Xis
22 XXII - Fim?
No dia da formatura daquele ano, logo depois de todo mundo saber que eu e Julia éramos as princesas e irmãs gêmeas, eu só queria me divertir e esquecer de tudo de ruim que tinha acontecido e tudo o que ia acontecer depois daquela festa. Eu queria parar o tempo ali.
-Digam 'vai se foder' – falei, enquanto batia a foto dos formandos daquele ano.
Jaquelinne usava um vestido azul longo com uma fenda sensacional. Abraçando a cintura dela por trás estava Pedro, com um smoking preto e gravata de borboleta azul escura. Do lado de Jaque estava Liz, com um vestido também azul, mas na altura do joelho que a deixava com cara de menina, mas sexy que nem o inferno. Maria estava fazendo biquinha do outro lado de Liz com seu vestidinho azul bebê delicado abraçada com Alice em seu vestido azul gelo, que abraçava os ombros de Júlio, que estava vestido exatamente igual à Pedro, Jean e Mateus, que estavam atrás de Liz, mostrando o dedo do meio.
Todo mundo riu da minha frase, então a foto ficou perfeita.
Eu estava usando um vestido pink (Jean fez questão de me dizer quinhentas vezes que preferia azul, mas deixei essa cor pras formandas) na altura do joelho, Julia um verde comprido e Cyndi estava usando uma versão roxa do vestido de Jaque, o que deixou as duas bastante bravas.
Mas, àquela altura da festa, três horas e vários drinks depois da colação de grau, ninguém realmente ligava pra nada.
Eu só queria manter as mãos de Jean na minha cintura por quanto mais tempo possível. Estávamos ambos bêbados demais pra ligar pro que as pessoas diziam sobre nossa dança.
Eu estava triste porque toda aquela galera estava se formando, e tudo seria diferente no ano seguinte. Mas eu estava muito bem com Jean, com meus pais, com Julia e até com a Liz. Pois é, quem diria.
Jean abraçou minha cintura mais forte por trás e falou no meu ouvido:
-Vamos sair daqui?
Eu não respondi, só arrastei ele pras escadas de emergência do prédio de esportes. Ele me beijava com vontade enquanto a gente subia as escadas aos tropeços até o andar da piscina da escola.
Chegando lá, ele me prensou na parede mais próxima, mas não me beijou. Isso me deu tempo pra observar meu namorado.
Ele estava perfeito naquela luz azul fraca que vinha debaixo da piscina.
Nossas testas e narizes de encontraram.
-Eu vou sentir sua falta – sussurrei antes de ele me beijar. Com mais vontade ainda. As mãos dele estavam em todos os lugares (como se a cintura já não me deixasse pirada). Eu não queria que ele parasse com aquilo nunca.
Mas uma luz no meu cérebro acendeu.
Se você não parar, ele não vai.
Parei o beijo com um selinho e o afastei um pouco pelos ombros.
-Vamos... — saí do vão entre ele e a parede – ...sentar ali.
E aí eu tirei meu salto e sentei na beira da piscina com os pés dentro da água. Jean sentou do meu lado, mas ao invés dos pés, ele mergulhou a cabeça na água.
Merda.
Ele devia estar muito mais excitado que eu.
Ele ergue a cabeça depois de um até longo tempo e a água de seus cabelos espirrou em mim.
-Idiota – falei, secando meu braço. A noite (e eu também) estava tão quente, que me surpreendi de água não ter fervido quando encostou em mim.
Ele girou os olhos e começou a desabotoar a camisa (a gravata e o terno tinham ficado em algum lugar na pista de dança).
-Eu não sou idiota. Você é. — ele sussurrou, largando a camisa em algum ponto atrás dele.
A luz da piscina deixava aquele caminho pro paraíso que ele chamava de corpo sensacional. Cada gominho do abdômen trincado brilhando perfeitamente em azul, a cor favorita dele.
Mordi o lábio involuntariamente.
Ele abaixou a cabeça, me encarando com uma sobrancelha erguida.
-Quer um balde?
Minha vez de enfiar a cabeça na piscina. Eu não podia ouví-lo embaixo d'água, mas eu tinha certeza de que ele estava rindo.
Joguei a cabeça pra trás, tentando tirar toda a água pra não ficar pingando nas minhas costas.
Jean passou um braço pelos meus ombros e eu encostei a cabeça em seu ombro.
O quase mergulho na piscina pareceu clarear minha mente, porque eu não me sentia mais bêbada. Eu já estava começando a pensar em coisas que eu não queria.
-Como é que eu vou viver sem ter você pra me zoar todo dia? — perguntei.
-Quem disse que eu não vou te zoar todo dia? Acha que vai se livrar tão fácil assim de mim? Eu venho aqui todo dia depois do toque de recolher se for necessário só pra te beijar.
-Promete? — pedi, sorrindo.
Ele beijou o topo da minha cabeça.
-Mel... eu prometo vir na EX todos os dias pra te dizer o quanto você é linda, o quanto eu gosto de te beijar e o quanto eu te amo.
Senti meu corpo enrijecer, mas isso não fazia sentido algum, porque, por dentro, eu parecia derreter aos poucos.
Ele tinha dito as malditas três palavras.
Escondi meu rosto no pescoço dele. Era engraçado como meu rosto encaixava perfeitamente ali.
-Eu também te amo – sussurrei, com a cara escondida. Se eu olhasse pra ele, eu não conseguiria falar.
Não porque era mentira.
Mas porque era a mais pura das verdades. Era como estar plenamente nua num palco com ele sozinho na plateia com uma prancheta na mão tomando notas.
Ele passou o outro braço em volta de mim e a gente ficou um tempinho ali, só aproveitando a sensação.
Eu podia ouvir meus batimentos cardíacos nos meus ouvidos, mas eu também sentia os de Jean na minha testa encostada em seu pescoço.
-Posso te contar um segredo? — ele falou.
Eu ergui minha cabeça e esperei.
-Eu... — ele desviou os olhos – fui convidado pra estudar em Cambridge.
Era perfeito.
Exceto que ficava à um oceano de distância de mim.
Me afastei um pouco dele, encarando a água com os olhos estreitado e as mãos em cada lado do meu corpo.
Posso me afogar nessa piscina? Claro que eu posso.
E eu me joguei mesmo.
Ok. Talvez eu ainda estivesse meio bêbada.
Fiquei embaixo d'água, com os olhos fechados por algum tempo, tentando entender porque era tudo tão difícil pra mim. Eu não poderia fazer Jean escolher entre mim e Cambridge. Nem tinha o que escolher, na verdade.
Senti os braços de Jean me puxando pra cima pela cintura.
-Eu não queria me afogar – falei por impulso, enquanto ele colocava meu cabelo molhado atrás da minha orelha.
Ele girou os olhos.
-Relaxa, ok. Eu não sei se vou aceitar, e mesmo que eu vá, vai ser só em agosto do ano que vem.
-Ah, nossa, que sorte a minha, tenho oito meses pra ficar com você depois de todo o inferno que a gente passou junto.
Ele sorriu um pouquinho.
-Que merda, Mel. Você é tão perfeita. — ele disse, me apertando mais, com os dois braços agora.
Eu não queria ter que me despedir daquilo. Não queria me despedir dos abraços, dos beijos, das giradas de olhos, dos sorrisos, dos olhares. Não agora. Não em agosto. Não em 2050.
Escondi meu rosto em seu pescoço de novo.
-Seria legal se você evitasse ficar tão perto do meu pescoço enquanto não estiver disposta a fazer sexo – ele disse, e eu podia ouvir o sorriso dele na frase.
Ri com ele, mas sem tirar a cara do pescoço.
-É sério, Mel. — ele falou, mas não se afastou, nem a mim.
A gente saiu da piscina e agora estava ficando meio frio, então a gente desceu pelo elevador até o ginásio onde estava acontecendo a festa, aonde já tinha bem menos pessoas, e decidiu ir pro agora antigo quarto de Jean.
Depois de tomar banho (sozinha, não sejam bobos), troquei meu vestido molhado por uma camiseta e uma samba canção dele, ele vestiu só uma bermuda e a gente deitou na cama dele.
Durante alguns minutos em silêncio, aproveitando o calor dos braços dele em minha volta e contando suas respirações, eu perguntei se ele ainda estava acordado.
-Tô. — ele sussurrou.
-Pensando em quê?
-Em você. Em nós.
Suspirei.
Eu também estava pensando em nós.
Me aconcheguei mais perto dele.
Minha perna esquerda estava enroscada na dele, como tem sido nos últimos meses, desde aquela confusão com Antônio. Passei a mão esquerda pelo seu pescoço e brinquei com os cabelos da nuca. Passei o nariz no peito dele, absorvendo o cheiro de sabonete ainda recente na pelo dele. Senti a respiração dele ficar mais superficial.
Eu sabia que estava o torturando, mas... eu também estava meio incontrolável nos últimos dias. Eu gostava de brincar. Eu queria ver o tamanho do autocontrole dele.
-Eu te amo. — sussurrei e beijei seu peito.
-Eu te amo – ele disse de volta, se virando com um salto e me prendendo entre suas pernas.
Eu estava tão desprevenida, que ele teve tempo de passar uma perna de cada lado do meu corpo, prender minhas mãos no topo da minha cabeça e morder meu pescoço de uma vez só. Eu até perdi o fôlego.
-Vamos pra Cambridge comigo?
Notas finais
Há planos de eu escrever uma continuação, mas aí sem todo o lance dos xis e tal, só o romancezinho bobinho e açucarado (que, sinceramente, é a minha parte favorita).
Até a próxima galera!
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