You Are My Endless Love
28 Cap 26 - Uncertain signs, need certain truths
Notas iniciais
[Donghae POV]
O barulhinho do celular sendo desligado do outro lado da linha soando antes mesmo que eu pudesse me despedir acusava que, assim como eu imaginava, Hyukjae rapidamente estaria de novo à minha frente. No entanto, ao contrário da vez anterior, esta manhã com toda certeza eu esperava que aquele sorriso sádico me revelado tão vivamente em seus lábios pronto estaria substituído por o costumeiro que se desenhava sempre que algo despertava sua mente analítica.
O relógio que me fizera perceber a que ponto de nosso jogo eu me encontrava, continuava em seu incansável trabalho soando insanamente satisfeito com o que presenciara ali. Enojado, amaldiçoei-o em pensamento enquanto um calafrio me percorria o corpo ao lembrar da tortura no qual eu passara e como o tal sorriso banhado de maldade e loucura fez com que eu acabasse destrancando todas as minhas defesas e revelasse minha verdadeira face diante de si.
Certamente eram cúmplices: o tempo e Hyukjae.
E ele me provara sua traição naquela mesma alvorada. Quando sem qualquer aviso prévio ou estímulo, Hyukjae acabou por ser despertado exatamente uma hora antes de todos os presentes naquela casa acordassem e iniciassem suas atividades diárias. Sem estímulo e completamente renovado. A aura hedionda que o cercava havia se dissipado totalmente, deixando ao meu redor a impressão de que tudo o que aconteceu entre nós se tratara apenas de uma ilusão vinda de minha mente amargurada.
Diante de meus olhos confusos e meu corpo ferido e exausto, Hyukjae me falou sorrindo em extrema expectativa de seu brilhante plano e de como pensava extrair cada pista para avançar naquele caminho obscuro. Confesso que me surpreendi com sua repentina disposição. Da mesma forma que ele suspeitou que eu não cumpriria minha promessa na noite anterior, eu também imaginei que desistiria de tudo assim que amanhecesse. Porém, o que eu não imaginava era que ele também lembrasse de uma outra promessa que eu lhe fizera na tarde em que fomos ao lago.
Entrar no atelier e pesquisar sobre a personalidade de Junsu era cientificamente compreensível, já que de acordo com a sua teoria, seria nos rabiscos e obras do menino que estariam escondidas a maior parte dos segredos de sua personalidade. E embora eu houvesse de fato lido alguma coisa a respeito disso nos livros de psicologia da biblioteca da faculdade, a idéia de invadir aquele lugar e remexer no desconhecido mundo de meu irmãozinho me dava arrepios tão assustadores quanto os causados por Hyukjae quando enlouquecido.
Eu não sabia o porquê e sequer entendia tais reações. Certo que mesmo estando falando de uma criança que conversa livremente com a figura da Morte, eu tinha certeza que Junsu jamais faria mal a alguém. Quer dizer, pelo menos de nossa família não, ou eu já teria conhecido seu tio pessoalmente há tempos. Mas o que dizer de Hyukjae? Haviam se falado muito pouco para que o menino já tenha começado a nutrir alguma confiança nele. Sem falar de que eu suspeitava que talvez a terrível curiosidade e a afiada intuição de Hyukkie pudessem despertar sua fúria. De uma hora para outra, ele conseguiu de alguma forma a faísca que foi definitiva em sua explosão, a certeza de todas as suas hipóteses, a coragem de me enfrentar finalmente. De onde mais ela pode ter saído quando qualquer chama em sua alma se mantinha envolta na escuridão de seus pensamentos incertos?
Não era que Junsu fosse o mais discreto de nós três, mas de uma coisa eu sabia: ele guardava coisas em seu coração no qual era provavelmente capaz de “tudo e qualquer coisa” para protegê-las.
Por isso, eu recusei, esperneei, indaguei todas e quaisquer possibilidades oriundas daquela maldita mente que mais parecia uma enciclopédia ambulante. No entanto, nada que eu fizesse surtia efeito em sua confiança. E assim, ele saiu com a minha promessa hesitante de conseguir a bendita chave para aquele local que, dentre as tantas outras sensações ruins, me causava um terrível embrulho no estômago desde a minha mais longínqua lembrança.
Persistindo em sua melodia irritante, o relógio passou a soar como se estivesse rindo de minha expressão involuntária de desgosto ao pensar na hipótese de entrar naquele lugar. E eu, como em uma forma de punição à sua deslealdade, recusei-me a prestar atenção ao que seus ponteiros mostravam. Busquei novamente o celular que ainda pesava inerte em minha mão e desbloqueei o display, um suspiro cansado escapando-me ao perceber que já passava das dez da manhã. Em minha outra mão, a pequena chave feita de ferro denunciava seus muitos anos de idade através de seu corpo, enferrujado em algumas de suas partes. Mentalmente, implorei para que aquelas ferrugens acabassem por tomá-la por completo e a reduzirem ao pó antes da chegada de Hyukjae e seu sorriso excitado.
Como eu mesmo havia lhe dito, conseguir a chave não fora difícil. Junsu raramente me negava algo, e por mais estranho fosse o meu pedido daquela vez – ele bem sabia da minha fobia àquele lugar – se mostrou bastante dócil ao me entregá-la sem ao menos me perguntar o que eu faria lá. Sequer desviou o seu olhar das partituras que analisava. Apenas pediu que as telas fossem deixadas onde estavam de início e que eu não me esquecesse de trancar a cabana ao sair. Era incrível o poder dele de se fazer alheio a todas as reações perturbantes que me causava somente ao respirar o mesmo ar que o seu, e de se comportar como se nada acontecesse entre nós. Poder este que me deixava louco em contrariedade. Simplesmente detestava ser deixado de lado, quanto mais por ele; e aquela frieza toda só atiçava minha vontade de possuí-lo. Contudo, o ardor incômodo vindo de meus pulsos recentemente feridos tratou de me lembrar que ainda estava muito cedo para voltar a arriscar o meu pescoço outra vez e me levou a sair de lá antes que acabasse por perder a linha de novo.
Dei um último suspiro aborrecido antes de levantar do conforto da cama que, mesmo comigo apenas sentado, expurgava a minha fadiga e com ela, meus devaneios. Dali a poucos minutos, Hyukjae chegaria à frente ao maldito casebre e esperava encontrar a mim e a chave pronta para ser utilizada. Enquanto me dirigia a passos lentos até lá, me peguei pensando se algum dia Junsu me agradeceria por tantos sacrifícios feitos por si. Esperava que ao menos ele aproveitasse bem a todas as vantagens que ganhava com isso...
Mesmo que aquele dia exibisse um belo sol e no jardim atrás de mim as primeiras flores já começassem a brotar novamente lembrando-me que estávamos a poucos dias da primavera, só com o fato de estar em frente àquele casebre, um calafrio me tomou de repente seguido de uma sensação de náusea. Respirei profundamente, tentando ir contra a força interna que me impulsionava de volta à segurança da catedral, e agradeci aos céus ao ver a silhueta de Hyukjae ao longe correndo de encontro a mim.
- Demorei muito? – perguntou após forçar o ar a entrar em seus pulmões.
- Não, veio até mais rápido do que imaginei...
Sorri-lhe fracamente, aliviado por sentir as mãos invisíveis que me sufocava o pescoço e remexia minhas entranhas afrouxando a pressão conforme ele ia matando a distância entre nós. Ao chegar rente a mim, notei-o me analisando. Logo o sorriso ansioso que vinha estampado em seus lábios deu lugar ao cenho franzido, mostrando que algo que vira em mim o preocupara.
- Está sentindo alguma coisa? – comentou ao tocar meu rosto e retirar algumas gotas de suor que escorria por minha bochecha – Está pálido...
- Estou? – Surpreendi-me com a observação, não imaginava que aquele lugar me fizesse tão mal assim – Não é nada. Acho que foi algo que comi mais cedo, não se preocupe.
- Tem certeza? Minha área é outra, mas posso te examinar se quiser.
Assenti rapidamente, procurando fingir uma paz interna que definitivamente não existia em mim naquele momento. Minhas pernas vacilavam e uma voz soou ao meu ouvido implorando para que eu deixasse tudo isso de lado e corresse o máximo que pudesse dali. Todavia, eu tinha plena consciência que poucos minutos restavam até o grande momento em que seria obrigado a entrar no maldito atelier, e se não queria atrapalhar as investigações de Hyukjae, teria de me conformar com o fato e tratar de me acostumar aos incômodos que o lugar me causava.
Já ele seguia me olhando desconfiado e por um momento imaginei que iria teimar e me examinar contra minha vontade. Dei graças quando, após alguns segundos de análise, enfim se virou e foi até a porta sem nenhuma cerimônia.
- Está com a chave?
Examinava maravilhado a fechadura da porta envelhecida de madeira. Soava como uma criança prestes a entrar em um parque de diversões, inocente e extremamente excitada. Se naquele momento eu não estivesse em uma sangrenta luta interna, de certo acharia a cena muito fofa e o tomaria em meus braços. Permiti que o ar percorresse lentamente meus pulmões antes de ir até si e mostrar a pequena peça de ferro que já fora brilhante em seus dias dourados.
Um sorriso brilhante despontou em seus lábios. Suspirei, sentindo meu corpo extraindo do gesto bobo algum estímulo para seguir em frente com o planejado.
- Foi difícil conseguir? – perguntou tirando-a de minha mão e se apressando em colocá-la em seu devido lugar abaixo da maçaneta.
- Não. Eu disse que não seria. Mas...
- Mas?
- Hyukkie, tem certeza de que isso é necessário? – tentei não demostrar de todo a confusão que acontecia em meu interior.
- Nós já conversamos sobre isso, Hae. É claro que é!
- Eu sei. Mas é que...
Fui interrompido pelo estalar da fechadura anunciando que finalmente a porta para o santuário de meu irmãozinho já não era mais um obstáculo à nossa frente. Olhei para Hyukjae e engoli o restante da frase ao ver seus lábios envoltos em um sorriso vitorioso. Constatei que ao menos um de nós se divertiria na breve excursão.
- Quantas vezes já entrou aqui antes? – Abria a porta lentamente, como se fizesse do ato uma preparação psicológica para o que estava por vir. Ao mesmo tempo, eu também usava dos segundos para verificar se meu corpo se aguentaria em pé pelo tempo que se seguiria conosco ali dentro.
- Como? – perguntei ainda sobre o efeito da ansiedade.
- Perguntar faz parte do meu trabalho, Hae. Quantas vezes já entrou aqui?
- Algumas. Não lembro o número ao certo, mas te garanto que foram bem poucas.
- Por quê? Junsu-ya costuma ser recluso demais com seus quadros? – virou-se antes de pôr o primeiro pé para dentro do recinto e voltou a analisar meu rosto.
- Não exatamente. É só porque... – hesitei por um momento. Não sabia se contava ou não a repulsa que nutria por aquele lugar. – Digamos que eu não goste muito da aura deste lugar. Me causa arrepios e enjôos, e eu nem imagino o motivo.
- Então é por isso que você está se contorcendo todo para não entrar aqui?
Senti a ponta de seu dedo percorrer lento a lateral de meu rosto até meu queixo, onde parou e me levou a fitá-lo. Engoli em seco ao me ver espelhado em suas íris. Desde a noite passada que a imagem do antigo Donghae já não se fazia presente nelas e me ver assim tão exposto a si me deixava um pouco angustiado.
- Do que você tem medo Donghae?
A pergunta soava longe em meus ouvidos, porém ecoava como se quisesse ter certeza que me causaria o efeito originalmente pensado ao ser dirigida a mim. Assim, ainda que continuasse preso aos olhos de Hyukjae minha mente trabalhava. Vasculhava cada pontinha de dúvida em meu ser atrás de uma resposta que durante anos eu mesmo havia procurado. Contudo, nada que pudesse explicar tais sensações me vinha à cabeça.
- Não sei... – sussurrei involuntariamente. Hyukjae suspirou.
- Desde quando se sente mal ao vir aqui?
- Muito tempo.
- Achei que gostava dos quadros do seu irmão – disse ao me soltar e começar a caminhar para dentro da sala.
- E gosto! Só que... Nunca entendi também, mas sempre tive a impressão de que este lugar guarda algo que eu não deveria ver, sei lá.
E não era para menos.
O centenário casebre de madeira era composto por apenas dois cômodos. O primeiro, que tomava a maior parte do espaço da casa, era onde ficava a maioria dos quadros de Junsu, dos mais recentes aos mais antigos. Eram sempre estes que mudavam de abrigo de acordo com a vontade do dono, variando do cômodo ou a sala de música. Destes, grande parte eu já havia visto, alguns até presenciei o seu nascimento. E dos que eu tinha visto, muito pouco eu conhecia a história ou significado por trás das tantas camadas de tinta. Junsu tinha muito apreço por eles, e dificilmente cedia um deles a alguém quando era pedido, embora nunca se negasse quando um curioso ou um já apreciador de suas obras pedia-lhe para dar uma olhada nas telas.
Contudo, não era neles em que eu depositava minha fobia. E sim, nos quadros que ficavam no segundo cômodo.
Estes, jamais saíram do seu local de criação – e todos eles haviam sido criados exatamente naquele quartinho. Junsu também nunca permitiu que ninguém os olhasse ou que sequer chegasse perto da portinha que selava o local. De fato, assim como era da vontade dele, eu nunca cheguei a entrar no lugar, então não sabia se ele por acaso trancava ou não a porta. No entanto, um dia quando era apenas um adolescente, movido pela curiosidade, acabei por querer ver o que afinal existia ali enquanto guardava alguns quadros que ainda eram demasiados pesados para seu pequeno corpo. Inocente em minha peripécia, esperei até que o menininho saísse por um momento da casa e fui sedento até a porta. Assim que pus a mão na maçaneta redonda de bronze envelhecido pelo tempo, um espasmo violento percorreu meu corpo da cabeça aos pés e um mal estar passou a me dominar completamente. Quando Junsu voltou, eu estava quase inconsciente no chão tamanha era a náusea e a fraqueza sobre mim.
A partir deste dia, nunca mais ousei chegar perto do local novamente, e sempre que podia evitava entrar no atelier.
- É tudo realmente lindo... – disse envolto de uma expressão maravilhada enquanto remexia nas muitas telas que haviam postas apoiadas nas paredes. – Olha essa, Hae! – apontou para uma em especial que estava à frente de mais outras duas na parede oposta. – Tão simples, mas tão delicada e cheia de sentimentos...
A tela em questão não era outra senão a primeira que Junsu havia pintado aos meros nove anos. E não se tratava de outra coisa que sua segunda paixão: o velho e caríssimo piano de cauda negro que no exato momento seguia sendo versado por seu amo no salão de música. Como Hyukjae a descrevera, era feita em traços bastante singelos e como fundo havia apenas uma camada de tinta salmão. No entanto, era justamente na simplicidade que escondia a excepcionalidade dela. Era sua primeira tela, então o desenho não era tão fiel ao modelo original; porém, como se para equilibrar a falta de técnica no manuseio do pincel, Junsu havia posto junto à cor negra que compunha o astro do quadro não só pigmento ou solvente, mas como todo o seu amor ao instrumento.
Era tão visível e até mesmo palpável a preocupação que as pequenas mãozinhas tiveram em garantir que sua promessa de amor eterno à sua fonte de inspiração fosse transmitida através daquele simples desenho que até mesmo leigos de nível mais patético conseguiam percebê-la.
- Ele realmente parece gostar de música... – escutei finalmente Hyukjae dizer após um longo suspiro admirado. – São muitas as telas que têm instrumentos pintados.
- De início, digamos que ele não tinha muitos modelos à sua disposição, daí começou a pintar tudo o que via ao seu redor.
- De início?
- Sim, este do piano foi o primeiro desenho à tinta que ele fez.
- Jura?! – Hyukjae se via completamente absorto em encanto por conta de minha revelação. Assenti-lhe, sorrindo orgulhosamente. – Nunca pensei que um dia conheceria alguém com tamanho talento... – murmurou.
- Ai é que está o problema, Hyukjae. Não há mais ninguém no mundo que tenha começado a pintar como Junsu e nem que carregue tal habilidade. Agora entende o que eu disse? É totalmente impossível que isto tenha saído de jeito natural das mãos de uma criança – apontei.
- Tem razão... É perfeito demais para um primeiro rabisco.
As outras telas seguiam mostrando pedaços ou compartimentos da catedral, paisagens de fora ou da cidade – estas últimas sempre do ângulo que se era possível ver da janela do quarto do menino –, do bosque em diferentes épocas dos anos, do orfanato e, claramente, do lago. Todas sempre desenvolvidas com um maravilhoso esmero.
Naquele momento, enquanto voltava a me perder no mar de nostalgia em que as obras me afogavam, algo me passou pela cabeça. Algo que durante todos aqueles anos eu jamais percebera...
- Nenhuma pessoa... – sussurrei indo de encontro à Hyukjae e começando a vasculhar alguns quadros ao seu lado.
- Como?
- Não há pessoas. Em nenhum dos quadros. Eu nunca havia percebido isso... – olhei-o meio confuso.
Hyukjae aparentou acompanhar meu raciocínio e, intrigados, juntos começamos a remexer em cada canto daquela sala, comprovando minha teoria. Minutos depois e nenhum resultado positivo em nossa busca, paramos após abandonarmos o último quadro em seu lugar original.
- Por que motivo Junsu-ya não pintaria pessoas? – A voz ofegante de um Hyukjae cansado soou pausada enquanto o mesmo se arrastava até uma parede e deixava com que seu corpo escorregasse até encontrar o apoio do chão de madeira. – Ele tem alguma espécie de repulsa contra os humanos ou coisa assim?
- Não que eu saiba ou que ele tenha demonstrado – respondi indo me sentar ao seu lado.
- Estranho, muito estranho... Mas o pior é que encaixa.
- Como assim? – perguntei atônito.
- Veja bem, Donghae. Se por acaso você desse uma habilidade a uma criança em especial e se você tivesse alguma coisa contra alguém, iria permitir que esta criança o colocasse em seus quadros?
- Espera, você está querendo dizer...
- Que se tiver realmente sido a Morte quem tenha ajudado Junsu-ya, então muito provavelmente ele esta seria uma de suas exigências.
- E por que a Morte daria uma habilidade a uma criança humana se supostamente ele não gosta de humanos?
- Isso é o que eu não sei dizer.
Respirei profundamente, tentando clarear minha mente e conseguir alguma hipótese por mais inconsistente que fosse. No ar, o aroma de madeira velha misturado ao forte cheiro característico das tintas e do solvente que Junsu usava me invadia mais intensamente, deixando-me levemente aéreo e com um pouco de dor de cabeça. Imaginei se não era esta a sensação de estar bêbado...
- Tem algum quadro de Junsu que você ainda não viu? – perguntou, quebrando o silêncio instalado entre nós.
- Sim – respondi automaticamente e, antes que me desse conta do que fazia, acabei por estacionar meu olhar na porta de madeira que ainda se mantinha intacta desde quando entramos ali.
Hyukjae parou a volta que dava pelas muitas telas. Observando minha feição em uma ansiedade clara, acompanhou meu olhar até o meu maldito foco e franziu o cenho ao se dar conta do que era.
- Acho que não formulei bem a pergunta... – pigarreou. – Hae, o que eu quero saber é se Junsu tem alguma tela que talvez possa ter um significado oculto. Um significado relevante.
Aproximando-me de si, pousei minhas mãos sobre seu rosto, já imaginando o que ele pretenderia ao ouvir minha resposta. Meus dedos tremulavam, minha respiração acelerava conforme meu coração se descontrolava amedrontado à mínima lembrança do maldito dia em que eu tentara ir contra o aviso de Junsu e entrar naquele quartinho. Meu estômago, que parecia ter me dado uma trégua desde que eu me distraíra, mais uma vez revirava-se em completa revolta em meu interior, forçando-me a concentrar todas as minhas forças para não despejar tudo o que eu havia comido e mais alguma coisa para fora. Completamente tonto, me perguntava se sairia dali consciente daquele jeito.
Talvez percebendo o meu estado físico, Hyukjae permitiu com que seus braços envolvessem minha cintura. Olhava-me preocupado e por muitas foram as vezes que aparentou querer retroceder à investigação devido à minha situação. Mas eu não iria dar pra trás. Não quando havíamos chegado tão longe e passado por tantas coisas para estarmos ali. Se eu tinha de chegar ao extremo para irmos adiante, então eu chegaria.
- Donghae, o que está...
- Eu estou bem, não se preocupe – forcei minha voz a sair, vacilante. – Agora me escuta... Houve alguns quadros que Junsu jamais deixou alguém ver. Eu nunca soube para onde foram depois de pintados, mas imagino que se eles ainda existirem, estão aqui, naquele quarto – pausei, obrigando meus pulmões a cooperarem e puxarem o máximo de ar que pudessem. – Não sei se o que procuramos está lá dentro, mas com toda certeza tem algo importante lá.
- Tudo bem, tudo bem, mas procure se acalmar, ok?
Assenti, tentando achar um jeito de expurgar aquele temor que me dominava, para logo tombar a cabeça ainda atordoada no peito de Hyukjae. Quase que automaticamente pude sentir seus braços me apertarem mais contra si, e embora o ato limitasse o meu poder de respiração, apenas com tal simples gesto, minha alma começou a retornar à sua paz esquecida. E então eu lembrei porque tinha tanto medo de perdê-lo. Hyukjae era a cura de meus males. A existência que me fazia temer e amar. Aquele que inconscientemente me controlava, que acorrentava a besta insana possuidora de meus desejos e a fazia seu bichinho de estimação.
- É de lá que você tem medo? – sussurrou em meu ouvido, sua mão acariciando gentilmente os meus cabelos.
Assenti novamente.
- Posso ir sozinho se quiser...
- Hyukkie... É perigoso... – murmurei inconscientemente.
- Por quê?
- E se Junsu acabar descobrindo?
- Acha que ele pode nos fazer algum mal?
- A mim não, mas não tenho certeza quanto a você.
Hyukjae pareceu ponderar um pouco minhas palavras. Alguns segundos de um silêncio sufocante depois, senti a mão que ainda desalinhava meus cabelos descer até meu queixo fazendo com que eu o fitasse nos olhos.
- E se eu te garantisse que ele também não me fará mal nenhum?
Mal pude acreditar no que ouvia.
- Como pode ter tanta certeza?
- Apenas sei. Consegue acreditar em mim?
- Vai ficar magoado se eu disser que não?
Um segundo se passou até que por fim, a expressão surpresa de Hyukjae pudesse soltar uma risada baixa liberando-nos um pouco da tensão que nos cercava.
- Antigamente, você apenas assentiria e ficaria quieto.
- Pois é, antigamente. Agora, o combinado é sermos sinceros não é? E sinceramente, Hyukjae, eu estou com um terrível mau pressentimento. Posso não estar bem, mas sozinho você não vai! Só Deus sabe o que pode ter lá dentro...
Mesmo que inocentemente, nunca tive tanta certeza na vida ao juntar um punhado de palavras.
Notas finais
Bjos e até o próximo cap!
OBS: Não se preocupem que essa parte de caps tensos está terminando! :P
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