Yin Yang (Reescrevendo)
4 Respira
O quarto estava escuro quando o ritmo de Po mudou. O ronco estancou, dando lugar a um silêncio apertado.
As orelhas de Tigresa giraram no escuro. A corrente tremia, um zumbido fino subindo pelo metal até o braço dela. Quando abriu os olhos, as pupilas já tinham se dilatado pra captar a pouca luz, e o que ela viu a fez sentar na esteira.
Po estava encolhido na cama, as costas arqueadas, as patas pressionadas contra o peito. O ar saía em chiados agudos, forçado, como se o pulmão tivesse esquecido como funcionar.
— Po.
Ele não respondeu. Os olhos verdes estavam abertos, mas a íris parecia vidrada, presa em algum lugar que ela não conseguia alcançar.
Tigresa atravessou a distância que a corrente permitia e pousou a pata no ombro dele. Os músculos embaixo estavam duros, travados. As garras roçaram de leve no tecido antes de firmar a pegada.
— Respira comigo.
Ela inspirou devagar, lenta o suficiente pra ser ouvida, e soltou o ar. Po tentou seguir o ritmo, mas o peito subia em solavancos, descontrolado.
— De novo. Sente o meu ritmo.
Na quinta tentativa, o pulmão finalmente aceitou o ar e o soltou sem travar.
A pata ficou no ombro, as garras recolhidas. A corrente imóvel. O peito dele subia e descia num ritmo mais calmo agora, mas o silêncio tinha mudado de textura. Tinha vergonha nele. Po escondeu o rosto entre as patas, esfregando os olhos com força, tentando apagar os últimos minutos.
— Desculpa por isso — a voz saiu abafada, rouca, forçando uma risada fraca sem humor nenhum. — Eu sou o Dragão Guerreiro. Era pra eu aguentar a pressão. Deve ter sido... sei lá, um pesadelo.
Ele tentou se afastar, sacudir o ombro pra mostrar que já estava bem, mas a pata de Tigresa não cedeu. A pressão dos dedos o manteve no lugar, firme mas não agressiva.
— O guerreiro que não admite o peso que carrega é o primeiro a ter os ossos esmagados na batalha — ela disse, a voz baixa na penumbra, sem pena.
Po parou e espiou por entre os dedos, procurando decepção nos olhos cor de âmbar. Não tinha. Só a calma letal de sempre.
— Até o mestre Oogway precisava meditar pra esvaziar a mente — continuou ela. — A força não tá em não sentir o golpe. Tá em saber como puxar o ar de volta depois.
Ele abaixou as patas do rosto devagar, absorvendo as palavras. A vergonha não sumiu por completo, mas o nó na garganta afrouxou.
— Obrigado — murmurou, olhando pra corrente entre eles.
— Não peça desculpas por respirar — finalizou Tigresa, recolhendo enfim o toque.
O céu clareou pelas frestas, pintando o quarto de cinza. Nenhum dos dois voltou a dormir, mas pela primeira vez na noite, Po não se sentiu sufocado.
Caminharam em silêncio pelos corredores ainda frios, o som das patas na madeira ecoando a distância que a corrente não mais impunha. Conforme se aproximavam do hall dos heróis, o isolamento da madrugada se dissipava, atropelado pelo barulho rotineiro dos outros.
Macaco estava empoleirado no alto de uma coluna, esticando um braço sobre a cabeça.
— Aquele boneco de treino ainda me deve uma. Acho que a madeira endureceu durante a noite.
— Ou seus ossos amoleceram — estalou Louva-a-Deus, afiando as foices das patas dianteiras.
Garça, terminando de alinhar as penas da asa esquerda, deu um passo elegante pro lado.
— Não dê ouvidos a ele, Macaco. Mas o Louva tem razão num ponto: sinto o ar carregado hoje. O treino não vai ser fácil.
Víbora deslizava silenciosamente pela base da coluna, mas diferente dos outros, ela não olhava pro teto ou pras armas. Os olhos dela estavam fixos na entrada. Quando Po e Tigresa cruzaram o umbral, ela sentiu o peso que eles traziam antes mesmo de ver a corrente.
O riso de Macaco morreu quando viu o rosto de Po. O panda caminhava com os ombros encolhidos, e Tigresa parecia uma estátua de pedra em movimento, fria e distante.
Víbora deslizou na direção deles, o movimento suave e sem barulho, e inclinou a cabeça, observando Po com preocupação.
— Po? — chamou, a voz tão baixa que mal saía do círculo deles. — Você parece exausto. Aconteceu alguma coisa?
Po abriu a boca, buscando aquela energia alegre que sempre usava pra disfarçar a dor, mas Shifu entrou antes que ele encontrasse as palavras.
O bater seco do cajado contra a pedra silenciou o salão instantaneamente. As orelhas de Shifu se moveram, captando cada respiração, antes de parar no centro do círculo.
— A Rainha das Sombras atacou o Vale da Luz — disse sem preâmbulo. — Vinte anos de refúgio, destruídos numa noite. Os sobreviventes do massacre de Shen estão sendo caçados novamente.
Ele caminhou na direção de Po e Tigresa, os olhos fixos neles.
— Mas há algo além de território nisso. Relatos falam de magia. Vilas saqueadas e queimadas muito além das fronteiras do Vale da Sombra, feridas que o aço comum não explica.
Shifu parou diante dos dois e baixou o olhar por um segundo pra corrente que os unia, antes de voltar pros olhos de Po.
— Vocês partirão pro leste. Não pra lutar uma guerra, mas pra investigar. Precisamos entender que força é essa que a Rainha tá manipulando. E por que ela decidiu destruir o último refúgio daqueles que já tinham perdido tudo.
Sem desviar o olhar, ele buscou a chave presa ao cinto. O som do metal girando na fechadura foi o único ruído no salão.
O clique foi seco. As algemas se abriram e o metal caiu no chão com um som oco.
Houve um segundo de hesitação antes dos dois se afastarem. Po esfregou o pulso, onde o pelo estava amassado e marcado. Tigresa recolheu o braço rápido demais, um reflexo muscular esperando por um peso que não existia mais.
Shifu guardou a chave, observando-os.
— Preparem apenas o necessário — ordenou, virando as costas. — Partem ao amanhecer.
Pela primeira vez em quase vinte e quatro horas, estavam livres pra andar em direções opostas. O salão ficou em silêncio, os outros mestres apenas observando.
Tigresa abaixou a pata. O olhar cruzou com o dele por uma fração de segundo. Não tinha mais corrente de ferro pra culpar se ficassem perto demais agora. Sem dizer uma palavra, ela girou nos calcanhares e caminhou na direção dos alojamentos.
Po ficou pra trás, massageando o pulso livre, sentindo que a distância entre os dois de repente parecia muito maior do que antes.
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