Xylos-4: Protocolo de Sobrevivência
2 Esperanza em Sombras

Sanchez abriu os olhos e viu o teto metálico da cabine de prontidão.
— Atenção, Unidade 7. 30 minutos para chegada ao planeta Xylos-4, — a voz sintética da I.A. da nave ecoou.
Poucos minutos depois ele já estava em seu traje de combate, limpo, seco e com 100% de integridade. Ao seu lado, o Cabo Ortega checava sua armadura, e o Soldado Kael batia com o pé no chão, nervoso. O Sargento Miller estava de pé, revisando o mapa holográfico de Esperanza.
— O plano é simples — disse Miller, a voz clara e sem o cansaço que teria depois. — A colônia está em silêncio há 72 horas. O Comando quer saber se é apenas uma falha na antena para com o satélite em obrita ou algo pior. Vamos pousar no Ponto Bravo, verificar o perímetro e restabelecer o sinal. Entrar e sair. Sem heroísmos.
Sanchez sentiu a nave tremer quando as travas de ancoragem se soltaram. Ele se lembrou da sensação de flutuar por um segundo antes dos propulsores de descida entrarem em ignição. Pelas janelas reforçadas, ele viu o planeta Xylos-4: uma esfera de verde esmeralda envolta em nuvens cinzentas e carregadas. Parecia pacífico lá de cima.
— Iniciando entrada atmosférica em 3... 2... 1...
A calmaria dos primeiros momentos foi substituída por uma vibração que parecia querer desintegrar toda a nave. A voz robótica da nave começou a sinalizar -INTERFERÊNCIA IONIZADA. O que deveria ser uma descida de rotina tornou-se um mergulho no abismo.
A chuva azul começou a chicotear a fuselagem com uma fúria colossal, e um relâmpago de atingiu o motor esquerdo. O grito do metal rasgando e o som do alarme de "Queda Iminente" foram as últimas coisas que ele ouviu antes da parede se romper ele ser jogado para fora....
...até que o som se transformou no chiado estático da realidade.
Sanchez abriu os olhos sob as raízes da árvore, a respiração ofegante embaçando o visor. O sonho da missão "limpa" tinha acabado. Ele estava no chão, ferido, e o rádio de Miller agora emitia o sinal que o trouxera de volta:
— ...aqui é a Unidade de Reconhecimento 7... repetindo... Comandante Vane, está na escuta?
O silêncio da noite foi quebrado pelo chiado agudo e estático que vinha do rádio de longo alcance de Miller. Sanchez despertou de um salto, a mão buscando instintivamente o fuzil, mas viu o Sargento gesticulando freneticamente para o painel de comunicações no pulso.
A tempestade elétrica, embora ainda despejasse a chuva azul sobre as raízes da árvore, parecia ter perdido a carga estática que bloqueava as frequências.
— ...aqui é a Unidade de Reconhecimento 7... repetindo... Comandante Vane, está na escuta? — A voz de Miller era um sussurro urgente.
Após um segundo de estática pura, uma voz metálica e distante respondeu, vinda da órbita:
— UR-7, aqui é a Capitania da " Aurora". Miller, é você? Recebemos seu sinal de transponder. Qual a sua situação?
— Queda confirmada, Comandante. Estamos em solo em Xylos-4. Temos um ferido e a integridade dos trajes está comprometida pela queda e pela chuva. Solicito extração imediata.
Houve uma pausa longa demais. O som da chuva parecia ficar mais alto naquele intervalo.
— Negativo, Sargento. A ionização na baixa atmosfera está em níveis críticos. Se enviarmos um resgate agora, os motores falharão antes de cruzarem a nuvem. Vocês estão por conta própria até a frente de tempestade passar... estimativa de 48 horas.
Miller cerrou o punho, mas manteve a voz firme.
— Entendido, Comando. 48 horas.
— Enviando coordenadas agora. Vocês estão a três quilômetros de distância do posto avançado Esperanza. É a colônia que vocês vieram investigar. Se os sistemas de suporte de vida estiverem ativos, é o lugar mais seguro do planeta. Descubram o que aconteceu com os colonos e enviem um sinal de SOS pela antena de longo alcance deles assim que chegarem. Boa sorte, UR-7.
O sinal caiu abruptamente.
Miller olhou para Sanchez e Kael. O cansaço era visível em seus olhos, mas o objetivo agora estava claro.
— Já ouviram o homem. Não tem carona vindo nos buscar. Sanchez, ajude o Kael com a maca improvisada do Ortega. Vamos nos mover agora, enquanto a chuva está mais fina.
Eles saíram do abrigo das raízes. O mundo do lado de fora era uma paleta de sombras escuras e brilhos azulados. A cada passo, o solo de coral estalava, denunciando a posição deles para qualquer predador que estivesse por perto.
Sanchez guiava a retaguarda, o fuzil erguido. A névoa estava mais baixa, permitindo que vissem as silhuetas distantes de outras árvores gigantescas. Após quase uma hora de caminhada penosa carregando Ortega, a vegetação começou a dar lugar a algo artificial.
Placas de metal reforçado, cercas eletrificadas aparentemente apagas e contêineres de carga começaram a surgir entre as raízes.
— Ali — apontou Kael, a voz trêmula. — A entrada principal da colônia.
O assentamento Esperanza surgiu diante deles como um espectro de aço. Mas não havia luzes. Não havia guardas nas torres. As portas da eclusa principal estavam abertas, batendo levemente com o vento, revelando um interior escuro e silencioso.
Algo estava muito errado. Uma colônia daquele tamanho deveria ter geradores de emergência automáticos.
Alcançaram a entrada principal. Sanchez empurrou a porta da eclusa com o cano do fuzil. O metal rangeu, um som seco que ecoou pelos corredores vazios do complexo habitacional.
As luzes de emergência piscavam em um tom carmesim doentio, dando ao corredor uma cadência de batimentos cardíacos.
— Armas prontas — ordenou Miller em um sussurro, embora ele mesmo estivesse lutando para manter o fuzil estável com o cansaço.
O que viram a seguir confirmou os piores temores. As paredes de liga de alumínio da colônia, projetadas para resistir a furacões espaciais, estavam deformadas. Marcas de garras profundas rasgavam o revestimento, expondo a fiação que soltava faíscas esporádicas. Também havia marca de sangue e fios. Uma mancha de sangue levava para fora indicando que seja o que for, arrastou sua presa.
— Vejam ali — Kael apontou para o chão.
Cartuchos de munição deflagrados cobriam o piso como um tapete de bronze. Havia marcas de queimadura de lasers e buracos de balas de grosso calibre cravados nas portas automáticas. Os colonos não tinham desistido sem lutar. No centro do saguão, uma barricada improvisada feita de mesas de jantar e armários médicos estava despedaçada, como se algo pesado tivesse passado por cima dela sem esforço.
— Sanchez, verifique aquele terminal de segurança — Miller gesticulou para uma estação de monitoramento com a tela rachada, enquanto ele e Kael colocavam Ortega cautelosamente sobre um balcão de recepção. — Precisamos saber se a antena de longo alcance ainda está íntegra ou se os desgraçados destruíram o suporte de vida também.
Sanchez se aproximou do console. Seus dedos, ainda levemente trêmulos pela adrenalina, tentou ligar o console.
-Precisamos de energia Sargento. Sem ela não vamos conseguir usar a antena e nem selar a inclusa de ar para tirarmos os trajes espaciais.
-Procurem um Mapa. Precisamos de energia para ontem.
Eles se espalharam pela sala.
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