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7 Minha querida Alice Perdida - Parte 07


O feed da câmera mostrava as pessoas entrando na nave. Alguns dos rostos eram familiares, gente grande — membros do conselho municipal, empresários, socialites. A nata da cidade. Todos indo para o mesmo lugar. A nave de luxo.

Ekaterina levantou o visor. De cima do muro, dava para ver a nave. A segurança era grande, pelo menos uns vinte guardas armados, bem equipados. Invadir o ponto de lançamento era o de menos, até entrar sem ser percebida não seria o maior de todos os desafios. Normalmente. Aquela, entenda-se, não era uma situação normal. Do lado de fora da pista de lançamento, colada no muro, ainda com o vestido preto, Marie, com a cara de uma lagarta irritada, batia os pés no chão. A veemência do olhar da garota fez, por um instante muito bem delineado, Ekaterina considerar sinceramente chutá-la dali. Acabou preferindo simplesmente saltar de cima do muro e pousar uns centímetros à frente dela, só para um susto leve que não saiu bem como ela esperava.

— Então, já podemos entrar? – Marie falou com sua melhor tentativa de transmitir seriedade.

Muito descuidadas, as mãos de Ekaterina escorregaram pelo ar até seu dedos baterem nas bochechas de Marie, se agarrarem a elas e, numa estranha e pouco compreensível num primeiro momento, mas bastante clara mais tarde, dada a extrema rechonchudez daquelas bochechas, começarem a puxá-las. Marie, como uma borboleta segurada por uma pata, se debatia e tentava se soltar, o que conseguiu, não por seu próprio esforço, saiba-se, mas pela empatia de sua, ó, tão trágica situação.

— O que você está fazendo? – Marie reclamou quase soando convincentemente ameaçadora.

— Eu disse para você não vir de vestido – Ekaterina falou. – Isso é uma infiltração e tem uma segurança bem grande aqui. A ideia era tentar entrar sem que eles notassem, mas como você vai correr com isso?

— Não pense que eu sou idiota – ela falou com a mão no peito, um sorriso estufado e olhos fechados. – Eu me preparei!

Marie então levantou o vestido até pouco acima da cintura para deixar visíveis os shorts, pretos, naturalmente, que usava por baixo deles. Feito isso, ela se preparou para reabrir os olhos e dar de cara com a Imperatriz Vermelha impressionada com a sua preparação, mas, na verdade, quando abriu os olhos o que encontrou no rosto de Ekaterina foi, estranhamente, um pouco de decepção.

— O que foi? – Marie perguntou.

— Agora não dá para ver sua calcinha – Ekaterina disse com uma muito boa encenação de tristeza.

O pé de Marie resolveu achar que o chão era Ekaterina e descarregou toda sua raiva numa pisada.

— Céus! – Marie disse. – Quantos anos você tem? Você não se cansa dessa piada?

— Você não cansa de ser tão fofinha? – Ekaterina respondeu. – Sério, é até um pouco assustador como pode existir uma coisa tão bonitinha feito você.

— Eu te odeio, Ekaterina Kaladjeva!

— Sua pronúncia é péssima.

Num momento então, Ekaterina mudou de postura e expressão. Um toque nas orelhas de gato foi o que bastou e então Marie viu o visor no rosto dela escurecer encobrindo-lhe os olhos. No seu campo visual, Ekaterina começava a receber os dados da nave.

— OK, consegui acessar – Angelo disse pelos fones. – Foi mais difícil do que eu pensei. A segurança deles é de alto nível. Não deve ser pouca coisa que eles estão tentando aí. Ah, E-Kat, acho que vai gostar de ver isso.

O feed de uma das câmeras mudou, passou a focar numa sala isolada, um tipo de prisão pequena, na qual, presa por travas a uma farsa de trono, estava uma jovem mulher de cabelos longos, negros, branca, num vestido preto fino, elegante, dormindo, cansada, mas ainda assim altiva, poderosa.

A Alice Negra.

Ekaterina pressionou um dos botões na interface digital do visor e a imagem invadiu as retinas de Marie.

— É a Alice! – a borboleta exclamou. – O que fizeram com a Alice? Ela está bem?

— É um pouco difícil de dizer nessas condições, mas não acho que manteriam ela presa se ela não estivesse bem o suficiente para ser perigosa. A verdadeira pergunta é “por quê?”.

Ekaterina saltou para cima do muro. A nave começava a se preparar para a partida, acendendo suas luzes enquanto os funcionários de coletes amarelos, na pista, dirigiam as luzes para cima e removiam todos os obstáculos da pista e a guarda se afastava.

— Tira o vestido – Ekaterina falou enquanto iniciava o media player.

— O quê? – foi a melhor coisa que Marie conseguiu articular.

— Vamos entrar, então tira o vestido – Ekaterina disse saltando para o chão. – Você está usando alguma coisa por baixo, não é?

— É claro! Que tipo de pessoa você acha que eu sou? Eu sou uma dama!

— Ótimo. Então tira o vestido.

— Não é preciso, eu consigo correr com ele!

Normalmente, aquela seria uma boa oportunidade para uma piada. O tempo, porém, tornava aquela uma dessas situações anormais onde uma piada dificilmente pode ser justificada. Então, ao invés de alguma brincadeira, Ekaterina simplesmente tocou o vestido de Marie, que se incinerou num instante, revelando por baixo dele o short preto e a camiseta regata.

— Ei! – Marie reclamou muito, muito surpresa. – O que foi isso?

Sem dar chances para que a borboleta continuasse batendo asas, Ekaterina a enredou com os braços e a colocou nas suas costas, os braços sobre seus ombros, segurando as pernas com a cintura.

— Prende as pernas – Ekaterina disse. – Eu preciso dos meus braços.

— O que você está fazendo? – Marie gemeu.

— Sem chance de entrar despercebidas – e um sorriso abriu no rosto de Ekaterina, muito, muito largo e satisfeito. – Vamos fazer do meu jeito favorito.

O alerta tocou na cabeça de Marie quando o “do meu jeito favorito” passou por seu canal auditivo e chegou até seu cérebro. Seu rosto reagiu se contorcendo inteiro para representar a surpresa e terror de ouvir aquilo e seus braços e pernas reagiram se agarrando com toda a firmeza que conseguiam ao corpo de Ekaterina. Com as mãos livres, a gata navegou a sua playlist de favoritos até achar o que estava procurando. Antes de apertar o play, porém, ela parou e resolveu se permitir, um comentário.

— Sabe – foi a introdução feita por ela, um simples preparo de chão para o ataque real – você é menos lisa do que a Alice.

O cérebro de Marie pretendeu fazer uma veemente, dura e extremamente bem articulada reprimenda àquele comentário tão ofensivo e desnecessário, mas quando Ekaterina saltou por sobre o muro, pousando do lado de dentro da pista de lançamento e começou a correr, ele decidiu que aquele não era o momento para reprimendas veementes, duras e extremamente bem articuladas, mas só para gritar mesmo. E foi o que Marie fez enquanto Ekaterina corria com a voz de Jon bombardeava baladas românticas em seus ouvidos.

A nave começava o processo de lançamento, levantando o portão de embarque, enquanto os motores gravitacionais primários eram ativados, lançando ondas de choques e luzes ao seu redor. O barulho da ignição dos motores crescia a cada passo de Ekaterina como se tentasse lutar contra a música. Uma dúzia de segundos depois de a Gata começar a correr, os gritos dos guardas, de Marie e o barulho dos tiros também tentaram competir com a música, nenhum deles conseguindo ser mais do que um eco vago em comparação à voz, a guitarra e a bateria. Agarrada às costas de Ekaterina como um marinheiro ao mastro de seu navio durante uma tempestade em alto mar, Marie sentia o calor vindo de todas as direções ao seu redor e via todas as imagens a mais de um metro de distância estranhamente distorcidas. As balas que se aproximavam perdiam o rumo ao chegar a essa distância, corriam para lados diferentes como se não estivessem realmente dispostas a acertar a Imperatriz Vermelha e acabar sendo vítimas de sua vingança.

Ekaterina seguia em frente, ignorando os tiros, olhos plenamente focados na nave que começava a ganhar altura enquanto os últimos centímetros do portão de embarque se fechavam. Em cinco segundos, a nave estaria a cinquenta metros de altura.

O sorriso de Ekaterina cresceu.

Cinco segundos.

No primeiro, ela acelerou a corrida.

No segundo, ela saltou.

Marie viu a distorção desaparecer e sentiu o impacto súbito de uma força contra o chão, com se foguetes tivessem sido ligados do nada, enquanto o chão se afastava mais rápido do que parecia possível.

No terceiro segundo, um segundo salto e uma cambalhota.

O segundo impacto conseguiu superar o primeiro em força bruta e violência, enquanto a pirueta desenhou uma luz vermelha, forte, num arco claro sobre Marie.

No quarto segundo, os pés de Ekaterina atravessaram o portão de embarque com a dificuldade que uma faca ardente teria em atravessar requeijão.

No quinto segundo, o barulho do pouso balançou todo o interior da área de embarque.

Os braços e pernas de Marie cederam ao cansaço físico ao medo sólido, deixando seu corpo despencar com toda a sinceridade e peso no chão metálico enquanto seu cérebro tentava computador tudo o que tinha acabado de presenciar. Não que a situação lhe permitisse muito tempo para isso.

Cinco centímetros à frente de Marie, de pé, os braços cruzados, o olhar sério e o sorriso honestamente aberto, Ekaterina encarava os guardas armados e armadurados que a encaravam por trás de seus capacetes com as armas apontadas em sua direção.

— Vocês conhecem a rotina, certo? – ela falou. – Eu faço minha entrada dinâmica, vocês apontam as armas, atiram e eu apago vocês todos antes da música acabar. Mas, só para não dizerem que eu não dei chance… algum de vocês quer se render?

Os primeiros tiros voaram assim que o último som saiu da boca de Ekaterina. A gata rolou os olhos enquanto as balas se desviavam de seu corpo, ricocheteando nas paredes de metal, se enfiando em móveis, caixas, bancos, o chão e em qualquer lugar que não pudesse ser categorizado como “Ekaterina”.

— Por que eu ainda tento? – ela falou.

Ainda sob a chuva de balas, a Gata avançou na direção dos cães de guarda, ligando socos, chutes e torções, saltando de um alvo para outro a cada vez que um capacete era estourado, uma costela quebrada, um braço partido ou uma perna rachada. A mira das armas a seguiam, mas os tiros mais encontravam outros guardas do que a Gata que deveriam estar acertando. Dois seis guardas que estavam ali dentro, antes do refrão cinco estavam no chão. Ekaterina se virou para o último, mão na cintura, sorriso no rosto.

— E então? – ela falou. – Lutar ou fugir?

O guarda tentou apontar para a Gata, mas um distintivo “Cai” acabou fazendo seu corpo desobedecer o cérebro e, com admirável convicção, se enfiar no chão. Ekaterina olhou por cima de seu ombro para Marie, já de pé e caminhando com, tem-se que admitir, surpreendente convicção na direção do guarda.

— Exibida – Marie comentou ao passar por Ekaterina.

Marie se colocou ao lado da perna do cão de guarda, que ainda estava consciente se as suas tentativas de alcançar sua arma fossem algo que pudesse ser levado em conta para julgar isso. Mas nunca se podia ter absoluta certeza, então a borboleta decidiu chegar da maneira mais eficiente que conseguiu pensar naquele momento: pisando com toda a força na fossa poplítea. Assumindo que apenas pessoas conscientes são capazes de gritar ao serem feridas, Marie considerou uma conclusão razoável que, sim, o guarda estava consciente.

— Cadê a Alice? – ela perguntou com toda a gentileza de um tanque de guerra.

— Eu não sei! – o guarda gemeu.

Esquecimento é um problema grave, Marie sabia. E, se bem estava lembrada, era costume dizer que em momentos extremos o cérebro é capaz de reativar partes suas que haviam, por alguma razão, sido desativadas. Portanto, para ajudar o guarda a se lembrar, Marie lançou mão do método que acreditou ser o mais eficiente para estimular o cérebro: pisar novamente na parte de trás do joelho do guarda, mas dessa vez com mais força.

— Cadê a Alice? – ela insistiu.

— Sua vadiazinha! – o guarda, surpreendentemente, respondeu.

Marie teria continuado o seu tratamento de memória com o guarda se não tivesse sentido a mão de Ekaterina em seu ombro.

— Esquece – a Gata disse. – Tortura não funciona.

— Então o quê? – a Borboleta perguntou.

Ekaterina se abaixou e tirou o capacete do guarda. Ela fechou os olhos e respirou fundo.

Uma faísca.

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Ekaterina abriu os olhos e expirou. Com um sorriso filho da puta da rosto, ela encostou a boca no ouvido do guarda.

— Nem em um milhão de anos – ela sussurrou. – E eles não são assim.

Os olhos do guarda correram para encarar a Gata e continuaram travados ali mesmo depois de não ter mais nenhuma Gata para olhar.

— O que você fez? – Marie perguntou enquanto Ekaterina se levantava.

— Nada demais – a Gata respondeu. – Agora vamos.

— Para onde?

— Achar a Alice.

A segurança no interior da nave era tão forte quando do lado de fora. Cada corredor era devidamente protegido por guardas armados e vigiado por câmeras. Àquela altura, quem quer que estivesse cuidando da vigilância já sabia da invasão. E, ainda assim, não mais que um guarda por vez aparecia para fazer uma tentativa muito pouco convincente e ainda menos eficaz de parar a Gata e a Borboleta. Marie seguia em frente visivelmente tensa, olhando para todos os lados como um inseto numa caverna de morcegos. Quando seus olhos passavam pelas costas de Ekaterina, ela sentia o incômodo ainda mais forte dentro de si.

— Por que você está tão calma? – ela perguntou.

— Ficar nervosa ia ajudar em alguma coisa?

— Não, mas… e se formos atacadas?

— Não vai rolar, relaxa.

— Como você sabe?

No fim de um grande corredor, mais dois guardas tentaram fazer algum semblante de resistência, mas não há muito que se possa fazer numa fração de segundo enquanto um joelho está se aproximando do seu rosto além de desmaiar. Então foi o que os guardas fizeram, deixando completamente livre a porta que guardavam. Ekaterina encostou a orelha na porta – dava para ouvir o barulho de muitas vozes do outro lado.

— Te peguei – ela disse se levantando e caminhando para trás enquanto ajeitava seu cabelo. – Marie, cuide disso.

— O que tem do outro lado?

— Sua querida Alice.

Os olhos de Marie se arregalaram e sua boca se abriu para dizer alguma coisa, mas um segundo depois se fechou ao mesmo tempo em que seus olhos sua visão se fechou na porta.

— Qual o plano? – ela perguntou.

— Você derruba a porta, eu entro e faço meu show enquanto você espera o meu sinal para colocar a casa abaixo. Literalmente.

— Espera… você quer dizer derrubar a nave inteira?

— Tudo bem se você não conseguir. Eu penso em outra coisa.

— Não seja idiota! – Marie disse, com as mãos no peito e um sorriso orgulhoso. – Isso não é problema nenhum para mim!

— Ótimo. Então está tudo certo.

Ekaterina alterou o visor para o modo de rastreamento. A HUD se modificou completamente – desapareceram os menus, as barras, os mapas, surgiu uma mira. Sobrancelhas desceram, dedos estralaram, tênis foram ajustados. Tudo pronto. Marie se posicionou diante da porta, encarando-a com toda sua seriedade.

— Vamos lá – a Gata disse.

O “Cai” de Marie foi o disparo da pistola. Assim que o som chegou a Ekaterina, ela disparou, chutando a porta antes que ela tocasse o chão e se projetando para o chão.

Do outro lado da porta, o escuro dos momentos que antecedem o início de um show. O visor se ajustou automaticamente, passando à visão noturna e revelando as grades no centro de um grande palco, as arquibancadas lotadas de pessoas, os pontos de observação, as salas vips, o ambiente por completo.

Uma arena.

Ekaterina pousou dentro da área delimitada pelas grades e sentiu o impacto óbvio de seus pés contra um tatami. Suas mãos correram para as orelhas de gato.

— Não importa o que aconteça, fica longe, entendeu? – ela falou.

— Por quê? – Marie respondeu pelo comunicador.

— É parte do plano. Se quiser resgatar a Alice, faça o que eu estou dizendo.

— Espera, o que está acontecendo?

Não foi preciso que Ekaterina respondesse. As luzes se acenderam naquele instante, jogando nos olhos de Marie a imagem da arena de arquibancadas lotadas de homens e mulheres bem vestidos e mascarados, câmeras, holofotes e um amplo telão que mostrava, por cima, a imagem de Ekaterina dentro do ringue.

— Senhoras e senhores! – uma voz alta e agitada anunciou enquanto os acordes de um baixo começavam a soar. – Bem vindos ao inesperado maior evento desta noite! Hoje, senhoras e senhores, temos uma convida de última hora!

No telão, um close no rosto de Ekaterina. Nas arquibancadas, gritos animados.

— Isso, senhoras e senhores! Ninguém menos que ela: a Gata, o Demônio de Wittgenstein, a jamais derrotada Imperatriz Vermelha de Asano! Ekaterina Kaladjeva!

Os gritos explodiram, as salvas de palmas jorraram, a música bombardeou a arena com baterias, guitarras, baixos e teclados, uma cacofonia de som, fúria e êxtase. A imagem do telão então passou para outro ponto, a entrada de um corredor escuro.

— E todos sabemos, senhoras e senhores, que essa é uma ocasião rara! – o anunciador gritava. – A mais poderosa de todos os Especiais está aqui nos agraciando nesta noite! E quem, em todo o mundo, poderia fazer jus á Imperatriz Vermelha? Sim, senhoras e senhores! Ela! A única, a atual campeã do Circus Maximus!

As luzes no corredor se acenderam e no telão a imagem da garota de vestido e longos cabelos negros. O horror deformou o rosto de Marie, seu corpo falhou em produzir qualquer som, sua cabeça fracassou em conseguir aceitar o que seus olhos a mostravam.

— A famosa, a lendária e incomparável… – gritou o animador. – A Alice Negra… Alice Neumann!

Alice caminhou até o ringue, o chão ao seu redor congelando a cada passo, estacas de gelo crescendo onde seus pés pisavam, a temperatura em toda a arena despencando a cada segundo. As grades da arena desceram abrindo caminho para Alice e tão logo ela estava frente a frente a Ekaterina, voltaram a subir, fechando o campo de batalha.

— Agora! – o anunciador gritou sob a exaltação de todo o público. – Que comece o show!