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11 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Parte 3


Notas iniciais
Isso deveria ter ficado pronto semana passada, mas problemas decidiram entrar no meu caminho e impedir que isso fosse feito. Malditos problemas...

Primeiro, foram as praças, ainda em construção, mas já acessíveis, moldadas bem acima dos prédios e da fumaça, cânceres verdes no corpo cinza e salubre da cidade. Depois, as estações novas de metrô, ainda brancas e limpinhas, nem estreadas por pé nenhum. A seguir, o shopping Yngrid, o maior da cidade, segundo ele mesmo, e a prefeitura, o prédio mais antigo de toda Asano, feito mais de dois séculos antes e o monolítico prédio do EAE, com seu logo de fonte angulosa, janelas quadradas, linhas retas. Tinham outros lugares onde podiam ir, realmente, mas para um primeiro dia, até que era um bom tour. Sem dúvidas, qualquer um que avaliasse a escolha de rota, parabenizaria quem a fez.

Ou ao menos era assim na cabeça de Marco. Muitos discordariam do fato de nenhum museu nem galeria de arte, nem o conservatório e a orquestra municipal ou, sinceramente, qualquer coisa de relevância cultural. Na realidade, se os responsáveis pelo turismo de Asano fossem realmente avaliar as escolhas de Marco, todos fariam uma cara feia, balançariam a cabeça em desaprovação e o chamariam de idiota.

Claro, ele não tinha como saber disso. E nem precisava. Afinal, durante toda a viagem, os olhos de Mami não pararam de brilhar e mesmo que isso fosse em parte por causa do reflexo do sol nas lentes, não se podia negar que o tour tinha causado um efeito nela. Os suspiros e apontões animados não deixavam mentir. Todas as pessoas que olhavam para Mami como uma caipira que acabara de chegar na cidade grande só ajudavam a confirmar ainda mais a certeza de que, sim, Marco não tinha falhado como guia turístico. Isso é importante.

Depois de quase quatro horas caminhando e viajando e andando, Marco e Mami acabaram parando numa sorveteria móvel, um caminhão branco e gordo e sorrateiro parado na frente de uma escola particular como um crocodilo a espera da passagem das gazelas. Os dois pediram sorvetes marco com uma bola de chocolate, uma de morango, calda de framboesa, granulado colorido, um pouco de coco, dois canudos crocantes e pelo menos três guardanapos. Eram necessários, os guardanapos. Mami se contentou com uma casquinha de creme com cobertura de laranja. Se Ekaterina estivesse ali, vale dizer, ela pediria o royale de morango. Era assim que era.

Sentada ali nos banquinhos perto do caminhão, Mami sorria enquanto tomava o sorvete a lambidas lentas e gulosas, assistindo com os olhos enquanto Marco enfiava colher após colher de sorvete na boca, até rindo quando ele quase se engasgou com um canudo.

— Isso tudo é bem diferente do que eu pensei – ela disse. – Quando falavam do centro, eu imaginava mais cinza, cheio de carros para todos os lados, gente correndo. Essas coisas. Até que é tranquilo em alguns lugares. E bonito.

— Espera – Marco disse enquanto limpava o sorvete que escorria pelos dois cantos da sua boca. – Você nunca tinha vindo no Distrito Central antes? De onde você era?

— Sétimo Distrito. Mas, bom, eu não saía muito de casa.

As mãos de Mami abaixaram o sorvete até entre as coxas e os olhos para o chão. Marco a olhou com interrogações nos olhos, Mami desviou para um lado, para o outro até não conseguir fugir mais das interrogações e se render com um suspiro.

— É minha Especialidade – ela disse, olhos baixos como a voz. – É difícil, sabe?

— Na verdade eu não sei.

— É… acho que não tinha como saber.

Mami olhou para o sorvete. Ainda não estava derretendo muito.

— É que, eu não consigo controlar – ela disse. – Ela só… funciona.

— Mas, sua habilidade não é [ler]? Onde isso é um problema?

— No café. Você estava pensando que os… os seios da Rina tinham crescido. E agora você está pensando em como eu fiz isso e em como os meus… para de olhar para aí, droga!

— Fui pego!

As sobrancelhas de Mami descerem e tentaram ficar irritadas, mas desistiram rápido disso, porque não estavam conseguindo coordenar o movimento com o resto do rosto. Resolveram ficar só retas, no máximo um pouco dobradas – não muito.

— Eu consigo [ler] mentes – Mami disse, levantando os olhos para Marco. – E também consigo [ler] movimento. E [ler] pessoas, intenções… essas coisas.

— Então é isso? Olhando por esse lado, até que é uma habilidade bem impressionante.

— Eu só queria conseguir controlar…

— Não tem botão de pausa? Como o da Rina.

Mami balançou a cabeça negativamente. Marco cruzou os braços e olhou para a mesa.

— Então é isso – ele falou, subindo o olhar para Mami. – Essa é a sua Limitação.

— Limitação?

— É. Todo Especial tem uma. É o ponto fraco das Especialidades. É uma das coisas mais importantes de se descobrir quando você vai lutar com um Especial, depois só da própria Especialidade. O que o cara pode fazer e o que ele não pode fazer. No seu caso, acho que é algo como “não tem botão desligar”.

— Faz sentido…

Os portões da escola se abriram. As crianças começaram a sair, algumas correndo para o caminhão de sorvete, que agora, sob as ordens do cérebro-sorveteiro, se preparava para capturá-las todas em sua teia de açúcar. Mami ficou olhando para as crianças por um momento sorvete doce gostoso dinheiro morando droga olhos grandes cortar cabelo tarefa dinheiro sorvete.

Mami fechou os olhos e tentou encarar o preto das suas pálpebras. Teria continuado tentando se não tivesse sentido a distintiva sensação de uma mão apalpando sua coxa. Ela abriu os olhos devagar, movendo-os centímetro a centímetro até de onde vinha a sensação de mão, encontrando ali, para sua surpresa, uma mão e um braço e um Marco. Mami piscou duas vezes. Marco ainda continuava com a mão na sua coxa.

— Eh? – ela murmurou.

— Seu sorvete estava derretendo – Marco disse como se estivesse respeitando alguma Máxima Conversacional.

Os olhos de Mami desceram de volta para as coxas e lá constataram, sem sombra de dúvidas, que o sorvete estava derretendo e sujando usas pernas.

— Eeeeh!? – ela exclamou.

Marco puxou o sorvete das mãos de Mami e colocou no lugar dele um lenço de papel. Era importante, eu tinha dito. Mami começou a esfregar a perna com força e força até a sujeira sair. E daí, outro suspiro.

— De qualquer jeito, não é tão ruim assim – Marco falou enquanto lambia o sorvete que tirara das mãos de Mami. – Ao menos ninguém te engana. E esse sorvete é simples demais.

— Eu gosto assim.

Marco olhou profundamente para o espelho, de um jeito não diferente de alguém que olharia para uma página complicada de um tratado filosófico, inquirindo cada pedaço, cada curva, cada lambida, até, enfim, balançar a cabeça positivamente e com toda a seriedade de um Sherlock Holmes dizer:

— Então esse é o tipo de pessoa que você é.

E então ele começou a tomar o sorvete.

— Ei… isso é meu – Mami disse.

A língua de Marco passava por cima do sorvete, tocando cada pedaço da massa com sua saliva enquanto os olhos de Mami se arregalavam num profundo e congelante pavor.

— Esquece… – ela disse como um lutador que se deparou com um inimigo com duas vezes o seu tamanho.

O sorvete não durou nem mais cinco minutos e sem ele para ancorá-los na sorveteria, Marco e Mami flutuaram ao sabor do vento por mais ruas do Distrito central. E ficaram nisso até que o céu começasse a descer e pintar tudo de laranja. De cima da passarela, muitos metros acima dos carros e pedestres, Marco se virou para o sol poente com uma expressão muito alegre e então muito séria. Antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, Mami sentiu a mão de Marco segurando seu pulso.

— Eeh?! – ela exclamou Mamimente.

— Vamos – Marco disse, olhando-a nos olhos com muita gravidade. – Não podemos perder isso!

E assim ele começou a correr, arrastando Mami atrás de si, sem dar a ela tempo de pensar, questionar ou entender qualquer coisa. Se Mami tivesse que descrever como se sentia naquele momento, provavelmente se compararia a uma pipa. Marco só parou de correr quando já estava no elevador de vidro de um dos parques. Mami se agarrou à parede, arfando e tossindo até seu ar voltar e seu olhar procurar Marco e achar, além dele, pastéis e brilhos e luzes refletidas em arcos e grandes nuvens se estendendo quilômetros e quilômetros e quilômetros sobre a skyline de prédios e parques e naves que partiam para seus voos noturnos com luzes de neon entre os pássaros e o céu brilhante e resplandecente e longe, muito longe os distritos se abrindo sem fim, o elevador tremeu, a porta dele se abriu e Mami foi arrancada dali por Marco, puxada para a grama, para o chão, até os vidros do parque além de onde o Sol terminava de se pôr e as luzes da cidade se acendiam e era um oceano salpicado por milhões de águas-vivas brilhantes dançando na água, piscando, brincando.

Mami fechou os olhos e sorriu.

A respiração leve, o sorriso, o pôr do Sol sobre a cidade.

Eles ficaram ali, por muito tempo, até o dia se deitar completamente e a noite se levantar para seu turno. As luzes da praça acenderam e os alarmes disseram que era hora de ir.

— Obrigada por hoje – ela disse.

Marco só sorriu.

— Eu tinha que fazer alguma coisa – ele disse. – Não podia deixar a sua primeira impressão da área ser ruim por causa de uns babacas.

— Entendi. Então esse é o tipo de pessoa que você é.

A noite terminara de se levantar.

Mami e Marco voltaram para as ruas. As pessoas começavam seu caminho de volta para casa, ocupadas, falando, pensando, enquanto os dois prosseguiam, conversando, por entre todos aqueles, conversando sem cessar. Até que, por entre as paredes de uma rua paralela, um grito escapou correndo.

— Socorro! – dizia o grito.

Marco, na hora, se virou para a rua paralela, ouvidos tentando confirmar se era ali mesmo. O segundo grito fechou a triangulação e selou a decisão: o garoto partiu correndo.

— Fica aqui! – ele disse a Mami.

— Espera! – Mami gritou, correndo atrás dele.

Ela tentou segui-lo como podia, por entre o escuro tenso e preso das paredes do viela e do beco. As luzes da rua começavam a desaparecer até sobrar apenas o luzir leve e esbranquiçado. O passos de Marco ficavam mais espaçados, distantes, inaudíveis entre o silêncio ao redor enquanto Mami corria e corria.

Facacortepegueiarmadilha.

As pernas de Mami travaram, seus olhos se arregalaram, seu coração disparou.

Aoutraprocurevaiarmadilhaelavaipegargarota.

Trinta metros à frente, depois de uma curva. Marco estava ali. Não sozinho.

Socochutedorvermelholadocostelaochãorisadaraivalutarlevantartempoarmadilhasocochutepancadaschutechuterisadapancadabarradeferrochutepancadasocochãorisada.

Mami tampou os ouvidos, fechou os olhos e a cara.

Pancadarisadavermelhosanguebarradeferrosanguelevantachãorisadasocosocopancadachutesanguedor.

Os dentes dela trincavam, as mãos apertavam a cabeça.

O barulho de um osso partindo atingiu os ouvidos.

Mami arregalou os olhos. Suas pernas voltaram a funcionar, seus pés empurram o chão. Trinta metros passaram num instante, a curva desapareceu.

Agarrado a uma parede, ensanguentado e machucado, Marco agarrava seu braço. Num canto, uma garota chorava. Espalhadas por ali, sete sujeitos armados com barras de ferro e tacos de madeira sorriam. Três deles, Mami reconhecia, eram os que a tinham abordado. O líder-dos-malfeitores-juvenis, jogando o taco de basebol sobre o ombro, sorrindo e andando até Mami, rosnou:

— Olha só, ela veio mesmo.

Os olhos do bandido flamejavam, seu rosto tinia de raiva.

— Bom, franguinha – ele disse. – Agora a gente vai conversar um pouco.