Notas iniciais
Contagem regressiva: 07 para o fim.
Contagem regressiva para o lemon AoiHa: 03
Oieee pessoal *-*
Eu ia vir postar ontem, mas tive uns probleminhas e não deu, então to vindo agora colocando mais alegria nessa fic qq. Vocês vão ver que ainda tem umas partes com drama e elas até vão continuar, mas vão diminuindo visivelmente ao longo dos capítulos, o drama intenso mesmo já foi -qq.
Então, sem delongas...
...Boa leitura.

Viktor vestira tão rápido o capote, a máscara e as luvas que quando se deu conta já estava na presença de Uruha, a seu lado, precisamente. O guitarrista fitava as paredes brancas e os aparelhos a seu redor com leves meneares de cabeça, atônito ao que acontecia e lhe rodeava. Tentou esboçar um sorriso quando seu olhar se encontrou com o de seus médicos, mas tudo que conseguiu foi sentir que havia algo em sua boca.

— Você não vai conseguir fazer muita coisa agora. – Disse Viktor. – Muito menos falar, você está respirando com ajuda de um tubo, tudo bem? E também está com pontos no lábio inferior.

Uruha assentiu levemente.

— Muito bem. – Viktor fitou o monitor cardíaco que mostrava batimentos estáveis. Fitou Felipe e a seguir a enfermeira da UTI que havia abacado de aparecer. – Os gases sanguíneos estão adequados para extubá-lo?

A enfermeira observou os dados na prancheta.

— Bons, a respiração também está boa.

- Ótimo. – Disse. Apesar de haver fluído em seus pulmões Uruha estava com níveis de oxigênio aceitáveis no sangue e parecia respirar bem, apesar de mostrar desconforto com o tubo endotraqueal em sua garganta. – Uruha nós vamos extubar você, cuidar de tudo que for preciso e só depois que você estiver bem e estável nós vamos contar a novidade e você vai poder esclarecer o que precisar.

A mente de Uruha começou a trabalhar aos poucos e ele começou a lembrar das coisas. Pensou sobre a tal novidade de Viktor, mas logo seus pensamentos voltaram para o envelope, as fotos, a carta... E Aoi. Sentia sua falta, queria muito lhe ver e ouvir de seus lábios que aquelas palavras eram mentira. Seus olhos percorriam a sala perdidos, mas Viktor podia ver a agonia que eles emanavam.

— Eles estão aí fora. – Disse, como se soubesse exatamente o que ele pensava. – Você esteve em coma por uma semana, desde que deu entrada aqui segunda-feira passada. Agora são dez horas de terça-feira, uma semana e um dia depois. Eles chegaram hoje de tarde e querem muito te ver.

- E Aoi-san também está aí. – Felipe completou. – E ta morrendo de vontade de entrar aqui pra falar com você.

A lágrima que desceu pelo rosto de Uruha foi a resposta que eles precisavam para se aproximarem do vidro e erguerem as persianas. Uruha virou o rosto na mesma direção e o que viu foi um amontoado de oito pessoas tentando lhe ver com sorrisos e lágrimas nos olhos. Apesar de ainda estar um pouco lento conseguiu ver alívio naqueles rostos, Ruki espremido entre Aoi e Reita, Sugizo e Kai num canto acenando para si, Raphael alto e imponente atrás de todos mandando-lhe beijos, seus pais acenando e dizendo que o amavam, apesar de não ter conseguido ouvir. Seu coração aqueceu ao ver seu rosto nas camisetas que todos usavam e outras lágrimas também caíram junto com a primeira. As pessoas que mais amava estavam ali cuidando de si e só precisava resolver algumas coisas para estar plenamente feliz.

— Eles te amam Uruha. – Seu olhar caiu em Viktor. – Enquanto você os tiver você nunca estará sozinho. – O médico sorriu.

- Viktor-san. – Disse a enfermeira perto de Uruha. – Podemos extubá-lo?

- Claro. – Respondeu, fechando as persianas.

- Enquanto fazem isso eu vou sair e falar com eles, tudo bem?

Os dois assentiram para Felipe e o viram sair porta a fora. Em seguida Viktor circulou a cama e se posicionou atrás de Uruha.

- Uruha, preciso que você fique absolutamente imóvel, certo? Assim não temos como machucar as suas pregas vocais. – Em seguida fitou a enfermeira. – Máscara pronta?

A enfermeira ofereceu a máscara plástica à Viktor. Em seguida ele retirou a fita que mantinha o tubo preso no lugar e liberou o ar da pulseira inflável que esvaziou feito um balão.

— Muito bem Uruha. Agora respire fundo e relaxe.

Viktor viu o peito de Uruha expandir. Não era médico geral, mas sabia o básico sobre o que fazia e foi puxando o tubo. Ele emergiu com um borrifo de muco enquanto Uruha tossia. Viktor acarinhou sua cabeça e ajeitou a máscara de oxigênio em seu rosto.

...

Agora ele estava em um quarto normal sem todos aqueles fios lhe prendendo, apenas com a máscara de oxigênio. Junto com ele estavam Viktor e Felipe apenas e os relógios marcavam onze horas da noite, os médicos pretendiam ser rápidos.

— Nós vamos esclarecer as coisas primeiro antes de deixarem eles entrar, tudo bem? Hoje seus pais ou outro alguém vão passar a noite aqui com você.

- Sim. – Disse fraco, ainda estava se acostumando a falar novamente.

- Primeiramente, como eu tinha dito na UTI você deu entrada na madrugada de terça passada com muita febre e um ferimento imenso no lábio, por isso levou os pontos. – Uruha assentiu. – A gente descobriu rapidamente que era infecção e começamos a tratar, mas ao mesmo tempo descobriu-se que você estava com pneumonia asiática.

- Logo... Essa. – Disse entrecortado lembrando-se de Kaoru.

- Sim. Por isso ainda tem fluídos no seu pulmão e você vai se submeter aos tratamentos de oxigenoterapia e fisioterapia novamente e vai tomar antibióticos. Os cuidados vão ser os mesmos de sempre, você e os visitantes com máscara. A infecção foi controlada nesses oito dias e agora só falta tratar melhor a pneumonia. Com você acordado vai se recuperar logo também.

- E a leucemia? – Uruha perguntou.

Os médicos sorriram.

— Viktor, a notícia é sua. Eu vou verificar como andam as coisas com a chegada 'dela'.

- Claro. – O oncologista sorriu e esperou que Felipe saísse do quarto. Depois voltou-se para Uruha. – Acho que chegou ao fim.

- Como? – Uruha perguntou. Estava confuso.

- Um pouco antes de você acordar eu estava procurando no banco de pesquisa um doador de medula para você. – Uruha assentiu. — Já tinha preparado tudo, inclusive o termo de Consentimento Informado que é um termo assinado pelos responsáveis para que a medula seja transplantada para o paciente.

- Certo. E...-

- E eu achei a sua medula. Ela vai chegar aqui de madrugada e lá para umas nove da manhã eu vou preparar você para receber o transplante que vai ser todo ministrado pelo cateter.

Uruha não conseguia acreditar, e também não sabia como reagir. Aquele sentimento que apareceu dava ao mesmo tempo a impressão de que muito tempo havia passado para chegarem ali, mas ao tempo em que parecia que as coisas tinham corrido rápido demais. Era estranho sentir aquilo, mas tão bom, um alívio que Uruha não sentia desde que terminou a última turnê e ele pôde deitar e dormir tranqüilo. Já estava doente, mas como não sabia, não estava preocupado.

Agora sabia. Esteve doente por meio ano e agora sua cura estava chegando até ele. Era uma sensação que ele não sabia descrever, tão intensa que lhe desarmava e deixava sem qualquer reação. Mas, era linda e sublime ao mesmo. E Viktor não se impressionou ou assustou ao vê-lo chorar. Ajudou-lhe a tirar a máscara e sentar com cuidado na cama e lhe sorriu complacente, sentando-se perto dele e deixando que lhe confiasse aquele choro... Aquele... Alívio. Era o que o loiro via ali. Alívio. A sensação boa que atingia diretamente ao coração maculado do Takashima, mas que ignorava todas as dores anteriores e enchia tudo com alegria. Estava tão feliz que abraçou seu médico com vontade, apoiando o rosto no ombro estreito dele.

— Você... Você salvou a minha vida. — Viktor sorriu. — Obrigado.

- Isso foi gentil. — Disse o médico. — Mas, foi você, a sua coragem e a vontade de não desistir que te trouxeram até aqui agora. — Separaram-se e Viktor o fitou nos olhos. — Você é forte Uruha. Aguentou inúmeras coisas e ainda aguenta agora essa turnê e mesmo que se sinta machucado não desiste e isso é admirável. Mas, você tornou a vida desse médico mais feliz por não ter sucumbido a leucemia. Eu quem agradeço por isso.

- Mas, eu não teria conseguido sem apoio... Sem amor. — Enxugou as lágrimas e seu semblante ficou triste. — Ao menos conseguimos fazer dois primos se encontrarem.

- É verdade, o Felipe ficou feliz com isso.

- O Reita com certeza ficou também, mas ainda não falei com ele sobre isso. O que eu mais quero agora e voltar a ter um rumo certo e me curar de uma vez de tudo.

- E você vai. Além do transplante vai se curar da pneumonia, eu vou garantir que isso aconteça.

- E vai me salvar de novo. — Uruha sorriu.

- Se pensa assim então eu vou realmente. — Viktor devolveu o sorriso. — Mas, por essa noite que tal alguém salvar o seu coração e ficar aqui com você?

- Isso seria ótimo.

Viktor assentiu mudamente e saiu. A área em que Uruha estava era especialmente para pacientes que estavam submetidos ao transplante ou já o haviam realizado, um local em muitas características diferente do restante do hospital e que também tinha sala de espera própria, aonde o oncologista foi encontrar Felipe e todos os outros. Apenas naquele local não era necessário que os acompanhantes e visitantes usassem máscara, nos corredores e principalmente dentro dos quartos era uma norma rígida que deveria ser seguida à risca. Os nove olharam para o loiro.

— Como ele está? — Perguntou Reita.

- Está bem. — Viktor disse enquanto tentava esquentar as mãos dentro dos bolsos do jaleco. — E eu queria saber quem vai ficar com ele para dispensar os outros. Vocês precisam descansar decentemente.

- Akemi-san deveria ficar. — Disse Aoi. — Tudo bem que seria melhor descansar em casa, mas você e Takashi-san são os pais e sentiram tanto, deveriam ficar.

- Já eu acho que você deveria ficar Aoi-san. — Disse a Suzuki acarinhando o rosto cansado do genro. — Não seria nenhuma ofensa.

- Nem a mim. — Disse Takashi. Aoi pareceu ponderar sobre o assunto. Viktor o fitou.

- Vamos? Você pode descansar lá com ele, vai ter sempre alguém vigiando.

Aoi sentia-se envergonhado com aquilo. Mesmo que estivesse claro que a culpa da recaída de Uruha não havia sido dele, não era fácil se lembrar que o Takashima havia dado entrada na emergência por ter passado mal com uma carta que supostamente tinha sido escrita por ele. Sentia-se mal com esse pensamento, porque no momento em que lia Uruha achou que ele tinha feito aquilo. E doía. Não por achar que o ex-loiro não confiava em si, mas por não ter pensado nada errado. Apesar de que Aoi também se sentia mal com esse pensamento egoísta, mas não disse nada. Calado novamente sorriu fechado para Viktor e se levantou, o acompanhando enquanto Felipe dispensava os outros. Seus passos pareciam macular o chão tão branco e que refletia nitidamente as coisas. Viktor podia sentir sua tristeza e tensão, mas nada disse. Apenas lhe entregou a máscara e disse que poderia dormir sem problemas que Uruha seria vigiado.

Ao encará-lo tão de perto Aoi se sentiu tentado a tocar aquele rosto sereno. Ele dormia profundamente e sua respiração era cadenciada e leve. Viktor aproveitou para lhe cobrir devidamente e saiu do quarto, deixando-os a sós. E ali Aoi se deixou cair. Deixou que todas as defesas que possuía fossem para o chão e chorou tudo que estava preso em sua garganta, tudo que ele havia sentido desde que descobriu o que havia acontecido com Uruha, desde que viu as fotos, a carta... Não se importou com as imagens, talvez ficasse inseguro, mas não diria nada do que estava escrito naqueles papéis. Era uma sensação de nojo que lhe tomava, sentia asco de si mesmo e estava tão cansado, tão perdido. Sua cabeça latejava, seu corpo todo doía por causa do show mal descansado. Queria estar em seu apartamento, beijando e abraçando Uruha, despreocupado. Mas, estava em uma situação que o fazia sentir tão baixo e imundo que era como se fosse o real culpado.

Queria poder tocar em uruha, dizer que o amava e sentia muito tudo o que estava acontecendo, mas não podia. Só o que estava ao próprio alcance era controlar o pranto para não acordá-lo, o que não impediu de fitá-lo e desejar lhe tocar, proteger e pedir perdão. Seu nome estava marcado naquele papel que trouxe tanta dor e um coma para Uruha. Em vez de ajudá-lo sentia-se como se fosse apenas uma pedra em seu caminho, tão grande que tinha vontade de acordar Uruha e perguntar se ele o perdoava, se as coisas estavam bem e continuavam iguais. Mas, tinha senso e sabia que seria imprudente. Talvez fosse melhor guardar aquela dor, aquele sentimento ruim para si e aceitar que deveria deixá-lo para trás mesmo que parecesse algo quase impossível. Estava muito triste, mas confortável em deixar apenas à noite e aquele quarto como testemunhas de sua dor. Que ficassem guardadas para si, não seria a primeira vez. O que pôde fazer para tentar amenizar alguma coisa foi murmurar que Uruha o perdoasse antes de cair em um sono profundo e dolorido.

...

A primeira coisa a atravessar os olhos de Uruha ao acordar naquela manhã fria de quarta-feira lhe fez sorrir e se emocionar tanto que ele pensou que iria chorar tão rápido quanto havia acordado. Seus olhos focaram Aoi enquanto dormia. Em seu rosto uma expressão serena, mas que tinha uma linha de tristeza como ele pôde notar. Uma lágrima havia parado na metade do caminho e ali permaneceu por toda a madrugada. Uruha imaginou o que poderia ter acontecido para Aoi chorar e gentilmente passou o dedo na gotícula, limpando o rosto alvo. Só então notou a camiseta com seu rosto e sorriu ainda mais, contente com o que via. Sentiu-se amado e querido, tão diferente daquele Uruha abandonado e triste que ficou no hospital por tanto tempo. Agora se via como o mesmo de antes, mas com mudanças que vieram junto com a doença e que eram inevitáveis. Afora isso viu também os cabelos ainda modelados, apesar de já estarem perdendo o formato, as roupas que lembravam a shows. Então teve certeza que era verdade, a turnê havia começado.

Apesar disso não queria sofrer por algo que havia decidido deixar de lado. Se eles não haviam dito era porque sabiam que lhe faria mal, mesmo que tivesse mostrado interesse, então era um ponto que não queria se preocupar. Estava mais curioso em tentar descobrir porque Aoi havia chorado. Não podia ter sido por livre e espontânea vontade, algo tinha que ter acontecido. Mas, como não imaginava o que poderia ter sido e Aoi ainda dormia, resolveu descansar um pouco mais, acomodando-se na cama e puxando as cobertas mais para cima. Mal terminou de se arrumar viu a porta ser aberta e Viktor a atravessar.

— Bom dia. — Disse levemente sonolento. Não passava das oito da manhã. — Acordou faz tempo?

- Bom dia. — Uruha respondeu-lhe. — Há alguns minutos só.

- Quer que já traga seu café? — Perguntou fitando a papeleta ao pé da cama. Ele próprio mal havia comido, só tomara um copo de chocolate quente e já estava trabalhando. — Podemos conversar quando estiver bem disposto.

- Acho que ainda não. Você já tomou o seu? É tão cedo ainda.

- Mais ou menos. — Riu baixo de si mesmo. — Só um copo de chocolate e que com certeza vai fazer o Felipe querer me matar.

- Você iria querer me matar se eu não comesse, também vou fazer isso com você.

- Não vai não. — Riu um pouco mais alto, mas respeitando Aoi. — Eu vou cuidar de você, a sua medula chegou tem duas horas e eu prefiro mil vezes ver um paciente feliz do que tomar café da manhã. Isso é irrelevante.

- Mesmo? — Perguntou com felicidade, apesar de não ter esquecido de dar puxões de orelha no médico por ter dito que não comeria. — Eu estou praticamente curado?

- Ainda tem aquele tratamento mais brando que lhe falei no começo, mas sim, é praticamente a sua cura. E como você vai dar adeus para a quimioterapia em mais algum tempo seus pêlos vão começar a crescer novamente. Mais uma semana talvez e você comece a notar isso.

Uruha estava absurdamente feliz. Adormeceu com traços de felicidade e agora acordara sabendo que não era um sonho, estava sim se curando de tudo. E como ficava feliz com tal notícia. Havia passado por tanta coisa, tantos problemas, todas as dores do tratamento, desde o mielograma até as dores de cabeça, a dor no próprio lábio ao mordê-lo, na região onde o cateter estava inserido, na barriga após os vômitos... E agora tudo aquilo estar no fim era uma vitória que lhe satisfazia tanto e enchia seu coração de alegria. Já podia sentir-se cruzando a linha de chegada.

...

Quando Aoi acordou a primeira coisa que viu foi Uruha com os olhos voltados para frente e sentado na cama, reclamando um pouco dos pontos em seu lábio inferior. A bandeja da cama obstruía suas pernas e sobre ela havia um prato, como conseguia ver, e um copo quase vazio. Movendo apenas os olhos notou como o tempo estava ruim. O céu continuava com sua tonalidade cinza que desde o começo do inverno se mantinha daquele jeito. Chuvas e nevascas também eram comuns, mas naquele momento nada daquilo estava presente. Era um dia limpo, apesar do nublado e parecia firme quanto a se manter daquela forma. Todavia Aoi sentiu seu pescoço reclamar por ter dormido com ele inclinado. Gemeu baixinho e se mexeu na cadeira, levando a mão até a lateral dolorida e massageou, endireitando a cabeça aos poucos.

Só então Uruha notou a movimentação e virou o rosto, encontrando Aoi com uma careta de dor. Engoliu seco enquanto o moreno não lhe fitava e se ajeitava melhor na cadeira, mas não foi preciso esperar muito para que seus olhos se encontrassem e se pregassem um ao outro, num diálogo mudo cheio de dores e arrependimentos que nem deveriam existir, principalmente da parte de Aoi. Ao se ver sozinho e tão próximo de Uruha, aquela dor que tanto sentiu na madrugada agora aflorava novamente, junto ao sentimento de culpa que Uruha não conseguia compreender. Ele queria chorar de emoção por ter Aoi tão perto a si, mas o que via naquelas esferas negras nada mais era do que dor e abismo, quase podia sentir agonia ao encarar os orbes por tempo demais. Não conseguia entender bem, mas não diminuiu a felicidade que lhe invadia ao ter seu moreno de volta.

— Aoi... — Conseguiu sorrir finalmente, mas seu sorriso deu lugar a uma expressão preocupada ao ver Aoi morder o lábio e deixar que as lágrimas escorressem novamente de uma forma tão 'fácil' que junto com a preocupação veio a surpresa.

- Perdão... — Disse com uma das mãos na frente dos lábios. Com um soluço mais alto que assustou Uruha, baixou a cabeça para tentar controlar o próprio pranto.

- Aoi o que foi? — Indagou confuso tentando erguer o rosto do moreno, que se recusava. — Porque você ta assim?

- Porque você... Você adoeceu de novo. — Soluçou novamente. — Por minha culpa.

Sentia-se tão perdido e desolado que poderia se quebrar em dois de tão frágil que estava. Mesmo que não tivesse sido ele a mandar a carta, mesmo que não tivesse ficado com raiva de Raphael ou do próprio Uruha, simplesmente não conseguia não sofrer com seu nome colocado naquela carta, acompanhado de palavras tão duras. Imaginar-se falando tais coisas para Uruha lhe machucava tanto que poderia levá-lo à loucura. Um abismo imenso abria-se em seu coração.

— Aoi você não fez nada. — Agora Uruha o entendia e sabia por que ele havia chorando e porque provavelmente chorou à noite. E ao se lembrar da carta e daquelas palavras tão duras e ver o real Shiroyama Yuu, notar que ainda o amava, por mais egoísmo que parecesse Uruha se sentiu feliz de ver que Aoi ainda o amava. Mas, lhe machucava vê-lo daquela maneira. — Ninguém nunca vai poder dizer que é culpa sua. Alguém fez isso?

Aoi negou. — Não. Ninguém disse nada, mas... Mas, eu me imaginei escrevendo aquilo, você se machucou por causa do meu nome, isso é tão ruim. Até imaginar isso dói... Dói muito.

- Doeu em mim também Aoi, mas não é culpa sua, não fique triste por causa de uma coisa que você nem imaginava que tinha acontecido. Você devia estar longe daqui quando aconteceu.

- Naquela maldita turnê. — Disse amargurado. — Se eu pudesse largar tudo isso...

- Eu sei que faria, eu conheço você. — Sorriu fechado para o moreno. — Ficaria arrependido, mas eu sei que largaria tudo para ficar comigo.

- E tentaria não ficar arrependido. Seria muito bom ficar com você até que tudo melhorasse. Eu fiquei tão feliz quando o Viktor falou da medula e o Felipe de você. Mas, também senti muita culpa, não queria ficar aqui, me senti tão sujo.

- E ainda sente, dá pra ver. — Uruha conseguiu fazer Aoi olhar para si. — Mas, não se sinta culpado por algo tão imundo Aoi, você não seria capaz de fazer algo tão ruim, e que pareça vaidade, mas principalmente comigo.

- De jeito nenhum. — Negou veemente. — Eu morreria se te visse chorar por minha culpa. Achei que estava tão bem aqui.

- E eu estava Aoi, tão feliz. No dia que eu recebi a carta eu ia ver um filme com o pai e a mãe, mas tudo desmoronou tão rápido, eu mal conseguia ficar em pé.

- Eu queria muito estar aqui com você e dizer que cada palavra era mentira.

- E eu ouviria com vontade, tudo aqui dentro tinha morrido. Achei que elas tinham feito de novo, tinham me destruído mais uma vez, mas não, elas não me venceram, não venceram a gente Aoi, o nosso amor. — Segurou a mão do moreno que conseguiu lhe sorrir. Algumas lágrimas ainda escapavam-lhe pelos olhos.

- Espero que ninguém mais tente, a gente mal teve tempo de se amar direito. — Disse, enxugando o rosto. — Mas, estou feliz que está bem agora.

- E se permitirem, pretendo continuar feliz de novo como eu era antes... Aquele Uruha que dividiu o quarto da última turnê com você.

- Aquele Uruha faz tanta falta. — Aoi sorriu. Uruha retribuiu. — O Uruha sorridente e feliz. E que ficou preso comigo no trânsito.

Uruha riu. — E que provavelmente vai dançar para você.

- Agora eu gostei. — Disse com malícia. — E vou cobrar.

- Mas, eu vou dançar de peruca.

- Como quiser, desde que não esqueça essas palavras.

- Só se você não esquecer que não tem culpa do que aconteceu. — Disse sério.

Aoi suspirou pesado. — Eu prometo tentar, de verdade.

Uruha lhe sorriu aliviado. Ainda via aquela dor contida nos olhos de Aoi, mas sabia que ele iria se esforçar para melhorar, que entenderia e faria o próprio coração entender que a culpa do que aconteceu não era sua. Por enquanto estavam bem, felizes de estarem juntos um do outro, e claro que foi o que os outros notaram quando chegaram todos de uma vez, devidamente protegidos, claro. Nenhum deles podia abraçar Uruha, mas se contentaram em vê-lo de longe. Raphael, claro, também estava. E como sempre, impecável. Era parte da rotina do loiro.

— Te meti numa encrenca, sinto muito.

- Você não é o único que se sentiu culpado por algo que não deveria. — Uruha riu. — Você e o Aoi merecem uns tapas.

- E podiam estapear a si mesmos. — Viktor sugeriu, assim que apareceu com alguns enfermeiros que traziam aparelhos. Agradeceu aos homens que ajeitaram cada um em seu lugar e se retiraram rapidamente. Em seguida Felipe apareceu. — Quem sabe uma luta? Quem ganhar fica com o Uruha que seria o prêmio.

- Oh, algo me diz que isso não foi uma boa sugestão. — Disse Felipe.

Os ali presentes riram enquanto os médicos ligavam o monitor cardíaco em Uruha. Felipe deixou a parte do cateter novamente em primeiro plano, descoberta.

— É talvez não fosse mesmo uma boa ideia. — Disse o oncologista. — Mas, sério agora, só posso deixar duas pessoas aqui, decidam quem será, por favor, porque eu vou trazer a medula daqui a pouco.

Enquanto saíram deixaram todos decidindo. Aoi e Uruha pareciam estar em um mundo particular e Raphael sorriu triste ao notar como ambos se entendiam tão bem. Sentia que ir embora era necessário porque era a melhor maneira de conseguir superar aquilo, mesmo depois de onze anos.

Por fim decidiram que Akemi e Takashi ficariam. Reita teve que arrancar Aoi do quarto e Raphael mandou um beijo de longe para Uruha e foi embora primeiro. Antes dos outros irem, Kai pediu que ficassem Sugizo e ele para conversarem rapidamente com Uruha. Com isso o guitarrista teve contato com o ídolo, mas descobriu que ele e Kai também iriam na frente, por motivos diferentes. Seu líder precisava resolver algumas coisas na companhia e uma das filhas de Sugizo estava doente e ele também precisaria ir por isso se despediram de Uruha e também foram na frente, já estavam com as próprias malas e pegariam um táxi até a rodoviária.

Depois disso Reita e Ruki disseram que levariam Aoi para casa para que pudesse tomar um banho, comer e descansar e os pais do Suzuki permaneceram no quarto com o outro filho. Antes de irem embora, no entanto, os três viram Viktor e Felipe passarem com um conteúdo e sorriram antes de saírem do hospital para a casa dos pais de Reita. Ali estava a cura de Uruha.

— Bem, vamos aos avisos que são muitos. — Disse enquanto Felipe começava a arrumar Uruha. — Primeiro que o transplante em si é algo muito simples, em duas horas no máximo você já vai ter recebido a medula. Normalmente as pessoas podem, seguindo cuidados, ir embora e retomar as atividades normais depois de algum tempo. Mas, você como está com pneumonia vai ficar aqui ainda tratando. Mas, também se não tivesse eu não ia te mandar embora.

- Não depois de uma infecção e uma passagem por um coma. — Felipe completou.

- Exato. Os pais podem assistir ao transplante e em todos os casos é bom, pois, tem aqueles efeitos colaterais que você tanto ama.

- AAHH lá vem você com seus efeitos colaterais. — Uruha fez um bico. Viktor riu.

- Pois é. — Disse. — E alguns você conhece.

- Vamos a eles então. — Disse o Takashima.

- Primeiramente tenho de avisar que além dos efeitos tem também as verificações. — Viktor estatuou. — O que será verificado são os sinais vitais, que são a temperatura, os batimentos cardíacos, pressão, respiração, pulsos e pressão arterial.

- E os sintomas são...? — Indagou Takashi.

- Náuseas, vômitos... — Viktor riu no momento em que Uruha reclamou e girou os olhos. — sensação de calor, desconforto na garganta, tosse seca, formigamento. Qualquer um deles ou outro diferente você tem que me avisar.

- Certo. — Respondeu. — Parece ser bem tranquilo, apesar desses efeitos todos. — Sorriu.

- E é. — Disse Viktor. — E depois disso, passado algum tempo você vai começar a tratar a pneumonia, tudo bem?

Uruha fez que 'sim' com a cabeça.

— Viktor, estamos prontos aqui. — Felipe estatuou

O oncologista arguiu levemente e pegou a caixa térmica que levava a bolsa da medula. Uruha respirou fundo e viu de dentro da caixa Viktor erguer uma bolsa de soro muito maior do que o normal inclusive em termos de largura contendo até a borda sangue e medula. Entregou para Felipe que prendeu a bolsa no apoio do soro e retirou uma outra bolsa mais fina e menor com um líquido de cor amarelo forte. Uruha fitou a segunda bolsa.

— Duas coisas? — Perguntou.

- Sim, necessárias. — Viktor sorriu-lhe enquanto Felipe ajeitava as duas e enfiava a agulha no tubo do cateter. — É o líquido amarelo que vai causar os sintomas, mas ele é necessário, tudo bem?

Uruha não disse nada, mas havia entendido. Seus olhos estavam focados nas duas bolsas penduradas perto de sua cama e nos líquidos que desciam pelo fino e flexível tubo até o cateter. O da medula, vermelho, era o mais forte e se destacava enquanto descia pelo canudo. O olhar do Takashima durou até que o sangue entrasse por sua pele e ele não pudesse mais vê-lo. Naquele momento fora como se um arrepio tivesse atravessado seu corpo, mas não aquele que Viktor falou, e sim um que lhe mostrava que as coisas iam ficar bem finalmente e que ele não precisava se preocupar, sua cura estava finalmente perto de si, ao ponto de podê-la tocar com os dedos. Tanto ele quanto seus pais e os médicos sabiam que aquelas duas horas seriam decisivas, e se tivessem sorte... Felizes.

Já na casa de Reita, Ruki dormia tranquilamente em seu antigo quarto enquanto ele permanecia com Aoi na cozinha. O moreno já havia tomado banho, estava com os cabelos lavados e rentes ao couro cabeludo e usava uma roupa mais confortável para dormir. Havia chorado durante o banho novamente e seus olhos estavam um pouco inchados, mas Reita não precisou perguntar, sabia exatamente como o amigo se sentia, mas queria estar com ele para que comesse e fosse descansar mesmo.

— Melhor?

- Mais ou menos. — Disse com a voz fraca. Estava tão cansado que ficara até mesmo pálido. — Você sabe o que ta acontecendo.

- Admito que não tinha pensado no começo, mas agora está praticamente explícito. — Entrelaçou os próprios dedos sobre a mesa. — Aoi, você não pode estar falando sério quando diz que se culpa. Cara, aquelas malditas que deveriam se sentir assim.

- Eu sei cara, sei tudo isso, mas eu não consigo pensar diferente e to começando a me irritar demais com isso.

- Então se irrite, odeie isso que ta sentindo e culpe quem precisa ser culpado. — Apontou para o prato. — E coma, você precisa ficar bom por si mesmo e por ele, não vá sucumbir cara, a gente olha nos olhos do Uruha e vê que ele se segura muito por você.

Aoi levou uma porção de comida à boca. — Antes de isso tudo acontecer — Disse ao engolir. — ele disse que tinha medo de perder o lugar dele ao meu lado. Sabe, eu nunca pensei em algo assim, abandonar ele, dizer coisas tão duras. Me deu um vazio ao ler aquela carta, não teve como não me imaginar escrevendo.

- Eu também me imaginaria escrevendo se a situação fosse comigo e com o Ruki, mas cara, não se culpe para sempre, você não merece isso. Aquelas duas pensaram em destruir só o Uruha, se imaginassem que você também foi afetado seria como uma vitória para elas.

- Eu não quero perdê-lo Reita. — Pousou os hashis em sua base e engoliu seco. — Nenhum de vocês me esticou o dedo, mas não tem como não me imaginar como vilão. Eu me senti nu quando li aquilo, quando vi o meu nome naquilo.

- Sei que não, e sei também que você não é mal, então não culpe a si mesmo por isso.

- Eu vou tentar, prometo. — Levou uma das mãos à testa, mostrando cansaço. — E vou tentar comer tudo.

- Não precisa forçar, mas se conseguir seria bom.

Aoi anuiu e demorou um pouco, mas comeu tudo que havia em seu prato. Reita esperou pacientemente e lhe sorriu condescendente, influenciando-o a continuar que estava indo bem. Mesmo não tendo declarado foi um apoio maior e apesar de ainda abatido Aoi conseguiu sorrir para o amigo ao se ver no quarto de Uruha e o abraçou, agradecendo por tudo que estava fazendo. Reita também lhe devolveu o sorriso, e ainda o esperou que se deitasse antes de sair e fechar a porta. Os pensamentos das lembranças criadas naquele quarto voltaram a mente de Aoi mesmo que involuntariamente, mas não se permitira chorar. Enquanto seu amado estava lutando com todas as forças para se curar ele não queria ser o que apenas choraria como um ser indefeso e digno de pena. Decidiu parar com aquilo e se ajeitou da melhor forma possível na cama de Uruha, arrumando-se com os cobertores da maneira mais confortável que conseguia.

Adormeceu alguns minutos depois, tão cansado que suas pálpebras se fecharam e ele não soube nem dizer quando.

Notas finais
Melka ♥;
ninfanegra ♥;
Dayzeh Natsumi ♥;
Tsuki Senshi ♥;
AlineVKei ♥;
Saa Chan ♥;
Takashima Yuumi ♥;
ChunLi W Malfoy ♥;
Sooky ♥;
Ringo-Sama ♥;
Lyncis ♥;
Por vocês a You Are ainda continua ♥