Xis
16 XVI - Calmaria (parte dois)
Eu peguei uma fatia de melancia e um copo de suco e fui pra mesa próxima à janela que já estava carimbada como “nossa mesa” pra tomar café da manhã na terça-feira com meus amigos.
-Oi, gente – falei pra Maria, Alice e Mateus, e fingi que falei com Jaque e Pedro que estavam se pegando.
Eu acho que vi a língua deles antes de conseguir ignorar os dois.
-Cadê o Jean? — Maria perguntou.
-No quarto dele. Eu passei lá antes de descer e ele tava tomando banho — respondi, cortando minha melancia.
Um silêncio se instalou após minha declaração.
Ergui a cabeça e parei com o garfo no meio do caminho até minha boca.
Todo mundo da mesa estava me encarando.
-Que foi, gente? — perguntei.
-Ah, nada, nada – todo mundo disse e eles voltaram a desviar os olhos e fazer o que quer que estavam fazendo.
Girei os olhos.
Povo doido.
-Fala galera – Jean disse, sentando do meu lado e colocando a bandeja dele na mesa. — O que você vai fazer hoje? — Jean me perguntou.
-Não sei. Eu tenho prova de poderes daqui a pouco e é a única coisa na qual eu consigo pensar. — respondi, e era verdade.
-Ah, relaxa, a Nice é de boa nas provas. — ele disse, mordendo seu pão de queijo.
Ontem eu tinha falado com Dri e Cláudia. Elas disseram que sentiam minha falta (duvido que sentiam mais que eu delas) e que eu precisava ir visitar elas. E eu precisava mesmo.
Mateus e Cyndi estavam meio brigados, mas eu tinha falado com ela ontem e dito pra ela que ela estava exagerado e que eu via Mateus todos os dias e ele era muito legal e...
Ri sozinha ao pensar no chilique da Cyn. Eu sentia tanta falta dela...
-Alguém ainda me deve uma bicicleta. — virei minha cabeça imediatamente pra trás e pude ver claramente minha melhor amiga.
Cyndi estava andando pelo refeitório como uma diva. Ela estava vestindo uma calça preta e uma regata vermelha com uma jaqueta de couro também preta e botas de cano longo com um salto finíssimo. Se eu usasse aquilo, eu cairia. Certeza.
Meus olhos se arregalaram e meu corpo levantou da cadeira involuntariamente, já que o cd do meu cérebro parecia arranhado e repetia o tempo todo as palavras “Cyndi está aqui”.
Ela correu (como ela conseguia correr com aquele salto?) e eu corri também. E quando a gente se abraçou, os gritos praticamente brotaram das nossas bocas.
-AIMEUDEUS! O que você tá fazendo aqui, Cyn? — perguntei, ainda abraçando ela.
-Para de gritar no meu ouvido, sua louca! — ela gritou de volta.
A gente estava pulando e gritando e as pessoas estavam olhando, mas a gente não dava a mínima.
-Okay, agora é sério – eu disse após uns dez minutos de abraço – O que você está fazendo aqui?
-Vem, vamos sentar. Eu ainda não tomei café da manhã e nem falei com meu namorado e a história é longa e...
Bloqueei o blá blá blá típico da Cyndi e me concentrei na onda de coisas boas que estavam acontecendo.
Eu estava bem. Dri e Cláudia estavam bem. Jaque, Pedro, Alice, Júlio, Mateus e Maria eram meus amigos e estavam felizes. Minha melhor amiga estava aqui agora. E, como se tudo isso já não fosse demais, Jean tinha escolhido beijar minha boca por alguma razão estranha.
E eu estava a ponto de explodir de felicidade.
Eu sentei no lado de Jean e Cyn sentou do meu outro lado. Assim ela falava comigo enquanto segurava a mão de Mateus.
-Eu sou uma xis. Dá pra acreditar nisso? — ela disse, virando o meu copo de suco. Esse pequeno detalhe fez parecer que a gente não estava separada por meses.
Mas não tive tempo de me concentrar nisso. Não depois de ela dizer que era uma xis.
-Como é que é?! — quase gritei de novo.
-Minha mãe só me contou há umas semanas atrás. Quando eu caí na fogueira da festa junina e saí inteira de lá. Apesar de, claro, basicamente pelada porque minha roupa não tem o poder de ser resistente ao fogo.
-Isso é demais! Não acredito que a Tia Má só te contou agora. — eu disse.
-Pois é. Eu acabei de descobrir que vou dividir o quarto com você, então teremos muito tempo pra conversar. — ela disse.
-Com certeza. — eu respondi, sentindo o olhar dela escorregar do meu rosto pra mão de Jean entrelaçada na minha.
*
Antes de ir arrumar suas coisas, Cyndi assistiu à algumas aulas e na hora do almoço ela desapareceu com Mateus.
Eu sei que eu teria muito tempo pra falar com Cyndi, e que ela precisava conversar com Mateus, mas não pude deixar de ficar o tantinho enciumada. Poxa, eu não via minha melhor amiga há meses!
-Ei, que foi? — Jean perguntou.
Era a segunda vez naquele dia que Jean meio que percebia que tinha algo fora o blá blá blá normal na minha mente. Ergui o rosto pra ele com o sorriso que veio involuntariamente ao perceber que, sim, ele lia meu rosto e, sim, ele se preocupava.
-Nada. — baixei o rosto de volta pra meu prato já vazio.
-Vem, vamos sair daqui. — Jean pegou nossas duas bandejas e saindo.
Eu e Jean nos trancamos no quarto dele. Eu estava deitada de seu lado com a cabeça apoiada em seu braço. As luzes estavam apagadas.
Estávamos assistindo Matrix.
Quer dizer, ele estava assistindo. Eu estava absorvendo a sensação de paz (e calor) que vinha do cafuné (e do corpo) dele enquanto jogava Angry Birds em seu celular.
-Eu te chamei aqui pra ver o filme – ele disse, erguendo uma sobrancelha.
-Eu sei! Mas eu já vi Matrix. Mais de uma vez. E quando eu vejo, sempre fico meio paranóica.
Ele pegou o controle da televisão no criado mudo da cama dele e a desligou.
-Eu já assisti Matrix. Mais de uma vez. Mas eu não consegui me concentrar um segundo hoje. Eu só conseguia pensar no fato de que você está na minha cama.
Ele se virou de volta pra mim, passando o braço livre pela minha cintura e o puxou o outro braço, fazendo minha cabeça ficar apoiada só na sua mão. A minha mão que estava do lado da cama, brincou com os cachos que caíam em sua nuca e o outra mão largou o celular na cama e o meu braço ficou apoiado no braço dele que segurava minha cintura. Seu polegar passeou no meu lábio inferior.
-Por que eu não consigo ficar longe de você?
-Não sei, mas ainda bem que você não consegue. — respondi.
E então ele me beijou.
E me bateu uma sensação tão ruim de que algo ia dar errado.
Eu me perguntei como era possível que eu estivesse tão ligada à alguém em tão pouco tempo. Ele tinha se tornado meu melhor amigo em menos de seis meses. Ele sabia tudo sobre mim (inclusive que eu amava quando ele segurava minha nuca enquanto me beijava). E a possibilidade de perder ele logo agora que estávamos ficando, me deixava meio (totalmente) desesperada.
Em algum ponto, a sensação boa dos braços de Jean à minha volta venceu a sensação ruim. Eu já não pensava nem sentia mais nada que não fosse Jean. Os braços dele apertavam minha cintura contra ele e as mãos faziam carinho em minha costas. As nossas línguas se moviam juntas enquanto Jean me puxava pra cima dele. Quando Jean trocou meus lábios pelo meu pescoço, eu me soltei dele pra tirar a blusa de manga comprida e ficar só de regata.
-Calor, Mel? — ele perguntou com um sorriso irônico, os olhos no meu decote.
-Cala a boca – eu disse, abaixando a cabeça pra beijá-lo de novo.
Aqueles, provavelmente, eram os amassos mais quentes que a gente já tinha dado até então. Jean mordeu meu pescoço e eu tinha certeza que ia ficar marcado. Pra revidar, mordi o lábio dele com força suficiente pra pingar sangue. Ele puxava meu cabelo delicadamente enquanto nos beijávamos, ao contrário de mim, que puxava o cabelo dele com força, apesar de nem ter noção disso. Ele tirou a camiseta e eu me senti derreter por dentro ao abraçar o corpo definido dele.
Fala sério, ele nem ia na academia, como era gostoso daquele jeito?!
Eu beijei o pescoço dele e, sem meu controle, minha boca foi descendo por seu peito, até chegar no abdômen. Arranhei um de seus gominhos com meus dentes. Ele me puxou pra cima de volta, me beijando com uma fome sedutora. E quando ele estava animado o suficiente pra eu sentir a animação pulsar em minhas coxas, eu parei o beijo e me sentei o mais longe dele o possível.
-Tá tudo bem? — ele perguntou.
-Fala sério, tá tudo bem demais. E é por isso que a gente vai parar por aqui. — respondi, sem olhar pra ele.
Ouvi ele rir pelo nariz.
Calcei meu all star e me levantei. Me virei pra ele.
-Eu acho que... — não consegui completar — Que foi? — perguntei, encarando o sorrisinho dele.
-Seu cabelo tá uma bagunça – ele disse, rindo mais abertamente agora.
-Idiota – peguei uma almofada que estava no chão (tenho certeza de que quando cheguei, ela estava na cama) e taquei nele.
-Eu vou pro meu quarto. Te vejo mais tarde – falei, piscando pra ele.
E saindo daquele quarto antes que fizéssemos alguma besteira.
*
Cyndi estava arrumando as coisas dela no meu (agora nosso) quarto enquanto a gente falava sobre Mateus e Jean.
Cara.
Eu tinha Cyndi. No meu quarto. Falando sobre garotos.
A coisa era tão normal, que eu quase esquecera que nós duas éramos xis e que tinha um bando de ips correndo atrás da gente.
Quando guardou todas suas coisas em um guarda-roupa que não estava ali quando eu saí de manhã, ela colocou um notebook azul que ela não tinha quando eu saí de Povoado da Felicidade em cima de uma escrivaninha que não estava ali de manhã e se sentou em uma cama que eu não lembrava que estava ali.
E a gente foi dormir super tarde falando sobre tudo. Desde como ela e Mateus iam brigar mais ainda agora até minha nova mania de girar os olhos, passando pelo meu período de tempo dividindo o quarto com a Liz, pela minha amizade com Paula até a festa daquele fim de semana.
Era tão bom ter minha melhor amiga de volta. Principalmente porque eu não ia ficar sozinha quando a minha (agora nossa) gangue se formasse.
Só tinha uma coisa me incomodando: tudo estava bom demais.
Não quero parecer mal agradecida, nem nada, mas minha vida nunca foi um mar de rosas. Minha vida também não era muito ruim, mas até aí... eu nunca tinha recebido tanta coisa que eu desejava mais uma mesada bem gorda e pais legais (e ricos) de brinde de uma vez só.
Eu já estava começando a pensar que tudo ia desmoronar no próximo segundo.
Como a calmaria antes da tempestade.
E a pior parte é que eu estava certa.
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