Yotsuba no Kurooba
3 Capítulo II - E Fale com o Gelinho
Notas iniciais
Capítulo 2 — E Fale com o Gelinho
E o seu sorriso... Não era perfeito, tinha os dentes de frente um pouco grandes... Fazia até lembrar um coelho... Mas para Shaka, ele era perfeito. Singelo, doce. Como só o dele podia ser, pensou, sorrindo de novo.
Se levantou do sofá onde se tinha sentado desde a chegada de Milo e, ainda de roupão, pegou o telefone que estava pousado no auscultador, marcando o número do amigo. Ficou ouvindo o irritante barulho da chamada em espera, ansiando o grego atender o telefone...
– Barbie!! – ouviu a voz animada de Milo do outro lado da linha responder. – Tudo bem? Porque ligou?
– Estaria muito melhor se você não usasse esse apelido tosco para se referir à minha pessoa – contestou o loiro fingindo mau-humor. – Sim, está tudo bem... Eu queria saber... hum... Sabe me dizer...
– Desenrola de uma vez, loiro! Já não bastou ter interrompido o clima aqui entre mim e o francesinho, ainda fica hesitando! – exclamou o grego levando de seguida um tapa de Kamus, que gritou «Milô!» pelo telefone, pelo que Shaka percebera.
– Ahm... SabemedizéondeficàcasadoMu? – perguntou apressado sentindo o calor subir-lhe à face.
– Minha nossa, também não é preciso exagerar! – retrucou o amigo, dramatizando do outro lado da linha.. – Poderia repetir a pergunta, Shaka? É que por muita pressa que eu tenha, e o gelinho aqui também para continuar nossas... Ah, Kamyu, não faz isso se não esta noite não vamos... Pronto, sim, já percebi, amor, não precisa ficar assim... O que você estava dizendo mesmo? – perguntou distraído, arfando um pouco. Shaka rezava para que não tivesse interrompido aquilo que ele pensava estar a acontecer.
– Se me podia dizer onde fica a casa do Mu – repetiu, reunindo toda a sua coragem e fechando os olhos. Sempre fazia isso quando estava demasiado tenso.
– Ah! Ainda agora ele chega e você já vai caçar o carneirinho, né? – inquiriu Milo gargalhando, sendo de novo repreendido por Kamus do outro lado da linha, que murmurou um «Il jamais va savoir se comporter dévidement(1)». – É assim mesmo, se faça a ele! Eu quero ver acção! – se Milo estivesse ao seu lado Shaka poderia jurar que seus olhos estavam brilhando e um sorriso sacana estava espelhado em seu rosto.
– Calma lá, sim escorpiãozinho? Eu não sou como você, que pega as pessoas no primeiro encontro e arrasta elas para um motel decadente... – falou arrogante, sacudindo alguns fios loiros da cara.
– Bem, não tem regra sem excepção, Shaka – disse o amigo. – Acho que está na altura de introduzir a sua...
– MILO! – gritaram os dois rapazes atarantados.
– Ok, ok, não me matem, está? Só estava reproduzindo o que vossas mentes perversas estavam pensando... Ehehehehe – deu uma risada meio atrapalhado. Shaka tinha a certeza que Kamus estava dando um olhar tão frio para ele que o grego poderia congelar.
– Por isso, pode dizer então, se não for pedir muito, onde ele mora? – perguntou o loiro inspirando e suspirando, tentando arranjar paciência para outra resposta perversa do amigo.
– Claro – disse Milo despreocupado. – Quando eu e o Kamus o encontrámos, a gente falou um bocado e ele disse que estava morando em Hokkaido.
– Hokkaido é uma ilha, Milo, é enorme... – suspirou Shaka do outro lado da linha, segurando o telefone entre o ombro e a bochecha e pegando uma caneta e um papel para apontar a direcção.
– Me diga algo que eu não saiba – ouviu o outro responder fingindo estar entediado. – Bem, ele ainda está estudando né, já que é mais novo que a gente... Por isso deve estar pertinho da universidade de Hokkaido...
– Pertinho da universidade? E onde fica a universidade? – perguntou o loiro, apontando a informação num pedaço de papel.
– Não sei dizer exactamente onde, já que nunca lá estive – declarou Milo. – Mas porque não compra um guia, ou algo do género? Acho que aí deveria estar a direcção...
– Pois bem, comprarei um quando for para lá.
– E como pensa ir para lá? – indagou o escorpiano. – Sei que pode ir de trem ou de avião, mas no seu caso, um avião seria o melhor, não? Porque você parece cheio de pressa, como se fosse morrer se não puser os olhos no carneiro.
– Não, não acho – retorquiu o loiro. – Teria de ter bilhetes, o que me demoraria uma eternidade a arranjar.
– Ah, esqueci isso.
– O que o amor faz com as pessoas... – dramatizou Milo fingindo um ar sonhador e bobo, como um colegial apaixonado. – Não controle seus hormônios não, pode até assustar o carneirinho...
– Milo... – falou Shaka franzindo o sobrolho e inspirando e suspirando, procurando se acalmar. Como aquele grego conseguia empatá-lo quando tinha tanta pressa? E mais, irritá-lo ainda! – Fala logo, por favor. Eu sei que você sabe.
– E eu sei que você sabe que eu sei – retrucou o escorpiano divertidíssimo. Tornou-se sério subitamente. – Eu não sou a melhor pessoa para o aconselhar com transportes, Shaka, sabe disso, fale com o geli... Quer dizer, o Kamus – ouviu-se um barulho esquisito e segundos depois a voz de Kamus fez-se ouvir pelo auscultador:
– Tudo bem, Shaka?
– Tudo, sim... Err, Kamus... Se não fosse muito incómodo, poderia me dizer como posso ir daqui para Hokkaido, mais precisamente para perto da universidade... Sapporo? – perguntou ansioso.
– Hum – fez Kamus afagando o queixo. – Pode sempre ir de avião, é superr rápido.. Mas demoraria para arranjar os bilhetes, como você falou. Bem, pegar o trem, eu acho.
– E como eu faço?
– Isso non me perrgunte a mim, Shaka, por deus, eu non estou aqui assim à tanto tempo . Devia perguntar a minha prrima Saori, isso sim – respondeu o aquariano pensativo.
– Não obrigada... Ahm, sabe, não convinha perder muito tempo... Gostaria de chegar lá ainda hoje – asseverou Shaka encabulado. – Sete da noite, no máximo.
– No mínimo às nove. – ouviu Milo interferir pelo auscultador, e fez uma anotação mental sobre isso.
– Claro, claro... Com licença... Camus, Milo, obrigada pela ajuda. E sim, Milo, eu ligo quando chegar. Já te falaram que você daria uma ótima mãe galinha? – respingou o loiro, pousando o telefone antes que Milo pudesse contrariá-lo. Sapporo não podia ser assim tão longe... Para ele, nenhum lugar era demasiado longe quando o assunto era Mu.
Apanharia um comboio para Sapporo ainda naquela tarde. Sairia de casa quando, lá para as três? E quando lá chegaria mesmo? É, às nove da noite. Óbvio que já não conseguiria ir à universidade naquele dia. Caminhou até ao quarto, dando um longo bocejo pelo caminho e indagou mentalmente: «O que eu vou vestir hoje?»
–x-
Depois de ter arrumado uma mala com roupa e adereços para a viagem, Shaka estava finalmente à porta do apartamento, trancando-o à chave. Levava consigo o que pensava ser apenas o útil e o indispensável: algumas mudas de roupa, um mapa do Japão e outro de Hokkaido, já que a ilha era grande, alguns mantimentos, sabonetes e afins, caso não houvesse nada disso no sítio onde se hospedaria.
Agora pensando nisso... Ainda não sabia onde ficar! Estava de malas feitas, decidido a partir e sem ao menos saber onde se alojaria... Mas decidira «entrar de cabeça», não fora? Então, porque não arcar com as consequências?
Pegou as suas malas e as puxou em direcção ao elevador do antigo prédio onde morava... Havia trazido coisas a mais, de certeza, pois a mala parecia ser feita de chumbo. Mas Shaka não era homem de se deixar abalar por isso, e a arrastou (penosamente, deva-se dizer) para dentro do elevador.
Levantou o olhar e se deparou com Marin, uma das moradoras do prédio. Marin ainda cursava em Tokyo, mas sendo trabalhadora estudante, conseguira arranjar dinheiro suficiente para pagar a renda. «Não que fosse preciso se esforçar muito», pensou o loiro amargamente, já que bastaria vir um vento mais forte ou um simples tremorzinho de terra que o prédio ruiria na hora. Marin era uma menina baixa, magra, mas tinha um porte altivo. Cabelos ruivos escalados na altura dos ombros e os olhos azuis, como a água do mar. Era geralmente prestável com as demais pessoas e principalmente com os idosos, que viviam lhe pedindo ajuda para encontrar as suas respectivas portas no prédio; mesmo assim, ela nunca se cansava de o fazer. Era uma rapariga gentil...
«Gentil... Mu também era assim...» pensou o loiro por um momento, e logo sacudiu a cabeça, tratando de pôr fim aos seus devaneios irracionais.
– Olá Shaka – cumprimentou a ruiva a seu lado, cumprimentando-o com um aperto de mão. – Tudo bem? O que faz com essas malas todas? – inquiriu indicando as malas aos pés do loiro.
– Ahm... Eu vou partir de viagem – respondeu ele.
– Sério? Que legal, para onde você vai? – perguntou Marin, sorrindo.
– Para Hokkaido, Furano, para ser mais preciso – respondeu Shaka, sorrindo também. Era fácil sorrir à beira da garota.
– Mas, isso é tão longe... – a moça falou preocupada, ainda olhando a mala.
– É longe sim, mas... Bem, para o que eu preciso fazer, acho que atravessaria o mundo todo só para vê-lo... – o loiro se apercebeu, tarde demais, que falara em demasia.
– Vê-lo? Ver quem? Shaka, você está apaixonado? – Marin perguntou risonha. Shaka olhou enviesado para ela e ficou com a maior cara de pau do mundo. Sem se aperceber, as suas bochechas tornavam-se escarlate. – Ui, acho que nem precisa responder... Já estava na hora, né? Você está sozinho faz tanto tempo...
– Não Marin, eu não estou apaixonado, acredite – ele falou tentando esconder o óbvio. Marin o puxou para segredar:
– E aí, quem é ele?
– Puxa Marin, valeu, vou-me silenciar para todo o sempre depois desta... Eu estou partindo de viagem e você só fica falando besteira para mim... – Shaka respondeu com os braços cruzados sobre o peito, numa evidente pose de birra.
– Mas eu não estava falando besteira! Shaka, eu juro, estava falando de verdade! Quem é ele, me diga! – ela indagou, franzindo as sobrancelhas angustiada.
– Não precisa ficar assim, Marin... Eu também estava exagerando um pouco... Mas bem, é alguém do passado que eu preciso reaver.
– E se apaixona assim, do nada? Estou boiando mesmo, Shaka, quem é? – Marin tentou investir mais uma vez para que o loiro lhe dissesse de quem a tal pessoa se tratava. De repente, um sorriso de regozijo se espraiou no seu rosto e ela sorriu, entendendo tudo. – Ahh... Estou me lembrando agora, Shaka... A única pessoa que a gente conhece que mora em Hokkaido, para além do Afrodite, é claro, é o Professor Hanamoto-sensei...
– Hanamoto-sensei? – perguntou Shaka. – Me desculpa, mas agora sou eu que não estou percebendo.
– Nosso professor na décima série, se lembra? Alto, com o cabelo verde muito comprido, se chamava Shion. Tinha muitas raparigas na minha sala que suspiravam só de o ver passar nos corredores... – proferiu Marin lenta e sonhadoramente.
– Ah... Agora que fala nisso... Acho que sei quem é... – declarou Shaka, tentando se lembrar vagamente do professor. O vira algumas vezes, para além do período das aulas. Com ele sempre andava um rapaz mais baixo que Shaka e Shion, com os cabelos amarrados num rabo de cavalo frouxo. Agora se lembrava... Era sobrinho dele!
– Marin, o professor Hanamoto-sensei tinha um sobrinho, não tinha? – indagou vagamente.
– Sim... Sim, eu acho que tinha! Era um menino esquisito... Diferente dos outros meninos, segundo me consta... Falei algumas vezes com ele, era tão querido! – soltou Marin, sorrindo de novo, deliciada.
– Eu sei quem é! Ele era da minha classe... – agora a imagem do jovem rapaz de cabelos lavanda assomava à sua mente, rapidamente, impedindo-o de pensar noutra coisa. – Seu nome é Mu!
– Ah! Sim... Eu lembro dele! Era dele que eu estava falando... Mas, você ainda não me explicou o que vai fazer a Hokkaido... Vai visitar o professor? Ou... É claro... Eu devia ter adivinhado – disse Marin com uma expressão fingida de calculista, sorrindo mais uma vez.
– Ahm... Adivinhado o quê, Marin? – Shaka tinha medo da resposta da garota. Muito medo. Será que estava tão assim na cara que...
– Você, que está apaixonado pelo Mu! – ela falou, vitoriosa, erguendo o punho no ar e soltando um «Yeah!».
– Eu já disse, ruiva... Eu não estou apaixonado... – suspirou o loiro, rendido.
– Falando assim, você até parece uma pessoa normal, Shaka – exclamou ela divertida. – Sem ofensa, mas eu já sabia. Só não estava me lembrando de quem era.
– Como assim você já sabia? Quem contou para você? – Shaka anotou mentalmente que cortaria em pedacinhos o autor dessa revelação e que o serviria de aperitivo no casamento da prima de Kamus.
– Ah, Shaka, relaxa, ninguém me contou nada – falou ela ainda risonha. – Todo mundo saca, nem precisa dizer!
– Está tão na cara assim? – ele falou desanimado.
– Está, Shaka... Ih, não fica assim. Olha só, amar é uma coisa linda, sabe... Você sempre se esforçou demasiado para ter tudo o que precisava, bens, estudos, mas nunca ligou realmente para namoros... Acho que está na hora de você finalmente se entregar, assim, sem medo – Marin falou um pouco corrida, pois estavam quase chegando no piso térreo. Como o prédio tinha 20 andares, o percurso do elevador ainda lhes rendera muito tempo de conversa. – Bem, Shaka, eu tenho que ir, o Aioria está me esperando lá fora...
– Claro... Claro... – ele falou, ainda desconsolado.
– Boa viagem... E vê se pensa no que eu disse – Marin deu um aceno para Shaka e saiu do elevador. Depois, virou-se para trás, perguntando: – Hey, precisa de ajuda com essas malas, Shaka? Não se arme em herói desta vez, eheheh.
– Eu posso carregar a mala sozinho – Shaka falou levantando o queixo com um notório ar de superioridade.
– Sim, e pode se partir em dois no processo. Cruz credo, barbie, deixa eu te dar uma mãozinha – falou uma voz grave e alegre acima de si. Shaka levantou os olhos das malas e deu de caras com Aioria, o namorado de Marin, sorrindo para ele. – Não mudou mesmo nada, loiro. Teimoso e orgulhoso como sempre, né?
– Você também não mudou nada, Aioria – disse Shaka, olhando para o amigo de cima a baixo. – Continua sendo o mesmo pé no saco de sempre.
Marin olhava de Aioria para Shaka preocupada. Tinha a sensação que o circo estava prestes a pegar fogo... Quando se depara com a mais rápida mudança de emoções da sua vida: Aioria puxa Shaka para um abraço, ao que o outro retribui, dando leves pancadas nas costas um do grego, ainda atordoado. A ruiva cobriu a boca com as mãos, espantada, e exclamou, numa voz um pouco esganiçada:
– Vocês os dois! São malucos?!
– Ahm? – os dois desfizeram o abraço um pouco sem graça, se interrogando sobre o que a garota dissera.
– O que você quer dizer, Marinzinha? – perguntou Aioria, passando o braço por cima do ombro da namorada. – Está com ciúmes?
– Ciúmes?! Vocês dois que não regulam bem, só pode! Estavam tão mal humorados, tão chateados, tão...
– Chateados? Nós? Se engana, Marinzinha – disse Shaka sorrindo e dando enfâse à última palavra destinada à ruiva.
– Sem apelidos, barbiezinha – retrucou ela, sorrindo também. – Bem, Aioria, a gente tem de ir... Olha a hora...
– Ih, é mesmo, já viu? Está quase nas 10... Falta pouco para nos encontramos com o meu irmão e Shura e... Pelo amor da santa, Shaka, para que é essa mala? Vai viajar? – inquiriu, apontando espantado para as malas aos pés do amigo.
– Ele vai de viagem, leãozinho – falou Marin, dando um selinho no namorado. – Para Hokkaido.
– Eu sempre que soube que você não era muito bom da cabeça, mas... Hokkaido? Fala sério, Shaka... O que vai lá fazer?
– Visitar uma pessoa – disse o loiro levantando o queixo, emburrado com o que poderia resultar daquela conversa.
– Que pessoa? – perguntou Aioria, sorrindo maliciosamente.
– Isso não é da sua conta, Aioria – declarou Shaka impaciente para seguir viagem, pegando algumas malas. – Ahm... Leãozinho, me ajuda com essas malas aqui? É que, nossa, isso é pesado...
– Eu ajudo, mas vai ter que falar – falou o leonino, sorrindo de novo e pegando duas das malas de Shaka. – Então, quem ? E, já agora, onde deixo essa droga?
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