Notas iniciais
Quero agradecer de coração às primeiras pessoas que comentaram na fanfic. Vocês não imaginam o quanto isso significa para mim. Lufana, Anônima, Bruna, Victor e Frosty Girl, obrigada por lerem, por tirarem um tempo para comentar algo, por estarem aqui desde o começo. ❤️ Vocês fizeram esse capítulo valer a pena..

As portas do salão de treinamento se fecharam sem violência, sem pressa. O eco foi breve, e o que restou foi aquela quietude que vem depois de uma sentença, quando já não há argumento possível.

Po conhecia essa sensação. Algo semelhante o atravessara no alto da torre em Gongmen, quando o nome dos pais se perdeu no vento. Agora, a mesma ausência ocupava o espaço entre ele e Tigresa.

Ficaram parados por alguns instantes, sem saber o que fazer com o silêncio.

Os anéis de metal refletiam a luz fria do teto, produzindo um som delicado sempre que um deles respirava. Po olhou primeiro para o próprio pulso, seguiu a corrente com os olhos até o antebraço dela, e parou nas listras. O mesmo braço que um dia se estendeu diante de um canhão por ele agora dividia o peso do metal.

Tigresa mantinha o queixo erguido, olhando pra algum lugar que só ela conseguia ver. Coluna reta, ombros firmes, disciplina intacta. Mas tinha uma rigidez na base do pescoço que Po conhecia bem. Não era medo. Era o jeito dela se preparar pra algo que não queria enfrentar.

Ele já tinha visto aquela expressão refletida na água, a caminho de Gongmen.

Po limpou a garganta.

— Certo… então…

As palavras morreram antes de se formarem.

Tigresa virou o rosto devagar, e os olhos âmbar encontraram os dele. Sem frieza. Só avaliação.

— Vamos caminhar — disse ela.

Não era sugestão.

Po assentiu.

O primeiro passo saiu errado: ele foi com a esquerda, ela com a direita, e a corrente esticou. O puxão não foi forte, mas quebrou o ritmo, e o metal bateu com um som seco que ecoou pela sala vazia. Eles se olharam.

— Mesmo lado — Po murmurou.

Tigresa ajustou as patas, redistribuiu o peso, e acomodou o pulso antes de tentar de novo.

— Mesmo lado.

Desta vez funcionou. No começo ainda era meio travado, mas no terceiro passo a corrente já não puxava mais. Cada movimento vinha com um pequeno ajuste que nenhum dos dois precisava verbalizar, como se o corpo entendesse antes da cabeça. Saíram da sala num ritmo que quase parecia natural.

O corredor do Palácio de Jade era mais apertado do que Po lembrava, as paredes de pedra comprimindo o espaço enquanto o som das patas batendo no chão ecoava duas vezes mais alto. Po desacelerava sem perceber, Tigresa avançava no automático, e a corrente entre eles corrigia qualquer deslize.

Na curva seguinte, quase trombaram. Tigresa virou antes que ele percebesse, e os ombros se tocaram por um segundo. O calor atravessou a pelagem, e Tigresa se afastou rápido demais, como se o corpo dela tivesse decidido que aquilo era perigoso. Os dois recuaram meio passo.

— Desculpa.

Ela não respondeu, só recompôs a postura e seguiu em frente.

As escadas foram outra história. Depois de uma primeira tentativa desastrosa, ficou claro que ela precisava guiar, então ela subiu na frente e ele acompanhou, um degrau de cada vez, enquanto o metal balançava entre os dois num ritmo quase hipnótico.

Quando chegaram no pátio externo, o ar tinha outro gosto. Mais leve, com cheiro de flores.

A brisa descia das montanhas trazendo o perfume do pessegueiro, e Tigresa seguiu naquela direção sem avisar. Po foi atrás.

O sol estava baixo no horizonte, pintando o vale de dourado, e pétalas rosadas cruzavam o ar antes de pousar na pedra ainda morna do dia.

Tigresa se sentou primeiro, coluna reta e rabo imóvel ao lado do corpo. Po ajustou a corrente e sentou ao lado dela, fechando os olhos e tentando encontrar aquele silêncio interior que sempre vinha tão fácil.

Não veio.

O vento balançou os galhos. Uma pétala desceu devagar na direção dele, e Po podia ter desviado, mas deixou ela cair. A pétala pousou no ombro de Tigresa e ficou ali, quase translúcida contra a pelagem listrada.

A luz do entardecer desenhava contornos suaves no rosto dela, destacando as listras mais claras perto das bochechas.

Po abriu os olhos e olhou pra ela, não pra analisar ou provocar, mas porque não sabia o que mais fazer. Talvez estivesse procurando alguma pista de que ela não o odiava tanto quanto parecia.

A respiração dela era constante, lenta, controlada como sempre. Po ajustou a própria respiração pro mesmo ritmo, e lembrou daquele silêncio depois do impacto em Gongmen, quando as palavras não serviam pra nada. O metal entre eles se moveu de leve, só o suficiente pra mostrar que estavam respirando juntos.

Tigresa rompeu o silêncio sem tirar os olhos do horizonte.

— Você tá olhando.

Não tinha acusação na voz.

— Tô tentando entender.

Ela virou o rosto devagar e sustentou o olhar dele por um tempo.

— Não precisa entender tudo de uma vez.

Uma pétala caiu entre os dois.

Quando se levantaram, nenhum deles precisou combinar o passo. O movimento veio sozinho, e a corrente acompanhou sem resistir. Pela primeira vez desde que o metal tinha fechado nos pulsos deles, não teve aquele puxão constante, aquela tensão de quem tá sempre esperando o outro errar.

A corrente ainda tava lá. Mas agora só… tava.

E pela primeira vez em vinte anos, Tigresa não sentiu vontade de arrancar o que a prendia.