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10 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Parte 2


Se alguém tomasse a primeira direita na avenida central, vindo do prédio da prefeitura, e de lá a segunda esquerda e a terceira direita – uma curiosa progressão – encontraria uma estabelecimento pequeno entre uma loja de departamentos e um prédio de escritórios. Uma dessas pequenas lojas com fachadas de vidro, enquadradas por duas árvores, com bancos na frente e uma placa vintage em que se lia “Le Tarot”. Se esse alguém parasse em frente à loja, veria lá dentro, pela fachada de vidro, quatro mesas de madeira – madeira de verdade – e cadeiras de madeira – falsa – com uma imitação de design vitoriano que mais puxava para o gótico industrial, e sentiria um cheiro peculiar de açúcar e café. Se, enfim, essa tal pessoa hipotética, chamada pela curiosidade, familiaridade ou o que quer que fosse, decidisse atravessar a porta do Le Tarot, ouviria o barulho de sininhos e veria, lá dentro, os marrons, brancos e vermelhos do chão, toalhas e móveis, o balcão grande para o tamanho do lugar e os dois funcionários, ambos com o uniforme branco, vermelho e preto, estilo europeu, servindo os clientes ali. E, naquele dia em particular, encontraria também, em uma das mesas, uma garota asiática de jeito tímido e acuado com as mãos entre as pernas, um garoto italiano comendo animadamente um pedaço gordo de torta e uma garota eslava, de braços cruzados e expressão mandona. Três jovens de dezesseis anos, sentados ali.

Mami observava os movimentos dos outros dois com a cabeça abaixada e os olhos se movendo devagar, enquanto digitava aleatoriamente em seu celular. Estava um pouco frio ali, talvez devesse pedir para diminuírem o ar condicionado, mas só ela parecia incomodada com isso, então seria melhor não, não é? Talvez não devesse mesmo ter escolhido shorts para vestir naquele dia. Por que estava pensando nisso? Não era o importante… Ainda assim, com aquele frio e o tamanho, podia sentir o olhar de Ekaterina medindo-a de baixo até acima. Não que ela pudesse se defender dizendo que não tinha feito o mesmo…

Ekaterina realmente estava olhando para Mami e, até certo ponto, estava mesmo medindo ela. Embora não com abstrações ou avaliações e sim com números precisos e diretos. Mami era menor que ela, em todos os sentidos… quase todos. Um dos números saltava por trás da blusa como pão que cresceu demais. Sinceramente, era irritante.

Mami abaixou os olhos e tentou se focar no doce em seu prato enquanto seus dedos se mexiam mais rápido para digitar mais palavras antes que começasse a prestar atenção em coisas demais e… e…

O tinir do garfo ao bater no prato foi como um sino de alerta.

Os olhos de Mami subiram por onde veio o som até um peito e então pescoço e por fim ao rosto de Marco onde um sorriso grande e bobo estava escancarado sem pudor.

— Eu adoro a torta desse lugar! – ele disse com toda a animação de um pintinho. – Eu disse que era a melhor!

Mami sorriu e acedeu.

— É muito boa – ela falou.

Marco virou o olhar para o prato de Ekaterina, onde a torta dela continuava praticamente intocada.

— Não vai comer? – ele perguntou.

— Doce demais.

— Então por que você pediu? Não é legal desperdiçar comida. Se bem que no seu caso pode não ser má ideia não comer doces…

O olhar de Ekaterina encontrou um amolador muito eficiente e se amolou em um segundo até virar uma faca apontada para o pescoço de Marco.

— O que você disse? – a voz de Ekaterina disse da mesma forma que seus olhos olharam.

— Que talvez não seja uma má ideia você não comer doces agora – Marco respondeu com um rosto imutável. – Sabe, você fica meio elétrica quando come doces demais.

— Por isso?

— Isso e você também não vai poder ficar com o umbigo de fora se ganhar peso, não é?

O barulho de um soco fez Mami fechar os olhos e abaixar a cabeça.

— Você não precisa bater tão forte sempre! – Marco exclamou enquanto tentava acalmar a dor de seu braço.

— Uma punição que não é dolorosa não é uma punição eficaz. Se eu batesse devagar, você não aprenderia a lição. Não que eu espere que você aprenda de qualquer jeito, idiota.

— Então por que bater?

— Se eu não batesse em você a cada idiotice que você faz eu ficaria mal comigo mesma. Considere a sua honra servir para que eu alivie o meu estresse. É um trabalho de honra ser o saco de pancadas da Rainha.

— Eu não lembro de ter me candidato para essa vaga…

— Você não se candidatou. Eu te escolhi. Sinta-se honrado.

Uma risada baixa e acuada cortou a conversa e atraiu a atenção de Ekaterina e Marco para a garota japonesa que, de cabeça baixa e olhos fechados, ria. A risada baixa começou a aumentar um pouco depois até virar uma risada não-baixa e não-acuada. Quando notou os olhares sobre si, Mami sufocou a risada e desviou os olhos para longe.

— Desculpa – ela falou.

— Nah, sem problemas – Marco disse, sorrindo. – Se você está rindo é por que está melhor e isso é o que importa. Mas… eu não lembro de ter visto você por aqui. Quer dizer, é uma área grande e tudo mais, mas eu me lembraria se visse alguém como você por aqui.

— Eu me mudei para aqui ontem. Eu vivia com o meu pai no Sétimo Distrito, mas a gente teve que se mudar por causa do trabalho dele.

— Sétimo Distrito? – Ekaterina disse. – Isso é território dos Palhaços. O que seu pai fazia lá?

Mami desviou o olhar ainda mais, até chegar num casal sentado na outra mesa. Uma mão apareceu então na sua frente e com um susto e um gritinho Mami recuou o olhar o suficiente para o rosto impaciente de Ekaterina aparecer em seu campo de visão.

— Então — Ekaterina disse – o que ele fazia?

Com um suspiro e um abaixar de ombros, Mami se rendeu.

— Ele era policial – ela disse. – Mas moveram ele para o EAE.

Um segundo de silêncio acompanhou o surgimento de um espantoso espanto nos corpos de Ekaterina e Marco.

— EAE? – Marco gritou enquanto batia na mesa.

Os olhares de todos os clientes e funcionários correram para a mesa dos três. Com uma mão, Ekaterina puxou Marco até suas costas encostarem no encosto da cadeira e suas mãos ficarem bem longe da mesa. Mami assistiu a tudo segurando com as mãos o grito que insistia em escapar do seu peito. Ekaterina a encarava séria e ameaçadora, como alguma estátua guardiã de algum templo do fogo.

— O que foi? – Mami disse.

— Você disse que seu pai é do EAE – Ekaterina falou. – Eu acho isso difícil de acreditar.

— O quê?

— Eu acho que você está mentindo.

Os batimentos de Mami aceleraram, seu pulso fraquejou.

— Por quê? – ela perguntou num riacho de voz.

— É que a Ekat tem um sério problema de ego, sabe? – Marco disse.

— O quê? – Ekaterina exclamou virando-se para Marco.

— É verdade. Você tem.

— Não, eu não tenho! De onde você tirou isso?

— “Eu sou a Rainha Vermelha de Wittgenstein, o Dragão Vermelho, a Princesa das Chamas”. Sério, quantos apelidos você se deu? Tudo bem que você é quem manda lá ao redor da escola, mas você não pode sinceramente esperar que te conheçam nos outros Distritos…

Mami piscava rápida e confusamente.

— Do que vocês estão falando? – ela perguntou.

— Você não sabe mesmo? – Ekaterina disse.

— Não… meu pai não me falava muito sobre as coisas do trabalho. Você é famosa?

— Se eu sou famosa? – Ekaterina começou a falar, mão no peito, nariz empinado, olhos fechados. – Eu sou a Rainha desse Distrito, a responsável por expulsar todos aqueles idiotas do Folley daqui! Eu sou a Especial mais poderosa de toda Asano! É claro que eu sou famosa!

— Viu só? – Marco comentou. – Problema de ego.

— Quer ficar careca?

— Não falei nada.

Os olhos de Mami brilhavam arregalados, uma exclamação contínua vazava de sua boca em jatos de espanto, suas mãos apertavam a mesa e seu rosto se aproximava de Ekaterina como metal de um imã.

— Você é um Especial também? – ela exclamou.

Foi a vez de Ekaterina e Marco olharem para Mami, surpresos ou impressionados, quem sabe. Diante da reação, ela deslizou de volta à sua postura original.

— Desculpa – ela disse.

— Então você é uma Especial? – Ekaterina perguntou, braços cruzados, sobrancelha levantada.

Mami acedeu de leve.

— Não é nada incrível – ela disse. – Na verdade, mais atrapalha do que tudo…

— E o que é? – Marco perguntou.

— Você não acha qu… – Ekaterina começou.

— [Ler] – Mami falou. – É a minha Especialidade.

Se naquela hora os três estivessem num filme de faroeste, uma brisa passaria empurrando uma bola de feno. Como não estavam, apenas teve um silêncio longo e carregado.

— Você realmente fez isso? – Ekaterina questionou.

— Você não devia ter feito isso – Marco declarou.

— Mas você perguntou… – Mami falou, confusão e timidez abaixando sua voz até ela estar abaixo da crosta terrestre.

O som de uma mão estapeando o rosto da pessoa a qual ela pertencia ecoou pelo café, chamando por um instante a atenção de todos ali. Ekaterina deslizou sua mão pelo rosto devagar e então, do baixo-alto de sua incredulidade ficou encarando a garota, esperando que ela desse algum sinal de que não estava realmente falando sério aquela hora. Quando isso demorou demais a acontecer, veio o medo de que fosse sério e então a certeza de que era verdade.

— Você é burra, garota – Ekaterina disse. – Você tem ideia do que acabou de fazer?

As duas piscadas de Mami deixaram claro qual era a resposta.

— Certo – Ekaterina disse, suspirando profundamente. – Como Rainha dessa região, eu tenho o dever de ajudar os ignorantes e os fracos. Portanto, é minha obrigação te explicar o quão estúpido foi o que você fez. Entenda a honra da minha oferta e fique grata.

— Não leva isso a sério – Marco falou. – Ekat adora fazer pose.

O olhar de Ekaterina tornado numa lança bateu no escudo do sorriso de Marco e acabou parando de volta, apenas uma pena, em Mami.

— Especiais são praticamente invencíveis – ela disse. – Dentro da sua Especialidade, o poder de um Especial é absoluto. Não existe a possiblidade de que uma ordem dada por um não seja cumprida. Esse é o nível de poder de um Especial, o que nos torna tão poderosos, mas ao mesmo tempo nossa maior fraqueza.

— Não entendi – Mami perguntou.

— Não é difícil de entender. Uma Especialidade é absoluta, mas um Especial só possui uma Especialidade, limitada a uma única palavra. Então saber a Especialidade de alguém permite saber tudo que ele pode ou não fazer. É uma vantagem tremenda a se ter sobre alguém. Uma que pode significar vitória ou derrota.

O rosto de Mami se iluminou com uma luz clara, porém essa luz logo escureceu, dobrando suas feições num horror pasmo.

— Agora você sacou? – Ekaterina disse. – Você me entregou o seu maior tesouro como se fosse nada. Você não pode sair mostrando seus segredos por aí ou vai acabar arranjando problemas desnecessários.

— Disse a garota que vive exibindo a calcinha por aí – Marco falou.

A torta Marco, num segundo, pegou fogo e virou uma massa escura e quebradiça. Ele ainda tentou ressuscitá-la com uma cutucada de garfo, mas o resultado foi apenas um desmantelar num monte de cinzas pretas.

— Eu odeio piadas de calcinhas – Ekaterina disse. – Já disse isso.

— Você precisava mesmo ter queimado minha torta?

— Eu podia ter queimado outra coisa se você achasse melhor.

— Tá, tá. Do seu jeito como sempre, senhorita calcinha-vermelha-rendada.

— Você olhou bem.

— Eu tirei uma foto.

— Não tirou, não.

— É, não tirei.

Mami piscava em silêncio.

A batida pop de uma música começou a sair do lado do rosto de Ekaterina ao mesmo tempo em que uma tela era projetada à frente dela. A garota passou os olhos rápido pelo display e então se levantou.

— Tenho que atender – ela disse. – E acho que vou ter que sair também. Você paga e eu te pago da próxima vez.

— OK, Ekat – Marco disse.

— E você, tome mais cuidado. Não é todo dia que você vai dar a sorte de ter alguém como eu para te salvar.

Mami sorriu e abaixou a cabeça.

— Obrigada… Rina? – ela disse.

— Rina? Que seja. Estou saindo.

E, de fato, ela saiu. Assim que Ekaterina cruzou a porta, batendo os sinos atrás de si, Marco se virou para Mami, sorriso escancarado no rosto, olhos apertados e trapaceiros.

— Eu tirei a foto, sim – ele disse. – Quer ver?

— Acho que vou passar – Mami disse, de olhos fechados e rindo nervosamente.

— Você quem sabe.

Marco passou a mão por sobre o painel ao lado da mesa e um som positivo tocou. Se levantando, ele puxou a mochila e olhou para Mami.

— Vamos? – ele disse.

— O quê? – Mami perguntou.

— Você disse que é nova por aqui, certo? Então, eu vou te mostrar os arredores.

Mami olhou para o garoto parado à sua frente, de olhos abertos e rosto liso. Ela olhou, olhou e nada parecia diferente. Nada era diferente. E então, meio acanhada e um pouco vermelha, Mami sorriu.

— OK – ela disse. – Vamos lá.

Notas finais
Mami é uma graça. Na verdade, ela, em grande parte, é baseada numa amiga minha, ao menos no tocante à personalidade física. As duas são kawaii as hell. Curiosamente, essa amiga é parcialmente eslava... Oh, boy, que bagunça. Ah, o desenho da Ekaterina no começo do capítulo é a Ekaterina de dezesseis anos, antes dela se tornar a Imperatriz e ficasse com os cabelo vermelhos. Mas a atitude mandona já estava lá desde o começo. Certas coisas são imutáveis, eu acho...