Xis

11 XI - Penhasco


Fui na casa dos meus pais. Tudo estava bem. Eu já me sentia mais à vontade, principalmente porque Jean só me deixou lá e sumiu. Disse que voltaria às três, depois do almoço. Ele se despediu com um beijo na testa.

Eles me mostraram fotos do dia em que nasci e do único mês que passei com eles e ficaram me contando da adolescência deles, enquanto tomávamos suco de pêssego.

Quando meu pai precisou resolver alguma coisa de política e deixou eu e minha mãe sozinhas, ela não perdeu tempo.

-Agora é sério. Beijo na testa? Isso foi tão Crepúsculo!

-Você gosta de Crepúsculo? — mudança de assunto = solução de todos os problemas.

-O quê? Eu adoro! Li todos os livros, vi todos os filmes no cinema e tive uma conversa ótima com a Stephenie Meyer ano retrasado. Mas não tente mudar de assunto. Por que na testa?

-Eu não sei, tá bom?! — sorri. Ela riu.

-Vocês já ficaram?

-Mãe! — eu respondi. E nós duas paramos de rir.

Era a primeira vez que eu a chamava de mãe. E ela percebeu isso. As lágrimas brilharam nos olhos dela. Nós duas colocamos nossos copos na mesinha de centro e nos abraçamos ao mesmo tempo.

A gente pode ter ficado muito tempo separada, mas o instinto ainda estava ali. Eu sabia que ela era minha mãe. E eu sabia que podia chamar ela assim.

-Eu te amo, filha. — ela sussurrou.

Nenhuma de nós chorou (apesar de ela estar prestes à). Estávamos bem e era isso que importava.

Meu pai voltou na hora do almoço e nós comemos uma macarronada básica, mas gostosa demais. Sério, a cozinheira dali devia ganhar muito.

A despedida foi menos constrangedora que da última vez, acho que era porque eles tinham mais ou menos a certeza de que eu voltaria.

*

-Que perfume é esse? — Jean me perguntou, enquanto caminhávamos para um dos parques ali perto, porque eu não queria ir pra EX.

-Que perfume?

-O seu. É bom.

-Eu não estou usando perfume nenhum – respondi. E era verdade. Ele não respondeu.

A gente estava no parque rindo de coisas bobas, como uma criança suja de sorvete.

-Vamos pra praia? — Jean perguntou, do nada.

-Hein? — perguntei. Já eram quase oito horas da noite.

-Vamos. — ele levantou da grama e pegou na minha mão e me ajudou a levantar.

Ele praticamente me arrastou pela mão enquanto a gente corria e ria na rua.

Ele me guiou por umas avenidas movimentadas.

-Puta que o pariu. — ele disse, enquanto olhava fixamente para o topo de um prédio. Segui o olhar dele e vi alguém apontando uma arma pra nós. Ou melhor, pra mim.

Minha primeira reação foi correr e puxar Jean comigo, mas quando eu decidi fazer isso, um grupo de pessoas suspeitas surgiram do outro lado da rua.

-Merda. — sussurrei.

-Vem, eu sei pra onde a gente pode ir.

E então a gente pulou num bueiro.

A gente correu muito rápido. Mas o problema é que nosso organismo ainda precisava de oxigênio e nossas respirações já estavam falhas. Além disso, os ips que nos perseguiam estava com um daqueles skates motorizados. A gente saiu então do bueiro, numa velocidade que eu achei impossível, devido a minha respiração e correu pra dentro de uma floresta.

E eu achando que só havia a floresta amazônica no Brasil.

A gente corria muito rápido, mas, por algum motivo, ainda tinha ips perto da gente. Eu comecei a pensar que eles já estavam ali, numa ação tática.

-Eles não cansam não? — perguntei pra Jean. Ele nem sequer demonstrou que me ouviu.

Eu já não aguentava mais correr. Jean estava já um pouco à minha frente, mas a distância parecia enorme. Eu me assustei com a intensidade da minha dependência em Jean. E espantei isso da mente, antes de tentar correr um pouco mais rápido.

E, então, chegamos na frente de um penhasco. Pra baixo, o mar.

Um ips de moto chegou por trás de mim e me apontou uma arma.

-Agora você vai morrer. E não adianta fugir. É uma arma de alta velocidade. Você não pode passar dos 50 km/h. A minha bala vai chegar antes de você sair do lugar. E , se tentar se mexer, vou apelar para meu poder de ilusionista.

Era engraçado, mas não pareceu na hora.

Jean me deu a mão.

-Não seja idiota. — falou um cara que veio abrindo caminho. — Nosso plano é com o garoto. Ela vem depois.

A possibilidade de Jean morrer pra me salvar estava fora de cogitação.

Comecei a entrar em pânico.

-Legal. Não tem pra onde ir – sussurrei. Jean me encarou como quem fala “presta atenção”. E a ficha caiu – A não ser...

E então, foi tudo muito rápido.

Eu senti o vento que a bala fez no meu cabelo quando passou muito, muito perto de mim.

Jean me pegou no colo e correu pra pular no penhasco comigo.

Meu rosto estava escondido no pescoço de Jean enquanto caíamos mais de 150 metros em direção à água. A velocidade era tanta que eu ouvia o rugir do vento. Mas eu não consegui gritar. A adrenalina meio que travou minha mente.

E então o tchibum na água fria. Jean não conseguiu me manter no colo dele embaixo d'água, e, mesmo não querendo admitir, isso me incomodou mais que a temperatura da água.

A gente afundou um pouco, antes de conseguirmos emergir, ofegando.

Jean saiu do mar antes de mim e tirou a camisa molhada. Segui com os olhos uma gota de águas que escorreu do cabelo dele até sumir na calça. Em transe.

Saí da água e andei até ele. Eu estava no meio do caminho quando ele virou pra me ver.

A gente começou a rir. Muito. Ele correu até mim, me abraçou e me girou no ar.

-Obrigada. — eu disse, depois de algum tempo.

-E você sempre me agradecendo... — ele fez uma cara do tipo “o que posso fazer, né?! Sou um príncipe”

-Você merece. Você sempre me salva.

-Eu faço pela diversão, não por você.

Dei um tapa no ombro dele, mas rindo.

-Ei, me conta, qual é o seu poder exclusivo? Sei que você é super-forte e super-rápido e brinca com a estrutura molecular das coisas, mas... como você sempre sabe como me salvar?

-Meu poder é de localização. Eu posso mudar a localização de coisas e pessoas e posso sentir onde essas coisas e pessoas estão. Por exemplo, sei que seu celular está no bolso da sua calça.

-Ai merda! — me sentei o peguei ele do bolso. — Acho que vou precisar de um novo... — resmunguei. A tela estava preta e arranhada de areia.

-Relaxa. Os celulares são baratos agora e você é rica. — eu quis dar um soco no meio da testa dele. — Vem. — ele levantou e puxou minha mão pra me ajudar a levantar. Talvez um pouco demais e eu fui parar no peitoral nu dele. — Tá ficando tarde. — ele disse, muito perto de mim.

-É. — respondi, com dificuldade.

-Ah! Achei vocês! — disse Jaquelinne, surgindo do nada. Eu e Jean nos separamos rápido.

-Que raios você está fazendo aqui? — perguntou Jean, pegando sua camiseta do chão e a vestindo.

-Procurando vocês! Você me manda uma mensagem às três da tarde dizendo que chegaria em meia hora em casa. Já se passaram seis horas, sabia? — ela falava, como se fosse uma mãe brigando com o filho. Eu segurei minha risada.

-A mãe te mandou aqui? — ele perguntou

-Claro – ela disse. E eu não aguentei. Tive que rir.

-Vem – ele pegou minha mão e praticamente me arrastou para o ponto de ônibus mais perto, onde poderíamos voltar pra EX.

-Eu não acredito nisso. — disse Jaquelinne, olhando nos olhos de Jean, quando estramos no ônibus. Ela parecia querer dizer outra coisa, que não tinha nada a ver com o nosso sumiço. E Jean pareceu entendê-la. Ele girou os olhos e deu de ombros.

*

Pela primeira vez em duas semanas, depois de tomar banho, eu deitei na minha cama na EX como se fosse minha cama mesmo. Eu estava só de camiseta e calcinha e estava me sentindo plenamente confortável pra passar a noite no notebook.

Mas eu estava tão cansada e com preguiça depois daquela aventura toda, que apaguei antes de meia noite. E sonhei.

Uma garotinha que me parecia familiar (apesar de eu não fazer ideia de quem ela era porque não dava muito pra ver seu rosto) estava pulando corda num parque. Os cabelos dela voavam e pareciam a incomodar.

Ela errou o passo e caiu. As meninas que batiam a corda começaram a rir, mas a garotinha parecia não achar tanta graça.

-Culpa daquele idiota!

Um garotinho (que também me pareceu familiar) pegou a mão dela e a levantou.

-Tó – ele disse, esticando a mão com uma fita pra ela – Me desculpa, Julia. — ele sussurrou.

-Tá. — ela pegou a fita e amarrou o cabelo, de costas para minha visão. E quando ela virou, ela era eu quando tinha meus seis anos.

E eu acordei num pulo. De repente estava frio demais, desconfortável demais, escuro demais e eu queria chorar.

O sonho não tinha nada demais. Mas se alguém me perguntasse, eu diria que era um pesadelo.

E, de repente, percebi porque aquilo me assustara tanto. Julia era o nome que tinha feito Jean gritar com Rosana na escola, alguns meses atrás.

Mandei uma mensagem pra ele perguntando quem era Julia. Ele não respondeu.

Notas finais
Alguém reconhecendo a capa, agora? (: