Yin Yang (Reescrevendo)

5 O Outro Lado da Corrente


O quarto parecia grande demais. Tigresa fechou a porta atrás de si, mas o silêncio que a recebeu era diferente. Por quase um dia inteiro, cada movimento seu teve um eco metálico e a resistência de outro corpo. Agora, ao caminhar até o centro do aposento, sentia uma leveza que incomodava.

Seu pulso ainda guardava o vinco do ferro, e a pele sob o pelo parecia exposta. Sem a corrente, não tinha mais ninguém pra culpar pela proximidade. A distância entre ela e o mundo agora era dela, pra usar ou ignorar.

Ela se aproximou do baú ao lado da cama e retirou a vestimenta amarela do fundo, ainda envolto em seda. As videiras vermelhas brilhavam sob a luz que entrava pela janela. Era uma peça de mestre, carregada de honra. Tigresa hesitou. Sempre preferiu o vermelho gasto de suas roupas de treino, a armadura de quem nunca cansa de lutar. Mas pra essa missão, algo nela pedia mudança.

Vestiu a túnica. O toque era suave, mas o dourado parecia um aviso: ela não era mais a órfã de Bau Gu. Era a face do Palácio de Jade.

Enquanto isso, em uma ala mais reservada do palácio, Shifu sentou-se na beira de sua cama, puxou debaixo do móvel uma caixa de madeira entalhada e retirou dois pergaminhos com cuidado.

Pinturas.

Na primeira, uma pequena tigresa de cinco anos dormia exausta sobre um boneco de treino, as garras pra fora mesmo no sono. Shifu sorriu, um gesto raro. Na segunda, ela estava mais velha, de costas, meditando sob o Pessegueiro Sagrado.

Ele a criou pra ser disciplina pura, uma muralha de ferro pra compensar o erro que cometera com Tai Lung. Mas ao vê-la partir agora pras terras perigosas do Leste, o mestre dava lugar ao pai. O arrependimento de não ter dito que se orgulhava dela era uma falta que nenhum treino podia preencher.

— Que o destino seja mais gentil com você do que eu fui — sussurrou pro papel.

Enquanto o silêncio voltava a reinar nos corredores do Palácio de Jade, o restaurante do Sr. Ping parecia ter encolhido. As mesas vazias se estendiam até a cozinha. O cheiro de macarrão e especiarias ainda pairava no ar, mas sem os fregueses pra aquecê-lo, até o vapor parecia triste.

Po tentava, sem sucesso, ajeitar as alças da mochila.

— Pai, eu já disse que patos não ajudam em missões furtivas! — protestou Po, rindo enquanto desviava do ganso entusiasmado que tentava prender uma asa de pano amarela em sua mochila de bambu.

— Bobagem! É um disfarce excelente!

Sr. Ping parou, ofegante, e soltou a mochila. O olhar de brincadeira sumiu. Ele observou o filho com atenção.

— Po... tome cuidado lá fora. Prometa pra mim.

— Eu vou tomar, pai. Prometo — respondeu Po, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.

Sr. Ping estreitou os olhos, vendo a tensão nos ombros do panda e o jeito inquieto como ele evitava contato visual. Percebeu de imediato que algo estava errado, algo pesado que o filho carregava além da mochila. Abriu o bico pra perguntar, pra insistir, mas ao ver o aperto nas alças de bambu, entendeu que Po não queria ou não conseguia falar sobre aquilo.

Em vez de pressionar, Sr. Ping caminhou até ele e colocou a asa sobre a pata dele, apertando com firmeza. O silêncio entre os dois disse tudo.

— Espere um pouco — murmurou o ganso, afastando-se pra buscar algo na bancada. — Eu estava lavando suas coisas velhas e encontrei isto dentro do seu urso de pelúcia. Tava escondido bem no fundo do enchimento.

Ele estendeu a pata e entregou ao filho um pequeno colar de madeira. Era um sol entalhado, com a palavra Yang gravada no verso em caracteres antigos.

— Yang? — Po franziu a testa. Ao tocar a peça, sentiu calor emanar da madeira, constante, quente. — Isso era meu?

— Tava com você desde que te encontrei — Por um momento, os olhos de Sr. Ping atravessaram o tempo, parando na tarde em que um panda faminto o transformou em pai. — Achei que deveria levar. Pode ser que traga sorte.

Po guardou o colar no bolso. O calor que atravessava o tecido da calça trazia um nó de curiosidade que ele não soube nomear.

Terminou de guardar os últimos pertences. A mochila pesava nos ombros, mas não era isso que apertava seu peito.

— Pai… — começou, mas não sabia como terminar.

Ping não esperou. Caminhou até o filho e, antes que Po pudesse dizer qualquer coisa, enterrou o rosto na pelagem branca do peito dele. As asas não alcançavam as costas do panda — nunca alcançaram — mas ele apertou com força.

Po fechou os olhos, o queixo apoiado no topo da cabeça do pai. Sentiu o tremor nas penas contra o pelo. Ficaram assim por um tempo que nenhum dos dois mediu.

Quando Ping recuou, seus olhos estavam secos, mas brilhando.

— Vai com cuidado, filho.

Po engoliu o nó na garganta.

— Vou.

Saiu sem olhar pra trás. Se olhasse, não ia conseguir ir.

O sol já se punha quando ele alcançou a entrada do vale. Os outros estavam lá: Macaco espreguiçado numa pedra, Garça imóvel, Víbora enrodilhada à sombra, Louva-a-deus no ombro do primata. Todos esperando.

A figura de Tigresa surgiu no topo da escadaria.

Ela descia com elegância, a túnica amarela brilhando sob a luz alaranjada. Ao chegar ao pé da escada, parou ao lado de Po.

Tigresa olhou pros outros cinco mestres, mas sua postura não era de quem comandava subordinados. Era de quem se apresentava ao seu igual. Quando seus olhos finalmente encontraram os dele, não havia mais a distância entre mestre e aluno.

Po estava lá, firme. A pata descansava sobre o bolso onde o colar de madeira guardava seu calor, e sua expressão carregava a seriedade de quem aceita o peso do título de Dragão Guerreiro. Ao ver Tigresa ali, vestida com a honra do Palácio, ofereceu a ela um sorriso curto.

Tigresa sustentou o olhar. Havia respeito naquele silêncio. Ela retribuiu o sorriso de forma discreta, um lampejo de aprovação que dizia, sem palavras, que confiava na liderança dele pro que estava por vir.

— Estamos prontos — disse Tigresa.

Po assentiu e deu o primeiro passo pra fora do arco da entrada. A corrente de metal tinha ficado pra trás, mas enquanto as sombras da estrada começavam a crescer, o silêncio entre os dois líderes já não era de afastamento.

Era acordo.