Notas iniciais
Contagem regressiva: 05 para o fim
Contagem regressiva para o lemon AoiHa: 01
Geeeeente oieee *-*
Eu sei que eu demorei horrores, me perdoem ;-; eu to tão atarefada com o curso, ainda nem consegui responder todas as reviews, por isso vou fazer isso agorinha enquanto vocês lêem capítulo novo, e...
... O lemon AoiHa é o próximo capítulo 8DDDDD e sabe quando que ele vem?...
... Terça-feira ♥. Dias 05 de Junho vocês terão o lemon que eu imagino que era o que mais queriam ler, É UMA PROMESSA. Certo? ♥
Entãããão, boa leitura amores ♥.

A turnê prosseguia a cada dia que passava com normalidades e sem qualquer problema que não os corriqueiros, mas que também iam sendo rapidamente resolvidos. Koga havia conseguido convencer os diretores de que expandir a turnê seria benéfico para todos e que se Uruha voltasse enquanto ela ainda prosseguisse seria bom para todo mundo, e a banda ganhou um prazo que se estendia até o fim de outubro, o que causou furor em todos.

Desde então as coisas começaram a caminhar de maneira favorável e calma para eles. Kai entrava em contato com os pais de Reita semanalmente para poder repassar a todos a situação de Uruha, que melhorava conforme o tempo passava, apesar de ainda continuar no hospital, o que também era normal, já que algumas medulas como a dele não eram tão precoces e demoravam a trabalhar sozinhas, e como lhes havia sido explicado, o paciente não pode deixar a ala de transplante enquanto a medula não produz as células sanguíneas sem ajuda de remédios.

Não podiam reclamar quanto a isso, sabiam que se iam precisar de quase um ano para a volta do amigo que nem certa era, então tinham em mente que não ia ser uma recuperação rápida. E enquanto esperavam só podiam tocar as coisas conforme iam surgindo. Sugizo não havia perguntado nada sobre essa nova mudança da turnê, mas os outros também não mostravam que sabiam de muita coisa, então aparentemente eles só puderam assentir e continuar com as apresentações.

Em segredo e sem muito alarde Ruki ia ajudando as cabeleireiras a pensar em formatos de peruca para Uruha. Ele e um estilista que também sabia dos detalhes desenhavam corpos inteiros com direito a roupas representando o guitarrista e assim conseguiam pensar melhor sobre detalhes como cores e cortes que combinavam com ele. Por isso os ensaios haviam sido reduzidos para uma hora a menos e Ruki alegou precisar sair mais cedo e disse ter o consentimento do empresário. Desde então se esforçava em preparar as perucas, cumprindo assim a promessa que fizera à Uruha.

Assim o tempo foi passando e um mês depois Uruha ainda estava no hospital, mas totalmente recuperado da pneumonia. Os pontos em seu lábio haviam sido retirados há algumas semanas e não havia ficado nenhuma marca visível, só uma pequena elevação, mas que não o incomodava. Sua cor também estava mais corada, diferente de quando precisava se tratar com a quimioterapia, e claro, sua cabeça estava coberta de cabelo. Bem curto, mas já estavam visíveis, o que lhe trazia alívio, apesar de ainda se achar esquisito com fios tão curtinhos. Ainda usava a touca e talvez só fosse deixar de lado quando tivesse um comprimento aceitável.

O que lhe fazia pensar muito era em como fazia tempo que não via os cabelos na cor natural, aquele castanho escuro que há anos era substituído pelo loiro e outras cores e cortes diversos. Mesmo que ainda estivesse se achando estranho queria aproveitar que seu cabelo era novamente da cor natural e matar a saudade dele depois de tanto tempo.

Estava bem leve e confortável, havia sofrido alguns dias com a baixa rejeição da medula, o que Viktor lhe alertou ser normal e benéfico para seu organismo, já que terminava de eliminar as células doentes, que já não mostravam alteração nas células saudáveis, de acordo com os exames de sangue que havia realizando semanalmente. Estava cada vez mais recuperado e só permanecia no hospital porque sua medula ainda estava preguiçosa.

Mas, isso também não durou muito.

No começo do segundo mês, na primeira terça-feira de março. Uruha estava com os pais e Felipe no quarto, preparado para mais um dia frio no hospital. As temperaturas ainda estavam lá em baixo, mas como a primavera se preparava para chegar no final do mês logo podiam esperar dias mais amenos. O próprio sol começava a surgir mais vezes ajudando no trabalho das escavadeiras e derretendo o gelo acumulado. Mal havia passado o horário do almoço quando Viktor entrou correndo no quarto. Há dois dias – Requisito necessário para que os médicos tivessem certeza de que a medula estava trabalhando sozinha. – ele havia suspendido a medicação que incentivava a medula a trabalhar. Um sorriso estampava seu rosto.

— Ta funcionando... – Sua fala estava entrecortada enquanto tentava recuperar o fôlego. – Ta funcionando Uruha, seus níveis de plaquetas estão em 20.000/mm3 e os glóbulos brancos estão em 500/mm3. – Um grande sorriso surgiu em seu rosto. — Você está curado. Ainda tem que receber algumas medicações que fazem parte da última fase do tratamento, mas agora que a medula está trabalhando sem ajuda você pode e deve se considerar livre da leucemia.

Se antes estavam descansados, agora todos estavam felizes e sorridentes, diferente de quando estavam descansados e recebiam notícias ruins. Agora as coisas haviam finalmente mudado, as peças de xadrez estavam ao lado de Uruha, o peão havia conseguido libertar a rainha e independente se aqueles sorrisos estavam encobertos pelas máscaras, a felicidade que os olhos de Uruha mostravam para eles era tão intensa que nem as primeiras lágrimas que desceram foram capazes de esconder tamanha alegria.

Ele esperou por tanto tempo aquela notícia que agora quase não conseguia acreditar. Mas, tinha tanto acúmulo de alegria em seu coração guardado para o momento que enquanto chorava toda essa alegria ia sendo despejada por todo seu corpo, anestesiando todo e qualquer sentimento ruim que ainda restava em si e era ocasionado pela doença. Ele próprio estava anestesiado pelo tamanho da felicidade que sentia. Tanta que quase não conseguia interromper o próprio pranto para abraçar Viktor direito, que despejava palavras doces perto de seu ouvido, parabenizando-o.

— Finalmente. – Akemi chorava baixinho abraçada ao marido. – Finalmente esse dia chegou Takashi.

- Chegou sim Akemi. – O Suzuki também derrubava lágrimas. – Finalmente Kouyou está curado, ele venceu.

E aquele sentimento era muito acolhedor. Cada um ali sabia o que Uruha havia passado, cada crise, cada momento delicado em que sua vida ficou ainda mais nas mãos de Viktor e Felipe e ambos se mostraram firmes para segurá-la, e ainda mais, humanos que acolheram cada momento triste que o guitarrista havia compartilhado com eles. Não havia ninguém melhor do que ninguém naquele quarto, se algo os diferenciava eram suas etnias, a cor de seus olhos e cabelos e as alturas. O coração era o mesmo, as dores também.

E agora a alegria era compartilhada da mesma maneira. Por mais que Viktor dissesse que Uruha havia vencido aquela guerra ele sabia que não teria conseguido sozinho e que todos ali e os amigos em Tokyo haviam lhe ajudado. Todos venceram juntos, era uma vitória que deveria ser comemorada por cada um deles, os méritos não eram apenas da força de vontade de Uruha...

— Eu não teria conseguido sem vocês. – Conseguiu dizer depois de muitas lágrimas. – Vocês me ajudaram desde o começo, eu não venci sozinho, nem ao menos iria conseguir chegar aqui se não tivesse vocês comigo.

...

Viktor o liberou no fim da tarde, por volta das cinco e meia, quando a chuva havia cessado. E, como sempre não deixou de recomendar inúmeros cuidados e realizou um outro hemograma antes de deixá-lo ir de fato, para que tivesse algum controle nesse primeiro contato do Takashima com o mundo exterior depois do transplante. Agora se iniciaria a terceira fase do tratamento, finalmente a parte mais branda e que atacava muito pouco ao paciente. Os retornos costumavam seguir um padrão que consistia em visitas trimestrais ao hospital durante o primeiro ano, semestrais no segundo e anualmente do terceiro em diante, quando o médico decidiria em que momento o paciente poderia ser liberado disso, de fato.

Apesar de estar curado, Uruha ainda tinha algumas coisas a fazer e uma delas era seguir fielmente o horário de tomar cada remédio, os quais não eram poucos. Não havia espaço para um 'mas' ou qualquer outra explicação se não tomasse os medicamentos, sua vida ainda dependia daquelas drogas e da atenção indireta de Viktor, que havia pedido que retornasse em uma semana, antes de iniciar as visitas mensais ou trimestrais, tudo dependia de como Uruha estaria. E como era ocupado com a banda, já pensando quando retornasse ao trabalho, o fato de ambos residirem em Tokyo era uma bênção, já que Viktor foi rígido quanto às visitas, elas eram obrigatórias.

E Uruha não contrariaria a pessoa que salvou sua vida, que nos momentos difíceis se manteve calmo e em busca de sua cura. Cada ordem que ainda deveria seguir, o faria. Por isso não podia ir embora de Kanagawa, estar em sua cidade natal era ainda melhor, já que Tokyo tinha um aglomerado muito grande de pessoas e como pretendia fazer alguns exercícios como caminhar, já que ficar parado também não era recomendável, quanto mais paz e ar limpo, melhor.

A máscara também seria necessária ainda, mas em casa, em contato com os pais, e quando estivesse sozinho e em lugares abertos poderia ficar sem o acessório, o que lhe trouxe alívio, já que revelara aos pais que o acessório incomodava se tivesse que ser usado por muito tempo. Na ocasião Akemi rira e disse que se agüentasse mais um pouco logo estaria livre dela, e de fato a primeira coisa que fez ao adentrar seu quarto foi retirá-la e guardar com cuidado.

Todo o local cheirava a limpeza, limpeza que sua mãe havia feito, provavelmente com todo o amor e carinho com o qual cuidava deles durante todos aqueles anos. Tudo que fazia por eles era regado a amor e Uruha queria recompensá-la de alguma forma, com certeza sendo um bom filho e a mimando como ela tanto fazia. A Suzuki nunca havia medido esforços para ajudar as pessoas, tanto que arriscou o próprio casamento para ajudar Akihiro, e se tinha algo que Uruha sabia que a faria feliz era dedicar-lhe carinho e atenção.

Mas, antes de se juntar aos pais na sala deixou que a mente transitasse por diversos caminhos enquanto seus olhos se perdiam no céu que estava quase totalmente escuro. Tanto tempo, tantos sentimentos acumulados, um amor lhe esperando na província vizinha. Estava ansioso para voltar, queria estar perto das pessoas que tanto amava logo e principalmente de Aoi, a vontade de tocar-lhe sem medo, poder lhe beijar finalmente. O calendário em sua parede mostrava a primeira semana de março. Uruha fez um X em vermelho sobre o dia. Começaria a marcar cada dia, cada semana que passaria. Se ainda tinha de ficar seis meses, que ficasse, se precisasse de oito, que ficasse oito. Mas, queria acompanhar a passagem de tempo, porque quanto mais ele passava, mas perto de Aoi estaria.

De Aoi, do irmão, dos amigos... Tanta coisa havia sido abruptamente parada por causa do tratamento, e queria retomar todas elas de alguma forma, mesmo que recomeçasse aos poucos. Aliás, começaria aos poucos, não queria se machucar de nenhuma maneira, precisar ser internado de novo, passar pelas mesmas coisas, os mesmos procedimentos doloridos. Faria tudo há seu tempo como estava acostumado, voltaria para sua guitarra aos poucos, tocaria devagar como se estivesse começando agora. Não porque o fisioterapeuta havia recomendado, mas porque ele não queria mais sofrer, não queria mais ser internado, precisar largar tudo para ficar cercado de paredes brancas e inerte sem poder fazer qualquer coisa.

Não mais. Estava tomando o controle da situação novamente e assim pretendia manter, tomando as rédeas de sua vida de novo. Mais do que os conselhos de Viktor ou de qualquer outro, seguiria seu próprio ritmo, não extrapolaria limites. Parou por mais de seis meses, que chegariam a mais de um ano, e sabia que não era possível recuperar esse tempo em dias ou semanas. Não seria inteligente, e apenas ele sabia o que havia sentido, se o próprio resolvesse se jogar de propósito dentro de um hospital merecia as dores que viriam de novos tratamentos.

Por enquanto queria relaxar, aproveitar o tempo que ainda teria livre para se concentrar na recuperação total e precisar voltar ao hospital apenas pela obrigação de receber os medicamentos e verificar a medula, sem necessidade de ir com urgência ocasionada por algum problema. Se concentraria em atividades leves como caminhar, ler, jogar alguma coisa em seu PSP, com devidos cuidados ajudar a mãe na cozinha, coisas simples, mas que faziam toda a diferença e evitariam que ficasse parado.

Mas, por enquanto estava interessado e totalmente concentrado em usar apenas a boca, ligando para Aoi. Estava com saudade de sua voz e nada melhor do que aproveitar que estava em casa para conversar horas a fio com o moreno, se assim fosse possível. Se bem que mesmo se não fosse, Aoi daria um jeito para falar com ele o tempo que precisasse para matar a saudade e descobrir como estava. Por enquanto era apenas por telefone, mas ambos sabiam que isso logo mudaria, bastava que tivessem paciência.

E claro que as novidades de que estava em casa chegaram aos ouvidos do empresário e de todos da banda no dia seguinte quando Aoi apareceu na companhia. Com um olhar trocado com Ruki ambos realizaram um diálogo extenso que dizia claramente ao vocalista que deveria continuar o trabalho com as cabeleireiras, que estava indo cada vez melhor. Um projeto já havia sido aceito e as mulheres trabalhavam avidamente, procurando fios de verdade que pudessem levar o uso de aparelhos como pranchas e secadores sem danificar.

E foram inteligentes ao escolherem uma cor mais escura para o cabelo, parecendo que era natural, já que descolorido podia passar a impressão de que era realmente uma peruca, enquanto que as mexas brancas que haviam escolhido colocar podiam passar sem muitos problemas. Como Ruki havia prometido, estava cada vez mais empenhado em conseguir deixar tudo pronto para sua volta. Não comentava com ninguém, mas estava esperançoso e sentia que Uruha voltaria antes que a turnê terminasse e que tudo se encerraria bem, todos estariam felizes e suas férias fechariam com chave de ouro, trancando todos os problemas no passado.

Era o que Ruki acreditava e enquanto desenhava mais modelos para futuras trocas da peruca sorria discretamente, imaginando Uruha passando curado pela sala de descanso com suas duas guitarras nas mãos, voltando para o lugar que nunca poderia ser tomado.

...

— Os níveis estão bons. – Disse Viktor. – Se continuar assim podemos manter as visitas a cada três meses.

- Espero que sim. – Uruha sorriu por baixo da máscara. Só então se deu conta de que era a primeira vez que estava na sala temporária que haviam arrumado para seu médico. Viktor devolveu o sorriso.

- Tem se exercitado nessa primeira semana em casa?

- Tenho caminhado quando o tempo deixa. – O médico assentiu. – Tomo os remédios no horário certo e não notei nada de anormal. De vez em quando eu fico conferindo o manual que você me deu, mas nada, nenhum sintoma como aqueles do manual apareceram.

- Isso é ótimo. – Viktor sorriu. – Estamos indo bem e isso tende a caminhar de maneira cada vez melhor. A medula está bem adaptada ao seu corpo e os mieloblastos estão eliminados, mas ainda precisa manter o tratamento, sim?

Uruha assentiu. – Também não tenho recebido visitas, e as dos meus pais não costumam chegar perto do quarto.

- Bom. – Viktor voltou sua atenção para alguns papéis em suas mãos antes de juntar todos dentro de uma pasta de papel branco com a anotação da data na frente para depois colocar dentro de uma pasta de plástico que devolveu à Uruha. – Principalmente se tiver crianças, ainda precisa se preservar, mas as coisas estão indo bem, isso vai começar a diminuir conforme os dias passem. O cateter está em ordem?

- Sim, também sem problemas.

Viktor assentiu levemente e seus olhos se voltaram para o computador a sua frente. Digitou algumas coisas numa página que Uruha não imaginava para seria. Em seguida passou a escrever a mesma informação em uma agenda, três meses à frente do qual estavam.

— Já que as coisas estão indo tão bem podemos nos ver daqui a três meses. – Fitou Uruha. – Não esqueça de se cuidar bem, e assim que a ala de oncologia do hospital de Tokyo estiver pronta eu vou te avisar para que as consultas sejam lá. Mas, não pretendo sair daqui antes de ter certeza que posso aumentar suas consultas para cada seis meses, tudo bem?

- Certo. Nos vemos em três meses então.

Um mês depois

A primavera havia oficialmente começado há uma semana, mas como as regras da natureza eram incertas para os homens o sol começava a despontar a sua maneira, da forma como deveria ser, iluminando os dias por poucos períodos e com raios fracos, mas que gradualmente começavam a derreter a neve acumulada das casas, das lojas e hospedarias, de toda Kanagawa e Japão, seguindo seu curso de maneira equilibrada. Os dois homens caminhavam trajando roupas pesadas, quentes e tão equilibradas como Yin e Yang.

Raphael estava todo de branco trazendo apenas uma mala vermelha de carrinho e porte médio. Uruha estava a seu lado totalmente de preto, usando apenas a máscara como acessório branco. O aeroporto estava com tráfego normal de passageiros, nada muito cheio ou muito vazio, o que não era realmente importante. Para os dois não havia som externo que afetasse a concentração de seus ouvidos voltados para as passadas do outro e a mala que vinha arrastada logo atrás de seu dono. O som dos lados simplesmente havia sido colocado no mudo e eles não pretendiam aumentar o volume enquanto não fosse a hora.

O vôo do loiro já estava preparado e os passageiros começavam a fazer fila para embarcar. Todavia Raphael não estava com pressa em deixar a terra nipônica, mesmo que todos os seus pertences já tivessem sido mandados para a cobertura duplex em Berlin, sede da empresa que agora estava em seu nome. Os óculos escuros escondiam os orbes azuis e inchados de uma noite mal dormida e regada a muitas lágrimas. Seu coração estava apertado, mas não queria ir embora sem se despedir de Uruha. Seus olhos se encontraram alguns metros antes da fila que ainda não havia começado a andar. Entretanto, Raphael não havia retirado os óculos.

— Acho que é isso. – Disse firme. Por dentro não estava inteiro.

- E as palavras sempre somem nesse momento. – Uruha o fitava intensamente. Sabia que por baixo daquele óculos e aquela voz segura estava um coração machucado. Ainda assim Raphael lhe sorriu e acarinhou seu rosto.

- Daqui algum tempo a gente consegue de novo. – Riu baixinho. – Eu espero que seja feliz Kou. E que volte logo para sua banda e eu tenha desculpas para voltar aqui e te ver de novo.

- É bom que venha mesmo me ver. – Também acarinhou o rosto do loiro. – E que também seja feliz. Alguém naquele país vai reconhecer a ótima e amável pessoa que é.

- Podia ser um moreno de olhos verdes para ser perfeitamente oposto.

Ambos riram.

— Não esqueça de me mandar as fotos então.

- E não esqueça de ser feliz com o Shiroyama, ele deve estar querendo poder te abraçar agora.

- Provavelmente sim. – Uruha retirou a máscara e dirigiu um sorriso à Raphael. Um último que ele pudesse ver, um último apenas seu. – E eu sei que ele vai ficar com ciúmes se descobrir que eu te trouxe aqui, mas eu ficaria furioso se você fosse embora sem me avisar.

- Eu não seria capaz disso, não podia ter meu último momento com você no hospital logo que saiu de um coma.

- Não diga que é nosso último momento Raphael, isso não é um adeus.

- De certa forma é sim. Mas, não um adeus para sempre, isso não. Eu diria que é um adeus que sela o nosso passado de uma vez, resolve ele finalmente e nos guia para outras experiências. E essa viagem vai mostrar o caminho da minha nova vida, mas eu quero muito que as nossas estradas colidam de novo e eu possa te ver novamente.

- Você vai, com certeza vai. E nós vamos continuar sendo amigos sem essa barreira dolorida para impedir.

- Eu vou esperar esse momento.

- Eu também.

Ambos sorriram e se abraçaram. O cheiro da roupa de Raphael rapidamente se fez presente nas narinas de Uruha. Por sua causa ele conhecia de longe algumas fragrâncias da Prada e como elas eram tão diferentes das amadeiradas de Aoi. Raphael era uma boa pessoa, mas o coração de Uruha estava envolvido por um aroma mais forte e a sua volta só havia peças negras, cabelos negros e olhos puxados, guitarras e um apartamento em Tokyo. Tentar fugir daquilo era como andar no trilho do trem em vez de caminhar ao lado para escapar da colisão. E Uruha sabia, Raphael também. E quando o abraço fora apartado as palavras não eram necessárias, os olhares diziam tudo e agora os orbes de Raphael o fitavam sem qualquer barreira. Um sorriso mudo estampou seus rostos e Uruha deu-lhe as costas, arrumando a máscara e se encaminhando para fora do grande salão.

— Hey!

Ao ouvir a voz de Raphael, virou-se novamente.

— Até logo... Uruha.

Com um sorriso novamente escondido Uruha acenou-lhe uma última vez e saiu do aeroporto, podendo ainda ver um avião decolar. Não sabia se era o de Raphael, mas seus olhos o seguiram até que as nuvens engoliram-no. Com um rápido suspiro e um leve sorriso voltou a atenção para a rua e caminhou sem pressa pelas ruas, passando por rostos desconhecidos e apressados, pessoas falando aos celulares, outras conversando com os filhos, cada uma com seu mundo particular, compartilhando um único e universal. A mente de Uruha vagava para além daquilo, perdida em pensamentos e situações que estavam longe das ruas ainda com pontos de acúmulo de neve de Kanagawa.

Era começo de Abril, o transplante havia sido realizado no fim de janeiro, dois meses já passaram e seu calendário portava cada vez mais marcas vermelhas. De acordo com o que soube por Ruki numa rápida conversa que teve com ele tinha até o último dia de outubro para conseguir pegar algum show com a banda. No calendário esse dia já estava marcado, assim como o último dia de setembro. Ele tinha cinco meses para descobrir se no fim das contas a leucemia havia ganhado ou se todos os seus esforços e das pessoas ao redor para que conseguisse chegar com uma turnê em andamento haviam surtido efeito. Ele esperava que sim, as mesmas pessoas também.

Mas, e o tempo? E as regras da natureza, as regras de seu próprio corpo, será que elas permitiriam? De certa forma não tinha a ver com o que a leucemia fez, porque por mais precoce que tivesse surgido ela também teve seu momento para aparecer, para reinar. A quimioterapia também teve seu tempo para fazer efeito, cada enjôo, dor de cabeça e vômito também apareceu quando deveria, quando o corpo fragilizado não agüentava mais tanta pressão. Viktor e Felipe também apareceram no momento que deveriam, tudo seguia um curso perfeito, por mais que as ações dos problemas e da vida fizessem parecer ao contrário, que era um ciclo desregulado. Nada o era, a natureza era a prova de que a perfeição existe, mas que provavelmente está longe de ser alcançada pelas mãos dos humanos.

Cada coisa aconteceu para Uruha quando deveria ter acontecido, assim como o era para qualquer outra pessoa. Se tivesse que chegar antes da turnê o faria, se não fosse para acontecer não aconteceria. Seu corpo não se forçaria – Sem força externa. – a melhorar logo, o faria gradualmente e no fim Uruha estaria bem, forte e saudável novamente e todos os problemas que lhe atingiram não passariam de coisas que aconteceram, mas agora eram lembranças que ficariam no passado junto com tudo que já havia acontecido em sua vida. Tudo dependia apenas do tempo e era ele quem mostraria se dentro de cinco meses Uruha estaria de volta à Tokyo ou se ainda precisaria ficar mais alguns meses em Kanagawa.

Ele esperava que não, desejava com avidez que até setembro estivesse dentro de um carro em direção à Tokyo, mas sabia que não estava em suas mãos decidir isso. Faria sua parte, Viktor faria a parte dele, cada um faria até onde podia e eles só descobririam se os resultados de seus esforços tinham acontecido de acordo com o que planejaram quando o dia em si chegasse e os exames solicitados indicassem que tudo estava bem. Enquanto não acontecia, no entanto, só podia esperar, cada um fazendo o que lhe era preciso fazer. O tempo cuidaria do resto.

Cinco meses depois

Mais um verão havia passado e os ventos gélidos do outono estavam novamente voltando ao Japão depois de uma temporada quente com dias amenos e gostosos, ao menos para quem aproveitava da sombra, já que alguns dias foram mais quentes do que o aceitável. Para Uruha não fazia muita diferença, já que caminhava de manhã com o sol ameno e a tarde ficava em casa fazendo atividades com sua mãe que carinhosamente o presenteou com um avental branco de bolinhas rosa bebê que arrancou muitas risadas de Takashi quando o viu vestido.

Afora claro o lenço branco que deu um ar ainda mais feminino para ele. Akemi divertia-se com as implicâncias de Takashi para cima do filho, que chegou até mesmo a jogar uma cantada para Uruha que acabou arrancando gargalhadas dos três e quase impediu que um bolo ficasse pronto, já que Akemi e o filho não podiam se olhar que começavam a rir de novo e de novo, o que resultou numa comemoração inusitada quando Uruha conseguiu cobrir o bolo com calda de chocolate, finalizando-o. Depois do jantar todos saborearam o doce preparado quase que totalmente pelas mãos do guitarrista, que se mostrou bom para tal.

Agora que o céu começava a mudar sua tonalidade azul vivo para um cinza ainda claro, mas que de certa forma inspirava frio e fazia os casacos voltarem para as mãos das pessoas, depois de mais uma temporada guardados e sem necessidade de uso. Durante todo esse tempo Uruha manteve contato com Kai e Ruki, tratando de assuntos voltados para seu possível retorno, e o que recebeu como resposta deixou a chama da esperança ainda mais forte e intensa, já que Ruki havia conseguido fazer três modelos exatos de peruca e algumas roupas que combinariam consigo. Ou seja, tudo estava pronto para sua chegada, bastava que esta estivesse pronta para si.

E como só haveria uma maneira de descobrir, estava agora na sala de Viktor enquanto ele analisava os últimos exames realizados nos meses que passaram. Seus encontros estavam marcados para a cada três meses e nada ruim havia acontecido até então. Bastava saber se isso ainda predominava. Para tanto esperava uma última decisão de seu oncologista.

— Vocês vão voltar para Tokyo essa semana?

- Talvez. – Viktor o fitou e sorriu. Como era bom poder sorrir e poder ver novamente sorrisos e não precisar mais se deparar com uma máscara. – A ala ficou pronta no começo do mês passado, mas eu e o Felipe tínhamos conversado com o diretor e a decisão foi a de que ficaríamos até você estar apto para voltar.

- E lá continuar o tratamento.

- Exato. – Viktor sorriu-lhe novamente. – A próxima consulta eu vou marcar para dezembro, que é daqui a três meses, e eu preciso que você deixe isso avisado na companhia, independente do que você precisar fazer: entrevista, fotos, shows, você precisa vir no dia certo. Se um show cair exatamente no dia da consulta eu me responsabilizo a ir até você com o Felipe, mas claro que tudo isso precisa ser avisado antes.

- Eu vou me lembrar disso. – Sorriu. – Basta saber quando vou poder entregar os atestados para os diretores deixarem junto com os meus outros dados.

- De acordo com o que eu tenho analisado... – Fez uma pausa que para Uruha foi angustiante. — ... Parece que eu vou conseguir pegar o último show da sua turnê junto com o Felipe e vou te ver naquele palco junto com todo mundo.

Ao silêncio de Uruha seguido pelas lágrimas, Viktor sorriu.

— Tokyo te espera Takashima Kouyou. A leucemia não venceu você, o coma não venceu você e agora os prazos também não venceram você. Eu vou pedir ao Felipe que prepare uma sala para retirar o cateter e você está oficialmente liberado para voltar as suas atividades. Nosso próximo encontro será em Tokyo no mês de dezembro, e o que eu vejo agora não é mais um paciente e sim uma pessoa curada que mesmo que precise continuar tomando os remédios por mais algum tempo não pode mais ser chamada de doente. A medula normalizou todos os níveis das células vermelhas e brancas, e mesmo que você precise manter os mesmos cuidados por pelo menos mais um ano seu sistema imunológico está novamente alto e você pode fazer a maioria das coisas que fazia antes.

E pelo olhar que o oncologista dirigiu à Uruha ele sabia exatamente do que se tratava.

Notas finais
Sooky ♥;
Melka ♥;
ChunLi W Malfoy ♥;
Dayzeh Natsumi ♥;
Kotori ♥;
Takashima Yuumi ♥;
freeasabird ♥;
Saa Chan ♥;
Tsuki Senshi ♥;
vampire_kawaii ♥;
ninfanegra ♥;
AlineVKei ♥;
Ringo-sama ♥;
Pra mim nunca dizer obrigado vai ser suficiente, mas espero que com essa palavra vocês consigam entender o que significam pra mim e como foram importantes para que a You Are tivesse chegado até aqui.
Obrigada ♥.