Xis

19 XIX - Plano


Eu estava sozinha dentro de um ônibus pra lugar nenhum e toda molhada tentando pensar na burrice que eu estava fazendo.

Merda, Melissa! Você sequer tem um plano!

Eu tentei a todo custo pensar no que fazer quando eu tivesse que descer daquele ônibus.

Tentei ao máximo reprimir o impulso de me tirar dali no próximo ponto, mas isso não durou muito. Eu saltei do ônibus num bairro bem longe da minha antiga casa (tá, talvez não tão longe assim, se você considerar o tamanho de Povoado da Felicidade). Eu lembrava de ter um parque por ali. E eu fui pra lá. Sem razão alguma.

Eu não tinha como estragar um plano inexistente mesmo.

Sentar ali na ponta do lago central do parque me fez querer voltar pra EX.

Na verdade, me fez querer voltar no tempo.

Eu queria voltar no momento em que Carline decidiu me deixar com Cláudia. Queria poder fazer ela desistir da ideia. Queria ter crescido sabendo de tudo. Queria ter crescido com Julia. Queria ter crescido com Jean.

Tudo seria diferente.

Ouvi um farfalhar em algum ponto atrás de mim e me levantei automaticamente e me virei. Algo se moveu atrás de algumas árvores.

Corri. Dei a volta no tal do lago e, fora as pessoas passeando no parque, não tinha ninguém atrás de mim, correndo pra me pegar. Mas avancei até o meio das árvores mesmo assim. Me enfiei dentro delas, ainda correndo, pensando que no começo do ano eu caíra e quebrara o joelho daquele mesmo jeito.

Que pensamento fora de hora, Melissa!, me repreendi.

Continuei correndo. Entrei tanto que começou a ficar escuro, como se a mata estivesse mais fechada. E agora eu sabia que tinha alguém atrás de mim. Eu tinha certeza. Eu vira. Continuei correndo e a reserva acabou assim, do nada.

E na minha frente, tinha a paisagem mais linda do mundo.

Era uma clareira de flores. E no fundo dela tinha o mar. Suspirei. Dava pra ver algumas montanhas no fundo à esquerda e a praia à direita e um infinito azul de mar e céu.

Espera.

Se dava pra ver o mar... era porque ali não era no chão. Senão, eu estaria vendo as ondas se quebrarem o que não era verdade.

Aquilo era mais um penhasco.

Pelo amor de Deus, estávamos em Povoado da Felicidade ou em La Push?

-Fim da linha pra princesinha – disse uma voz de mulher.

Me virei.

Encarei a garota loira apontando uma arma pra mim.

Andei um pouco (muito) pra trás.

Como ela tinha acompanhado a minha corrida?

Atrás dela surgiu um carro (eu nunca saberei de onde) que fechou a entrada pra floresta.

Do teto solar saiu um cara com uma arma na mão.

Eu não estava com muito medo, exatamente. Se eles atirassem, eu conseguiria fugir do meu lugar antes da bala o atingir. O lance era pra onde eu fugiria.

-Entra Melissa. — disse o cara. Ri pelo nariz com ironia. Ele realmente achava que eu iria obedecer uma ordem assim?

E então, pra minha total surpresa, a garota loira entrou no carro.

Quando ela bateu a porta, o cara continuou a falar, me encarando.

-Acabou pra você. Você não tem por onde passar e essa minha amiguinha aqui – ele acariciou a arma pra mostrar que estava falando dela – é de alta velocidade. Vai chegar em você antes que pense em sair daí. Além disso, você não tem pra onde ir.

Pronto. Meu risinho de antes se tornou um bolo na garganta e eu podia chorar a qualquer instante. Pensei em todas as opções que eu tinha e, sinceramente, eu já estava pensando em me entregar.

Virei um pouco pra trás e percebi que estava mais perto da beirada do precipício do que eu imaginava. E que se me jogasse dali, eu não cairia no mar, mas sim na areia, quebrando todos os meus ossos devido o impacto, incluindo a coluna.

Resultando em minha morte.

Senti meus olhos encherem de lágrimas.

Já chega!

Eu não tinha mentalidade pra isso. Eu não podia mais correr, nem conseguiria. Se eu me movesse, eu morreria. Tá, eu sei que podia ser um blefe, mas e daí? Podia não ser também. Eu estava bastante fragilizada já, com raiva de tudo ter sido tão difícil pra mim desde que toda essa loucura começara.

Pensei em todos os momentos que eu passara com Jean, meio que de trás pra frente. Desde a festa, da semana maravilhosa antes dela, da noite em que eu dormi com ele, em como ele me mostrou a Ex, de como ele me salvara daqueles Ips na floresta no dia em que conheci meus pais, de como...

-Você tem razão. Não tenho pra onde ir. A não ser... – e pulei pra trás.

Minha intenção era me matar. Mas enquanto sentia o vento bater em mim, tudo o que eu pensava era que nesse caso, arrependimento não era o que realmente ia me matar.

Vi a cara loira da minha xará ips na ponta do penhasco (se certificando de que eu ia morrer, provavelmente) e, depois de criar uma ilusão pra ela de que eu desaparecia no ar, fechei os olhos.

*

E então algo engraçado aconteceu.

Eu senti que a velocidade com a qual eu caía estava diminuindo. Diminuindo?

Mas, de acordo com o que eu lembrava das aulas de física, a gravidade é uma aceleração. Ela deveria acelerar o processo da minha queda, não atrasá-lo.

E então eu parei.

Parei no ar e caí na areia. Com a força real da gravidade agora, mas sem risco de quebrar nenhum osso, pois estava a uns trinta centímetros do chão.

Como raios isso aconteceu?!?!

Me levantei quando vi os pés de alguém do meu lado.

-LIZ! — gritei e até levantei os braços pra abraçar ela, mas me controlei antes de parecer uma idiota.

Acho que pareci mais idiota ainda com aquela movimentação de braços, porque ela só me olhou com uma sobrancelha erguida como se nunca tivesse me visto mais gorda.

-O que você está fazendo aqui? — perguntei.

Ela só continuou mascando o chiclete e me encarando.

-O que você está fazendo aqui? — ela devolveu a pergunta, se virando de costas pra mim. Ela começou a andar e eu entendi que aquilo era um convite pra seguí-la.

Percebi que ela estava vestida mais ou menos da mesma forma que eu: camiseta, jeans, tênis e mochila nas costas, sem falar no rabo de cavalo. Mas a imagem de Mulher Poderosa que ela transpassava eu não teria nunca.

-Como você sabia que eu estava aqui? Como sabia que era eu me jogando do penhasco? — perguntei, tropicando atrás dela.

-Eu não sabia. — ela respondeu.

A gente caminhou até uma lanchonete e sentou numa mesa no canto afastado, perto da cozinha.

-Eu sabia que salvaria alguém. Só aconteceu de ser você. — ela disse como se ela preferia que não fosse eu, logo depois de pedir um sanduíche pra ela e o garçom foi embora. — Eu controlo os quatro elementos e aquele foi um truque fácil com o ar.

Eu me surpreendi de ela ter completado a resposta antes de eu pedi por maiores informações. Ainda mais depois de quase quinze minutos. Ainda mais depois de eu ter achado que ela não tinha nada a ver com o lance de eu não cair de verdade.

-O que você ta fazendo aqui? — ela perguntou.

O garçom trouxe o lanche dela e eu só conseguia pensar que eu estava com muita adrenalina no corpo pra absorver mais energia. Ele olhou estranho pra gente, como se a gente não tivesse o direito de estar ali. Ergui minha sobrancelha pra ele. E o observei ele sumir dentro da cozinha.

-Eu, sinceramente, não sei, Liz. — respondi, olhando pra toalha da mesa – Não faço a menor ideia. — confessei.

-Você saiu de Castrea por quê? — ela mudou a pergunta, me olhando nos olhos. Essa eu sabia responder.

-Eu queria encontrar Jean.

-Se jogando de um penhasco? — ela ergueu uma sobrancelha enquanto mastigava.

-Aquele foi um momento de fraqueza. — desviei os olhos. — Obrigada, à proposito.

-Como eu disse, não é você. — ela disse e voltou a comer.

Me arrependi de não ter pedido um lanche pra mim também tarde demais, porque a gente saiu bem rápido.

À essa altura, eu nem sabia mais porque eu continuava andando com Liz. Acho que eu ainda queria respostas. Ou não queria ficar sozinha de novo.

A gente então sentou num banco de praça solitário. O sol já estava começando a baixar um pouco e eu estava começando a ficar com frio.

-Eu também vim atrás de Jean. — ela disse, mas eu já tinha imaginado.

Ficamos em um silêncio desconfortável por alguns instantes.

-Eu acho que fui a ultima pessoa que viu Jean naquela festa. — ela sussurrou, e parecia que ela estava confessando um segredo. — Ele estava apagado e jogado no ombro de um cara lá. Eu segui, lógico. Jogaram ele num carro e quando ele bateu a cabeça na janela ele meio que acordou. E antes de o carro arrancar, ele me viu. E eu vi no olhar dele que ele estava pedindo pra eu vir atrás dele. Ele me mandou uma mensagem no celular também. — ela me passou o celular – Mas acho que pegaram o celular dele depois, porque ele não me respondeu nenhuma outra mensagem.

“Não fala nada pra Mel e vem”

Poxa. Não fala pra minha atual amiga colorida que eu estou sendo sequestrado e vem atrás de mim, ex-namorada. Qual era a de Jean, hein?! Eu não acredito que ele preferiu a ajuda da Liz do que a minha.

Acho que me rosto me traiu enquanto eu lia a mensagem pela quinta vez, porque a Elisa falou:

-Olha, Melissa, ele não disse isso por algum resquício de sentimento romântico por mim. Ele só queria te proteger e eu estava ali na hora. Se fosse o Mateus ou você, ele chamaria o Mateus porque ele realmente gosta de você e queria evitar algum "momento de fraqueza" que pudesse não terminar bem.

Dei de ombros e devolvi o celular pra ela.

Ele não gostava de mim. Era só um instinto de proteção originado do “serviço” que meus pais deram pra ele e da morte de Julia.

Pelo menos agora eu sabia porque ele não respondia minhas mensagens.

Ah, pronto, baixou a autopiedade. Eu precisava parar com isso.

-O que você vai fazer agora? — perguntei.

-Não sei. Mas eu segui o carro e sei onde deixaram Jean.

Estreitei os olhos.

-Seguiu um carro até aqui? — perguntei.

-Um carro e uma balsa, Melissa – ela esfregou a testa.

-E por que ele não está aqui com você agora? — perguntei.

-Melissa... você é mais esperta que isso. Ele não ficou desacordado por muito tempo. Quando eu cheguei lá, ele estava lutando com uns caras. E eu ajudei e tals. Mas a gente acabou se perdendo um do outro. E eu estou tentando achar ele ainda.

Pelo amor de Deus, Povoado da Felicidade é minúscula. Não é possível eles terem rodado a cidade em dois dias e se desencontrado tanto.

Quer dizer. Isso é possível sim.

Abracei meu joelhos e coloquei a testa sobre eles, fechando os olhos. Isso não deveria estar acontecendo. O quão usurpado é isso?

Quem devia estar nessa luta era o exército xis. Não eu. Não Jean. Não Liz.

Não chora, não chora, não chora.

-Eu vou tentar voltar lá e perguntar se eles sabem de alguma coisa. Se eles fizeram alguma coisa. — ouvi ela dizer.

Levantei a cabeça, baixei os joelhos e me levantei.

-Beleza, vamos – falei.

-Vamos? — ela levantou também — Não, acho que você me entendeu errado. Eu vou voltar lá. Você vai voltar pra EX e ficar quietinha lá até eu e Jean voltarmos.

-Ah, é claro que eu vou ficar – fiz aspas com as mãos — “quietinha” no meu canto enquanto Jean está desaparecido. — ironizei. E, de repente, comecei a falar tudo o que eu queria – Olha, com exceção da Jaque, todo mundo está tentando agir como se nada estivesse acontecendo e eu estou tão cansada disso que saí no meio da aula, usei meu poder nos seguranças da escola e enganei o carinha que tá com os jets e chorei litros desde aquela maldita festa, mesmo sabendo que essa guerra não é minha e que eu deveria ter ficado em Povoado da Felicidade quando Jean me ofereceu a oportunidade de renegar o DNA xis no meu corpo. Então, não, eu não vou dar viagem perdida. Ele só está nessa por minha causa e eu não vou deixar ele morrer por mim também. — falei, praticamente gritando.

Liz pôs a mão na testa e fechou os olhos como quem não acredita no que tem que escutar.

-Olha o drama, Melissa – ela disse.

-Olha o drama?! — praticamente gritei indignada.

-Quer saber? — ela arrastou a mão até os cabelos perfeitamente ainda no lugar e me encarou – Beleza. Vem comigo. Se mete na merda. Jean não vai poder me culpar depois por ter uma namorada tão teimosa e dramática. — ela girou os olhos, mas não tinha nada a ver com o girar de olhos de Jean.

Senti os ombros relaxarem. Eu iria com ela. Ainda não tínhamos um plano, é verdade, mas estaríamos fazendo alguma coisa, qualquer uma, e não tendo aulas de história na EX.