O som de alerta parecia distante. A sensação dolorosa do corpo foi aumentando e com ele a chamada para a realidade. Os sons de chamas pareciam abafados, mas a chuva tinha um som estranho porque batia em uma espécie de vidro contra seu rosto. Os olhos pareciam feitos de chumbo, teve que colocar toda força de vontade para abri-los.

Símbolos e números apareciam no vidro a frente do seu rosto. Demorou para perceber se tratar de capacete e um deles piscando mostrava quantas horas de oxigênio ainda tinha. O ar dentro do traje tinha um gosto metálico de reciclagem forçada. Tentou mover o braço direito, sentindo uma pontada aguda no ombro que o fez prender a respiração. O display holográfico do capacete oscilava: [INTEGRIDADE DO TRAJE: 64%].

Com um gemido de esforço, ele empurrou os destroços de uma chapa de liga de titânio que o cobria. Sua arma ainda estava firme em sua mão. Um fuzil padrão dos soldados. Quando finalmente conseguiu se sentar, a visão do lado de fora do visor era de um verde hipnótico e mortal.

Ele não estava em uma clareira, mas preso na copa de árvores gigantescas cujas folhas pareciam ter a textura de couro de réptil. A chuva não era água pura; tinha um tom azulado e caía com uma densidade que parecia querer esmagar a vegetação. Abaixo dele, a cerca de dez metros, o solo do planeta Xylos-4 era uma névoa densa e escura.

— Aqui é o Soldado Sanchez... — ele tossiu, a voz saindo rouca no rádio de curto alcance. — Alguém na escuta? Unidade de Reconhecimento 7, respondam.

Apenas o chiado estático da tempestade elétrica respondeu.

Sanchez olhou para o pulso. O rastreador de sinal mostrava SEM CONEXÃO com a nave principal. Ele olhou atento ao redor. A colônia que deveriam proteger estava em algum lugar além daquela névoa.

Um estalo de galho quebrando, alto como um tiro de rifle, ressoou logo abaixo dele. Algo grande estava se movendo na escuridão sob as árvores, atraído pelo cheiro de fumaça e talvez pelo brilho dos sistemas de Sanchez.

Ele ergueu rifle com braço bom e apoiou no ainda dormente. E projetou a mira para observar o quer estava chegando.

Pelo visor da luneta térmica, o mundo em tons de verde de Xylos-4 ganhou contornos de calor pulsante quando ele ligou o modo térmico. Sanchez estreitou os olhos. Três silhuetas esguias e quadrúpedes se moviam com uma agilidade antinatural entre os galhos baixos. Elas não tinham pelos; suas peles brilhavam com uma bioluminescência pálida que oscilava entre o azul e o branco, camuflando-as perfeitamente sob a chuva ácida.

As criaturas pararam. Uma delas ergueu o que parecia ser uma cabeça sem olhos, farejando o ar saturado de ozônio e combustível queimado. O fuzil de Sanchez tremeu levemente devido à dor no ombro, mas ele manteve o dedo no gatilho. Por um segundo, a fera maior olhou diretamente para a posição dele.

Então, tão rápido quanto surgiram, um guincho agudo ecoou vindo das profundezas da selva, e as criaturas saltaram para as sombras, ignorando os destroços. Elas pareciam estar fugindo de algo — ou atendendo a um chamado de caça mais importante.

Sozinho e com o silêncio retornando (se você ignorasse o barulho constante das gotas de chuva), Sanchez sabia que não poderia ficar exposto naquela altura por muito tempo. Ele soltou o fuzil, prendendo à bandoleira magnética das costas, e levou a mão esquerda ao compartimento de carga na coxa e então levantou pulso clicando no visor de seu pulso.

— Traje, autorizar administração de trauma-kit. Protocolo de campo — murmurou.

Um clique mecânico soou. Uma pequena agulha pneumática no pescoço do traje disparou um coquetel de estimulantes, analgésicos e selante tecidual de ação rápida. O mundo parou de girar por um instante. A dor no ombro transformou-se em um calor anestesiado, permitindo que ele recuperasse a amplitude de movimento. Ele consertou a postura fazendo alguns movimentos para testar a melhora e então olhou como desceria dali.

Usando um cabo de rapel de emergência acoplado ao cinto para descer dos restos da cabine. Quando suas botas tocaram o solo macio e esponjoso de Xylos-4, o visor do capacete tentou recalibrar o mapa. Ele esperou ansiosamente.

Sem sinal da nave em órbita, o GPS estava morto. No entanto, uma bússola inercial no canto da visão ainda apontava para o último vetor registrado da colônia: Nordeste.

-Analisar ambiente.

Seu visor escaneou o terreno a frente com um pulso verde que logo se normalizou. O chão era coberto por uma vegetação que parecia coral terrestre, emitindo um estalo seco a cada passo. A visibilidade era de apenas 15 metros devido à névoa.

Sanchez começou a caminhar, o fuzil agora em posição de pronto. Cada gota da chuva azul que batia em seu traje soava como um aviso. Ele não estava apenas procurando a colônia; ele estava sendo observado por um planeta que a humanidade claramente ainda não entendia. Mas um objetivo pulsava em sua mente. Ele devia encontrar uma antena de comunicações de longo alcance na colônia. Se ela estivesse operando, ele poderia enviar um sinal de S.O.S. para a nave em orbita e conseguir um resgate. Esperava que os outros tivessem a mesma ideia.

Ao avançar pela névoa o soldado solitário tinha a sensação de caminhar dentro de um pesadelo turvo. Cada passo sobre o solo de coral terrestre produzia um estalo seco, um som que parecia amplificado pelo silêncio opressor da selva. Os seus nervos saltavam em alerta.

A cerca de quinhentos metros da queda original, Sanchez avistou um vulto metálico rasgando a névoa. Era parte da nave de reconhecimento, cravada no solo como uma lápide gigante. O metal ainda estalava enquanto resfriava, e o solo ao redor estava encharcado de combustível azulado misturado à chuva.

Ele se aproximou com cautela, o rifle varrendo o perímetro. Perto de uma escotilha retorcida, encontrou um compartimento de emergência que havia se ejetado no impacto. Estava entreaberto. Dentro, Sanchez localizou um Kit de Selagem de Pressão Avançado e um cilindro de oxigênio reserva.

— Isso vai servir... — murmurou. Ele guardou o kit magneticamente no cinto utilitário. A integridade do traje em 64% era uma sentença de morte lenta naquela atmosfera; ele precisaria de um lugar seco para aplicar o selante, mas agora não era o momento.

De repente, o som da chuva foi cortado por algo familiar, mas aterrorizante: o som rítmico de fuzis de assalto. Os disparos vinham de algum lugar à frente, abafados pela densidade da vegetação, mas inconfundíveis. Entre os tiros, um grito humano de comando ecoou, seguido pelo guincho agudo das criaturas que ele devia ter visto antes.

A adrenalina atropelou o efeito dos analgésicos. Sanchez não pensou duas vezes. Ele ajustou o rifle em posição, ignorando o protesto do ombro, e partiu em uma corrida pesada em direção aos clarões de luz que começavam a perfurar a névoa à frente.

Os flashes das bocas das armas iluminavam a bruma como relâmpagos. À medida que se aproximava, ele viu: três soldados estavam de costas um para o outro em uma pequena elevação, cercados por pelo menos meia dúzia daquelas silhuetas bioluminescentes que saltavam entre as raízes.

Sanchez não hesitou. Ele se posicionou atrás de uma raiz colossal, o fôlego curto batendo contra o visor, e deslizou a mão até o cinto. Seus dedos encontraram a forma fria de uma Granada de Fragmentação.

As criaturas estavam a poucos metros de flanquear o grupo de sobreviventes. Elas se moviam em um ritmo coordenado, quase inteligente. Sanchez arrancou o pino e, com um movimento preciso, arremessou a granada bem no centro da matilha.

— GRANADA! — ele gritou, para alertar os seus, segundos antes do clarão.

O estrondo foi abafado pela densidade da atmosfera, mas a força da explosão foi devastadora. O solo de coral saltou em estilhaços e as criaturas foram arremessadas para trás, o brilho bioluminescente delas piscando e se apagando enquanto o sangue arroxeado manchava a névoa.

Aproveitando o choque dos predadores, Sanchez saiu de trás da raiz disparando. O fuzil pulsava contra seu ombro em rajadas controladas.

— Contato na retaguarda! — gritou um dos soldados no cerco. — É o Sanchez! — a voz do Sargento Miller, o líder do esquadrão, cortou o canal de rádio. — Fogo livre! Acabem com eles!

O soldado que estava ileso se juntou ao fogo de Sanchez. Em poucos segundos, a coordenação militar prevaleceu sobre a ferocidade selvagem. As últimas criaturas que tentaram fugir foram derrubadas por disparos precisos no tórax, tombando pesadamente na lama azulada.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som de respirações pesadas e pelo chiado do metal quente sob a chuva. Sanchez se aproximou, mantendo o fuzil baixo, mas pronto.

O cenário era sombrio: O Sargento Miller estava com a armadura chamuscada e o visor rachado, mas mantinha a postura firme de comando. Soldado que ele se lembrava de chamar Kael. O jovem recruta que ajudou no fogo cruzado, tremia levemente, trocando o pente da arma com pressa mecânica. E o Cabo de nome Ortega: Estava caído contra uma rocha, segurando a lateral do abdômen. O traje dele estava rasgado, e a cor azul da chuva parecia queimar a carne exposta.

— Sanchez! Por um momento achei que você tinha virado adubo de árvore após ser jogado para fora da nave— disse Miller, aproximando-se e batendo no ombro bom de Sanchez. — Bom trabalho com aquela granada. Chegou na hora certa.

— Onde está o resto da Unidade 7, senhor? — Perguntou Sanchez, olhando ao redor.

— Somos o que sobrou até onde eu sei — Miller respondeu, a voz carregada de um peso sombrio. Ele apontou para Ortega. — O Cabo está mal. A chuva está corroendo o selante e as criaturas pegaram ele de raspão.

O Sargento Miller caminho e se inclinou sobre o corpo de uma das criaturas mortas. A chuva azul, que fazia a armadura de Sanchez chiar e corroía o selante de Ortega, escorria pela pele coriácea do monstro sem causar uma única marca.

— Olhem isso... — murmurou Miller, apontando com a ponta do fuzil. — A chuva não faz nada com eles. É como se fossem parte desse ecossistema maldito. A evolução aqui joga contra nós.

Sanchez limpou o visor, observando a própria armadura.

— Eu estava seguindo para Nordeste antes de encontrar vocês — disse Sanchez, a voz cansada soando pelo rádio. — Na direção do assentamento original. No início da missão, os sinais vinham de lá. Se houver algo inteiro, é a nossa melhor chance de encontrar respostas... e talvez suprimentos médicos reais.

Miller olhou para o Cabo Ortega, que soltou um gemido abafado enquanto Kael tentava estancar o sangue. A situação do ferido era grave; a umidade ácida estava transformando um ferimento de raspão em uma infecção acelerada.

— O assentamento é longe demais para chegarmos com Ortega nesse estado sob essa tempestade — decidiu Miller, levantando-se e olhando para a névoa densa. — Precisamos de um abrigo. Qualquer lugar onde essa chuva não caia, ou vamos ser dissolvidos antes de darmos um quilômetro.

Ele olhou para o mapa tático projetado no pulso, mas a interferência elétrica da tempestade tornava os dados confusos.

— Kael, ajude Sanchez a carregar o Ortega. Sanchez, você parece conhece o caminho para o assentamento, então guia a nossa retaguarda enquanto buscamos cobertura. Se virem alguma caverna ou estrutura de pedra, avisem.

O grupo começou a se mover penosamente. Sanchez sentia o peso de Ortega em seus ombros, o calor do corpo do companheiro contrastando com o frio químico da chuva.

Após dez minutos de caminhada entre as raízes e os afloramentos de coral, Sanchez avistou algo através da folhagem fluorescente. Uma arvore enorme caída onde suas raízes formavam um abrigo, quase como uma milagrosa cabana.

— Sargento, ali! — Apontou Sanchez. — Aquilo deve evitar a chuva.

Miller fez um sinal para que Kael e Sanchez Seguissem mais rápido.

Ali dentro, o solo era seco, coberto por uma camada de folhas mortas que não tinham a acidez da chuva. O som da tempestade lá fora mudou de um rugido esmagador para um tamborilar rítmico e abafado contra a casca grossa da árvore.

— Aqui — ofegou Miller, ajudando Sanchez a deitar Ortega sobre uma raiz plana. — Kael, fique de olho na entrada. Sanchez, use o que você achou. Agora!

Sanchez não perdeu tempo. Sob a cobertura da árvore, ele finalmente pôde verificar do traje sem risco de contaminação imediata.

Ele pegou o Kit que encontrara nos destroços. Primeiro, aplicou uma camada generosa de bio-selante no ferimento de Ortega. O gel azulado reagiu com a carne, efervescendo enquanto fechava o corte e neutralizava os resquícios da chuva ácida na sua armadura. O Cabo relaxou, sua respiração finalmente perdendo o tom agônico.

Depois, Sanchez voltou a atenção para si mesmo. Usando o aplicador de resina térmica do kit, ele cobriu as fissuras em seu próprio peitoral e ombro.

[INTEGRIDADE DO TRAJE: 88% — ESTABILIZADO]

— Os escudos ainda estão fora de linha — comentou Kael, batendo no painel do pulso. — A atmosfera lá fora está tão ionizada por essa chuva azul que os capacitores simplesmente não seguram a carga. Se formos atacados de novo, vai ser no peito e na raça.

O silêncio dentro da raiz era estranho. Depois do caos da queda e do combate, a quietude parecia quase sólida. Miller sentou-se contra o tronco, o fuzil atravessado nos joelhos. Ele parecia subitamente muito mais velho sob a luz fraca das lanternas dos trajes.

— Vamos estabelecer turnos — ordenou o Sargento, a voz baixa. — Sanchez, você e o Kael tentem dormir uma ou duas horas. Eu fico no primeiro turno. Ortega está estabilizado, mas não vai conseguir correr se precisarmos sair daqui às pressas. Temos que esperar essa chuva passar ou, pelo menos, diminuir.

Sanchez não precisou ouvir duas vezes e se acomodou em um canto, sentindo o peso do dia esmagar seus ombros. Ele desligou as luzes externas do capacete para economizar energia, deixando apenas o visor em modo de espera. Através das frestas das raízes, ele podia ver a névoa verde e a chuva azul lá fora, criando um mundo fantasmagórico.

O cansaço venceu a ansiedade. Seus olhos pesaram...