Xis

15 XV - Calmaria (parte um)


Notas iniciais
Eu dividi 'Calmaria' em duas partes simplesmente porque é a minha parte favorita da história toda.

Eu acordei com a voz da Jaquelinne do outro lado da porta.

-Se você não levantar agora, eu vou arrombar sua porta, Melissa!

Girei os olhos.

Isso me fez lembrar dos acontecimentos da noite anterior e, de repente, eu estava com humor sensacional e super contente de Jaquelinne estar ali.

Levantei e abri a porta, de pijama e com um ninho de pássaros no lugar dos cabelos, mas com um sorriso que não cabia no rosto.

-Não, pera. — disse Jaque, inclinando a cabeça. — Eu acabei de te acordar com um murro e você tá sorrindo assim por quê?

Puxei ela pra dentro e fechei a porta.

-Ei – ela protestou – Não precisa ficar com essa cara de “você não vai acreditar!”, porque eu já sei o que você vai dizer.

-E daí? Eu preciso falar o quão bem eu estou me sentindo, ok? — falei. — E, depois, a gente precisa ir comprar uma roupa decente pra eu ir na festa da Paula. A gente vai fazer compras e falar sobre garotos. Vai ser super legal.

-A gente? — perguntou Jaque.

-É, ué, a gente. Pra quê você veio aqui a essa hora, então, se não pra isso?

Ela suspirou e encarou o teto.

-Ok. Eu fico ouvindo você dizer o quão gostoso é o beijo do meu irmão. — ela disse. — Hugh! — ela gemeu, fazendo uma careta de nojo engraçada.

Eu soltei um gritinho fino e abracei minha amiga (ótimas sensações vêm com essa palavra) de lado.

Ela ficou fuçando meu notebook enquanto eu tomava um banho rápido. E a gente saiu.

A gente pegou um ônibus que ia direto para o shopping. E demorou um tempinho, mesmo sem trânsito. Comecei a me dar conta do quão grande era Castrea. Como é que ninguém sabe da existência dessa ilha?

-... e eu me perguntei porque Pedro estava tão chato e eu descobri que ele estava morrendo de ciúmes do Mateus, como se ele não tivesse a Cyndi e...

-Você conhece a Cyndi? — perguntei, interrompendo Jaque.

-É... a gente saiu algumas vezes com ela e Mateus... é. — ela disse.

Eu devo estar paranóica. Porque, sério, não é possível que ela esteja fingindo que não conhece Cyndi. Por que ela faria isso?

Suspirei. Eu sentia muita falta de Cyndi. E da Dri. E da minha pra-todos-os-efeitos mãe, Cláudia.

-Jean vai na festa? — perguntou Jaque. Agradeci mentalmente a mudança de assunto.

-Vai. — respondi — Quer dizer, eu não sei. Se não for, eu arrasto ele.

Ela sorriu.

-Você parece bastante feliz, sabia?

-É que eu estou feliz. Sei lá. O mundo tá caindo sobre minha cabeça, mas eu me sinto muito leve.

-Parece feliz, mas cansada. Que olheiras são essas?

Girei os olhos.

-Sabe, isso é muito assustador. Eu vejo o Jean toda vez que você gira os olhos. Dá medo – ela disse, com uma cara muito engraçada.

-A olheiras é porque eu fiquei me pegando com Jean por muito tempo no corredor e a gente ainda ficou um bom tempo trocando mensagens depois que ele foi pro quarto dele.

-Ai, cara, que meloso... — ela disse, batendo o ombro no meu, me fazendo rir. — Vem, vamos descer.

*

Eu estava com uma saia de cintura alta e sutiã no provador quando ouvi meu celular vibrar na bolsa.

“Existe qqr possibilidade de vc me dizer kd vc?”

E se você adivinhar de quem era a mensagem, você ganha uma grande barra de nada que vale menos que dinheiro.

“não.”

“pq?”

“bom dia pra vc tbm, mô”

“mô? aff, não me diz ond c tá, melhor assim.”

“tô seminua em um lugar publico”

Ri da minha mensagem. Não deixava de ser verdade. Mas enviei outra.

“brincadeira. É meio irônico vc perguntar onde tá algo/algm”

“eu nem tomei café ainda”

Quem precisa de linha de raciocínio, não é mesmo?

“você acordou agora ???”

“nao. Tem uns 15 minutos. Eu acordei, tomei banho e vim te procurar”

“eu to no shops com a jaque. Desde qnd vc procura algo/qlgm, hem mô?”

“q shop?

“sei lá, jean. não morei aqui minha vida inteira”

“grossa”

Girei os olhos.

“tadinho do meu mô”

Mandei, só pra irritar.

“para com essa porra”

Eu sorri pra tela.

“Me liga”

Esperei.

Quando tocou, eu atendi e coloquei no viva-voz.

-Que foi? — ele perguntou,

-Qual o seu problema com cumprimentar as pessoas?

-Por que você pediu pra eu te ligar?

-Porque eu to no provador e é mais fácil falar com você e trocar de roupa do que digitar e trocar de roupa. — respondi, vestindo uma camisa rosa.

Argh.

Muito sério pra uma festa numa boate. Tirei a camisa e a saia.

-Só pra você saber, eu tô girando os olhos agora. — ele disse do outro lado.

-Só pra você saber, eu tô de calcinha e sutiã agora – sussurrei, porque eu não queria que ele escutasse.

(Ou, talvez, no fundo, eu quisesse sim. Queria que ele sentisse alguma coisa – qualquer coisa – ao saber que eu estava seminua. Só que bem, beeeeem no fundo mesmo.)

-Eu daria tudo pra ser o espelho do provador agora.

Claro que ele iria ouvir. Eu não queria que ele ouvisse. É a lei da vida.

Passei um vestido preto pela cabeça.

-Como é a área em volta do shopping? — ele perguntou.

-Por onde eu entrei tinha um monte de banquinhos parecidos com banco de praça e umas árvores com flores verde. — que quase desapareciam no verde das folhas, pensei comigo enquanto encarava meu reflexo no espelho.

O vestido era justo e tinha uns desenhos feitos de lantejoula próximos à barra, que era no meio da minha coxa.

Ficou bom. Muito bom.

-Ah, beleza, isso é realmente de muita ajuda, Melissa. Porque, claro, eu reparo nas flores das árvores. — ele ironizou do outro lado.

-Grosso. — falei, tirando o vestido.

-Ah, tadinha da minha mô – ele me imitou.

-Argh – falei, involuntariamente. Ele tinha razão, “mô” era muito ruim.

Ele riu do outro lado.

-Bom, eu não sei. Sei que demorou um tempinho pra gente chegar aqui, mesmo sem trânsito.

Coloquei um vestido azul que, diferente do preto, tinha a saia rodada.

-Muito melhor. — falamos juntos.

Jean devia estar ironizando minha informação, mas eu falava do vestido.

Rimos juntos.

-Ok, eu já terminei de provar, vou sair do provador e pergunto pra Jaque que shopping a gente tá. Aí eu te mando uma mensagem te contando, oks?

-Ah, até que enfim, você falou algo útil. — ele disse, do outro lado e eu girei os olhos.

-Também te adoro, tá, Jean? — ironizei

-Tá, Mel, tchau. — ele disse.

-Ai, Jean, credo. — falei, brava, vestindo a roupa com a qual eu vim para o shopping.

Ah, qual é. Eu praticamente me declarei pra ele e é assim que ele responde?

-Tá, desculpa. — ele soou meio arrependido. Mas quando o assunto era ele, eu não tinha certeza.

-Tá.

-Tchau, Mel.

-Tá. — respondi, fingindo que ainda estava brava, só pra ver até onde ele iria.

-Tá brava? — ele perguntou.

-Tô.

-Então funcionou. — ele disse e eu quase ouvi o sorriso na voz dele.

-Filho da puta – falei, mas ele já tinha desligado.

*

-Ei. — Jean disse, acenando, quando encontrou a gente em um dos corredores do shopping. Ele estava com Pedro.

Eles se aproximaram e eu e Jaque fomos cumprimentadas com selinhos, ao invés de 'oi'.

Não tô reclamando.

-E aí? — falou Jaque.

-Vocês tão aqui desde cedo e só compraram essa sacolinha? — Pedro perguntou, apontando pra sacola de Jaquelinne.

-Teríamos comprado mais se o Jean não tivesse dado tilt e viesse pra cá sem ter que perguntar onde a gente tava. — ela disse.

Eu ri. Jean girou os olhos.

Pedro passou um braço pela cintura de Jaquelinne e deu um beijo no rosto dela, sussurrando algo que eu poderia ter ouvido se quisesse.

Na verdade, eu queria, mas Jean estava com as mãos na minha cintura e eu já tinha perdido o fio da meada.

-Lissa, eu vou ali na loja de esportes com o Pedro. A gente se encontra mais tarde? — ela perguntou.

-Aham – respondi, olhando pro rosto de Jean.

“Eu trouxe o Pedro pra levar a Jaque pra longe.”

Dei um sorrisinho de “eu já sabia” pra ele.

-Té mais – disse o Pedro e eles foram.

-Isso é muito feio, sabia? — sussurrei pra Jean, sorrindo que nem boba.

-E ler a mente alheia não? — ele argumentou, sorrindo de volta.

Girei os olhos.

Jean estava andando de frente pra mim e eu estava andando de costas, mas de frente pra ele, de forma que as mãos dele continuavam na minha cintura e eu ainda podia olhar pra ele.

-Pra onde você quer ir? — ele disse, me puxando pra mais perto dele.

-Sei lá. — respondi. — Não importa exatamente pra onde eu vou. — eu disse, enfatizando o “onde” e com um sorriso de lado que eu esperava ser sedutor.

Ele devolveu meu sorriso e ergueu uma sobrancelha.

-Amo esse seu sorriso. — ele disse – Você fica incrivelmente mais sexy quando você sorri assim de lado.

-É mesmo? — virei a cabeça de lado, me fingindo de santa.

Acho que as pessoas à nossa volta estavam achando aquilo muito estranho. Mas já reparou no quanto a vida é muito mais legal se você não liga pra nada?

-Esse sorriso me deixa louco – ele sussurrou, sério agora. Ele parecia estar me confessando algo muito íntimo.

-Então funcionou – devolvi, piscando e me soltando e virando pra andar de frente na frente dele.

Mas não demorou muito pra ele me puxar pelo cotovelo com força suficiente pra me fazer bater no peito dele, e ele me abraçar pela cintura, impedindo que eu saísse.

Não que eu quisesse sair dali.

-Não é nada legal devolver na mesma moeda, sabia, Mel? – ele arrastou o “Mel”, sussurrando.

Eu já respirava com dificuldade.

-Se serve de consolo, você também me deixa louca – sussurrei de volta, morrendo de vergonha de admitir isso pra ele.

E pra mim mesma, se quer saber.

-Eu sei – ele disse, antes de me beijar.

A gente estava no meio do shopping, com várias pessoas à nossa volta nos julgando. E a gente não ligava.

Enquanto estávamos nos beijando, nada realmente parecia importar. Eu e Jean só nos importávamos um com o outro e estávamos bem assim.

Enquanto a mão dele (que antes estava no meu cotovelo) segurava minha cabeça pela nuca, eu tinha a certeza de que não precisávamos nos preocupar. Porque ficaríamos bem. Mesmo que o mundo acabasse.

*

No domingo, eu estava no meio das pernas de Jean na praia, encarando o mar enquanto ele me contava histórias de quando era pequeno.

-Aí eu fiquei cheio de bolinha e com falta de ar. E meu primeiro pensamento foi de que eu era alérgico à amendoim, e comecei a chorar de tristeza.

Eu estava rindo dele.

-Você tava chorando porque não podia mais comer amendoim, não por estar tendo uma reação alérgica? — perguntei, virando a cabeça para o ombro em que o queixo dele estava apoiado.

-Tipo isso.

Girei os olhos, ainda rindo. Ele me deu um beijo na bochecha.

-Eu nunca gostei de amendoim. É um negócio que não é nem doce nem salgado, mó bosta. — falei, olhando de volta para o mar.

-Cala a boca – ele disse, mordiscando minha orelha.

Tremi de leve com o arrepio.

Fechei os olhos enquanto ele passava a mão pelo comprimento do meu braço, desde a ponta dos meus dedos (que antes estavam entrelaçados nos dele) até a alça do biquíni.

Ele puxou meu queixo, me virando pra ele.

Eu encarei os olhos cor de mel de Jean e ele me devolveu o olhar com um sorriso de lado.

-Você devia prender seu cabelo mais vezes – ele sussurrou.

-Por que? — perguntei, desviando o olhar para a boca dele.

-Assim tem mais Mel pra eu ver. — ele respondeu antes de me beijar.

As nossas línguas estavam quentes e frias ao mesmo tempo porque a gente tinha acabado de tomar sorvete e isso cumpria a missão impossível de melhorar o beijo de Jean.

Ele mordeu meu lábio inferior, e acho teria parado o beijo, se eu não tivesse recomeçado.

Apesar de que a forma como ele desceu a mão para minha cintura nua e me virou pra ele não pareceu de forma alguma que ele teria pensado em parar de me beijar.