Xis

20 XX - Y


Eu nunca tinha me dado conta do poder do meu poder.

A gente entrou num galpão na parte pesada da cidade, depois de 40 minutos dentro de um ônibus e andarmos mais quinze.

O galpão ficava escondido depois de algumas árvores e rodeado por nada. O terreno, inclusive, era de terra batido.

Quando o primeiro cara apareceu perguntando quem a gente era, eu criei uma ilusão de que ele tinha saído do galpão. Ele perdeu o olhar pra cima, provavelmente olhando o céu da ilusão e a gente entrou.

-Conveniente – Liz sussurrou. Dei de ombros.

A gente descobriu logo que não tinha ninguém lá. Só o cara. Que, na minha primeira distração, veio atrás da gente.

Liz se encolheu atrás de uma pilha de caixas e me empurrou pra uma sala na frente dela – a única naquele lugar – com um vento forte o suficiente pra me derrubar e pra fechar a porta atrás de mim.

Tentei ouvir o lado de fora e eu pude ouvir o cara falar com alguém (acho que no celular, porque eu não ouvia a resposta).

-Alô... Tem duas garotas aqui... sim, tem uma morena – apertei os olhos com isso. Eles me esperavam – não sei... mas tenho certeza de que estão aqui dentro do galpão, já tranquei tudo. Preciso de reforços agora.

Eu ia precisar de bastante concentração agora, porque eu precisava falar com Liz, sem olhar na cara dela e sem o ips ouvir.

Apertei os olhos e encostei a testa na porta.

Não sei se pode me ouvir, Liz, mas se puder, sai daí. Sai desse galpão. Você é inteligente. Você vai saber como sair daí.

E então eu senti um baque na porta e ouvi a Liz gritar.

Merda, o ips tinha achado ela e a jogado na porta!

Ouvi mais alguns barulhos indecifráveis, mas eles foram baixando e diminuindo até sumirem por completo.

Ai Meu Deus! Liz me ouvira! E saíra do galpão com o ips! Ela era muito boa. Eu era muito boa.

Antes de abrir a porta, ouvi uma caixa cair atrás de mim e me virei.

De pé, com uma cara péssima, tinha uma garota. Eu sabia disso porque conseguia ver o contorno dos seus seios.

Ela engoliu em seco junto comigo.

-Quem é você? — ela me perguntou.

Procurei um interruptor na parede porque eu precisava ver a menina. Ela pareceu entender o que eu queria, porque puxou uma cordinha perto da única lâmpada que se acendeu.

Meu Deus do Céu.

-JULIA! — gritei.

Ela tinha o cabelo curto e descolorido, mas, definitivamente, era parecido comigo. Ela até tinha uma mesma pinta na maçã do rosto que eu. Ela vestia uma vertido verde curto e folgado no corpo dela, dava pra ver um top preto por baixo dele. Ela parecia assutada, mas segurava a arma com segurança, como se soubesse exatamente o que estava fazendo.

-Como você sabe meu nome? — ela perguntou, apontando uma arma pra mim.

-Você não sabe o meu?

-Deveria? — ela perguntou.

Então ela não sabia que eu existia... eu era quase uma filha bastarda.

-Dá pra pegar leve com o lance da arma? Eu não vou te matar, ok?! — falei, depois de um tempo – Eu sou Melissa, também conhecida como sua irmã gêmea renegada. — ela estreitou os olhos, mas não baixou a arma – Eu sou uma xis também, tá?! Ok. Eu vou sair, porque meu melhor amigo está em algum lugar lá fora e depende de mim. Só... não me mata quando eu virar as costas.

Saí da sala e continuei andando até uma mesa que tinha no fundo. Talvez eu encontrasse um papel com um endereço ou qualquer outra coisa que me levasse até Jean.

Fucei na mesa e, claro, não tinha nada. Então eu tentei fuçar num armário que tinha do lado da mesa.

Ouvi alguém mexer na porta de entrada. Por enquanto a pessoa que entrara não ia me ver, mas se ela andasse um pouco mais, daria pra me v...

Meu pensamento foi interrompido e meu grito reprimido por uma mão na minha boca e um braço apertando minha barriga, me puxando pra trás até nos esconder entre a parede do fundo galpão e o armário.

-Quieta.

Quase caí de alívio ao ouvir a voz de Jean sussurrada no meu ouvido.

Duas pessoas, um casal, entraram no nosso campo de visão. Eles mexeram na mesa.

-Não tem ninguém aqui dentro, nem o Tom. Mas alguém mexeu na minha mesa. — disse o homem.

-Acho que sei quem é a loira que ele mencionou. — disse a mulher, puxando uma arma das costas e apontando pra porta do galpão.

Ela atirou cinco vezes, mas Liz não foi atingida, porque logo estava perto da mulher, com outra arma na nuca dela.

Não que isso fosse especialmente reconfortante, já que o homem agora apontava uma arma pra Liz também.

-Se atirar, você é a proxima. — ele disse.

Liz podia nos ver de onde estava, mas fingiu que não viu.

-Eu não vou atirar, não se preocupe. — ela deu ênfase no eu.

Ouvi o zíper da minha mochila se abrir aos poucos, mas Jean ainda mantinha as duas mãos presas no meu corpo. Ah, é. O poder dele. Era só mexer a localização do zíper. Resisti ao impulso de girar os olhos. Senti a mochila ficar minimamente mais leve.

-Larga ela, então – disse o cara.

-Quem me garante que você não vai me matar quando eu largar ela? — provocou Liz.

-Não posso te garantir nada.

Eu ouvi o disparo e vi o cara cair, junto com a arma na minha mochila.

A garota que estava na mira da arma de Liz começou a chorar e gritar, largando a arma dela no chão, disparando um tiro na direção contrária da minha.

Jean me empurrou gentilmente pra frente e a gente saiu do nosso esconderijo.

-Deixa ela e vamos voltar pra Castrea – Jean disse, pegando a arma do chão.

-Não segue a gente. Não avisa ninguém que a gente tá saindo. Se qualquer coisa acontecer com a gente por que você não ficou quietinha aqui, eu te caço até o inferno pra te matar – disse Liz, antes de soltar a menina.

A gente andou em silêncio até a porta.

-Espera, gente. Eu encontrei Julia.

Jean e Liz me encararam boquiabertos. Voltei pra sala e chamei ela. Levou uns dez minutos e vários argumentos e respostas até ela se convencer de que eu estava do lado dela.

Quando Julia e Jean se viram, eu pude ver o alarme no rosto dos dois. Tenho certeza que eles se abraçariam em qualquer outra situação. Eu quase não consigo conter o ciúmes.

Quando a gente abriu a porta, mais ou menos quinze ips esperavam pela gente.

-Oooookaaaaaay. — falei.

-Quatro pra cada? — brincou Liz.

-Fechado. — disse Jean.

*

Eu poderia usar meu poder e fingir que eu, Julia, Liz e Jean estávamos invisíveis, mas só em uma pessoa de cada vez. Isso não era um problema pra Liz.

Ela deu um pulinho, como se fosse uma bailarina, e levantou uma nuvem de terra pra cima dos ips. Ela girou o dedo e um ciclone surgiu, jogando vários deles numas árvores que tinha ali em volta.

-O que aconteceu com o quatro pra cada? — perguntei.

Jean ergueu os poucos que ficaram em pé e os jogou pra longe, com um simples levantar de sobrancelha.

Faltavam só dois. Com armas apontadas pra nós. É bom que se diga que cada uma de nós também tínhamos uma arma.

Girei meu olhos.

-Quer fazer as honras? — perguntou Jean pra mim.

Dei de ombros.

Mas fiz o cara da esquerda pensar que eu estava estrangulando o da direita, então ele correu pro cara, que não entendeu nada e correu dele. Até eu me distraí com a cena, e ri.

Jean, Julia e Liz me encararam com um ponto de interrogação na testa.

-Desculpa – eu disse, ainda rindo.

Fiz o que saiu correndo pensar que estava sendo ameaçado pelas costas por Jean e fiz ele andar até o outro cara. Fiz ele pensar que Jean dissera pra atirar.

Pra minha total surpresa, ele obedeceu e matou seu parceiro.

Olha, eu já tinha visto sangue suficiente pra um dia e não ia conseguir me concentrar mais. Eu estava chocada. Liz derrubou o cara com o ar e o enterrou na terra até o pescoço, enquanto eu tentava entender que acabara de matar alguém indiretamente.

*

Ouvimos alguém bater palmas atrás de nós antes que pudéssemos mesmo ter saído do esconderijo do galpão. Nos viramos automaticamente.

Notei que ele arregalou os olhos ou ver Julia. Mas se recompôs.

É claro, ele não podia parecer culpado.

-Belo show. Mas isso não vai nos parar. E vocês sabem disso.

-Quem é você? — perguntou Jean, dando um passo à frente e mantendo eu e Liz atrás dele.

-Antônio. O líder disso tudo aqui – disse Julia.

Antônio franziu a testa pra ela.

E então, numa fração de segundos, eu lembrei do plano que eu arquitetara com Jean, há pouco menos de dois meses.

-Eu comecei, na verdade, meu avô começou a perseguir os xis do mundo porque realmente discordava da ideologia de vocês, mas a liderança agora é minha. Isso é egoísmo da parte de vocês.

-Não podemos lutar contra nossa natureza. — respondi, sem me conter. Todos me encararam com uma carranca. Dei de ombros.

-A superpopulação do mundo? Xis. Aquecimento global? Xis. Desmatamento? Xis. Má distribuição de renda? Xis. Vocês não veêm o tamanho dos problemas que vocês causam?

Estreitei meus olhos.

-Vacina. Internet. Avião. — disse Liz. Franzi o cenho pra ela. Não vi a cara de Jean, mas reparei que as costas dele deu uma relaxada.

-Computador. Refrigerante. Celular. — continuou Julia.

-Rádio. Televisão. Antibiótico. Bicicleta. — disse Jean – A gente contribuiu muito mais do que prejudicou.

Antônio girou os olhos.

-Você são tão prepotentes assim? — ele zombou.

Tirei uma das alças da mochila e peguei a arma do Jean que eu roubara e apontei pro tal Antônio como vi fazerem nos filmes. Eu até estava com o dedo no gatilho.

Não preciso dizer o quanto ela pareceu pesada e incorreta na minha mão. Eu nunca tinha pego numa arma antes.

-Tem coragem de atirar no líder, princesinha?

-A origem, certo? Cortar o mal pela raiz. — minha voz tremia, minha mão tremia, tudo tremia. Eu não devia parecer nada assustadora ali.

-Melissa... você nem sabe destravar essa arma na sua mão. Você provavelmente nem sabia que deveria destravá-la.

Engoli em seco. Era tão óbvio assim que eu era uma completa tapada?

Jean destravou a arma com a mente pra mim. Eu sei disso porque ouvi o clique.

-Eu não tenho medo de você.

Jean e Liz levantaram suas respectivas armas e apontaram para Antônio.

-Devo dizer “de vocês”? — ele sibilou, dando ênfase no plural.

Mordi meu lábio.

-Quando Paula disse que sequestrar Jean era mais efetivo que sequestrar os pais, eu quase não acreditei, mas olha só, eu trouxe a atual e a ex.

-Paula? — falei, sem conseguir segurar a boca grande.

-Ah, é, sua amiguinha de EX. Vocês se acham tão bons, que não pensam na possibilidade de terem cometido um grande erro. Paula é um filha adorável. E uma ótima espiã, aparentemente.

A arma ficou mias firme na minha mão. Se minha mão estivesse livre, eu teria fechado o punho. De repente, eu não estava mais com medo do objeto na minha mão. E ela estava destravada agora.

-Vocês são prepotentes demais pra perceberem que os gênios também comentem erros e que tudo o que fazem não contribui em nada pra ninguém além de vocês mesmos.

Paula surgiu do nada, correndo por entre as árvores e abraçou o pai.

Aquilo foi a gota d'água pra mim.

E, aparentemente, pra Julia também, pois as duas armas dispararam juntas. Paula e Antônio, ainda abraçados, caíram juntos no chão.

E eu caí no choro. Deixei meus joelhos fraquejarem e baterem no chão de terra batida. Larguei a arma e tire a mochila das costas sem nem perceber. Eu chorava sem esperança de parar. Eu chorei por vários motivos.

Porque eu realmente matara alguém com minhas próprias mãos. Porque eu não queria estar nessa guerra idiota. Porque meus pais verdadeiros preferiram a Julia do que eu. Porque eu era uma tapada. Porque eu não acreditava que isso fosse parar os ips. Porque talvez eu teria que disputar Jean com minha irmã. Porque eu era muito mais amiga de Liz do que de Cyndi. Tudo doía.

Jean se ajoelhou ao meu lado e me abraçou. Eu chorava ao ponto de tremer e soluçar. Ele não perguntou o porquê eu estava chorando, não disse que estava tudo bem, não fez nada além de segurar minha cabeça em seu peito. Ele era mesmo meu melhor amigo, porque aquilo foi melhor que todas as palavras boas do dicionário.

Aos poucos eu me acalmei. E quando minha mente estava um pouco mais clara, agradeci por ter encontrado Julia, porque essa cena devia ser bem constrangedora pra Liz aguentar sozinha.

Jean me ajudou a levantar, mas não continuou do meu lado.

E aí a gente foi embora.

*

Primeiro, eu me surpreendi que a loja dos jets ainda estava aberta. Devia passar das sete da noite e já estava bem escuro.

O tio de Jean faltou dar um soco na cara do sobrinho quando a gente chegou na praia. Mas ele deixou a gente ir.

O pai de Jean fora menos complacente ainda. Ele gritou, falou um monte, colocou o dedo na cara dele. Eu, Julia e Liz não sabíamos onde enfiar a cara. Mas Jean baixou a cabeça e aceitou a bronca.

-Meninas... — o pai de Jean disse e a gente olhou. Ele passou o olhar por mim – Você tá muito encrencada. — olhou pra Liz – Seus pais sabem que você estava no continente? — Liz deu de ombros. Me perguntei o que ele e ela quiseram dizer com aquilo.

Ele se aproximou de Julia e analisou o rosto dela.

-Julia?!

E ele a abraçou. E ela abraçou de volta.

Eu juro que não queria sentir ciúmes naquela hora, mas foi quase impossível.

O pai de Jean soltou ela, comentou do seu cabelo (ela deu de ombros) e foi tirar o carro do estacionamento pra levar Jean e Liz pra casa.

Liguei para casa e pedi um carro pra nos buscarem.

Jean, Liz e Julia conversaram um pouco antes de o pai dele voltar. Então Jean a abraçou com força e eu vi ele fechar os olhos enquanto isso. Me perguntei se ele fechava os olhos quando me abraçava. E se ele pensava nela enquanto me beijava.

Liz também abraçou Julia, mas eu não vi o que aconteceu depois, porque Jean entrou no meu campo de visão e andou até mim.

-Jean! — o pai dele chamou, pegando no braço de Jean, mas ele se soltou com um movimento rápido.

Vi, pelo canto do olho, um dos carros do palácio entrar na avenida da praia.

Jean colocou uma mão em cada lado da minha cabeça, a erguendo pra ele.

-Jean! Vem logo! — o pai dele ainda chamava.

-Você é uma louca e eu te amo. — ele sussurrou.

E antes que eu pudesse raciocinar o que a frase queria dizer, os lábios dele estavam sobre os meus. Passei os braços pela cintura dele, aproveitando o beijo. A melhor parte, era que nada havia mudado. Se ele quisesse Julia ao invés de mim, agora ele tinha ela, não precisaria me beijar daquele jeito. Ele parou o beijo com um selinho e correu até o carro, sem me dar tempo pra responder.

Eu entrei no carro por uma porta o mesmo tempo que Julia entrou pela outra (o motorista quase infartou com aquela cena). Eu encostei minha cabeça na janela e Julia também. Não nos encaramos até chegar em casa.

Notas finais
Okay. Reta finalíssima. Passamos do clímax, agora só mais dois caps com a finalização. Quem vai sentir falta?!