Xxii
12 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Parte 4
Era um lugar escuro e apertado. Não tão apertado quanto as cordas que seguravam seus braços atrás do corpo, mas apertado mesmo assim. Pelo cheiro, devia ser algum depósito de veículos velhos, ou uma garagem, qualquer coisa assim. Nenhuma luz por perto, só a que vazava por uma porta, junto com vozes.
Mami abriu os olhos devagar, tentando fazer a cabeça não doer mais do que já doía. A testa estava quente e úmida, provavelmente tinha sangue ali. Como o sangue tinha saído de dentro da cabeça, porém, era algo que ela realmente não se lembrava. Fechou os olhos, tentou se concentrar.
BrigaMarcoferidasresistêncialutasocosbastãodebaseballescuro.
Ela arregalou os olhos com uma interjeição suspirada.
Tinham acertado um bastão de baseball na sua cabeça. Ela apagou na hora. Dali deviam ter levado ela para onde estava. Só ela? Mami tentou se levantar. A dor na cabeça afetava o resto do corpo, se mover não era exatamente como andar num parque num dia ensolarado. Estava mais para tentar correr sob a água contra a corrente. Ainda assim, tentou e, até certo ponto, dá para dizer que conseguiu. Por sorte as pernas não estavam amarradas. Mami cambaleou por ali, apoiando o corpo em tudo que tinha por perto para manter o equilíbrio, tentando enxergar no meio do escuro alguma coisa. Carros quebrados, peças, caixas, prateleiras ferramentas, cordas. Cordas?
As cordas seguiam por um ou dois metros, até pararem perto de uma viga à qual estava amarrado ninguém menos do que Marco. Mami correu da melhor maneira que conseguiu até ele. Perto dele, ela teve que engolir o ar para não gritar. A menos de dois metros, dava para ver como a situação era ruim. O rosto de Marco estava cheio de lacerações e encharcado de sangue, um dos olhos estava tão inchado que provavelmente nem podia ser aberto, seu braço direito parecia quebrado e a perna esquerda estava, no mínimo, machucada.
Quanto ele tinha apanhado, Mami não sabia. Mas não tinha sido pouco. Definitivamente não tinha sido pouco.
— Por favor, acorda! – Mami sussurrou perto dele. – Marco, por favor, acorda!
Um dos olhos de Marco tremeu um pouco, lutou, tremeu mais e então se abriu a meia lua. O olho aberto subiu para Mami, parou sobre ela.
— Hey – ele disse. – Você está bem?
Os olhos de Mami se arregalaram, sua boca se abriu numa mudez congestionada de palavras diferentes, seu rosto inteiro foi tomado de uma total estupefação. Se ela tivesse escutado que uma pessoa tentou matar um rinoceronte com um palito de dentes, provavelmente teria feito a mesma cara.
— Do que você tá falando? – Mami falou. – Olha para você!
— Não se preocupa, eu estou bem – Marco disse, apenas um de seus olhos abertos, seu sorriso forçado fraco como o resto do seu corpo estava.
A estupefação cresceu como uma bolha no rosto de Mami, até estourar em seus olhos, enchendo-os com lágrimas que escorriam aos litros.
— Ei, ei, sem choro! – Marco murmurou. – Fica tranquila.
— Você podia ter morrido!
— Hah, sem chance. Se eu morresse a Ekat ia ficar uma fera e sair quebrando todo mundo. Não dá para deixar isso rolar.
Marco olhou ao redor por um momento, como um cachorro tentando se localizar numa casa nova.
— Onde é que a gente tá? – ele perguntou.
— Eu não sei – Mami falou ainda chorando rios. – Acordei aqui e… e vi você.
— Droga, isso é mau. Não tem como eu sair dessas cordas. Vai ter que ser você.
Os olhos de Mami se arregalaram de novo, não estupefatos dessa vez, ou ao menos não estupefatos do mesmo jeito que antes.
— E… eu? – ela murmurou. – Não, não! Eu não consigo fazer nada!
— Você consegue, sim! Você é uma Especial, não é?
Mami abaixou o olhar para o chão, os cabelos caindo sobre seu rosto, escondendo sua expressão.
— Minha Especialidade… ela… ela não serve para nada – ela disse. – Não é como a da Rina! É inútil!
— Então me ajuda a sair dessas cordas! A gente não pode ficar aqui para sempre! A gente precisa de um jeito de cortar essas cordas!
Dessa vez, Mami não discutiu, só acedeu. Ela se levantou a pernas bambas e saindo cambaleando por ali por dentro, caçando no meio do escuro alguma coisa, um brilhinho branco no meio de todo aquele escuro. Nada entre as ferramentas, nem entre as caixas, nem nas prateleiras. No chão. Uma faca deixada no chão. Mami se ajoelhou para tentar pegá-la, alcançá-la com as mãos amarradas nas costas. Não tinha como. Chutar? Não. Se errasse, já era a faca. Ela estava suja, jogada no meio de uma mancha de óleo. Não tinha outra jeito. Mami respirou fundo, curvou o corpo para frente e tentou agarrar o cabo entre os dentes. O cheiro de óleo era forte, a sujeira preta agarrava seu rosto, o gosto horrível era o suficiente para sufocar. Morder. Morder. Agarrar. Um porco na lama seria uma visão mais graciosa. Era o único jeito. Os dentes, eles não se tocaram – o plástico os mantinha afastado. Por um momento, Mami quase quis dizer uma prece. Mas ao invés disso, levantou e correu com a faca para Marco, deixou ela cair sobre o colo dele e lá, com as mãos amarradas, conseguiu pegá-la. Daí, era só cortar as cordas.
— Eu disse que você conseguia! – Marco falou sorrindo.
As cordas cederam depois de um minuto de insistência dos dentes da faca. Marco despencou sem o suporte, mas não tocou o chão.
— Droga – ele disse enquanto avaliava o braço mais ferido. – Eles me pegaram de jeito.
O garoto tomou a faca na mão que funcionava e cortou as cordas de Mami.
— Que bom que não tem ninguém aqui – Marco disse. – Se fossem uns caras competentes isso ia ter sido bem mais complicado.
— Mas… eu não entendo – Mami falou. – Por quê?
— “Por que” o quê?
— Por que eles prenderam a gente. Se fosse só para… você sabe, eles não precisavam disso.
— Sei lá. Isso me cheira a armadilha.
— Armadilha? Mas para quem?
Marco não precisou responder a pergunta e ele soube disso muito bem pelo arregalar dos olhos e o abrir da boca de Mami.
— Rina? – ela exclamou. – Mas… por quê?
— Briga de território. Só pode ser isso. Deve ter alguém querendo vir para aqui. Só que para isso eles vão ter que se livrar de quem manda no lugar.
— Espera, isso não quer dizer que tem um Especial envolvido?
— Provavelmente. E ele deve estar aqui.
— O que a gente faz?
Marco começou a se mover pelo depósito, como se estivesse procurando alguma coisa por ali. Mancava, mas conseguia andar. Ele parou então de frente para uma parede, olhando para o alto. Mami o seguiu e depois o seu olhar até encontrar uma janela de vidro quebrada, uns cinco metros acima deles.
— Não tem como! – Mami disse. – A gente não tem como chegar ali!
— Tem, sim – Marco falou. – É só dar um jeito.
— Mas como?
— Eu não sei. Você não consegue fazer nada?
— Eu já disse, minha Especialidade não é nada como a da Rina! Eu não posso soltar fogo ou controlar pessoas ou… ou… eu não sei. É inútil! E a gente só está nessa por que ela é inútil! Droga!
— Ei, ei, ei! Fica calma, ok? Você disse que sua Especialidade é [ler], né?
— É.
— Então, sei lá, você não consegue [ler] o que tem aqui e ver se tem um jeito de abrir aquela janela?
— O quê?
— [ler] o ambiente. Você consegue?
— Eu não sei… eu nunca tentei.
— Primeira vez para tudo.
Marco estava sorrindo. O rosto dele estava todo inchado e ferido, um dos olhos nem abria direito, e a dor do braço quebrado devia ser realmente horrível. E, ainda assim, ali estava ele, sorrindo. Mami o encarava como encararia uma criatura de outro mundo, completamente alienígena, que chegasse e tentasse se comunicar.
— Mas… e se não der certo?
— Se não der certo a gente pensa em outra coisa. Mas se você não tentar, não vai ter como dar certo, né?
Mami olhou para o garoto, para aos arredores, para si mesma.
Não ia dar certo. É claro que não ia dar certo. Para que perder tempo se só isso falhar de novo?
A cabeça dele estava vazia. Não. A cabeça dele não tinha dúvidas.
Eu não entendo. Como assim?
— Tá – Mami disse. – Eu… eu posso tentar.
Marco só sorriu. Mami fechou os olhos. Bem devagar, ela começou a percorrer a corda bamba. Os ventos dos lados rugiam e tentavam derrubá-la, os pássaros caíam gritando ao seu redor, bicando e cutucando, a corda tremia e ela também tremia, ia devagar, fraquejando dando um passo e aí parando, voltando, avançando parando voltando em frente, Mami! A corda estava na metade. Do outro lado, ela já conseguia ver alguma coisa. Os pássaros e os ventos e as tremedeiras estavam mais fortes, quase insuportáveis. Um dos pés de Mami escorregou. Ela girou no ar e caiu. A corda sumiu de baixo de seus pés. O céu foi ficando mais longe. A mão dela esticada não conseguia alcançar nada.
Viu só?
Não.
O céu parou de fugir. Tinha uma mão segurando a mão de Mami. Uma mão quente e macia que não a deixava cair, que a puxou de volta para a corda. E um sorriso que parecia dizer alguma frase motivadora tirada de um desenho de sábado de manhã. Era estranho. Mami continuou pela corda, a coisa do outro lado foi ficando mais próxima, mais próxima, os ventos não incomodavam, nem os pássaros, nem nada. O último passo a colocou em segurança.
Mami abriu os olhos.
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Mami olhou para Marco, seu rosto brilhando de repente, como uma lâmpada que descobrira como se acender.
— Eu tenho um plano! – ela disse, correndo de um lado para o outro, pegando um gancho de um canto, amarrando a corda numa prateleira e apontando para a mesma prateleira. – Consegue derrubar isso na frente da porta?
Marco sorriu e correu para a prateleira, forçando o corpo contra ela. Mami, enquanto isso, prendia o gancho numa corda, girava e mirava na janela. Primeiro, um erro. Segundo, um erro. Na terceira, parou. Se acalmar, pensar. Fechou os olhos.
Distânciavelocidadelaturaânguloaceleraçãoresistênciaforça.
Quando abriu os olhos de novo, lançou o gancho. Se um imã estivesse preso ali, o acerto não teria sido tão perfeito. Assim que o gancho se prendeu, Marco terminou de empurrar. A prateleira caiu com um estrondo, batendo na porta, puxando a corda com força o suficiente para arrancar a grade do vidro de um puxão. Batidas na porta começaram a vir do outro lado, pessoas tentando acessar o depósito. Mami desatou a corda da prateleira e o gancho da grade e os jogou, agora do outro lado da janela.
— Eu consegui… – ela murmurou.
Uma mão bateu de leve no ombro dela. Do seu lado, sorrindo como sempre sorria, Mami viu Marco.
— Eu sabia que você conseguia – ele disse.
Foi a vez de Mami sorrir e, por dentro, ficar um pouco vermelha.
— Agora vamos sair daqui – Marco disse.
Vencer a parede de um depósito não foi o maior desafio da vida de Mami ou Marco, afinal, paredes de depósito tendem a não tentar se defender de qualquer ação. Assim sendo, não demorou nem mesmo dois minutos para os dois estarem do lado de fora, longe dos perseguidores.
— Agora vamos cair fora daqui – Marco disse, jogando a corda com o gancho para um lado qualquer.
E correram, sim, da melhor maneira que puderam. O depósito ficava, ao que parecia, na área industrial do Distrito Central. Ao redor, alguns outros pátios e aas fábricas. Era de noite, não tinha ninguém por perto. No meio da corrida, Marco tropeçou e caiu.
— Cuidado! – Mami gritou enquanto o ajudava a se levantar. – Sua perna…
— Está inteira. Só me dá uma força e vamos cair fora daqui.
Sem lá muito tempo ou cabeça para discutir, Mami simplesmente concordou e continuou a fugir. Fugiu tão bem que logo via, no fim da rua, nem cem metros longe dela, a entrada para o metrô com sua placa reluzente no meio da noite escura. Se conseguisse chegar ali, estaria a salvo. Só isso. Não era algo particularmente difícil de fazer, certo? E os perseguidores estavam longe, então, qual seria o problema? Tudo bem, só precisaria correr e ficaria tudo bem.
Infelizmente, esse seria um desenvolvimento simples demais.
Azar, talvez. Poderia ser sorte também, dependendo de como se definisse a palavra. O que não muda é que, quando ouviu o ronco do motor de uma moto se aproximando, Mami pensou muito seriamente em citar uma frase que seu pai lhe dissera uma vez.
Como era mesmo?
O Efeito Doppler deixou bem claro o momento em que a moto estava definitivamente perto, prenunciando o surgimento dela, preta, esguia, afiada, como uma faca móvel de neons vermelhos cortando a noite e desenhando traços escarlate no preto. As luzes giraram numa curva cinco metros à frente de Mami e Marco, as rodas riscaram o asfalto e o motor rosnou bravo. O piloto da moto, todo de preto, com um capacete pintado para parecer a cabeça de um lobo, pisou com força no chão quando a moto parou.
O eco do passo correu o ar, batendo nas paredes, nos postes, no chão, nos ouvidos de Mami, disparando na cabeça dela um alerta geral, não diferente do que soa quando, num jogo, um chefão se aproxima. Quando o capacete saiu, revelando em detalhes o rosto chinês, o cabelo preto espetado, a barba por fazer, os olhos estreitos e escuros e as mãos abriram o zíper da jaqueta para mostrar, no pescoço, o número XI marcado, Marco e Mami não puderam falar nada, apenas assistir em silêncio as luzes do metrô desaparecerem por trás daquele homem.
— Desculpa, crianças – o homem disse. – Mas não dá para deixar vocês fugirem.
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