You Are Not Alone
16 Cabelo
Notas iniciais
Bem, cap muito triste, se quiserem me chamar de cretina nos reviews eu vou adorar qqq Acho que virei a Tia Cretina e non mais a Lissa, enton fiquem a vontade qqqqqq
Boa leitura.
Os quatro encaravam Kai de boca aberta. Estavam estupefatos, perguntando-se se suas mentes não haviam lhes pregado uma peça, ouvindo dos lábios do líder que o músico tatuado tinha uma filha. Além de surpreendente pelo fato em si, ainda tinha todo o descaso da mãe da menina, que causava certo asco em todos ali, assim como houve com Yutaka.
— Eu sei, também fiquei sem ter o que falar. — Comentou diante das feições surpresas dos quatro amigos.
- É tão inesperado. — Uruha anunciou, fitando a foto da pequena Lovelie em suas mãos.
- Mas, ele me parece estar saindo muito bem. — Aoi ditou depois de passada a surpresa, fitando a foto de longe.
- E está. — Kai sorriu, chamando a atenção de Ruki. — Eu também fiquei surpreso quanto a isso porque nós sabemos muito bem como ser músicos deixa o tempo para si extremamente reduzido, mas ela é tão bem cuidada que faz parecer que tem outra pessoa cuidando, como se fosse a tempo integral.
- Pena que o Miyavi não pode trazer ela aqui. Queria ver pessoalmente. — Uruha sorriu amargo, mas de fato estava feliz pelo músico. Não chegaram a ser amigos íntimos, mas quando pertenciam à mesma companhia era normal conversarem e agora, com todas as palavras doces na carta, Takashima certamente queria agradecer pessoalmente por aquilo.
Os outros concordaram levemente ansiosos. De fato a história maluca dos últimos dez meses da vida de Miyavi havia cativado bastante e um sentimento de aproximação lhes preenchia o ser. Não que fosse hipocrisia ou mesmo interesse em algo, afinal não seria uma aproximação do dia para a noite. Como dito antes eles se conheciam da companhia e sempre estavam conversando, podia arriscar que tinham certa intimidade, e o que queriam era aprofundar essa amizade, principalmente Ruki que pegou no ar algo que talvez o próprio Kai não estivesse ciente ainda.
Não diria nada a princípio, afinal de contas não tinha cem por cento de certeza e ainda assim sabia que iniciativas deveriam ser tomadas pelos dois e não por alguém de fora. O que podia fazer, no entanto, era observar e tentar dar pequenos empurrõezinhos, como um bom amigo que era.
Todavia, seus pensamentos foram dispersos quando os quatro viram Uruha mexer na sacola, colocando cada carta dentro, assim como a embalagem do relicário e estendendo o braço como conseguia para Kai, que pegou levemente curioso pelo loiro ter colocado, teoricamente, mais coisas do que deveria.
— O Viktor disse que não era bom deixar as coisas perto de mim, então queria que tomassem conta de tudo. — Sorriu amável, a voz rouca e baixa indicando o quanto estava debilitado.
- Nós cuidaremos. — Kai sorriu se retirando do quarto junto com Reita e Ruki, aproveitando para deixar o 'casal' a sós mais um pouco.
E claro, os dois agradeceram mudamente, trocando olhares singelos e cheios de carinho, desprovidos de qualquer sentimento ruim.
— Está melhor? Fiquei preocupado quando o Viktor precisou te sedar. — Disse com sinceridade, uma das mãos acarinhando suavemente por cima das cobertas uma das pernas do amado.
- Graças à Kami. Só tenho medo de precisar comer algo e tudo acontecer de novo. — Fitou o soro instalado em seu braço, seguindo o caminho de silicone pelo qual o liquido percorria.
- E não vai por enquanto. — O médico sorriu da soleira da porta indo até Takashima e trocando a máscara por cânulas nasais. — Mas, precisará tomar o café mais tarde e jantar para que a fraqueza vá embora, certo?
Uruha assentiu, sorrindo leve. Estava cansado e com o corpo doendo, era verdade, mas seu coração estava leve depois de todas aquelas declarações, desejo de melhora, pedidos para que voltasse bem que todos o estavam esperando. Cada palavra daquela embargou o coração do loiro enchendo-o de alegria, sentindo-se querido enquanto todos aqueles pensamentos de abandono iam por água abaixo. De certa forma sabia que seus sentimentos estavam oscilando bastante e que provavelmente voltaria a ter crises, mas no momento estava embargado em felicidade, e nada estragaria aquilo.
— Impressão minha ou as cartas te deixaram feliz? — Aoi sorriu, mostrando-se aliviado por ver traços amenos no semblante do amado.
- Não é impressão Aoi, eu estou realmente feliz. — Sorriu como podia, emanando felicidade.
- Isso é ótimo, tão melhor do que te ver triste e infeliz. — Shiroyama inclinou-se até a cama, apoiando seus braços na mesma, em seguida descansando a cabeça sobre eles.
- Eu quero melhorar Aoi. Sei que ando com tantos altos e baixos, mas não quero desistir. É que às vezes parece tanto para o que posso aguentar. — Disse meio aflito, como se estivesse se confessando, exteriorizando todos aqueles sentimentos sufocantes.
- Eu posso entender meu amor. Ou pelo menos tento. — Ergueu-se rapidamente, fitando Uruha novamente. — Mas, você não está sozinho, sempre que precisar desabafar nós vamos estar aqui para te ouvir, nunca esqueça isso. — Se conteve em abraçar o amado, afinal sabia que não podia.
- Prometo do fundo da alma que vou tentar. — Sorriu, respirando lentamente pelas cânulas.
- Está cansado Uru, melhor descansar mais um pouco. Quer que eu ligue a tv?
Takashima assentiu animado e Aoi sorriu bobamente, pegando o controle e se lembrando de não colocar em nenhuma emissora que transmitisse jornal, colocando num filme estrangeiro. Por sorte o loiro pareceu se entreter, fitando a tela com bastante gosto e expectativa, deixando se levar pelo longa já começado, mas deveras interessante.
xXx
Uruha havia ido para o banho e a chefe das enfermeiras pediu que Aoi se retirasse para que fosse realizada a limpeza do local. Chamou duas enfermeiras e enquanto supervisionava o trabalho das duas notou que a fronha do travesseiro de Takashima continha muitos fios de cabelo. Suspirou pesadamente, sabia que mais uma vítima daquela doença tão agressiva seria acometida por mais um sintoma do tratamento, e como sempre uma linha de dó passou por seus olhos, suspirando e tentando manter o foco no que as duas ajudantes faziam, terminando tudo rapidamente e com maestria, se retirando do local que ficara impecável para receber o loiro novamente.
E este também não demorou a voltar, mais forte do que algumas horas atrás, fazendo um sorriso brotar nos lábios de Reita que agora ficaria consigo.
— Olha quem voltou para perturbar. — Riu, arrancando uma risada fraca do amigo.
- Você mandou os outros para casa? — Indagou, acomodando-se melhor na cama.
- Consegui com muito custo, se quer saber. O Ruki e o Kai de certa forma foram os mais fáceis. O difícil é tirar o seu namorado daqui. — Os dois riram e Uruha concordou mudo, sabia que também seria difícil se fosse ao contrário. O que podia fazer? Amava o moreno.
Conseguiu comer bem o café que lhe foi trazido à tarde, e mesmo com alguns enjôos o alimento parou em seu estômago, mas sentia-se realmente cheio e com muito custo conseguiu jantar, comendo devagar e talvez mastigando mais do que o necessário, tentando fazer caber tudo em seu estômago, que parecia ter reduzido depois do início do tratamento. As poucas coisas que comia lhe enchiam totalmente, mas com a paciência de todos ali conseguiu se alimentar direito e foi dormir bem, relativamente tranqüilo, algo que não acontecia desde que a quimioterapia foi iniciada, há menos de dez dias.
No meio da noite, entretanto, quando tudo já estava silencioso e todas as luzes possíveis estavam apagadas, Uruha despertou depois de um sonho ruim, apertando os olhos para conseguir ver direito, notando que Reita dormia tranquilamente, até confortável para quem estava numa poltrona. Parecia estar em sono profundo e não acordaria tão fácil, o que deu ao loiro a oportunidade de se sentar para poder se ajeitar melhor, o fazendo e virando levemente para pegar o travesseiro, parando no meio da ação.
Sabia que aquele momento chegaria, mas parecia ter sido tão mais rápido do que o normal, todos aqueles fios de cabelo em seu travesseiro, cobrindo-o como se fosse uma textura à parte da fronha. Era angustiante ver aquilo, e quando as lágrimas brotaram e começaram a escorrer por seu rosto, Uruha criou toda a coragem que tinha, passando levemente a mão pela cabeça, trazendo consigo um belo punhado de fios, que escorreram por seus dedos trêmulos até o colchão. Mesmo depois de tudo estar bem, de ter ficado feliz com cada ação gentil dos amigos e conhecidos, ainda assim Kouyou se via diante daquele precipício novamente, deixando as lágrimas escorrerem mudamente enquanto se deitava novamente, querendo voltar para o sonho ruim, que agora parecia muito melhor que a realidade dolorida.
xXx
Acordou melancólico novamente, mas desta vez sem se entregar. Sorriu para Reita de manhã e tomou seu café meio relaxado, tentando não vomitar. Seus pensamentos estavam a mil e ele tentava não fitar seu travesseiro, conseguindo certa distração quando o amigo colocou em outro filme, desta vez de comédia, conseguindo se animar um pouco.
Pelo menos até ‘Ele’ adentrar seu quarto um pouco depois do almoço sorrindo amavelmente. Tinha trocado com Reita e ficaria algumas horas com seu amado, que, agora, não conseguia mais esconder a dor e aflição, respirando fundo quando duas lágrimas, pesadas demais para sua consistência, rolaram por seu rosto, alarmando o moreno.
— Kou o que foi, tem alguma coisa doendo? — Praticamente correu até ele, correndo os olhos de seu rosto para o travesseiro quando este virou a cabeça, tampando os olhos com a mão. Não foi preciso mais nada. — Uru...
- Corta Aoi... — Soluçava conforme o choro ficava mais alto, o moreno agradecendo por ter fechado a porta. — Corta o meu cabelo.
As lágrimas, antes só do loiro, começaram a surgir nos olhos de Aoi. Seu coração se partiu ao ver o amado tão desesperado. Sabia que se antes estava se sentindo horrível, agora que perderia os fios mel certamente ficaria depressivo. E Yuu não queria que aquilo acontecesse, mas também não podia negar o pedido. Fitava o choro de Takashima passar de angustiante para silencioso, apesar de ele ainda soluçar visivelmente alto e com freqüência. Com muito custo saiu de perto de si, chamando uma enfermeira, pedindo tudo que precisaria. E por mais que tivesse desejado que ela demorasse, podia imaginar que havia um lugar especial para guardar aquilo justamente pelo andar ser somente de oncologia.
E como a mulher tinha experiência, arrumou a cadeira perto da porta, falando baixo com Aoi para lhe dar algumas instruções, saindo em seguida do cômodo.
— Vem Uru. — Respirou fundo, sua voz parecendo muito mais alta do que deveria devido o silêncio.
Caminhou até o amado, retirando suavemente sua mão do rosto, fitando os olhos chocolates tão vermelhos pelo choro, mesmo que não os tivesse encarado por muito tempo, não queria deixar Uruha desconfortável. E se sabia que o loiro o havia pedido para que cortasse seu cabelo, é porque queria que ele fosse o primeiro a ver.
Mas, talvez aquilo fosse à única coisa que o guistarrista conseguiu juntando coragem. Seu ser estava em frangalhos e ele se levantou com muito custo, andando junto com Aoi até a cadeira. O moreno lhe ajustando direito, prendendo a proteção azul sobre seu pescoço para que os fios não caíssem dentro de sua roupa.
Respirou fundo e pegou a tesoura, encaixando-a entre os dedos e dirigindo para os fios loiros sem vida, cortando como se fosse em câmera lenta, o som da tesoura ecoando mais alto do que deveria, cada pedacinho caindo sobre o colo e pernas do loiro que recomeçou a chorar, tentando abafar com uma das mãos, sem muito sucesso. Sentia uma dor lânguida que Aoi precisava ignorar se não pararia na mesma hora e tentaria colar os fios já cortados no lugar, tudo para ver seu amado feliz. Mas, a realidade nunca fora muito amiga em horas difíceis e em poucos minutos, tudo que restou foi um cabelo curto e falho, sem comprimento algum, que também daria adeus ao guitarrista quando este ouviu a máquina ser ligada, baixando a cabeça e se deixando levar pela dor.
E Aoi, novamente ignorando, ou pelo menos tentando, ergueu sua cabeça, deslizando o aparelho, retirando todo e qualquer vestígio de cabelo, tentando se controlar e não se deixar chorar alto.
Não que ele fosse o único.
Do lado de fora, Reita, Ruki e Kai ouviam o barulho abafado da máquina e o choro desesperado de Uruha, levando todos as mãos ao rosto, tentando se controlar e deixar o choro descer sem fazer barulho. Não era fácil e depois de Viktor e Felipe se aproximarem para entender o que estava acontecendo e ouvirem o barulho da máquina, retiraram os três dali, expressões tristes em seus rostos.
...
Uruha estava desolado. Parte de si estava no chão, sem vida, e quando o ex-loiro se viu no reflexo que um dos aparelhos fazia, fechou os olhos apertando-os, as lágrimas descendo fervorosas. Tinha até mesmo se esquecido de Aoi até sentir-se ser abraçado e um beijo ser depositado em sua cabeça, agora sem nenhum fio.
— Vai ficar tudo bem meu amor, vai ficar tudo bem, eu juro que vai. — Enxugou as lágrimas como conseguiu, queria ser forte pelo amado naquele momento.
E por mais que Uruha tenha absorvido aquelas palavras, não estava nada bem. Seus pensamentos estavam em outro mundo e lentamente levou as mãos aos botões da proteção azul, abrindo-a com a ajuda de Aoi e deixando escorrer por seu corpo, fechando os olhos quando ouviu o moreno chamar a enfermeira e esta veio trocando a roupa de cama. Tinha vergonha de si mesmo, da pessoa que havia se tornado por causa daquela doença, estava feio, horrível e desprezível, e talvez, se tivesse coragem, provavelmente mandaria Aoi embora, mesmo contra seus sentimentos, somente para privar o moreno de quem era agora.
Mas, não podia, não conseguia. E só o que fez, depois daquela experiência tão horrível, foi caminhar mudamente até sua cama, sentando-se enquanto Aoi lhe vigiava, encarando-o uma última vez com o resquício de coragem que tinha, deitando em seguida e fechando os olhos, deixando as lágrimas escorrerem enquanto tentava dormir. Era o que precisava no momento e ouviu a porta ser aberta, a voz de Viktor se fazendo presente para Aoi. O moreno saiu quase em desespero dali, encontrando os amigos na sala de espera e quase sufocando Reita quando o abraçou, deixando-se levar pela dor que havia guardado pelo tempo que permaneceu com Uruha.
Ele estava desolado, os amigos estavam desolados, o amor de sua vida estava desolado, e mais uma vez, depois de conseguir deixar Kouyou bem com sua doença, esta veio atacando mais uma vez, deixando o guitarrista ex-loiro a poucos milímetros do abismo.
Ele estava acabado, sentia-se sozinho e Viktor podia sentir aquilo emanando de si sem que qualquer palavra precisasse ser dita. Ele apenas o examinava como havia fazendo por causa da oscilação de sua saúde, sem tocar no assunto que mais lhe machucava no momento.
— Está difícil respirar só com a cânula ou não precisa da máscara? – Inquiriu baixo tentando não afetar ainda mais sua sanidade.
- Está... Está tudo... Tudo bem. Eu acho. – Inclinou um pouco o rosto, só então sentindo a dificuldade de aspirar.
Corou imediatamente, mas Viktor apenas lhe disparou um sorriso terno e um olhar humilde emanou daquela selva verde e intensa que eram seus olhos, pegando a máscara e com a ajuda de Takashima que ergueu um pouco a cabeça, trocou novamente os aparelhos de respiração artificial, recebendo como resposta de alívio o ex-loiro respirar fundo com facilidade, fazendo seu sorriso se alargar.
— Descanse Uruha. Você precisa, e eu vou ficar aqui até que melhore.
- Obri... Obrigado. – Disse abafado, fechando os olhos e tentando, por mais algumas horas, esquecer sua realidade tão cruel.
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