainda tenho que escrever o cap 45 e estudar pra uma prova amanhã q. Vão descobrir a figura misteriosa qqq.
Boa leitura ♥.
— Raphael-san. – Sorriu amarelo pela surpresa. – Quanto tempo.
- Akemi-san digo o mesmo. – Retribuiu o sorriso um pouco mais vivo. – Faz algum tempo que venho até aqui, mas não encontrava ninguém.
- Takashi e eu precisamos ir até Tokyo. – Ficou algum tempo em silêncio. — Mas, entre, não vamos conversar na soleira da porta.
O homem agradeceu, fazendo uma leve vênia e retirando os calçados antes de adentrar pelo corredor, caminho que ligava a sala do lado esquerdo e a cozinha do direito. Akemi o guiou para o primeiro ambiente.
— Espero não ter vindo numa má hora. – Levou uma mecha loira para trás da orelha retirando-a da frente do rosto. Cada gesticulação se estendendo apenas o necessário. – Takashi-san não está?
- Não, eu cheguei agora a pouco, estava apenas respirando os ares da casa.
Raphael sorriu fechado, encontrando o olhar da senhora. – Akemi-san deve imaginar porque estou aqui, sem querer desmerecer sua família é claro.
- Eu sei Raphael-san, não se preocupe. Deve imaginar porque estávamos em Tokyo.
- Sim, vi nos jornais. – Esperou alguns segundos. — Akemi-san, eu sei que muito tempo se passou, mas nunca deixou de ser amor.
- Eu não duvido de nenhuma palavra. Mas, não sou eu quem decide.
- Eu vou para Tokyo hoje à noite. Perdi onze anos que desejo recompensar conquistando-o novamente. – A voz era baixa e respeitosa e o japonês polido e limpo.
Akemi mordeu o lábio. Não era má e não podia deixar que algo como aquilo acontecesse, mesmo que sua atitude causasse algum problema. Era deixar ou arriscar. Havia passado por coisas piores com o irmão de Takashi, podia lidar com aquilo.
— Raphael-san quero que me jure que não vai lhe procurar. – Disse com cautela.
- Porque não? – Inquiriu surpreso arregalando levemente os olhos azuis.
- Porque onze anos se passaram. E muita coisa mudou.
- Akemi-san juro que não entendo.
- Ele está aqui, Raphael. – Disse séria. – E não é mais o mesmo. Nem sua saúde está igual. – Encarou os orbes azuis.
- Akemi-san...
- Perdão, mas, as coisas mudaram. Tudo precisa de tempo.
- Foram onze anos. – Disse mais convicto. – Quero revê-lo.
- Raphael-san, eu-
- Sinto muito Akemi-san. – Levantou-se, se dirigindo para o corredor. – Agradeço por me avisar que não precisaria ir para Tokyo, mas eu quero tentar de novo.
Akemi o viu calçar os sapatos e abrir a porta, despedindo-se respeitosamente e saindo, deixando-a com a sensação de que alguns conflitos iriam se iniciar. Porque ali, de costas para si ia embora Watanabe Raphael, trinta anos, meio alemão e meio japonês, um metro e oitenta e cinco, cabelos loiros até o meio das costas, olhos azuis e ex-primeiro-namorado de Uruha.
— Apenas digo uma coisa. – Disse tão logo ele se distanciou. – Não machuque o meu menino ou eu não vou responder por mim.
xXx
— Eu devia te matar Aoi. Não come nada o dia todo e toma remédio pra dormir. Já posso ver as manchetes sobre o outro guitarrista do GazettE precisando ir para o hospital. – Reita gesticulou dramatizando comicamente a manchete inexistente.
- Eu estou bem. – Brincou sorrindo fraco enquanto se encaminhava para o carro de Reita. – Foi só um susto.
- Ainda bem que foi só um susto, se não eu deixaria pior.
Aoi conseguiu rir, travando o cinto. Havia acordado no meio da madrugada passando mal e conseguiu ligar para Reita que o levou para um ambulatório. A falta de alimentos no estômago havia mexido com seu metabolismo, mas nada que uma injeção e soro não tivessem ajudado. Precisavam encarar a companhia e as reuniões sobre a nova turnê, que só agora parecia lhes cair no colo de fato. Apesar da melhora, a agonia estava presente e a saudade começava a surgir. Ainda assim ter falado com Takashi havia dado um ar mais saudável aos dois.
Não precisaram pegar os instrumentos, já que Ruki havia dito que levava de manhã, o que lhes deu uma hora a mais, já que um atraso maior acabaria fazendo um dos engravatados arrancar os cabelos.
Não que eles se importassem.
De uma forma que eles não entendiam estavam mais leves. Uruha havia chegado a poucas horas em Kanagawa como Reita havia descoberto falando rapidamente com seus pais e mesmo aquilo sendo só o começo ainda assim seus corações haviam se acalmado um pouco.
— Finalmente chegaram. – Kai disse levemente exasperado. – Aoi, se você também ficasse doente o Koga-san mataria alguém.
- Eu se Kai, desculpe. Eu não achei que fosse passar mal, já que tomo esses remédios há uns cinco anos, mas isso é assunto pra depois. Se estamos atrasados nada melhor que começar isso logo.
- Sim, vamos para a sala de reunião. – O líder ditou.
...
— Agora sim eu me sinto um intruso.
- Não se sinta Sugizo-san. – Kai massageou as têmporas. – Eu só fico surpreso porque essa turnê é tão grande quanto à do Tokyo Dome.
- Isso pra mim é sugestivo. – Reita se deixou largar no sofá da sala de descanso. – Foi como ''isso é um aviso de que a saída do Uruha é uma possibilidade''. – Não esqueceu as aspas.
Sugizo estreitou as sobrancelhas. — Mas, Koga-san sabe que sou do X Japan. Acham que pode não ser eu?
- Tudo é possível Sugizo-san. Eles poderiam tentar te comprar, procurar outro, tudo que nós pudermos imaginar. Mas, eu realmente não vejo o GazettE sem o Uruha sem querer ofender, claro. – Aoi recebeu um sorriso do guitarrista.
- Eu também não. – Ruki reforçou a ideia do Shiroyama.
- Mas, infelizmente não somos nós que mandamos. – Kai disse com um leve pesar. – Eu sinto muito que tenhamos de trabalhar com o Uruha tão doente e longe, mas é oficial, o GazettE vai entrar em turnê.
Uma semana depois
Aquele começo de quarta-feira trouxera bons ares para Uruha que já se sentia melhor e começara uma série de exercícios que ajudavam na recuperação da pneumonia, limpando os pulmões. Aqueles sete dias foram necessários para que o tratamento surtisse efeito, já que era normal uma demora mais significativa em pacientes já doentes. Os remédios eram ministrados pelo cateter e um ar mais saudável começava a circular pelo quarto, o semblante do Takashima antes tão pálido agora ganhava mais cor. A oxigenoterapia ainda era necessária, mas nada que a série de atividades não resolvesse.
Um fisioterapeuta lhe ajudava com alguns exercícios, claro que devidamente coberto para não causar mais infecções no guitarrista e agora as coisas estavam calmas. Ao menos no momento uma nova rotina estava iniciada e o tratamento da leucemia podia continuar. Outro ciclo de quimioterapia começaria, aliás, já estava atrasado, mas Viktor conseguira circundar algumas coisas para que a doença recente fosse tratada primeiro.
Se fosse preciso pediria algum exame mais simples que o mielograma para verificar as células cancerígenas, mas talvez a volta para Kanagawa tenha feito bem ao guitarrista.
Ao menos agora, já que no começo, lá para meados de sexta-feira à tarde quando finalmente conseguiu comer e conversar por mais tempo descobrira tudo que tinha acontecido. Ficou surpreso com a infecção generalizada da ala inteira e preocupado com as crianças, desejando que nenhuma tivesse morrido. Estranhou fácil o novo quarto e não segurou o espanto ao saber que estava em casa novamente, ficando aliviado por seus pais, e claro, feliz por aproveitar aquele ar de sua cidade.
Ao mesmo tempo, como não deixaria de ser, ficou abatido por estar longe dos amigos e do amado, o que não passou despercebido por Viktor. Por causa da infecção recente não podia arriscar lhe entregar um celular, mas mesmo assim ajudaria de alguma maneira, já que para si era uma gratificação ver seus pacientes felizes no meio de um tratamento.
Não esqueceu também de contar sobre Felipe e Reita, já que o ex-loiro não estava sabendo dessa parte.
— Mas que confusão nossa família se meteu. – Riu junto com o médico depois de mais uma sessão com o fisioterapeuta. – Nem depois de casado Akihiro-san deixou de ir atrás da amada.
- Não mesmo. Eles deviam se amar realmente.
- E apesar de ser uma história maluca é bem bonita. Eu só não entendo porque tanto amor virou ódio contra o filho.
- Isso nem eu. Pelo menos deu tudo certo agora. E a mãe do Felipe pode viver em paz.
- Ela mora aqui em Kanagawa?
Viktor assentiu. — Afastado daqui, mas mora. Acho que depois que Akihiro-san morreu ela rejuvenesceu. A gente passa o natal aqui todo ano e ela me parece bem feliz. Mudou de casa e de vida.
- Seria bom passar todas essas datas com os pais. Esse ano eu vou poder dizer pelo menos que passei na minha cidade.
O médico sorriu. – Ou você pode ir para casa.
- É sério? – O Takashima sobressaltou na cama. – Isso seria ótimo. – Sorriu abertamente. – Posso mesmo?
- Alguns pacientes podem se tratar em casa. Akemi-san me disse que você mora aqui perto e isso ajudaria ainda mais. Claro que tem os cuidados da primeira vez, mas se estiver bem para ir eu posso mandar sim. E melhor que isso, eu já comecei as pesquisas do seu transplante de medula na banco de dados e estamos tendo bons resultados até agora.
Uruha só podia pular de tanta felicidade. Apesar de desconfiar que Viktor escondia alguma coisa, estava feliz por aquelas notícias. Era sua cura sendo finalmente comentada depois de tanto tempo, mais de quatro meses, quase cinco ou ainda trinta e nove capítulos escritos. Uma sensação ótima e revigorante aquecendo seu peito.
...
— Onze anos e ele resolve que quer tentar de novo. – Takashi estava inconformado. – Akemi se ele e Aoi-san se encontrarem... – Deixou em aberto. O restante da frase poderia dar a um caminho que sua mente não queria seguir.
- Eu não sei Takashi. Espero que isso nunca aconteça e que o nome dele nem chegue aos ouvidos de Aoi-san, mas, somente Kou-chan pode botar um fim nisso.
- Um fim, minha esposa, que eu espero que chegue logo e não complique mais ainda as coisas. Ainda mais agora que Kouyou está de volta e perto das pessoas da casa de cima.
- Você acha que eles poderiam fazer alguma coisa depois de dezoito anos? – Ela pareceu lembrar dos indesejáveis vizinhos.
- Nos vamos defender ele enquanto pudermos Akemi, mas nunca se sabe o que pode acontecer. Coincidência demais ele ter vindo para cá e agora Raphael ter aparecido. Mesmo não querendo, eu acho que algumas coisas estão para acontecer e não tem como interferir.
Akemi bebericou um pouco mais de seu chá.
— Eu só espero que no meio disso tudo a saúde de nosso filho não piore ainda mais.
...
Uruha havia dormido boa parte do dia. Depois da conversa com Viktor conseguiu almoçar bem e não demorou a pegar no sono. Sua febre decorrente da pneumonia havia baixado de vez e agora só precisava tratar os pulmões para se curar de vez. As seções com o fisioterapeuta eram uma vez por dia e estavam dando bons resultados.
Felipe ficou consigo durante esse tempo, enquanto Viktor tratava do velório e terminava de acertar os custos. Chegara do cemitério e tomava um pouco de ar no jardim atrás do hospital. Não estava um tempo agradável, aliás, perfeito apenas para enterros como o que tinha presenciado. Nublado, cinza, sem muitos sorrisos, mas muitas lágrimas. Um belo dia para refletir, mas não para si. Precisava limpar a mente antes de voltar para os pacientes e nada como ares novos para revigorar, apesar do frio.
— Com licença, poderia me dar uma informação?
Quase sobressaltou no banco ao ver a figura tão loira quanto a si mesmo parado a seu lado.
— Dependendo da pergunta acho que posso. – Sorriu fechado.
- Eu procuro um paciente chamado Takashima Kouyou e gostaria de saber se ele está neste hospital.
Viktor endireitou-se levemente. – Peço desculpas meu senhor, mas qualquer informação sobre os pacientes está proibida.
- Eu podia imaginar. – Levou a mão livre até o bolso. – Não há nada que possa fazer?
- Não. Além do mais, Takashima-san é famoso e isso só deixa a situação mais grave. Então mesmo que eu soubesse qualquer coisa sobre isso não poderia lhe dizer. – A expressão do rosto e corporal neutras, o tal sujeito parecia bem observador.
- Isso significa que ele está aqui? – 'Jogou verde', mas Viktor era esperto.
- Isso é o senhor quem está dizendo. – Disse sem se mover muito. Raphael mordeu o lábio inferior.
- Eu preciso disso.
- E os meus pacientes precisam de cura, mas nem por isso eu insisto onde sei que não vou conseguir nada.
- Ahn... – Baixou o olhar para o nome gravado no jaleco. A blusa mais quente estava apenas por cima dos ombros. – Doutor Viktor Rickerstzhausen. – Disse com um sotaque alemão polido. – Creio que seus pais lhe deram alguma educação.
- O Senhor não deveria falar o que não sabe. – Viktor disse sério. – Eu tenho educação e não lhe interessa quem me deu. Mas, eu não vou dar uma informação que eu não posso e nem tenho.
- E se eu descobrisse que tivesse?
- Aí o senhor faz o que achar melhor. – Voltou a atenção para o céu, fechando um pouco os olhos pela claridade batida nos orbes verdes. Não gostava de ouvir a palavra pais. Principalmente se tratando dos próprios.
- Eu sou namorado dele, preciso revê-lo.
Conteve-se parar não rir. – Sabe, eu trabalho aqui em Kanagawa há muitos anos, e sei que nessa região há poucos hospitais. Se Takashima-san mora por aqui e o senhor já sabe que não está neste hospital pode procurar nos poucos que ainda restam. – Disse sem fitar o maior.
Rafael mordeu o lábio inferior com força fazendo um pequeno machucado. Cerrou um dos punhos e ergueu o braço levemente antes de sentir uma mão segurando a própria.
— Algum problema aqui? – Felipe inquiriu, fitando sério o companheiro e o homem pouca coisa mais alto que si.
- Não, Doutor Suzuki. – Viktor se levantou. – Apenas este senhor está atrás de um paciente que não se encontra nesse hospital, e acho que queria usar a força para tentar descobrir alguma coisa de mim.
- Entendo. – Soltou sem muita vontade a mão do outro. – Que paciente seria? Eu talvez pudesse ajudar.
- Trabalha aqui mais tempo? – Raphael indagou e o médico confirmou. – O nome dele é Takashima Kouyou.
- Aquele músico famoso? – Inquiriu com uma falsa careta de quem não sabia de nada. – Perdão, meu senhor, mas nesse humilde hospital alguém famoso não se instalaria.
- É que fiquei sabendo que ele está de volta.
- Pode ser, mas realmente aqui ele não se encontra.
O loiro suspirou, dando-se por vencido.
— Obrigado então doutor... Suzuki Felipe. Agradeço.
O japonês fez uma leve vênia e esperou que o outro sumisse de vista para olhar Viktor que ainda se segurava para não rir.
— Ele ia te bater?
- Ou algo parecido. – Riu, por fim. – Mas, você pressente essas coisas e aparece. Ele disse que é namorado do Uruha.
- Namorado é? – Felipe também riu. – Deixa Aoi-san saber disso.
- Ou não saber. – Um pequeno e rápido silêncio se instalou. — E também eu acho que nós nascemos para fazer teatro. Ás vezes até eu me convenço de que não te conheço.
- Estamos ficando melhores nisso.
- Deveríamos ter feito Artes Cênicas. – Viktor se pôs a andar de volta para dentro.
- Mas, já que apostamos na medicina melhor continuar com os teatros e o gosto de achar que seríamos bons atores.
Viktor deu de ombros, sorrindo.
...
É oficial. A banda the GazettE vai entrar em turnê, de acordo com as divulgações confirmadas pela companhia PS Company na tarde desta quinta-feira. O empresário da banda reuniu um pequeno grupo de jornalistas e deu a notícia, firmando as suspeitas que foram lançadas no início da semana.
A turnê, ainda sem nome definido, será tão grande quanto a que colocou a banda no Tokyo Dome e percorrerá boa parte do país. As datas não foram definidas e nenhum set list será divulgado com antecedência, como ocorreu na última turnê, esta que foi marcada pela formação original e que desta vez estará diferente.
Sugizo novamente ajudará a banda com as apresentações, já que Uruha, guitarrista principal e diagnosticado com leucemia parece que ainda não está pronto para voltar. Não se sabe muito sobre seu estado de saúde, já que mais nada foi divulgado, mas todo esse silêncio por sua parte e uma nova turnê menos de um mês depois do festival que mesmo banhado pela chuva foi marcado pela homenagem feita pelos membros da banda deixa margem para uma decisão que pode estar sendo tomada: Será que a aceitação de Sugizo foi tão grande e essa turnê está sendo marcada para oficializar sua presença na banda? Com Uruha sumido será que o X Japan abriria mão de seu guitarrista ou a PS Company está atrás de algum outro? Será que a homenagem do festival de inverno não passou de fachada para amenizar a situação de uma nova formação para a banda?
Algumas perguntas ainda não foram respondidas, mas ao que parece as coisas estão mudando para a banda the GazettE.
Uma lágrima solitária desceu dolorosamente pelo rosto de Uruha.
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