Xis
21 XXI - Depois
Eram quase nove horas da noite quando eu e Julia chegamos no palácio. Sentamos uma em cada sofá da sala enquanto nossos pais tentavam entender o que estava acontecendo.
Eu fui a primeira interrogada, e a primeira a levar bronca também.
Minha mãe não falou muita coisa, parecia que ela ia vomitar em cima de Julia se abrisse a boca.
-Não interessa que você esteja preocupada com seu namorado, mas... – falava meu pai.
Reparei que Julia se encolheu com a palavra namorado, então eu interrompi:
-Ele não é meu namorado.
Mas meu (nosso?) pai me ignorou completamente.
-...não é motivo pra sair correndo da escola e usar seu poder em autoridades. Eu não sei se você sabe, mas está lá pra aprender a usar seu poder com responsabilidade. E é pra isso também que essa semana você vai ficar sem sair, nem pra EX, sem internet, sem celular e sem Jean. E mesmo quando você voltar pra EX, não vai dormir lá até segunda ordem. Você não faz ideia do quanto sua mãe esteve preocupada com você. E é por isso que não vai sair da vista dela até aprender a usar a liberdade que te demos.
Eu estava com tanta vontade de ir pra minha cama e dormir e fingir que o mundo não existia que nem protestei. Eu só queria poder dormir até sempre.
Mas então a gente ficou até duas horas da manhã tentando entender porque Julia tinha se escondido.
Ela disse que não podia voltar porque atrairia mais pessoas e etc etc etc. Eu não queria prestar atenção. Eu estava chateada e cansada e com ciúmes demais da novata pra conseguir dar atenção à história pavorosa dela de se fingir de ips e tentar matar Antônio com apenas treze anos.
E então eu me dei conta de uma coisa muito séria.
Todos aqueles abraços e conversas... Eu era a novata ali, não Julia. Ela só esteve fora por algum tempo, eu surgira do nada. Meus novos pais e amigos podiam gostar de mim, mas ela era deles muito antes de mim.
Como raios ninguém reconheceu ela em mim?!
Eles nem estavam ligando pra mim enquanto Julia falava. Eu podia ligar pra Jean do meu próprio celular que estava na mesinha do centro que eles nem perceberiam.
Eu estava tentando parecer discreta enquanto esticava a mão pro meu celular.
E por isso eu quase dei um pulo quando ouvi meu nome.
-Por que nunca me falaram de Melissa? — Julia perguntou, se soltando de um abraço da família do qual eu não estava participando.
Eu já sabia o que diriam. Uma sequência de desculpas do tipo "precisávamos protegê-la" e etc. Mas eu prestei atenção no quão triste minha mãe parecia contando aquela história. E feliz ao mesmo tempo, de ter nós duas ali.
Julia foi dormir num quarto que eu nem sabia que existia, que era dela mesmo aos treze anos. E eu fui pro meu banheiro, tomei um banho bastante longo e dormi. Por muito tempo.
*
Eu sei que não tinha ligado pro castigo naquela noite. Mas com dois dias presa em casa sem celular e internet, tentando fugir de Julia a todo custo, eu comecei a enlouquecer.
E meus pais falaram sério.
Meu celular e notebook estavam escondidos com meu pai, nenhum motorista podia me levar pra lugar nenhum e eu não podia falar com Jean nem pelo telefone fixo.
Na sexta-feira, eu estava na biblioteca do palácio (eu quase chorei de alívio quando descobri que eles tinham uma biblioteca) fuçando numa das estantes em cima de uma cadeira.
E quase caí dela quando ouvi Julia me perguntar:
-O que você está procurando?
Não deu nem pra segurar o grito de susto. Até parecia que eu estava fazendo algo errado.
-Uma distração – respondi, depois de me recuperar, mas ainda sem olhar pra ela.
-Você gosta de ler?
-Bastante, embora tenha lido pouco nos últimos tempos. — puxei um livro e vi que ele não tinha título na capa nem na lombada.
-Entendo.
Desci da cadeira com o livro embaixo do braço e fui andando em direção à porta.
-Está trancada – disse Julia.
Pronto.
Agora ela tinha passado pro lado dos ips e tinha me prendido ali pra me torturar e me entregar pra seu bando e...
Me virei devagar pra ela e ela estava encostada em uma estante, vermelha. Vermelha do tipo com vergonha.
-Sabe, eu percebi que você tem me evitado, mas eu realmente quero falar com você. E estive caçando ips por quase quatro anos, sei como agir com quem não quer falar com a gente.
-Você força elas? — perguntei, irônica.
-Bandeira branca, Melissa. — ela disse, erguendo os braços.
-Ok. — larguei o livro na mesa que tinha ali e me sentei ao lado dela, com as costas na estante. Ela escorregou até ficar sentada também.
A gente ficou alguns minutos em silêncio antes de ela começar a falar.
-Você e Jean, né!? — ela perguntou.
Senti minhas bochechas quentes. Eu estava corando? Meu Deus, eu nunca coro!
-Algo assim – respondi, baixando a cabeça pra tentar esconder a vermelhidão com os cabelos. Lembrei que ela não podia fazer isso agora que cortara o cabelo.
-Ele parece gostar demais de você – ela disse, estreitando os olhos.
-Isso te incomoda? — perguntei, depois de um tempo, num tom que eu esperava ser amigável.
-Não, não mesmo. É só meio estranho, sabe?! Seu melhor amigo se apaixona pela sua cópia exata depois que você morre.
-Você não morreu. — a interrompi. Ela riu pelo nariz.
-Não fisicamente.
Aquilo estava mórbido demais pro meu gosto.
-É tão estranho pra você ter uma irmã quanto pra mim? — ela perguntou, quando eu não respondi.
-Não exatamente. Eu fui criada com uma irmã.
Ela ergue as sobrancelhas em surpresa e depois desviou o olhar.
E a torneira de falação da Melissa aqui destravou e eu contei minha vida toda pra ela. Não sei exatamente porquê, mas, assim como a relação de família com meus pais ainda estavam lá quando eu os vi pela primeira vez em dezessete anos, minha relação de irmã com Julia ainda devia estar de pé.
-Eu sinto um pouco de inveja de você, sabe? Muita, na verdade. — ela disse. Ah, cara, qual é!? Ela era a filha favorita! — Crescer longe dessa loucura, ter uma irmã, estar na EX, ser namorada de Jean...
-Ele não é meu namorado – quase gritei, por puro instinto.
-Por que você fica negando? Eu vi vocês se beijarem. Todo mundo naquela praia viu, na verdade.
Dei de ombros. Eu sabia porque eu estava negando, mas Julia não precisava saber.
E eu não tinha percebido a parte boa de toda essa confusão que aconteceu esse ano até ela falar. Cara, eu até tinha ganhado um poder maneiro!
-Qual seu poder? — perguntei, lembrando que ela também era uma xis.
-Eu leio mentes e crio ilusões.
-A gente divide o mesmo poder – comentei, meio triste porque gostava da exclusividade, mas se ela percebeu, não se incomodou.
-A gente divide o mesmo DNA, Melissa – ela respondeu, meio que rindo.
Sorri pela primeira vez desde... algum tempo.
-Aliás, você não tem, por acaso, algum apelido? Esse seu nome é muito comprido. — ela perguntou eu tom de brincadeira.
-Ah, que é que você tem com meu nome, Julia? Só porque seu nome não é tão original quanto o meu. — entrei na brincadeira.
-Ah, tá bom, Melissa. — ela arrastou meu nome por uns três segundos, como que pra provar que ele era longo demais.
Ri da cara dela. E ela riu junto. E a gente riu por muito tempo.
-Me chama do que você quiser, mas não chama de Mel. — falei, depois de me recuperar da crise de riso.
-Por quê?
Resolvi falar a verdade.
-Porque só Jean me chama assim. — falei, desviando o olhar do dela — É algo meio que exclusivo dele.
Ela sorriu abertamente.
-Meu Deus, você está tão apaixonada. — ela riu. E eu ri. E a gente sorriu uma pra outra.
-Obrigado – falei, após criar coragem.
-Pelo quê? Você foi quem me trouxe de volta pra casa! — ela disse. Bati com o cotovelo nela, falando "bobona".
-Pela conversa. Eu gostei de conversar com você. Agora eu não preciso mais fugir de você pela casa E ainda ganhei uma amiga. — esclareci.
Ela sorriu com o "amiga" e me abraçou de lado. Após o choque, abracei ela de volta.
E quando nos soltamos, ambas estávamos chorando.
-Pára de chorar, sua boba! — falamos juntas. E sorrimos de novo.
*
Quase chorei de novo quando abracei Jean na segunda-feira na EX.
-Fica pianinho com seus pais, porque você não pode ficar de castigo de novo. — ele sussurrou no meu ouvido. Eu ri baixinho.
-Pode deixar, se depender de mim a gente não vai ficar sem se ver nem por um dia mais.
Ele mordiscou minha orelha e eu arrepiei tanto, que mordi o lábio inferior involuntariamente.
-Ugh, get a room. — disse Liz, passando por nós, em direção a Julia.
A gente ainda deu um selinho antes de se soltar (soltar mais ou menos, porque a gente ainda ficou de mãos dadas).
-Então é verdade? — ouvi Jaque falar, olhando pra minha irmã.
-Jaque, só... me abraça logo, tá!? Sem o drama típico. — disse Julia e elas se abraçaram e a Jaque chorou.
Cyndi surgiu do nada e me agarrou. Ela me apertou tanto que eu comecei a ficar com ar. Não soltei a mão de Jean.
-Não some de novo, tá!? Foi horrível.
-Eu não sumi, Cyndi – falei, girando os olhos.
Ela me largou.
-Eu vou procurar o Mateus, tá? A gente se fala depois. — acenamos e ela sumiu.
Ela passou pelo grupo da Liz, da Jaque e de Julia sem nem olhar pra elas.
E me dei conta, de novo, que minha melhor amiga não era mais tão melhor assim. Julia sabia mais da minha vida que todas elas. Liz passou por coisas comigo que ninguém nunca vai saber. E Cyndi fez parte da minha vida, mas agora eu quase não falava com ela.
Mateus chegou depois de Cyn, e eles se desencontraram.
Jean cumprimentou ele com a outra mão e eles se abraçaram, aí Jean soltou minha mão. Não tive tempo de me incomodar, porque Jaque me puxou pela mesma mão.
-Desculpa – ela disse, antes mesmo de a gente parar de andar – eu sei que a culpa não é sua de Jean ser um idiota e querer salvar o mundo sozinho.
-Tá tudo bem, Jaque. Agora tá tudo bem – abracei ela.
Não. Eu ainda preferia Cyndi à Jaque, pelo menos.
Jean me abraçou pro trás no mesmo tempo em que Pedro abraçou Jaque.
O sinal bateu pro início da primeira aula e a gente andou até juntos até a entrada do prédio das aulas.
-Obrigado, à proposito – Jean disse, enquanto a gente esperava a multidão subir primeiro pra gente subir com mais calma.
Entenda isso como enrolar pra não se separar de novo.
-Pelo quê? — me encostei nele, que estava encostado numa parede. Ele passou os braços pela minha cintura.
-Por ter ido atrás de mim. Era loucura, e burrice, e você podia ter morrido segundo um relato da Liz, – franzi a testa. Eu passei uma semana sem vê-lo, e Liz não – mas eu adorei saber que tenho esse poder todo sobre você.
-Você não tem esse poder todo – falei, me fingindo de brava e me soltando, sabendo que ele iria me puxar de novo depois.
-Ok então. Não sou eu que tenho esse poder todo. — ele disse, tirando uma mecha do meu cabelo do meu rosto — É você. Então... obrigado.
Sorri. Ele era perfeito. A gente se beijou rapidamente.
-O que vai fazer hoje à tarde? — perguntei, porque a multidão já tinha se dispersado bastante.
-Não sei, por quê?
-Porque eu estou proibida de dormir na EX por enquanto. Mas meus pais não disseram nada sobre ficar aqui à tarde.
-E você pretende gastar sua tarde no seu quarto daqui? — ele perguntou, levantando uma sobrancelha.
-Na verdade, eu pretendia gastá-la no seu quarto – falei, com um sorrisinho que ele disse que deixava ele louco.
-Que abusada a minha namorada! — ele disse, me apertando mais e girando os olhos.
-Eu não sou sua namorada – falei, sorrindo.
-Não é?! — ele perguntou, sorrindo, mas eu vi um pouquinho de medo nos olhos dele.
-Não estive envolvida em nenhum pedido de namoro nos últimos meses.
Ele mordeu a isca.
-Quer ser minha namorada? — ele sussurrou “namorada” no meu ouvido.
Acho que essa semana longe dele causou algo bem pesado no meu corpo, porque qualquer toquezinho já me deixava louca.
-Com certeza – respondi, virando meu rosto pra beijá-lo.
E, a partir de então, eu não neguei mais.
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