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6 Minha querida Alice Perdida - Parte 06
Doce demais. Por isso nunca pedia o de morango. Ekaterina sentou o milk shake na mesa e correu o olhar pelo resto da praça. As outras mesas estavam ocupadas, a maioria com casais de jovens com camisas curtas e garotas com short-saias. Estavam na moda. Não era estranho. Apesar de curtos, eles não deixavam nada a mostra. Eles tinham toda balanci…dez? de saias com a praticidade de shorts. Ekaterina puxou a barra de sua calça um pouco para baixo. A calça de corrida era confortável, mas talvez estivesse ficando curta. Enquanto ajeitava a calça, Ekaterina acabou passando o olhar por cima de Marie, sentada na grama com o sorvete na mão e obviamente derretendo com todo o calor.
— Não está um pouco quente demais para usar um vestido gótico? – Pan falou enquanto tomava seu milk shake.
— Você já usou um vestido?
— Não.
— Então como sabe que é quente?
— Parece quente.
— E é.
Ekaterina tomou mais um gole do milk shake. Muito doce, mas pelo menos estava gelado.
— Ela não tinha outra coisa para vestir – a Gata disse. – É incrível como ela conseguiu copiar todos os maus hábitos da Alice sem perceber porque ela podia fazer isso.
Pan começou a rir. Ekaterina baixou as sobrancelhas só um pouquinho.
— O que é? – ela disse. – Eu contei alguma piada?
Com o seu mais desleixado sorriso à mostra, Pan apoiou um cotovelo na mesa e o rosto no cotovelo e o seu charme no rosto.
— Você realmente não acha nada de estranho nisso tudo? – ele falou.
— Estranho?
Pan girou o dedo apontando ao redor. A praça verde e arborizada, construída no topo de uma torre, acima dos prédios próximos, lotada de casais, uma atmosfera tranquila, idílica quase, como uma daquelas pinturas arcadistas.
— Eu ainda não sei do que você está falando – Ekaterina disse.
— Não acha esse lugar tranquilo?
— As praças foram feitas para isso.
— Exato. Lugares para se ter encontros, para se reunir com amigos. Esse tipo de coisa. Normalmente um homem e uma mulher dividindo uma mesa num lugar assim estariam tendo um encontro.
— Nem começa. Isso não é um encontro, Pan. Eu te chamei porque precisava da sua ajuda.
— Sim, eu sei. É por isso que eu disse que essa situação é estranha.
— O que é que tem de tão estranho?
— Você nem percebe, não é? – Pan falou sorrindo. – Não. Na verdade, a possibilidade disso ser uma coisa incomum nem passa pela sua cabeça.
— Se você não falar logo eu vou ter que te bater.
— Não precisa ir tão longe. Eu já ia falar.
— Esse seu hábito de enrolar tudo me irrita. Você podia ser mais direto.
— E você podia ser mais casual – Pan sorriu e se arrumou na cadeira. – Mas isso não vai acontecer, não é? Uma Ekaterina que não é como uma flecha não é uma Ekaterina.
— Você ainda não explicou o que é tão estranho sobre essa situação.
— Isso é verdade.
— Então fala logo.
Pan bebeu um pouco de seu milk-shake. A expressão de Ekaterina se fechou como o céu antes de uma grande tempestade, brilhando com correntes de raios e ventos tremulantes. Pan apenas continuou bebendo o milk-shake com seu sorriso esticado de uma bochecha até a outra. Os olhos dele eram frios como um bloco de gelo radiante, os olhos dela eram como labaredas geladas. O mundo se silenciava ao redor do duelo de espíritos, a terra tremia, o ar agitava-se. A tensão crescia ao ponto de ebulição, prestes a detonar levando consigo o próprio mundo. Pan então colocou o copo de milk-shake na mesa e respirou fundo.
— Delicioso! – ele falou.
— Pan… – Ekaterina falou com o calor brutal de uma anã branca. – você quer me transformar numa assassina, é isso?
— Isso seria muito ruim, não é? – Pan disse sorrindo e continuou sorrindo enquanto esperava até se cansar. – Não vai dizer nada?
A única coisa que poderia ser interpretada como resposta àquela pergunta era o olhar de Ekaterina, mortal como uma flecha de Karna. Pan apoiou os dois cotovelos na mesa e começou a brincar com o copo de milk-shake.
— Sabe, no fundo você é uma pessoa bem gentil – ele falou. – Qualquer pessoa estranharia trazer alguém que tentou te matar para uma praça. Assim como estranharia sair para comprar roupas com ela ou deixar ela solta no seu quarto. Normalmente, pessoas ficam bem inseguras numa situação como essa e, bem, elas não lidam muito bem com quem tentou matar elas.
Ekaterina abaixou os ombros e passou um olhar rápido por Marie.
— Ela não é uma garota ruim – Ekaterina falou voltando-se para Pan. – Só um pouco burra e obcecada demais pela Alice. Tirando isso, ela é uma boa garota.
— Uma boa garota que mandou pessoas atirarem em você. E que em outras ocasiões não ia hesitar em te matar se tivesse uma chance. Acho que isso seria suficiente para que a maioria categorizasse ela como “má” ou pelo menos como “não boa”.
Pan terminou seu milk-shake sugando sonoramente pelo canudo sob o olhar subitamente não tão ameaçador de Ekaterina.
— E ainda assim, você age como se ela fosse uma amiga sua – ele completou. – Isso é algo que na maioria das vezes é classificado como “estranho”, você não acha?
Ekaterina suspirou e sorriu.
— Acho que isso me torna uma idiota – ela falou.
— Uma idiota é? – Pan falou, pensativo, olhando para longe. – É, você é uma idiota. Como Príncipe Myshkin.
— Quem?
— Alguém como você. Bem, talvez um pouco diferente de você. Ou talvez você seja um pouco diferente dele.
Pan ajeitou os óculos e sorriu um sorriso de mesa limpa.
— Mas você disse que queria minha ajuda – ele falou. – Como a Marie está aqui vou chutar que é sobre a Alice.
— É. Eu acho que tenho uma pista sobre onde ela foi parar.
— Vou supor que você não vai me dizer que pista é essa. Não se preocupe, eu sei que é melhor desse jeito para mim também. Quanto menos eu souber, menos eles podem achar que eu estou metido nas suas aventuras. É importante manter a discrição nessas horas.
— Acho que sim. De qualquer jeito, eu queria saber sobre outros casos parecidos com esses. Desaparecimentos de Especiais.
O sorriso de Pan saiu de cena.
— Acho que você está desconfiada de alguma coisa – ele falou.
— Isso não é uma resposta para a minha pergunta.
— Tem razão. Bem, tiveram uns dois ou três casos assim nos últimos meses. Como ninguém sabia de nada com certeza acharam melhor deixar tudo escondido por um tempo.
— Como sempre – Ekaterina disse apertando o copo de milk-shake.
— Dessa vez não dá para dizer que é algo completamente sem sentido, E. Se as pessoas ficassem sabendo dessas coisas elas podiam ficar nervosas e começar a pensar coisas.
— Como na possibilidade de ter um novo Demônio correndo por aí?
Pan ficou calado, apenas olhando para Ekaterina, e questionando.
— Você foi falar com ele – ele disse. – Foi com ele que conseguiu a pista.
— Eu não tinha escolha.
— Você tem ideia do como isso é perigoso? Mesmo para você!
— Ele nem consegue falar direito. Se ele tentasse qualquer besteira eu podia matar ele antes que ele terminasse de sair do meio daqueles escombros.
— Poderia mesmo? Eu não acho. Cinco anos atrás você não conseguiu.
— Cinco anos atrás eu era mais fraca do que eu sou hoje. Sinceramente, isso é ofensivo. Eu não sou a Imperatriz Vermelha por nada. Não existe a possibilidade dele conseguir sequer me machucar no meu estado atual.
— Não é esse o problema, E…
As mãos de Pan correram para o seu pescoço, seu olhar para o lado. Marie agora estava falando alguma coisa para um grupo de outras crianças, posando como uma rainha. Ekaterina terminou seu milk-shake. Eles podiam colocar menos açúcar.
— Você queria me pedir uma coisa – Pan falou. – O que era?
— Eu vou atrás da Alice hoje. Seria bom que o EAE estivesse em alerta. Pelo menos para fazer prisões cinematográficas eles servem.
— Ah, certo. Posso arranjar isso. Só vou precisar de um sinal.
— Eu te mando uma mensagem quando estiver tudo pronto.
— Tudo bem.
— Acho que isso era tudo.
Ekaterina pegou as bolsas embaixo da cadeira e fez menção de se levantar.
— Escuta, E – Pan falou enquanto ela se levantava. – Eu sei que você é forte, mas, toma cuidado, certo? Se alguma coisa acontecesse com você a cidade viraria um caos antes que qualquer um pudesse reagir. Então, se cuida, ok?
— Você está duvidando de mim?
— Não, pelo contrário. Eu tenho plena confiança em você. É por isso que eu me preocupo.
— Fica tranquilo. Ainda não chegou o dia em que alguém é uma ameaça para mim.
— É, acho que não.
— Bem, eu vou indo. Espera pela minha ligação.
— Isso é o que eu faço de melhor, E.
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