Notas iniciais
Então pessoas, aqui fala a 2ª beta da Karol, ou sei lá o que eu sou, enfim. Ela pediu pra que postar o capítulo pra ela, devido a alguns contratempos que ela teve, mas logo ela estará de volta ok? Fiquem aí com mais um capítulo de YMEL.
Bjus ^^

[Hyukjae POV]


Embora eu ainda estivesse tentando processar o que a voz exausta e ofegante de Donghae acabara de me informar, eram os seus olhos que me perturbavam naquele momento. Mesmo na penumbra eu podia ver. Eram receosos, vacilantes e, no entanto, não expressavam qualquer dúvida da veridicidade de suas palavras. Este era o que exatamente impedia qualquer avanço de meus neurônios na busca da resposta lógica para mais este disparate. De nada adiantaria perguntar o que ele queria dizer com a frase anterior, porque eu via através de sua alma, que o significado dela era literalmente o que suas palavras carregavam.

Deixei que meu fôlego preso em meus pulmões escapasse em um só suspiro e permaneci fitando-o com a boca inconscientemente escancarada em um oval atônito. A voz me faltava, mesmo que minha mente formulasse e reformulasse milhões de perguntas a serem feitas.

– Viu? Foi por isso que eu evitei este assunto por tanto tempo – Donghae quebrou o silêncio depois de um vasto tempo talvez esperando alguma reação minha. – Aposto que se você não tivesse visto com seus próprios olhos – e eu agora tenho mais do que certeza que você realmente viu o que aconteceu com os policiais – estaria neste momento achando que eu estou louco...

Minha pele eriçou-se à menor lembrança da cena. Vi Donghae sorrir ao ter sua confirmação de que eu, de fato, presenciei a ocorrência. Sob seu olhar delator, me senti tomado por uma vergonha tímida, como uma criança que é pega após ouvir a conversa dos pais por detrás da porta.

– Usou a passagem do salão de música, não foi? – assenti escondendo um sorriso bobo – Foi o que eu imaginei – riu.

Ignorei a caçoada.

– Bem... – pigarreei, na tentativa de voltarmos ao assunto original, aproveitando para impedir que minhas indagações se atropelassem umas nas outras, e já procurando uma que parecesse coerente o suficiente diante da situação – Confesso Hae, que já havia passado esta possibilidade pela minha cabeça, mas...

– Imaginou que era loucura.

– Obviamente – Minha língua me traiu antes que me desse conta. Porém, antecipando uma reação ultrajada dele, rapidamente procurei estabelecer-me em algum ponto que me parecesse seguro o bastante no meio daquela tempestade toda. – Digo... Não é que eu esteja chamando você ou sua família de loucos, Donghae, mas venhamos e convenhamos...

– Não precisa se explicar, Hyukkie – deteve-me sorrindo fracamente – Eu bem sei o quão maluco isso tudo parece ser. Só que, infelizmente, é a mais pura verdade.

Engoli em seco. Não conseguia imaginar que a mais insana de minhas explicações para todo aquele mistério poderia no fim ter algum fundamento. Aliás, mesmo naquele momento, ouvindo-o me contando o que eu no fundo já sabia, ainda não conseguia encontrar a consistência daquela história toda. E como ele próprio acabara de me esfregar na cara, eu somente estava considerando mudar o rumo de minhas investigações por aquele tortuoso caminho porque, enfim, vira a evidencia mais concreta do fato até ali com os meus próprios olhos.

Entretanto, minha veia racional ainda insistia em duvidar de suas palavras. Anos rodeado de dezenas de céticos me fizeram aprender a descartar toda explicação baseada em fenômenos sobrenaturais ou folclore para quaisquer eventualidades dentro da realidade humana. Se a ciência não pode explicar é porque ainda não é avançada o bastante para isso. Embora eu não concordasse muito com o dogma em si, a questão era que a minha fobia de assuntos envolvidos com o além me instigava a acatar a regra cegamente. Por isso, eu tinha de indagar. Do contrário, não poderia mais ser considerado um cientista em suas plenas faculdades mentais.

Ou melhor, não poderia ser considerado eu mesmo.

– Tudo bem, Hae. Eu acredito na sua história, mas se me permite perguntar... Como vocês têm tanta certeza que a explicação é essa?

– Você por acaso conseguiu encontrar outra melhor ou mais coerente no meio da névoa em que está? – disparou sentando-se à minha frente, o lençol que o cobria escorregando-lhe pelo peito nu. – Não adianta Hyukjae. Não importa no que você vai pensar, sempre acabará chegando a esta mesma conclusão. Mas se faz tanta questão de saber... Ele mesmo nos disse.

– Tá bom, tá bom... E com quantos anos ele disse isso a vocês?

– Nove ou dez anos.

Uma saída me surgiu de repente, mas para confirmá-la teria de enfrentar o inevitável sentimento de ultraje que nasceria em Donghae. Não havia jeito. Se queria entender a tudo, eu tinha de arriscar.

– E não há a possibilidade dele estar brincando quando lhes disse isso?

– Acha que não investigaríamos o caso, Hyukjae? Como eu acabei de dizer, não adianta gastar neurônios com isso. Toda essa nuvem de argumentos que deve estar te confundindo neste momento, já confundiu a mim, meu pai e meu irmão há muitos anos antes. E por mais que tentássemos encontrar qualquer explicação plausível para todas as coisas estranhas que envolviam Junsu, sempre acabávamos na mais demente de todas... É fato confirmado, Hyukjae. Ele pode ver a Morte.

Saída destruída, só me restava voltar pelo caminho no qual eu chegara até ali. Suspirei profundamente, certo de que não tinha outra solução que senão mergulhar de cabeça naquela correnteza gélida e nociva para a sanidade de qualquer ser humano.

– Você ganhou, Hae.

– Sabia que não seria diferente. Sei o quanto deve estar exausto depois de tanto tempo tentando explicar as suas próprias idéias... – confessou, seus dedos lentamente contornando a linha de meu rosto numa carícia confortante.

– Há quanto tempo ele pode ver a morte das pessoas? – perguntei embalado pela leveza no qual seus dígitos me tocavam.

– Desde que nasceu, acho. E o que ele pode ver não é a morte das pessoas, Hyukkie. É a Morte propriamente dita.

– Você diz... O espírito da Morte? – desviei-me de si, pasmo.

– O Espírito, o Anjo, o Embaixador, o Ceifeiro, o Deus... Ele mesmo. A Morte em pessoa – deu de ombros se recostando na cabeceira da cama. – Embora os mais antigos o chamem de Azrael, Junsu diz que o nome dele é impronunciável em qualquer língua humana, por isso ele se autonomeia de Tod. Já meu irmãozinho prefere chamá-lo de tio Tod.

– Tio?

– Isso mesmo. Parece que os dois são bem íntimos. Se conhecem desde que Junsu se lembra.

– Isso soa perigoso...

– Muito – assentiu – E no entanto, ele sempre se recusou a se afastar deste Tod, não importando o quanto a gente insistisse ou tentasse assustá-lo com histórias. Para ele, este cara é como fosse um segundo pai. Insultá-lo de qualquer forma é como insultar a si próprio.

– Como vocês começaram a desconfiar? – aproximei-me mais de si e, copiando sua ação, deixei que minhas costas procurassem apoio ao seu lado.

Donghae estreitou os olhos como se puxasse de suas memórias as ditas lembranças questionadas. Após alguns segundos, pareceu encontrar a resposta.

– Bem, como eu te disse antes, houveram vários fatos estranhos que rodeavam Junsu enquanto era pequeno – começou – A começar pelo fato dele nunca ter se assustado diante de uma morte ou um velório. Sabe como é, vivemos em uma igreja, velórios fazem parte de nossa rotina de trabalho. Certo que depois de um tempo vendo isso, você acaba se costumando com o embrulho no estômago que sempre surge ou a vontade de chorar junto com os familiares, mas a verdade é que mesmo depois de tantos velórios, no começo todos nós acabamos nos abalando com a história de vida da família ou do próprio defunto. Com Junsu nunca foi desse jeito.

– Como assim? – indaguei meio nauseado pela conversa. Lidar com os mortos nunca fora meu forte.

– Para ele a morte não era motivo para tanto medo ou desespero. Ao invés de fugir dos eventos, sempre desobedecia a ordem deixada para que se mantivesse longe, e se escondia ali mesmo onde você ficou durante toda a confusão ontem, após a portinhola da sala de música. Era curioso. Passava a cerimônia inteira somente observando a reação das pessoas lá embaixo. Era lá onde ele desvendava as mentiras, intrigas, hipocrisias de cada família. Quando tudo acabava, ele vinha a mim e contava absolutamente tudo o que descobrira com um sorriso satisfeito nos lábios.

– Céus...

Aquela fora a única palavra que eu encontrara para transmitir todo um misto de pensamentos incertos e assustados. Mal consegui começar a digerir aquela parte da história, Donghae se adiantou a continuá-la, deixando-me ainda mais inquieto.

– Depois, tivemos os pesadelos.

– Pesadelos?

– Não lembro quando foi que começaram. Mas lembro que aos quatro, cinco anos ele já os tinha. O que se passava neles era sempre a mesma história, às vezes em ordem diferente, com intensidades de realidade diferentes, mas no fim, as mesmas cenas.

– Que cenas eram essas? – comecei a me interessar pelo fato. Pela primeira vez, algo com alguma base, explicação ou tratamento dentro da nossa realidade aparecia.

– Não lembro direito das primeiras... Mas sei que a última cena, não importasse em que ordem viessem as outras, era sempre um incêndio. Três pessoas – dois homens e uma mulher – de identidade desconhecida por ele apareciam, em seguida a moça ia embora e os dois que restavam eram mortos a tiros dentro de um lugar parecido com um celeiro e, logo depois, tudo era consumido pelas chamas.

Ponderei algumas possibilidades de esclarecimento do fato. As mais lógicas dentro da medicina humana era que o pequeno tenha visto a cena ou o ambiente em algum lugar. Não seria possível uma criança desenvolver um episódio destes na mente de modo a perturbá-lo tão frequentemente sem conhecer os elementos envolvidos. Um trauma ou o vislumbre de um filme, livro... Algo que lhe desse o conhecimento do lugar e das pessoas incluídas na tragédia. Afinal, ele não poderia criar algo usando nada como base.

– Ele pode ter se impressionado com a cena em algum canto... Já presenciaram algum incêndio quando eram pequenos?

– Nunca. E também tenho certeza que ele não viu isso em filme, drama, ou qualquer coisa assim. Papai sempre foi muito crítico com as coisas da televisão. Quando deixava a gente assistir era sempre acompanhado dele e sempre o que ele permitia. Assim como os livros que líamos – suspirou.

Ao notar sua expressão franzida em claro desgosto por conta das lembranças retornadas, peguei-me analisando o quanto que toda aquela privação de sentidos pode ter influenciado na personalidade das três crianças. Eles cresceram presos, acorrentados às leis de proteção de seu pai e da Igreja. Criados para serem corretos e puros em todos os sentidos e darem continuidade à missão eclesiástica do tutor.

No entanto, a natureza humana é ilícita em sua essência mais profunda. Rebelde, evasiva, hipócrita. Natural que após anos de reclusão, se sentindo injustiçado, desconfiados das normas que tinham de seguir e indo em frente com o instinto insurrecto no qual eram dotados desde o nascimento, eles tenham passado por alguma crise de identidade e suas almas tenham lutado – mesmo que inconscientemente – para se libertarem, se defenderem com as armas que tinham.

Assim, Jaejoong desenvolveu uma imagem infantil para contrastar com o tamanho de suas responsabilidades adultas; Donghae absorveu as regras em seu íntimo e formou com elas uma segunda face que atendesse as expectativas do pai e obstruísse a sua própria enquanto continuava a permitir o crescimento desta; e Junsu, de acordo com o que me soltara na noite anterior através de seu pequeno conto, se acostumou à pressão de sua existência conturbada ao mesmo tempo em que usava da imagem assustadora e incoerente que todos à sua volta tinham de si para ocultar e proteger seu coração inocente e injustiçado mantendo as “ameaças” o mais longe o possível.

A verdade era que todos haviam criado formas de se amotinarem contra a realidade imposta a eles. E que isso só mostrava o quanto intimamente insatisfeitos eram com a vida que levavam.

– O caso é... – prosseguiu finalmente – Toda vez em que Junsu tinha esses pesadelos, nos acordava no meio da madrugada – quase sempre no mesmo horário – gritando e tremendo de medo. Para acalmá-lo depois disto, nos eram necessárias muitas horas de embalo. Lembro que no começo, ele apenas acordava assustado, e mesmo com muito esforço, ele dormia algum tempo depois. Porém, passados os anos, as coisas complicaram...

– Você quer dizer... – acompanhei o seu raciocínio.

– Os ataques nervosos. É isso aí.

– As crises vieram de pesadelos? – indaguei surpreso.

– Como eu disse, as coisas foram se complicando. Primeiro ele só se assustava, depois começou a ter algumas implicações. Insônia, medo de escuro, tremores leves, dores de cabeça; quase no final, até febre altíssima! Foi nessa época que os médicos começaram a ir e vir daqui mais do que queríamos permitir.

Donghae encolheu e abraçou as pernas ainda envoltas pelo fino tecido branco. Parecia tão exausto somente com as lembranças que eu me peguei pensando em todo o sofrimento no qual ele e sua família passaram de fato. Estiquei meu braço direito procurando abraçar-lhe pelos ombros e puxá-lo para mim. Mansamente, ele acatou meu consolo mudo e se acomodou em meus braços.

– Os pesadelos terminaram aos nove anos – continuou após descansar sua cabeça em meu peito – mas ao contrário do que deve estar pensando, isso não melhorou nossa preocupação. Muito pelo contrário. Foi justo nessa época que aconteceu a coisa mais estranha com ele até ali.

– O quê? – perguntei com a ilusão de que nada mais que me dissesse conseguiria me surpreender, enquanto começava a acariciar-lhe os cabelos.

– Ele começou a pintar do nada.

– Como?!

Completamente enganado de meu pensamento anterior e chocado pelo que acabara de escutar, voltei a puxar Donghae, colocando-o à minha frente, na esperança que talvez ele risse de minha cara assombrada e dissesse que estava apenas brincando. Infelizmente, não fora bem isso o que aconteceu. Ele apenas me fitou melancólico e voltou a se ocupar em meu peito, desta vez abraçando-me com força.

– Por favor, explicações Donghae. Ninguém pode começar a pintar do nada! Nem mesmo os grandes artistas da história...

– Nós também achávamos que não... – sussurrou em minha pele – Mas foi exatamente assim. Um dia, ele aparece com um caderno de desenho, lápis de cor, e alguns rabiscos muito bem feitos. Outro dia, ele aparece com material de pintura e telas já prontas. Ninguém sabia de onde viera tudo aquilo, e ele sempre dizia que um amigo que lhe dera. Amigo esse que ele se negava piamente a dizer quem era. Junsu mudou muito naquele tempo. O menino virou adulto precocemente. Suas idéias e conceitos sobre o mundo ganharam força em sua cabeça. E por incrível que pareça, todas elas, por mais contra a sociedade atual que fossem, tinham nexo. Eram todas baseadas, fundamentadas. Impossível de nascerem de uma cabecinha de nove, dez anos. Nesta mesma época também, os pesadelos deram lugar aos ataques nervosos.

– Nunca desconfiaram de ninguém que pudesse ensiná-lo escondido de vocês?

– Ninguém nesta cidade tem a capacidade de transformar um leigo em um gênio da noite para o dia, Hyukkie. Talvez ninguém sequer do mundo. Foi então que começamos a desconfiar de alguém que não fosse desse mundo...

– A Morte?

– Não inicialmente a Morte, mas um espírito ou coisa assim. Começamos a sondá-lo aos poucos, e quando vimos que nossas investidas não surtiam efeito não importasse o que fizéssemos, acabamos por investigá-lo sem o seu conhecimento. Conversas com ninguém, coisas quebrando sem motivo, alimentos sumindo, pegadas misteriosas de animais, saídas à noite para passeios solitários; eram o que mais apareciam. Um belo dia ele chegou na hora do café da manhã, sentou e disse que o irmão do banqueiro mataria o amante da mulher naquela mesma noite. Obviamente ficamos assombrados com a revelação, e quando o perguntamos como poderia ter conhecimento daquilo, ele disse que simplesmente sabia. À noite, o fato ocorreu exatamente como ele nos dissera horas antes. Papai achou melhor ter uma conversa particular bem séria conosco. Não sei se ele percebeu que estava acontecendo algo realmente grave daquela vez ou não, mas poucas palavras ditas pelo nosso pai e nos revelou sobre sua relação com a Morte.

– Foi a Morte quem o ensinou a pintar?

– Não sei ao certo, mas é o que desconfiamos.

– Então quer dizer que depois disso ele começou a contar a vocês quem morreria, o dia e o porquê? E isso não traz problema algum com a Morte? – perguntei nem ao menos acreditando que tais palavras saiam pela minha boca.

– Segundo ele, a Morte não se importa. Diz que sabermos ou não da partida de alguém, não muda o fato de que ela irá morrer. Não é como se pudéssemos impedir. Assim, ele começou a nos contar para começarmos a nos preparar com antecedência para trabalhar.

Dito aquilo, a lembrança das palavras aparentemente aleatórias de Junsu-yah no desjejum de ontem, finalmente fez sentido. Assim, as peças finais do quebra-cabeça davam o ar da graça e eu via que, por mais absurda que fosse toda aquela história, ela encaixava e explicava tudo.

Ou quase tudo.

– Quando me trouxe a esta cidadela, foi com que finalidade Donghae? – perguntei enfim.

– Eu já te disse ontem, não?

– Mas não tudo – lembrei-o.

– Claro...

Consegui ouvir um suspiro baixo saindo por entre seus lábios antes de o ver se levantando e sentando em suas próprias pernas à minha frente. Seus olhos me invadiam e se deixavam invadir. Neles, toda sua vida árdua era espelhada e, no entanto, ainda mantinham um brilho misterioso, unicamente enevoado, mostrando-me que por mais que eu quisesse, não teria a verdade completa.

– Hyukkie, nem mesmo eu sei de toda a verdade nisso tudo. Por isso, não se decepcione caso eu não consiga tirar todas as suas dúvidas – segredou-me ao ouvido, causando um arrepio instantâneo correr por meu corpo. – Porém, a esta questão eu posso responder, se é o que quer.

– Estou esperando – o vi escorregar em suas pernas até estar de volta ao meu lado.

– Para dizer a verdade Hyukjae, eu sempre quis que você soubesse desta pequena historinha. Desde o começo. Foi para cuidar de Junsu e furar a defesa de Jaejoong-hyung que eu te trouxe a este lugar, como eu já havia te dito. Só que o que eu queria não era que você se ocupasse dos ataques nervosos propriamente ditos, e sim, desta outra questão.

– Por quê? Acabou de dizer que seu irmão não é louco ou que não está inventando nada disso.

– E é verdade. No entanto, Hyukjae, eu não consigo imaginar o que a Morte iria querer com um menino humano. Não sabemos que tipo de influência ou poderes Junsu ganhou deste ser. Não sabemos que tipo de perigo ele apresenta. Você viu tudo o que Su fez na catedral. Já imaginou se a Morte quiser transformar meu irmãozinho em um serial killer ou coisa assim?!

– E por que acha que ele irá se abrir para mim?

– Porque você consegue cativar as pessoas facilmente, Hyukkie – sorriu fracamente. – Foi assim comigo, foi assim com Jae-hyung, com certeza será com ele. O que eu queria é, de fato, que você continuasse a investigação a respeito de tudo o que acontece conosco – ou melhor, com ele. Eu quero que algum dia nós três possamos ter uma vida normal, entende? Desculpe se eu te joguei neste monte de espinhos sem o seu consentimento, mas eu não tinha outra saída, outra pessoa a quem recorrer! Se eu posso contar com alguém para me ajudar a acabar com toda essa maldição que nos envolve, essa pessoa é você Hyukjae.

De fato, eu não sabia se Donghae mentira para mim naquele momento. A pouca iluminação do quarto dificultava bastante que eu pudesse ler suas reações, e seus olhos, minha única janela à sua alma, confirmavam piamente a sua versão da história. Todavia, apenas por ele ter finalmente me contado o que pretendia com todo aquele drama, eu tinha que dar o meu braço a torcer. Afinal, se por acaso ele mentira para mim, a única maneira de eu saber seria realmente mergulhar na trama inteira. Uma hora tudo haveria de se esclarecer.

Encerrei a conversa naquele momento ao aceitar, enfim, a sua proposta. Satisfeito por sua conquista, Donghae se voltou a mim, e depois de um demorado beijo, finalmente se deixou levar pelo sono que o atormentava há algum tempo como percebi somente naquela hora. Enquanto o observava adormecido em meu peito, vi tudo o que eu presenciara e ficara a par desde minha chegada à rodoviária tomar forma à frente de minha cama. As cenas rodopiavam aleatoriamente, sem se arrumarem em nenhuma seqüência aceitável. Torci os lábios ao começar a pensar em algum ponto de partida para iniciar as minhas buscas e, a partir dali, formar o caminho mais sensato para percorrer aquela que me parecia ser uma longa e tortuosa investigação.

Lembrei de cada palavra que Donghae me contara sobre Junsu e a Morte, e quando citara que o menino sempre fora o centro de tudo naquela família. E se Donghae estivesse certo ao achar que a Morte influenciara o desenvolvimento psíquico e social do jovem artista? E se naquela história que o mesmo narrou na noite passada escondesse mais algum sentido além de seu aprisionamento e rebeldia?

Um teste. Era exatamente este o significado daquela história.

Junsu testara meus conhecimentos e minha capacidade intuitiva naquela noite. Por fim, uma coisa era certa: se me contou tão intimamente tal situação é porque tem consciência da gravidade que a cerca, e que – ao que parecia – julgava que eu era digno de sua confiança e que poderia fazer algo a respeito. Deixou a ponta do novelo de lã pronta para que eu pudesse me guiar pelo perigoso e denso labirinto. Só cabendo a mim, achá-la e seguir em frente.

A ponta, na qual ele deixara cair “distraidamente” na neve enquanto ia embora e encerrava nossa conversa.

Sorri para as minhas revelações da noite, que sumiam de acordo com que eu me acomodava melhor ao travesseiro e abraçava Donghae mais forte, depositando-lhe um selinho nos lábios. Recordando-me de suas palavras ditas na tarde passada, intuí que teria de tratá-lo bastante bem. Ele teria de trabalhar muito pela manhã e eu não podia desapontá-lo, não é mesmo? Feliz, percebi que estava mais disposto a continuar perdido pela selva, matando um leão por vez e procurando sobreviver. Meu ponto de partida, afinal, seria no lugar onde eu mais quis adentrar desde que chegara àquela catedral.

O atelier do jovem artista.