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8 Minha querida Alice Perdida - Última Parte
— Alice! – Marie gritava agarrada às grades. – O que você está fazendo?
Os gritos atravessavam as falhas da grade e corriam pelo ar até chegarem, sem fôlego nenhum, aos ouvido de Alice. No meio do caminho, acabavam passando por Ekaterina.
— Esquece – ela disse. – Ela não está normal. Está na cara.
— O quê? – Marie gritou.
Os olhos de Ekaterina percorriam todo o arredor das arenas. Câmeras, pessoas, lugares, assentos, cabines, vidros. Câmeras. Havia muitas câmeras. Muitas apontadas para a Arena. Os telões mostravam a Arena, mas não de tantos ângulos quanto deveriam ter. O dedo de Ekaterina percorreu o menu do player até encontrar a música certa. Os visores se ajustaram para captura de calor. Os pulsos estralaram.
Um sorriso.
O mundo congelado ao redor de Alice não respondeu ao sorriso.
— Dizem que a terceira vez é a graça – Ekaterina falou. – Certo, Alice?
Nenhuma palavra como resposta.
Um movimento da mão de Alice, direcionado a Ekaterina, estacas de gelo brotando do chão em direção a ela. A meio caminho o gelo encontrou uma parede de fogo. Vapor voou para os lados.
Ekaterina apertou o play.
— Começou – a Imperatriz disse.
Chamas riscaram o chão, pilares de gelo subiram pelo céu, o ar formou cristais, neve se espalhou ao redor. Ekaterina subiu para o ar, saltando alto, girando, uma estaca de ar congelado furando o ar a seu redor. Direita, quinze, graus, um chute no ar e outro espinho para trás. O frio avançava rápido, enchendo toda a arena de cristais brancos. Metros e metros de ar glaciavam em um segundo. Pela esquerda, uma estaca, um chute, pela direita, mais estacas, gira, bate, impulso, para cima. No chão, névoa e vapor enchiam o espaço. A marca vermelha começava a desaparecer no meio da confusão de temperaturas. Os gritos do público atravessavam a música. O monitor mostrava Ekaterina, a maior parte das câmeras mirava o chão. A Gata girou, desceu, seu punho envolto em chamas.
Um, dois, três giros.
Uma explosão.
Fogo voou para os lados, lascas de ar congelado correram, assustados ou quem sabe machucados ou deus sabe como para onde bem entendessem, a névoa abriu caminho para os olhos da Gata.
Sob o punho dela, uma redoma transparente. Sob a redoma transparente, Alice. Ekaterina girou as pernas, chutou a redoma, se jogou para trás. A centímetros de suas pernas, uma floresta de espinhos de gelo surgiu. Mais e mais se aproximavam, acelerando a cada onda conseguinte. Golpes no ar, explosões de fogo – a Gata movia seu corpo pelo espaço vazio, direcionado para quão longe pudesse chegar do gelo. Socos arrebentavam bloqueios, um salto a colocou de novo no ar um soco numa das câmeras, um pouco de fogo em mais duas – o telão não apagou – outro giro a pôs andando sobre uma torre, deslizando impulsionada pelo fogo, descendo em direção a Alice, trocando de lado a cada ataque que a mirava.
Seis metros, cinco, quatro, três, dois, salto.
Fogo ardia ao redor dos dois braços, Ekaterina sorria, o ponto vermelho brilhava com força.
Um, dois, três, lançamento.
Duas lâminas de ar em chamas, uma parede de gelo – no contato, uma nova explosão. Névoa, fumaça, vapor, estilhaços, água fervente, gritos de delírio de uma plateia alucinada, palmas, pés batendo no chão.
A barreira transparente cedera por um instante, já começava a se reformar. Demoraria um segundo.
O suficiente.
A Gata chutou o vazio, seu corpo foi atirado para frente, um estrondo sônico percorrendo a arena, estourando vidros e arrancando gritos de espectadores.
A Gata caiu (como sempre) de pé, um metro à sua frente uma Alice Negra. As mãos da Alice tentaram subir, mas foram colocadas para baixo com uma tapa. Outra vez, outra tapa, um chute contra a Gata, mãos prenderam o pé, Alice girou – um mortal – lâminas de gelo sob seus pés – cortaram o ar – um soco as quebrou, duas ondas de gelo. Esquerda, direita, soco, soco, gira, fogo.
Tecido queimou.
Os olhos da Gata correram todo o campo visual num segundo: geloAlicepúblicogradescâmerastelãoMariegritoscâmerastelãoAlicegelocâmeraspretolaços, seu corpo desceu, avançou, sua mão subiu, segurou, puxou.
Preto. Laços.
Uma estaca de gelo, um chute, estrelas para trás, as grades nas costas.
Sete metros de distância.
Ekaterina e Alice se entreolhavam. Em sua mão direita, Ekaterina segurava o pedaço de pano preto sob os “ós” e palmas da plateia, sob os gritos de horror de Marie. A detecção de calor do visor desativou, Alice surgiu em sua forma normal. Nenhuma expressão.
— Como eu pensei – a Gata disse enquanto fogo reduzia o pano em suas mãos a cinzas e seu corpo dançava ao redor dos ataques de Alice. – Eu nunca conseguiria fazer isso com a Alice. Ela é boa demais para isso. Seus ataques estão lentos. Sua cabeça não está aqui, está?
A Gata girou ao redor de Alice, levantou seus cabelos, tocou seu pescoço, a cabeça. Nada.
— Sem aparelhos – ela disse. – Então só poder ser um Especial.
Gelo dilacerou o nada onde um instante antes estava a garganta da Gata. Uma mão agarrou o peito de Alice, um cotovelo atingiu suas costas.
Um estrondo, um corpo foi jogado para frente, uma grade gemeu com a batida de um corpo a cem quilômetros por hora contra ela.
Não um corpo. Um objeto: uma parede sólida de gelo.
Alice levantou os braços.
A cabeça de Ekaterina emitiu um alerta.
A arena, o espaço ao redor dela, o ar, o chão, as grades, a expressão da plateia – tudo ficou branco, tudo ficou imóvel. Parado.
Cessação absoluta de todo movimento.
Zero. Absoluto Zero.
Um brilho resvalou no gelo, refletindo num prisma, jogando luzes, cores, fogo em mil duzentas e quatro direções.
Sob os olhos de uma plateia atônita, tudo desapareceu sob uma espessa névoa branca.
Alice olhou ao seu redor. Seus olhos pararam na figura vermelha à sua frente, sua mão agarrou a mão da figura antes que ela chegasse onde queria. Por trás da cortina de fumaça, apareceu o sorriso insuportável da Gata.
— De volta ao normal? – a Gata perguntou.
— Você… – Alice murmurou.
— Sem tempo para isso. Sua assistente burra com um gosto estranho para calcinhas está te esperando, provavelmente entrando em pânico nesse exato momento. Então, que tal me dizer algo de útil para eu poder acabar com esse circo todo de uma vez só?
Os olhos de Alice se moveram até encontrarem, entre a névoa, a cabine mais alta.
— Eu posso te cobrir – Alice falou. – Mas a cabine é blindada, feita para resistir a uma bomba.
— Isso não é problema, você sabe disso.
— Falei para ter certeza de que você não vai exagerar, Gata.
Alice sorriu e girou sobre seus saltos, movendo os braços rapidamente. A Gata correu, se esticou, pulou para a cabine, fogo sob seus pés, espelhos de gelo aparecendo e desaparecendo à sua frente a cada centímetro avançado. Perto, perto, estabilizou, girou, chutou.
Seus pés atravessaram a blindagem, deixando para trás uma abertura derretida no vidro.
Cincoarmadostrêscâmerasolhomecânicosustomedoparemelaagata!atiraratiraratirar.
Três guardas caíram antes que seus braços pudessem se mover o suficiente para colocar a Gata na mira. O controlador das câmeras beijou a mesa (mais tarde, o beijo lhe custaria algumas idas ao dentista). Ekaterina correu, saltou, chutou, se moveu de um lado para o outro na cabine, metal amassando a cada vez que seus pés pisavam em algo, olhos tentando segui-la, lentos demais.
As garras da Gata se esticaram.
Sangue saltou, metal trincou, um grito ecoou.
— Peguei sua língua – A Gata disse.
Ela parou atrás do homem que se contorcia, gemia, segurava com as duas mãos o olho esquerdo que sangrava, segurando numa mão o olho biônico ainda pingando sangue.
— Um receptor de vídeo e câmera – Ekaterina disse, olhando para a pequena esfera de metal. – Como eu pensei. Sua Condição é conseguir enxergar o alvo. Eu realmente estranhei todas aquelas câmeras. Seria um desperdício tremendo de dinheiro ter elas só para mostrar numa tela o que todos já estavam vendo. Então, o que faria sentido? Naturalmente, as câmeras serem necessárias.
O homem girou na direção da Gata, puxando uma arma e sendo prontamente desarmado com um soco em seu pulso. Sua próxima visão foi apenas o brilho vermelho do fogo. Depois disso, apenas o preto e a dor. O homem caiu de joelhos no chão, cobrindo os dois olhos com as mãos enquanto urrava.
— Considerando que você estava controlando a Alice, acho que seria bem seguro dizer que sua Especialidade é [controlar] coisas – a Gata disse, sentada sob o painel eletrônico. – Mas isso seria aberto demais então não pode ser. [Manipular]? Não, também não funciona, isso te deixaria controlar, basicamente, tudo. Algo que seja limitado a afetar humanos… [hipnotizar]. Acertei, não é? Isso explica a necessidade de contato visual e você só ter usado em pessoas. É uma Especialidade perigosa, mas por sorte sua Condição limita ela bastante. Assim que o contato visual é perdido, ou se o alvo está se movendo rápido demais, você não consegue travar e perde o controle. O olho servia para manter alvos próximos sempre na sua visão e aposto que tem um implante em alguma parte para deixar você acessar o feed das câmeras. Você criou uma armadilha perigosa. Eu pretendia te fazer umas perguntas, mas acho vou ter que deixar isso com o EAE.
Ekaterina desceu do painel e abriu o menu holográfico diante de si, apertando botões virtuais até completar e enviar uma mensagem para Pan. A resposta veio um instante depois, carregada de emoticons e pontos de exclamação. Então, Ekaterina começou a apertar botões até os alto-falantes em toda a nave chiarem e transmitirem o som das batidas de seus dedos no microfone para todos que estivessem ali.
— Atenção, senhoras e senhores – a Gata disse ao microfone. – Aqui quem fala é a Imperatriz Vermelha de Asano. Sinto muito dizer, mas o show acabou. Por favor, se segurem nos seus lugares enquanto preparamos para pousar. O EAE e a Polícia Metropolitana estão esperando vocês todos lá embaixo. E não tentem fazer alguma coisa idiota porque temos uma Especial exibicionista e bastante irritada com todos vocês a bordo dessa nave. Se não quiserem descobrir como um mamute se sente, por favor, não movam um músculo. Marie, faça o que você sabe fazer de melhor.
Marie cruzou os braços e foi procurar autorização no rosto de Alice. Encontrou um balançar leve de cabeça e uma seriedade autoritária que ela sabia muito bem o que queria dizer. A Borboleta anuiu então.
Ela tomou todo o ar, fechou os olhos por um momento, ergueu o pé…
— Cai! – e gritou com todo o ar e uma batida com toda a força no chão da nave.
O impacto formou um círculo sob os pés da Borboleta. O som do grito rebateu nas paredes, atravessou os corredores, ecoou, cresceu, atingiu cada átomo da nave como uma ordem indiscutível. E contra ordens indiscutíveis, não há nada que naves possam fazer a não ser obedecer. Para aquela ordem em particular e para aquela nave, isso significava apenas uma coisa.
Despencar a toda velocidade na direção do chão.
No dia seguinte, jornais noticiariam que uma nave colidiu com força contra um terreno baldio num dos subúrbios da cidade, causando um estrago considerável em todas as construções vizinhas e, naturalmente, na própria nave também. Eles também noticiariam como, heroicamente, o EAE e a Polícia Metropolitana haviam desmantelado um círculo ilegal de lutas que envolvia uma fatia considerável da elite da cidade, tudo mantido graças ao poder de um Especial que foi prontamente levado para detenção.
Naturalmente, tudo isso só aconteceria no futuro, o que não é agora, portanto, voltemos um pouco no tempo.
Sentada sobre a nave caída no terreno baldio, olhando para baixo enquanto o EAE levava o Especial sob custódia com toda a sua pompa, pose e armas e dava entrevistas heroicas para a televisão e a polícia começava a questionar todas as pessoas ali, estava Ekaterina, tirando os sapatos e as luvas, mais destruídos do que inteiros, e os atirando para longe, muito, muito longe, onde esperava que ficassem por um bom tempo até que voltassem a ter que preocupá-la.
O que, provavelmente, não aconteceria.
Uma pessoa normal teria, naquele momento, se virado para trás, afinal havia passos chegando perto. Passos de duas pessoas, para ser bastante exato. Ekaterina continuou olhando para onde estava olhando até os passos pararem uns metros atrás dela.
Uma tosse deixou fácil saber quem era. Quando ela se repetiu impaciente mais ainda. Ia ter a terceira vez, sem dúvidas, mas Ekaterina se virou e lá estava, como esperava, Marie, braços cruzados, olhos irritados, e, ao lado dela, de pé, nobre e séria, a Alice.
— Você encontrou a Alice – Ekaterina disse, um sorriso grande. – Veio tentar me encarar? Olha que eu já venci a Alice hoje. Estou em chamas.
— Não é nada disso! – Marie disse.
A borboleta fechou as asas e os olhos, tentou ficar sinuosa, mas não deu lá muito certo como nunca dava, para falar toda a verdade. Talvez ela tenha percebido a falha, porque logo desistiu de fingir ser garbosa e plácida e deixou as bochechas ficarem duas maçãs e os olhos de filhotinho.
— Eu vim… agradecer – ela falou num sussurro quase, porém logo tomou de volta a imposição. – Não é que eu esteja feliz por ter sido salva ou que eu precisasse ser salva ou qualquer coisa do gênero! Eu não gosto de você, entendeu? Mas você ajudou a Alice e por isso, pela minha lealdade à Alice e mais nada, mais n-a-d-a eu te agradeço, Imperatriz!
Um olho fechado, um sorriso, foi o jeito de Ekaterina de responder. Uma troca de olhares com Alice, um dar de ombros, um abaixar de cabeça, e a Gata estava de pé, parada bem em frente a Marie.
— Considere isso um pagamento pelos panty shots – ela disse. – Eu consegui umas fotos bacanas.
As maçãs no rosto estouraram e a casca vermelha cobriu o rosto inteiro. Marie balbuciou umas bem mal pesadas palavras, ponderou, mas não chegou a fazer som. Alice tomou a frente, encarando Ekaterina nos olhos. Suas mãos levantaram os lados do vestido, seus joelhos se dobraram de leve. Uma mesura.
— Também tenho que te agradecer, Ekaterina – Alice disse enquanto se recompunha. – Eu fui idiota em me deixar capturar e se não fosse por você, acho que nunca mais poderia ter escapado dali. O que você fez é algo grande.
— Sem problemas. Eu só queria evitar problemas para a cidade. Além disso, eu consegui apertar o seu peito.
— Sim, eu lembro muito bem disso. E não foi só o que você fez. Sua vitória foi completa e inquestionável. Mas se eu estivesse em meu estado normal, isso nunca aconteceria.
— E por isso eu deveria agradecer aquele idiota.
— De todo modo, depois disso, acho que não tem mais sentido em lutar com você. Você me derrotou, Imperatriz. De uma vez por todas. A Alice Negra vai desaparecer. Eu vou cuidar do meu território e avisar que ele está em seu controle.
Pequeno e sacana, um sorriso abriu caminho pelos lábios de Ekaterina.
— Só está dizendo isso para ganhar tempo e me esfaquear pelas costas depois, não é? – ela falou.
— Sim e não. Esse é o fim da Alice Negra, pode ter certeza. O que não quer dizer que a Alice vai deixar passar o que você fez hoje. Não, Imperatriz, pode ter certeza de que você vai pagar por isso.
Alice sorriu, empurrou o cabelo, olhou para longe, muito longe. O vento soprava, seu cabelo balançava como penas a dançar.
— Mas hoje, a vitória é sua – ela falou. – Vamos, Marie.
Falhando uma mesura, Marie foi atrás de Alice e se afastaram assim as duas, para longe, para a noite, até sumirem. Elas longe, a polícia indo embora, o EAE saindo de cena, apenas um rosto parado ao longe, encarando Ekaterina, questionando, até se virar e ir embora. Ficou o silêncio frio e profundo da noite e as tão difusas, distantes, perdidas entre muitas outras, luzes da cidade que logo-logo ia acordar.
Deslizando entre os telhados, uma gata sumiu.
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