Yin Yang (Reescrevendo)
1 Sincronia
Notas iniciais
A manhã no Vale da Paz trazia o silêncio de antes do treino, com a neblina deslizando pelos telhados do vilarejo e o sino do Palácio de Jade ecoando pelas montanhas. O ar cheirava a musgo, madeira antiga e incenso apagado. No pátio, os Cinco Furiosos já estavam posicionados.
Garça mantinha a postura firme, as asas meio abertas. Víbora permanecia enrolada sobre um pilar baixo, silenciosa. Macaco se apoiava no bastão com uma expressão relaxada que não enganava ninguém, e Louva-a-Deus, imóvel, parecia uma estátua até se notar o leve movimento de sua cabeça acompanhando cada gesto.
No centro, Po e Tigresa se enfrentavam.
Po avançou primeiro, o corpo grande se movendo com confiança, girou usando o próprio peso como impulso e desferiu um golpe amplo.
Tigresa interceptou com precisão, o impacto ecoando seco pelos braços de ambos, ela ajustou a base, girou o quadril e respondeu com um ataque.
Com um sorriso leve, Po mudou o ritmo sem aviso, improvisando um segundo ataque mais rápido, e Tigresa antecipou o movimento por um instante, o suficiente para bloquear, mas não para impedir que o contra-ataque saísse desalinhado.
De longe, Shifu estreitou os olhos, as orelhas inclinando-se para trás.
Conforme o confronto se estendia, Po avançava sem pensar, o ombro direito já girando antes do pé esquerdo tocar o chão e a pata aberta cortando o ar, encontrando o vazio onde Tigresa estivera um instante.
Ela calculava cada ângulo e cada centímetro de espaço entre eles, e foi justamente por causa dessa precisão milimétrica que, num momento de distração, o pé dela escorregou meio passo fora da posição, nada grave, mas o suficiente para Po notar, e para ela odiar profundamente que ele tivesse notado.
— Você está acelerando — Tigresa o interrompeu no meio do movimento seguinte, travando o avanço dele com firmeza para forçar uma pausa técnica enquanto o encarava com severidade.
Po inclinou o tronco para frente, apoiando as patas nos joelhos para puxar o ar com força e recuperar o fôlego, mas logo ergueu o olhar com aquela sua habitual descontração.
— Estou apenas companhando.
Enquanto os dois se encaravam no centro do pátio, Macaco inclinou a cabeça para o lado com um murmúrio.
— Aposto três bolinhos na Tigresa.
Víbora ergueu a cabeça apenas o suficiente para silenciá-lo.
Shifu, que acompanhara atentamente cada detalhe desde o último movimento impulsivo de Po até o ajuste tardio e orgulhoso de Tigresa, ergueu uma das patas com firmeza, fazendo sua voz ecoar pelo pátio antes que qualquer outro golpe fosse desferido.
— Já vi o suficiente.
Ambos se afastaram, deixando o pátio em silêncio.
Shifu não se moveu de imediato, os olhos fixos no espaço entre os dois.
Lentamente, o velho mestre caminhou até uma parede e abriu um compartimento antigo. O mecanismo oculto rangeu sob seu toque, permitindo que ele retirasse dali um objeto pesado, envolto em tecido escuro.
Quando ele afastou o pano, a luz da manhã reluziu no metal pesado de uma corrente curta, terminada em duas algemas antigas.
Tigresa reconheceu as algemas de imediato, os músculos dos ombros contrairam sob a pelagem listrada, enquanto as garras rasparam a superfície do chão de mármore.
Garça inclinou a cabeça intrigado, Víbora estreitou os olhos com seriedade e Macaco perdeu o sorriso, deixando apenas Po piscar, confuso.
— Mestre… isso é mesmo necessário?
Houve breve silêncio enquanto seus olhos percorreram os dois antes de falar.
— Shen mostrou o preço do desequilíbrio.
O nome do pavão carregava um gosto de ferro e cinza, a lembrança vívida do momento em que tudo quase ruiu em Gongmen, e Po sentiu a boca apertar enquanto o sorriso desaparecia por completo de seu rosto.
— O problema não é força, nem coragem. — continuou Shifu, voltando-se primeiro para Po. — Você confia demais no fluxo. — Em seguida, se direcionou à Tigresa. — E você confia demais na contenção.
Ele deu um passo à frente, permitindo que seus olhos severos dividissem a atenção entre os dois, analisando a postura excessivamente rígida de Tigresa e o desconforto nítido de Po, antes de estender o metal pesado na direção de ambos.
— Durante uma semana, vocês treinarão ligados. Cada passo, cada decisão, cada erro compartilhado.
Po engoliu em seco, sentindo a garganta dar um nó diante daquela seriedade toda.
O clique seco do metal ecoou pelo pátio assim que as algemas se fecharam em seus pulsos.
— Isso não é punição — Shifu recuou apenas o suficiente para encarar a dupla uma última vez, então se afastou, e ninguém falou nada por um momento.
Po sentiu o metal frio apertando contra o osso e imediatamente começou a testar. Girou e puxou levemente, sentiu o movimento da corrente, testou o outro lado, tentou flexionar, tentou esticar.
Tigresa permaneceu imóvel, sentindo o metal apertado.
Foram vinte anos de disciplina rígida aprendendo a estar sozinha, e agora presa, dependendo de cada movimento alheio que ela não havia planejado e que jamais conseguiria controlar.
Rompendo seus pensamentos, Po deu um passo para frente, a corrente esticou puxando-a num solavanco que a desequilibrou.
— Avise antes de se mover.
— Desculpa.
Ela respirou fundo, com o ar passando devagar pelo peito.
Po olhou para o metal no próprio pulso e depois para ela, tentando resgatar um pouco daquela leveza de antes, mas o sorriso murchou antes mesmo de começar. Sem graça, ele usou a outra pata para segurar um dos elos de ferro, tentando diminuir o barulho metálico e abafar o tranco.
À distância, Shifu observava em silêncio, com os braços recolhidos nas mangas do manto, sem dizer uma palavra, mas no pátio do Palácio de Jade, todos já sabiam ler perfeitamente o silêncio do mestre.
Macaco deu alguns passos à frente, girando o bastão de madeira com leveza, antes de apoiá-lo atrás do pescoço para alongar os ombros, trazendo de volta ao rosto um sorriso travesso.
— Sabe de uma coisa? Acho que isso aqui vai ser bem divertido.
Louva-a-Deus cruzou o ar, pousando diretamente no ombro do amigo.
— Tô dentro dessa. Quero só ver como o Dragão Guerreiro vai se virar com esse chocalho no pulso.
— Espera, o quê? — Po soltou o elo da corrente, a voz subindo um tom enquanto dava um passo instintivo para trás. — Gente, acabamos de colocar isso, nem lemos o manual.
Macaco o interrompeu com uma risadinha, girando o bastão e apoiando a ponta no queixo.
— Que tal um incentivo para o Dragão Guerreiro? Se você e a Tigresa conseguirem nos acertar um único golpe limpo... eu te entrego aquele pote de biscoitos de banana e Louva-a-Deus massageia seus pés.
— Espera, o quê? — questionou Louva-a-Deus.
— Aqueles com raspas de canela? Que você esconde atrás dos sacos de arroz?
— Os próprios — Macaco sorriu, balançando as sobrancelhas. — Mas se perderem, vocês lavam os pratos do palácio pelas próximas duas semanas.
Po engoliu em seco, mas a visão dos biscoitos e uma massagem relaxante nos pés falou mais alto.
— Fechado. — respondeu animado.
Tigresa suspirou, já conhecendo bem demais essa dinâmica entre os dois, e manteve a expressão implacável enquanto seus olhos permaneciam fixos nos movimentos de Macaco e Louva-a-Deus.
Macaco avançou primeiro. Ele girou o bastão de madeira no ar, uma extensão fluida de seus braços, e desceu o primeiro golpe mirado nos ombros de Po. Instintivamente, ele tentou se mover para a esquerda e Tigresa, por instinto, foi para a direita.
A corrente esticou entre eles com um som metálico que ecoou pelo pátio, puxando ambos de volta. Po levou o golpe de Macaco nas costas e caiu junto com Tigresa.
Ela tentou erguer o braço direito para revidar com um soco direto, esquecendo completamente que aquele era o braço acorrentado. O movimento arrastou o pulso de Po junto, que ainda tentava se equilibrar nas duas patas traseiras, que foi puxado para frente e sua cara colidiu direto com o punho estendido da própria Tigresa.
— Ah, o meu nariz! — reclamou ele, cambaleando para trás, cobrindo o rosto com as patas.
O recuo puxou o braço de Tigresa para trás no meio do golpe contra Louva-a-Deus, fazendo-a errar o alvo por centímetros. O inseto saltou no ar, desferindo um chute duplo no peito de Tigresa que a mandou para trás. Como Po ainda estava se distanciando, o impacto mútuo fez a corrente dar um tranco duplo, derrubando os dois de costas no chão, um ao lado do outro, arqueados pelo cansaço e pela dor.
Macaco pousou o bastão no chão, apoiando-se nele com um sorriso.
— É... os três bolinhos estavam garantidos. — murmurou ele.
Louva-a-Deus pousou na barriga de Po, cruzando as patas.
— Vocês parecem dois filhotes de ganso, zero sincronia.
Sentada, com a respiração ainda curta, Tigresa mantinha os olhos fixos à frente enquanto sentia o metal em seu pulso latejar. Ao lado dela, Po finalmente soltou o nariz, que já começava a arder e a encarou de soslaio.
— Vocês estão bem? — perguntou Víbora, deslizando.
Po sentou-se com um suspiro pesado, o metal da corrente tilintando contra a pedra do pátio, Louva-a-Deus saltou da barriga dele para o chapéu de palha de Garça.
— Sim — respondeu Po, terminando de checar se o nariz sangrava.
Tigresa assentiu, não era a primeira vez que recebia golpes de um treinamento.
— Não se cobrem tanto, logo vocês vão encontrar a sincronia. — afirmou Garça.
Tigresa olhou de relance para Po, depois para a corrente.
As águas escuras de Gongmen, sob o caos da batalha final contra a frota de Lorde Shen. Naquele dia, ninguém precisou acorrentá-los, eles simplesmente se moviam no mesmo compasso, um cobrindo o flanco do outro em uma sincronia instintiva que não precisou ser ensinada.
O tilintar estridente do metal desfez a imagem, o puxão seco da corrente raspou direto contra o pulso de Tigresa, Po tentou afrouxar sem êxito e suspirou cansado antes de olhar para ela.
Em Gongmen não havia precisado disso.
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