Notas iniciais
Disclaimer: Saint Seiya non me pertence, nem seus personagens fofinhos, nem seus personagens menos fofinhos, nem nada. Eu apenas levo os personagens para brincar de casinha quando minha imaginação perversa anda à solta.

Aviso: Shonen-ai, yaoi, enfim, garotos/homens/variações se pegando/abraçando/fazendo coisas kawaiis. Não gosta? Tudo bem, não estamos aqui para discutir isso! Tá vendo o 'X'-zinho vermelho lá em cima? Só clicar e have a nice day! :)

Nota da Autora: A música utilizada nesse capítulo é "Dramatic", da Yuki, e faz parte do OST de Honey and Clover. Ah, como eu amo Honey and Clover!


Capítulo I — Recordando a inocência

"Naquele momento, senti que estávamos procurando uma mesma coisa."

O corredor principal parecia estar impedido pela quantidade de alunos que ali se amontoavam. Uns empurravam os outros, tirando o seu lugar na fila, outros iam-se embora e outros ainda permaneciam calmos e serenos, olhando a multidão que os rodeava.

Como Shaka odiava multidões!

Ali estava ele, com os longos cabelos loiros presos num rabo de cavalo, tentando ver o que se passava na porta de entrada, encavalitado nos ombros do seu melhor amigo, que também se esforçava por ver algo. Mas tudo o que viam eram cabeças e mais cabeças de alunos impacientes e outros nem tanto pela decisão que o Conselho tomaria acerca de umas quantas regras que a ex-directora aplicara enquanto estava na escola.

Podia-se dizer que estavam numa manifestação, mas não lhe chamariam isso. Apenas queriam saber se as regras iam ser anuladas ou se continuariam em vigor...se bem que mesmo que continuassem em vigor, eles poriam termo nelas assim que tivessem oportunidade.

De repente, houve algo que lhe chamou a atenção.

Alguém, provavelmente um dos mais velhos, tinha empurrado um aluno para o chão a fim de poder ver melhor o que se passava e ir ter com os seus amigos.

Shaka desviou os olhos da porta da secretaria e olhou para trás, onde, no chão, um rapaz que parecia mais novo que ele próprio se tentava levantar, de encontro à parede. A sua pele era de alabastro, era magro e tinha longos cabelos lavanda, que estavam apertados num rabo de cavalo desajeitado.

O loiro deu um tapa na cabeça do amigo, chamando sua atenção:

- Miro! Importa-se de me pôr no chão? Tenho...De...Sair...Daqui! – gritou Shaka ao ouvido do amigo devido ao tumulto à sua volta.

- Porquê, barbie? Não quer...Saber... O que vai sair...Dali? – berrou igualmente Miro para o loiro ouvir.

- Quero! Mas depois... Você me conta, ok? Eu...Volto...Em...Seguida! – gritou e fez sinal para o amigo o deixar descer de suas costas. Shaka desceu desajeitadamente, quase caindo no chão. Pegou a sua mochila e foi até ao fim do corredor, onde, a menos que os seus sentidos lhe pregassem uma partida, estava o frágil rapaz de cabelos roxos.

Empurrou algumas pessoas alheias pelo caminho; outros conhecidos, como Saga e o seu irmão gémeo Kanon, que lhe gritaram um – Hey, onde vai com tanta pressa, Shaka? Espera a gente! – cederam-lhe passagem e quando chegou ao fim do corredor, finalmente, encontrou o rapaz, ainda sentado no chão, encolhido contra a parede.

Os cabelos lavanda eram mais longos do que pensara: sentado como estava, estes tocavam no chão sem dificuldade alguma. O que aqueles cabelos tinham de invulgar, também tinham de belo. Um par de olhos verde-esmeralda fitava a multidão, perplexos. Não tinha sobrancelhas; no lugar delas, era possível ver dois pontos avermelhados.

- Você está bem? – perguntou bruscamente, olhando para ele.

- Hã? – o rapaz virou a cara para o loiro à sua frente, saindo do seu transe momentâneo. A sua voz límpida e doce ecoou na mente do loiro, como uma melodia suave. – Ah...Eu estou bem, eu acho – disse um pouco reticente.

- Não quer ajuda para se levantar? – inquiriu Shaka, estendendo-lhe uma mão pálida. O rapaz agarrou-a desajeitadamente, quase caindo de novo e levando Shaka consigo e se levantou, pegando nas suas coisas.

- Ahm, desculpe... Obrigado – agradeceu, sem encarar o rapaz loiro à sua frente. Virava-se para seguir caminho quando Shaka o segurou pelo pulso.

- Espere – falou o loiro firme. – Não quer vir dar uma volta? Sei lá, por causa da confusão... – apontou para todos os lados, onde amontoados de estudantes se viam, tentando chegar mais perto da porta do conselho.

- Po..pode ser — o rapaz falou inseguro e segurou uma mão que Shaka lhe estendeu. Desceram as escadas e passaram pelo átrio da escola, que atravessaram, chegando rapidamente a uma grande porta de vidro que Shaka empurrou com alguma dificuldade.

- Nunca tinha visto você por cá – falou o loiro, analisando o outro. – É novo?

- Ahm? – o rapaz parecia não ter percebido a pergunta. – Ah, me desculpe...é que eu sou um pouco distraído...se sou novo? Na escola?

- Sim...era isso que eu queria perguntar – retorquiu o outro um pouco desagradado. Odiava pessoas distraídas...como a que se encontrava a seu lado. Olhou para o rapaz, que pareceu sustentar o peso do seu olhar com alguma dificuldade. Shaka viu as maçãs do rosto dele se avermelharem diante do seu olhar inquisidor e frio.

- Sim...sim, sou – disse sem jeito. – E você? Me desculpe...sei que não devia me interferir – desviou o olhar para o lado, pois estava difícil suportar o olhar do garoto loiro.

- Não tem mal – disse o loiro, fazendo um gesto para que o mais novo o seguisse. O rapaz apressou o passo. – Não necessariamente... Vim da turma que andava no externato que pertence ao mesmo director desta escola.

- Ah! Então vocês se conhecem há muito tempo... Bem...eu não conheço ninguém, na verdade. Você é a primeira pessoa com quem falo.

- Sério? Nem me apresentei... Sou Shaka Shenoy. E você, como se chama? – perguntou o loiro, caminhando.

- Ahh... Mu Hanamoto – respondeu o rapaz. – E você é de verdade a primeira pessoa que conheço aqui.

- É que vendo você ali, no meio da multidão, pensei que conhecesse alguém... Por falar nisso, o que você estava fazendo lá? – Shaka perguntou parecendo um professor de primária chateado com um aluno irresponsável, olhando para Mu um pouco curioso e sentindo-se intrometido.

- Ah...é que sabe, como minha matrícula foi feita há pouco tempo, meu pai me disse que tinha de mostrar uns papéis para o director... por isso que eu estava lá – respondeu com um sorriso doce, olhando para o loiro.

Por um momento, Shaka pareceu perder a pose de inalcançável arrogante olhando o sorriso esboçado pelos lábios do mais recente amigo, mas não deu o braço a torcer e levantou o queixo, com um ar de notória superioridade. Era evidente que a visão dos seus lábios se curvando num sorriso lhe tocara.

- Sim... Claro, como não pensei nisso antes... – disse mais para si do que para Mu, e apressou mais o passo, deixando o rapaz de cabelos lavanda para trás. Mu correu para o alcançar e continuou caminhando ao lado dele. Agarrou seu pulso, fazendo o loiro virar-se espantado e lhe falou, calmo:

- Você não precisa pensar em tudo... É apenas uma pessoa, ninguém mais, ninguém menos. Não se culpe – e lá estava ele dando aquele lindo sorriso! Porque a imagem de seu rosto delicado sorrindo não conseguia lhe sair da cabeça e estava lhe perturbando tanto?

Nakushita yakusoku wa hoshi ni

(Promessas perdidas se transformam em estrelas)

Omoide wa tokenai

(Minhas memórias não desaparecerão)

- Eu não estava me culpando – retorquiu o loiro, mais pela força do hábito do que pela frase dita pelo amigo. – Apenas me recriminando um pouco.

Mu sorriu de novo.

- Venha comigo...preciso lhe mostrar uma coisa. Apesar de ser novo na escola, já me apresentaram cada canto dela, e descobri algo que gostava de mostrar a alguém...só não tinha ninguém a quem mostrar – baixou o olhar para os pés, esperando o loiro não notar a mágoa nos seus olhos.

- Eu...eu vou com você – disse Shaka, olhando para o menino e sorrindo, mesmo sabendo que ele não veria...mas pelos vistos se enganara.

Mu levantou a cabeça para o loiro, subitamente animado e falou: Você sorriu... Viu como nada é impossível? E não se culpe por ter feito isso, você bem melhor sorrindo do que fazendo pose de metido – mal acabou de falar Shaka desfez o sorriso e levantou o queixo, mas com um leve rubor nas bochechas.

Yotsuba no kurooba sagashinagara kimi no kao

(Procurando um trevo de quatro folhas)

Chirari nusumi mite wa meo sorasu

(Deito um olhar para você e logo o desvio)

- Vamos logo – declarou o loiro andando muito depressa.

- Claro...vamos! – Mu teve de correr de novo para o acompanhar e foram caminhando calmamente pela parte de trás dos pavilhões da escola.

Não tardou muito até chegarem a uma espécie de parque infantil, onde se podia ver um escorrega vermelho e dois baloiços com os ferros coloridos a azul e os bancos de madeira. Em volta do parque crescia alguma erva, demasiado verde e baixa.

- É aqui? – perguntou Shaka, um pouco inconformado. Qual era a ideia do menino? Levá-lo num parque infantil? Ele já tinha ido a um parque infantil...então porque ali seria diferente?

- Sim – assentiu Mu com a cabeça e sorriu, caminhando na direcção dos baloiços e deixando Shaka parado na entrada do pequeno «parque».

Shaka ficou ali, olhando o nada, perplexo. Porque diabos estava ali? Devia ter dispensado o garoto logo desde o momento em que o vira...a sua aparência...os traços físicos, demasiado delicados para um menino...devia ter adivinhado que ele deveria ter sérios problemas mentais.

- Olhe...ahm...me desculpe, mas eu vou voltar para o corredor do conselho, sim? Tenho lá gente me esperando, e está ficando tarde... – lamentou-se o loiro, servindo-se das desculpas mais esfarrapadas que encontrara. Baixou a cabeça e abanou-a, sacudindo os fios loiros e pensando: «Por budha, onde eu me fui meter? Porque eu vim sequer? Eu deveria ter adivinhado, ele não... Não está à minha altura... Talvez... Demasiado infantil para mim.»

- Você não gosta, pois não? – ouviu o outro perguntar baixo, parando o baloiço com os pés e ficando apenas sentado nele, balançando levemente. Shaka podia dizer que, se Mu fosse uma flor, acabara de murchar. – Eu sei. Ninguém gosta. Eu devia ter reparado nisso. Você é demasiado adulto para coisas assim. Me desculpe, foi erro meu pensar que você poderia achar interessante estar comigo.

Arekara dore kurai yoru o koetano?

(Quantas noites passaram desde então?)

Nigate na tokoro kara nigeteruno?

(Estamos fugindo dos lugares desagradáveis?)

- Não...não, não é nada disso! – Shaka quase gritou. Sim, era isso mesmo, mas ver o rapazinho, novo na escola, sozinho, sem amigos, e tão simpático e frágil, constatando o que ele pensava de uma forma tão adulta, o espantou e abalou de verdade. Ele realmente tinha o dom de ferir as pessoas. «Você tem une língua ferrina», a voz autoritária mas amigável de Kamus ecoou na sua cabeça, seguindo-se da voz um pouco desapontada de Milo, perguntando: «Shaka, por que você fez isso?». Ele tinha de concordar em seu interior. Tinha uma língua afiada, capaz de ferir a pessoa mais alegre do mundo, e um dom de fazer os outros quase se ajoelharem a seus pés, um dom que, segundo os gémeos, poderia até funcionar com o Papa ou o próprio Budha.

O loiro caminhou até ao rapaz de cabelos lavanda, que continuava baloiçando desconsolado com a brisa quente da tarde. Se sentou no outro baloiço vago, ao lado do dele, e baixou o olhar para os ténis que calçava.

- Você não é infantil – ele falou, tentando se redimir por suas palavras e seus pensamentos. – Eu é que sou demasiado mesquinho. E chato. E tenho, de verdade, o dom de ferir as pessoas. Tenho uma língua ferina, como diz o Kamus, e sou tão arrogante, que até o próprio Budha conseguiria se ajoelhar a meus pés se fosse preciso. E sou...

- Você não é nada disso – disse Mu, levantando a cabeça para o loiro, que continuava fitando os ténis. – Você é humano. Como todos nós. Não se culpe...Ou como você diz, não se recrimine – falou dando um sorriso amigável e doce, o mesmo sorriso de há bocado que não lhe saía da cabeça. Como ele conseguia continuar sorrindo depois do que o loiro dissera e pensara a seu respeito? Quer dizer...não que o rapaz de cabelos arroxeados pudesse ler seu pensamento, é claro que não, mas devido às palavras que proferira...Bom, se a ele não lhe abalavam, a Shaka abalariam de certeza!

Permaneceram em silêncio por um momento. Shaka continuava se interrogando sobre o porquê de Mu não se importar – «quer dizer, é claro que se importa, todo mundo se importa», dizia sua mente – sobre a sua tentativa de fuga e das desculpas esfarrapadas que tinha arranjado para escapar...estava inconformado. De certo ele ficara ressentido e, nalgum momento, num acesso de raiva, lhe jogaria tudo isso na cara.

Fuku o kigaete mado no soto o mitemiyoo

(Vamos trocar de roupa e olhar lá para fora)

Shinkokyuushite mieru keshiki wa

(Respirando fundo, poderemos ver)

Chigau hazu dawa

(Uma paisagem diferente pela janela)

Mas, levantando sua cabeça e o olhando, surpreendentemente, com carinho, se apercebeu de que isso seria impossível. Mu parecia ser uma pessoa calma, equilibrada, doce e gentil. E distraído, coisa que o loiro detestava. Mas pelo rapaz sentado no baloiço a seu lado, talvez fosse capaz de abrir uma excepção.

- Não vou me recriminar – falou Shaka algum tempo depois, ainda com o olhar fixo em Mu.

- Você disse o mesmo da última vez – a voz doce de seu mais recente colega ecoou no parque vazio, causando no loiro uma reviravolta desagradável no estômago. – E não cumpriu. Como eu hei de saber se posso confiar em você assim? – perguntou divertido.

- Oras, é claro que pode – Shaka falou, tentando manter sua pose de "eu sou inalcançável para vocês meros mortais", mas não conseguiu, dando uma pequena risada. – Porque não poderia confiar em mim?

- Eu conheço você à pouco tempo... – o menino falou atemorizado. – Meu pai diz para ir devagar, e não aprofundar muito as relações com as outras pessoas. Diz que elas podem me machucar.

- Provavelmente porque alguém já machucou você – e lá estava seu mau génio interferindo de novo. Quando é que ele pararia de ser metido nos assuntos das outras pessoas? – Desculpe, não era minha intenção.

- Não tem mal – apaziguou-o Mu, dando um sorriso triste e singelo ao mesmo tempo. – Você tem razão, algumas pessoas já me machucaram.

O estômago de Shaka deu outra reviravolta, desta vez de raiva e não de atrapalhamento. Como alguém poderia sequer ter coragem de ferir uma pessoa tão bondosa, amável, frágil e delicada como Mu? Estava um pouco inconformado, é claro.

- E o que você fez quando essas pessoas lhe machucaram? – perguntou o loiro, cerrando as mãos com força em volta das correntes que seguravam o baloiço.

- Ahm...o que eu poderia fazer? – perguntou debilmente, sorrindo de novo. – Eu não poderia fazer nada. Eles eram muitos, e faziam troça de mim por causa de meu aspecto...vai entender, tem cada pessoa mais esquisita...Não percebi qual o problema deles comigo, então eu não fiz nada.

Shaka estava, de novo, inconformado com os factos.

- O problemas deles com você e seu aspecto – disse Shaka se acalmando – é que você é simplesmente areia demais para o saco deles. Você não tem de se acanhar assim dessa maneira. Seu aspecto não é nada de que se deva fazer troça.

- Sei não... – Mu comentou, dando alguns chutes na areia do chão do parque. – Está vendo estes dois pontos aqui, na minha testa? – falou, pondo os dedos por cima dos mesmos. – Penso que esse era o problema deles. E meu cabelo, minha aparência frágil...mas eu nunca cheguei a descobrir o que era realmente.

Shaka se levantou de seu baloiço e caminhou até Mu, olhando de frente para ele e dizendo em tom firme:

- Isso não vai acontecer mais com você. Eu prometo – estendeu seu dedo mindinho para o rosto de Mu, que o olhava confuso.

- Me dê o seu agora – disse, pegando uma das mãos do colega e pondo de frente à sua. Seus dedos se entrelaçaram. Uma promessa estava feita entre eles dois.

- O que isso significa? – inquiriu o rapaz na frente do loiro, fitando seus dedos. Parecia quase que estavam de mão dada.

- Isso é uma promessa, Mu – disse Shaka, dando um sorriso pelo canto dos lábios. – Pelo menos foi isso que me disseram... É uma maneira de materializar uma promessa...Como hei de explicar?

- Não precisa explicar, eu percebi – disse Mu sorrindo de novo, se levantando do baloiço e pegando a mão do virginiano. – Venha comigo, quero lhe mostrar então aquilo.

- Mas...não era isto que você me queria mostrar? – Shaka falou apontando o parque em seu redor.

- Ah, não! O que eu queria lhe mostrar...venha cá – arrastou o loiro para uma espécie de canteiro que se estendia em volta do parque, com relva miudinha a crescer. Se abaixou e começou a mexer freneticamente na relva, tentando achar algo que Shaka não sabia o que era.

Kowareta taisetsu na mono to

(Pergunto-me se algum dia seremos capazes)

Itsuka mata aeru higa kurukashira

(De nos reencontrarmos com essas coisas despedaçadas)

- Tenho de achar um... sempre há montes deles por aqui...eu tenho a certeza que já vi um... – o loiro ouvia Mu resmungar baixinho, continuando a procurar a tal coisa. – Shaka....chega aqui...acho...acho que já...já encontrei – falou, levantando o rosto alvo, com as maçãs do rosto coradas e um sorriso nos lábios.

Shaka se abaixou na altura dele e olhou para a relva sobre os seus pés. O que poderia haver de especial num pedaço de grama?

- O que há aqui? – perguntou desconfiado, fitando o rosto de Mu.

- Ahm... – Mu se levantou com a mão atrás das costas, que parecia segurar algo dentro do punho fechado e fez sinal para que o loiro o fizesse também. – Isto – Mu estendeu a mão que estava escondida e a abriu, mostrando uma plantinha muito verde e com um frágil caule sem folhas.

- Um yotsuba no kurooba – falou o rapaz de cabelos lavanda, baixando os olhos para os ténis, envergonhado, as suas bochechas adquirindo um tom rosado.

- O que isso significa? – perguntou o loiro. Sabia que o amigo falava em japonês, mas como nunca fora muito bom nessa matéria, não percebera. Apesar de estar no Japão há algum tempo, não se habituara à língua japonesa. Fitou a planta por um tempo, se apercebendo que se tratava de...

- Um trevo de quatro folhas! – exclamou Shaka surpreendido. Tanto quanto sabia, só existiam trevos de quatro folhas nas histórias e contos infantis. Seria praticamente impossível encontrar um! Mas Mu estava na sua frente, segurando-o na sua mão, mostrando-lho. O que aquilo significaria? – Mas...como você o encontrou?

- Procurando...digamos que, no que toca a encontrar coisas raras, eu tenho sorte – Mu falou acanhado e deu uma pequena risada cristalina, seguida da de Shaka devido ao trocadilho. – É para você – falou depressa corando mais, esticando o braço na direcção do rosto do loiro.

- Pa...para mim? – inquiriu Shaka, parando de rir imediatamente. Não percebia qual era a ideia do menino... Porquê um trevo de quatro folhas? – Porquê eu?

- Porque...porque você é a primeira pessoa que conheci aqui... E... é especial – falou envergonhado, não sorrindo mais.

- Porque eu sou especial? – perguntou Shaka apelando a seu lado racional, franzindo a sobrancelha, desconfiado.

- Simplesmente é... não sei explicar – Mu sorriu com o canto dos lábios e fitou o loiro de olhos azuis. – Se não quiser, é claro, não tem de aceitar... é só que... é para que todos os seus sonhos se realizem, e que nada de mal aconteça com você... porque... você é importante para mim... – olhou para o céu esperando que o loiro não tivesse percebido as suas últimas palavras.

Nokoshita kizuato ga kieinai

(As cicatrizes do passado não desaparecerão)

Sorezore no basho made

(Agora devemos partir)

Mou ikana kucha

(Cada um para seu lugar)

Shaka levantou as mãos, encobrindo as de Mu com as suas e falou, fitando-o:

- É... é bom saber que sou importante para alguém – disse imitando o colega, olhando para o céu azul. O sol brilhava alto; apesar de já passar do meio dia, como o céu estava praticamente limpo, com algumas nuvens passando aqui e ali, a luz ainda conseguia ofuscar os olhos de quem olhasse no astro rei directamente. – Você também é importante para mim – falou, desta vez dando um sorriso singelo.

- Porque eu sou? – Mu perguntou, baixando de novo os olhos para a grama. – Eu nunca fui importante para alguém cujo sangue não corresse nas minhas veias.

Shaka sentiu um pouco de pena dele, e sabia que isso se devia em parte à troça que faziam dele devido a sua estatura, seu aspecto.

- Simplesmente é – o loiro falou dando um sorriso reconfortante para o colega. Com uma das mãos, levantou o queixo dele, fazendo-o lhe encarar: — Não se sinta mal por isso. Ser importante para alguém é bom. E você é importante para mim – terminou de falar, cobrindo a pequena mão de Mu com a sua. – Posso ficar com o trevo?

- Kurooba – corrigiu Mu, sorrindo para o loiro, que fez uma cara de birra. – É assim que se diz em japonês.

- Na Índia, a gente diz tipatiyā ghāsa – declarou Shaka sagazmente.

- Você é indiano? – perguntou Mu admirado. – Quer dizer, desculpe, não devia perguntar. É só que como você é loiro de olhos azuis... Pensei que fosse inglês.

- Sou, de certa forma – respondeu o loiro. – Meu pai é inglês e quando estava numa expedição na Índia, conheceu minha mãe. Aí eles casaram lá e...hum...nasci eu – deu uma risada divertida, seguida da de Mu.

Popura namiki dasenai mama no love letter

(Carta de amor não enviada, despedida na alameda)
Nandomo te o furikaeshita wakaregiwa

(Em que me virei para trás acenando várias vezes)

O kurooba, tipatiyā ghāsa, ou simplesmente trevo, passou das mãos de Mu para as de Shaka num gesto doce. Shaka pegou o trevo e o girou entre os dedos, admirando a plantinha.

- É engraçado – disse ao fim de algum tempo. – Mas porquê um trevo e não uma margarida, ou outra flor qualquer?

- Eu...eu achei que ficaria engraçado em você – respondeu Mu envergonhado, enrolando uma mecha dos cabelos lilases no dedo desajeitadamente.

- Acho que um também ficaria legal em você – disse Shaka parecendo não se importar, mas por dentro dava vivas e seu estômago parecia querer iniciar uma 3ª guerra mundial. Se abaixou, caindo de joelhos na grama e começou vasculhando com o olhar e com a mão, tentando encontrar outro trevo igual ao que o amigo lhe dera. Mas, por razão alguma, após procurar durante dois minutos, não encontrou nenhum. Pelo menos não com a mesma facilidade que Mu encontrara o seu.

Osanai koro omoiegaiteta subete wa

(Tudo o que eu sonhei na infância)
Kanaerareta ka no yooni mieta noni

(Parece ter sido realizado)

- Desisto – disse o loiro rendido. – Eu não consegui achar nenhum, não percebo como você achou esse tão depressa!

- Assim – Mu se abaixou ao lado do loiro, sorrindo docemente e começou a passar a mão pela grama, tentando encontrar o trevo. Sentiu o olhar surpreendido de Shaka sobre si quando a sua mão pálida passou por cima de algo que pareceu chamar a atenção do loiro.

- Ali! – disse Shaka pousando a mão na grama distraído e eufórico, mas se apercebeu de que tinha postado sua mão por cima da de Mu. Continuou a procurar como se nada fosse, sentindo o calor que o amigo emanava da pele pálida. Sentiu Mu a seu lado se retesar e deu uma olhada rápida pelo canto do olho nele. Suas bochechas estavam coradas, uma gotinha de suor corria pela sua testa e os pontinhos avermelhados se encolhiam. Ficava tão adorável! Decidiu guardar a imagem dele na sua mente para mais tarde relembrar.

- Você foi bastante rápido encontrando ele – elogiou-o Mu, com os olhos a brilhar. – Viu? Quase não precisou da minha ajuda...

Yasashii ame wa furu watashitachi no ue ni

(A chuva gentil cai por cima de nossas cabeças)

Surechigau hito no kazu dake

(Quanta mais gente passa por mim)

doramachikku ni na ru no

(Mais dramática fica a minha vida)

- Se você não estivesse aqui, eu tenho a certeza que não teria conseguido encontrar ele... – desculpou-se Shaka humildemente.

- Não seja bobo – mas ele estava lhe insultando? Desde quando ele lhe dera liberdade para tal coisa? Shaka o olhou inconformado, mas se apercebeu de que ele estava brincando, sorrindo docemente, um sorriso singelo e pueril. — Você encontrou ele, o mérito é todo seu! Parabéns...

- Mas eu o quero oferecer a você – terminando de falar, Shaka lhe estendeu o trevo em frente ao rosto. Os olhos verdes de Mu piscaram diante o gesto e Shaka balançou a ponta do trevo, de modo a que esta tocasse no nariz arrebitado de Mu.

- Isso faz comichão – ouviu o amigo protestando, todavia sorrindo. – Obrigado.

Nakushita yakusoku wa hoshi ni
(Promessas perdidas se transformam em estrelas)

Omoide wa tokenai de soba ni aru

(Minhas memórias estão bem perto e não desaparecerão)

- Não tem de quê – respondeu Shaka divertido, encantado com a visão de Mu tão embaraçado. Pegou o trevo e o pôs no cabelo do ariano, como um ganchinho. O admirou e sorriu, satisfeito com o seu trabalho. – Fica bastante bem em você.

Mu tentou olhar para cima através das pálpebras, querendo confirmar o que Shaka falara com seus próprios olhos.

- É sério? – perguntou desconfiado, com estes muito abertos.

Ima kokoro wa kiyoku hikaru

(Agora meu coração emite um brilho puro)

Namida de mienakunaru
(As lágrimas embaçam a minha visão)

Sasayakana nagareboshi o hitotsubu
(Então colocarei na sua mão)

Tenohira ni ageru kara

(Uma estrelinha cadente)

- Claro – o loiro falou dando um sorriso confiante. – Vá, bonequinha, não se preocupa. Se quiser eu posso comprar um vestidinho para você também...

- Bobo! – gritou o outro dando um tapa no braço de Shaka, que apenas ria vendo as maçãs do rosto do ariano se avermelhando. Olhou para o céu, finalmente parando de gargalhar, e depois para o relógio, falando preocupado: Hum-hum, são 3 e meia. Devia estar ali no meio da confusão... Você quer ir? É que tenho lá gente me esperando...

- O Kamus e o Miro, e os gémeos, né? – falou mexendo no trevo com o dedo.

- Sim... e mais alguns, como o Aiolia... esqueça, ele está com a Marin – Shaka falou pensativo com o dedo no queixo.

- A Marin é aquela ruivinha, né? Achei ela simpática... Bom, não que eu tivesse falado com ela... Mas quando estava chegando, vi ela ajudando um moço... Achei ela legal – Mu comentou ainda com a mão no cabelo, agora enrolando uma mexa de cabelo no dedo.

- Sim, é ela mesmo – comentou Shaka franzindo as sobrancelhas apressado. – Mas devíamos ir, eles devem estar me esperando... Depois a gente combinou de ir para casa dos gemas... Quer dizer, do Saga e do Kanon... os gémeos...

- Claro, claro, não faço você perder mais tempo – disse Mu dando um sorriso diferente do habitual, mais aberto e confiante. Shaka, impaciente, falou um pouco mais alto que o que pretendia:

- Não seja bobo, é claro que você também vem – declarou puxando o pulso de Mu junto com ele, à medida que andava para fora do recinto do parque. Reparou em como ele era pequeno e magro, como o seu dono. Delicado.

Kowareta taisetsu na mono to

(Pergunto-me se algum dia seremos capazes)

Itsuka mata aeru higa kurukashira

(De nos reencontrarmos com essas coisas despedaçadas)

Nokoshita kizuato ga kieinai

(As cicatrizes do passado não desaparecerão)

Sorezore no basho made

(Agora devemos partir)

Mou ikana kucha

(Cada um para seu lugar)

- Eu... eu também vou? – Mu gaguejou desfazendo o sorriso e a sua expressão passando de regozijo a espanto num piscar de olhos. Shaka continuou puxando ele, agora pisando duro no asfalto do chão da escola.

- Preciso repetir? – disse o loiro impaciente, um pouco irritado. Odiava quando estava sendo generoso e as pessoas duvidavam dele! Até parecia que não deveria ser assim, e que sempre deveria manter aquela máscara fria e superficial, indiferente a tudo à sua volta.

- Não – Mu falou se sentindo um pouco desolado. Não deu mais nenhum de seus doces sorrisos para o loiro até regressarem ao corredor onde se tinham encontrado.

Sim... Tinha sido exactamente assim. Um sorriso singelo aflorou nos seus lábios, se lembrando de ver Mu encantado com o pequeno trevo no seu cabelo, do tom avermelhado que suas bochechas adquiriam quando o loiro dizia algo embaraçoso... Ficava extremamente adorável, parecia uma criancinha feliz em receber um brinquedo novo.

E o seu sorriso... Não era perfeito, tinha os dentes de frente um pouco grandes... Fazia até lembrar um coelho... Mas para Shaka, ele era perfeito. Singelo, doce. Como só o dele podia ser, pensou, sorrindo de novo.

Notas finais
rsrsrs Capítulo bem tosco esse! Publicado no níver do Shion, de 2010! Pft, passou tanto tempo! Bem, espero que gostem desse flashback. Até mais! o