Xis
12 XII - Julia
Já se passaram três semanas desde o sonho e eu não conseguia esquecer daquilo.
Jean não me contava quem era a tal da Julia nem por um decreto. E ficava meio óbvio que ele sabia de quem eu estava falando.
Eu voltei a almoçar com a turma da Jaquelinne. Liz não é minha melhor amiga, mas pelo menos parou de implicar comigo ou com o que eu falo/faço. Mas, principalmente, estou mais próxima de Jean agora.
A gente tá sempre junto e parece que nenhum quantidade de tempo juntos é suficiente. Por exemplo, agora. Era mais de meia noite e deveríamos estar dormindo, já que era domingo e teríamos aula no dia seguinte.
Mas estávamos sentados na grama, escutando músicas no meu iPod.
-Ah, não, você gosta de K-Pop? Aff, perdeu meu respeito. — ele disse.
Bati no ombro dele com mais força que o esperado. Ele nem se mexeu. Mas minha mão ardeu.
-Não fala assim, poxa, é legal! — eu disse. Peguei o iPod da mão dele. — Agora eu vou escutar Lady Gaga, só de raiva.
-Mas Lady Gaga é melhor que K-Pop. Michel Teló é melhor que K-Pop. Gaiola das Popozudas é melhor que K-Pop.
Olhamos um pro outro.
-Não. — dissemos juntos. E rimos.
-Tá frio – eu reclamei. — Vou subir. — E já ia levantando da grama mesmo, mas ele me puxou pra perto dele e passou um braço pelo meu ombro.
É. Não estava mais tão frio assim.
Com o braço livre, ele pegou o iPod da minha mão e criou uma playlist chamada Jean. Tinha Paramore, 30 Seconds to Mars, Rolling Stones e outras coisas, mas, principalmente, Aerosmith.
-Pronto. Agora você tem uma playlist decente no seu iPod. — ele disse, enquanto a gente escutava.
-Como se eu fosse escutar só a sua playlist no meu iPod. Mesmo eu gostando das músicas. — giramos os olhos juntos.
-Você sabe que essas são as melhores músicas daí.
-Claro que não. Tem coisas que estão faltando aí.
-Shhh! Você gosta de K-Pop. Não tem direito à argumentação.
Bati no ombro dele com minha cabeça.
-Você não vai mesmo me contar quem é Julia? Isso tá me corroendo. — eu disse. Senti ele ficar meio rígido.
-Ok. Você venceu. Julia era uma quase namorada. — o que é isso que eu senti? Ciúmes? Sério? — Liz sempre fora minha melhor amiga, mas Julia sempre estava por perto. Eu via Liz mais como uma prima. E foi por isso que Julia sempre pareceu mais atraente pra mim. Eu via ela como uma garota mesmo. E foi a primeira garota que eu beijei.
Não queria admitir. Mas quando Jean começava a falar das pegadas dele, eu me sentia extremamente desconfortável.
Merda.
Eu odeio sentir ciúmes.
-E a gente teve um rolo por umas duas semanas. Porque depois ela morreu.
-Ela.... morreu? — perguntei, olhando pra ele. Ele não me encarou.
-Um ips filho da puta matou ela.
-Mas... eles matam qualquer xis que eles virem na frente? Assim?
-Então... a gente percebeu que eles estão matando os mais poderosos primeiro. Só que ela morreu antes de os poderes dela surgirem. Foi horrível.
-Você tem alguma ideia do porquê eu sonhei com ela?
-O pior é que isso realmente aconteceu. Eu roubei a fita do cabelo dela pra irritar uma vez. Você não deveria saber disso... é muito estranho...
Engoli em seco.
-Ela era sua irmã.
Arregalei os olhos.
-Como é que é?! — saí do abraço e virei pra ele.
-Vê porque eu não queria te contar? Você tá enlouquecendo.
-Mas é óbvio! Como você tira uma parte tão grande da minha história assim? — eu estava quase gritando. Coloquei as mãos no rosto e esfreguei os olhos.
Me ergui e me dirigi até a saída da EX.
-Aonde você vai? — Jean perguntou, andando atrás de mim.
-Na casa dos meus amados pais – o sarcasmo era reflexo da raiva e tristeza que me subia. Nossa... eu estava muito puta.
-É mais de meia-noite! — ele me pegou pelo cotovelo. Fui forçada a virar pra ele e o encarei com raiva.
Eu puxei meu braço com força, me soltando.
-Eu sou tão forte quanto você agora, lembra? — me virei de volta para meu caminho.
Ele pegou meu braço de novo. Agora mais forte.
-Eu não vou deixar você sair de madrugada sozinha só pra dar uma de filhinha abandonada para seus pais!
Encarei ele com raiva. Ele estava certo, mas eu também tinha um ponto! E... sim! Eu era uma filha abandonada pelos pais.
-Não sou mais seu protetor, mas ainda vou te proteger.
Enquanto as palavras faziam sentido, minha raiva foi diminuindo.
-Então vem comigo. — falei.
-Não. Você não pode ir lá agora. Amanhã á tarde você vai.
-Achei que fosse meu amigo.
-Por ser seu amigo é que não vou deixar você ir. Se você for, qualquer ips pode te pegar a qualquer momento e você pode nem chegar até seus pais. E se você for agora, eles vão estar dormindo e ...
-E você está sendo um chato. — respondi. Suspirei. Soltei meu braço e fui.
*
-Eu deveria pedir desculpa por acordar vocês, mas estou muita brava pra isso. — falei pra minha mãe surgiu na ponta da escada.
Ela me olhou confusa. Ela estava vestindo uma camisola rosa até os joelhos com um robe azul por cima. O cabelo estava perfeitamente no lugar.
-Não estava dormindo, então poupe suas desculpas pra depois que explicar porque está aqui a essa hora e porque me atacou desse jeito. Eu ainda sou sua mãe. — ela disse, enquanto descia as escadas.
-Desculpa, Tia Carline – meu nariz franziu automaticamente ao ouvir ele dizer "tia". Eu precisava me lembrar que ele não era meu primo de verdade, só crescera perto dos meus pais. Nem eu tive essa sorte — Eu tentei pará-la, mas ela é impossível – disse Jean. Ele parecia mesmo envergonhado. Problema dele!
-Por que não me contaram sobre Julia? — perguntei.
Minha mãe pareceu desmoronar ao ouvir o nome. Ela se sentou no sofá enquanto eu fiquei em pé com Jean do meu lado.
-Porque não faz diferença. — ela suspirou – Porque ela está morta e falar dela só causa mais dor.
Fiquei em silêncio sem saber o que falar.
-Vocês eram gêmeas. — ao ouvir isso, um pensamento me pegou de surpresa e eu corei. Jean percebeu e uniu as sobrancelhas.
Eu realmente esperava ser a única capaz de ler mentes ali.
-Quando eu deixei você com Cláudia, deixei Julia com outra mulher. Não queria vocês juntas. Mas aí sua irmã ficou seriamente doente. Ela pegou uma pneumonia horrível ainda bebê e eu não tive coragem de deixá-la com mais ninguém. Eu pensava em você o tempo todo e ela era a única coisa que me impedia de ir buscar você também. Ela já atraía perigo demais sozinha.
Contei sobre meu sonho.
-Pode ser qualquer coisa. Conexão de gêmeos talvez.
Funguei. Jean arregalou os olhos pra mim.
“Para de ser idiota e vamos embora”. Até hoje eu não sei se li aquele pensamento, ou se li o rosto dele.
-Eu sinto muito sobre Julia. — respondi. E sentia mesmo. Eu não a conhecera, mas isso me pareceu triste demais. Eu pensei em Dri e meus olhos arderam em lágrimas.
Andei até ao lado dela e me sentei. Jean arregalou os olhos. “Se a gente não sair daqui em dois minutos, eu vou deixar você sozinha.”
Giramos os olhos juntos.
-Me desculpa por vir aqui no meio da noite. Eu... enlouqueci. — sussurrei. Carline virou pra mim e eu percebi que ela estava chorando.
-Tá... tudo bem. — ela sorriu entre as lágrimas e abriu os braços.
A gente ficou abraçadas por algum tempo.
-Então... eu vou embora. — eu disse.
-Não. Vocês dois dormem aqui hoje. É simplesmente muito tarde. Amanhã vocês vão embora. Tenho certeza que ninguém vai se importar com isso.
Suspirei e olhei pra Jean.
-Desculpe, tia, mas eu realmente não posso ficar. Boa noite. Boa noite, Mel.
-Não. Se você for, eu vou com você.
-Não. Você fica. — ele disse.
-Tá bom, então. — respondi emburrada e ele saiu.
-Vem. — minha mãe disse. — Vou te levar até seu quarto.
*
Meu quarto na mansão Solais era comum. E era muito mais do que eu imaginaria.
Tinha uma cama de casal forrada com uma colcha azul. Ao lado da cama, tinha uma escrivaninha com um notebook fechado. Na parede contrária à da cama, havia um guarda-roupa com portas de espelho de corpo inteiro e as laterais branca. O chão era coberto por um carpete cor de areia, contrastando com as paredes cor-de-mar. Meu quarto parecia uma ilha. E eu tinha um banheiro só pra mim.
Não abri o guarda-roupa pra ver se tinha roupas ali, nem liguei o notebook pra ver se tinha internet.
Eu não ia ficar.
Quando eu não escutei mais nenhuma movimentação, não pensei duas vezes antes de abrir a janela de madeira e pular. Era um pouco alto, mas eu só consegui alguns arranhões. Que sumiram três minutos depois.
E então havia o portão. Com guardas.
Fiz o chefe deles pensar que minha mãe dera uma ordem para eu sair. E ele disse para todos os outros guardas me liberarem.
Cara! Que poder da hora, o meu! Mas não fiquei animada com isso por muito tempo.
Antes que eu pudesse chegar no ponto de ônibus, começou a chover.
E eu comecei a chorar.
Não sei exatamente porque, mas eu me senti tão abandonada.
Primeiro eu descubro que minha irmã não é minha irmã.
Aí que ganho pais totalmente diferentes dos de antes.
Eu destruo um relacionamento.
Descubro que tenho uma irmã gêmea.
E que o cara que eu estava afim só estava comigo por que ela morrera.
Hein?! Eu não estava afim de Jean, estava?
Não. Não estava. Não podia estar.
Até mesmo porque qualquer coisa que ele poderia sentir por mim não passava de um instinto protetor por causa de uma garota parecida comigo.
Eu lembrei que não tinha mais ônibus àquele horário. E que teria que andar até a EX sozinha. Na chuva. À noite.
Eu sou uma tonta mesmo!
Enquanto andava, pisei numa bosta de algum cachorro. E escorreguei.
-Por que isso só acontece comigo? — gritei para o céu.
Ainda bem que não tinha ninguém vendo.
Vi um movimento no meio da rua e parei de andar.
Apurei os ouvidos.
Outra movimentação.
Merda! Por que eu não fiquei no meu quarto de praia?
Senti as pernas ficarem bambas.
-Quem tá aí? — ai. Isso já estava parecendo com filme de terror demais. Só faltava as luzes dos postes da rua se apagarem.
A chuva só piorava. Eu vi um raio cair em um ponto atrás de uma casa.
-Não se preocupe, princesa... o nosso alvo não é você. Por ora, precisamos de você viva... nosso objetivo é a raiz... os antigos... os pais...
Gritei e corri até a praia.
Meus pais. Iam morrer.
A chuva começou a diminuir e eu me acalmei um pouco.
Eu devo ter imaginado tudo isso. Não é possível.
Continuei andando, com a cabeça fervendo de pensamentos, e cheguei na EX mais rápido do que imaginei.
Cheguei no meu andar quase morrendo de dor. Nos pés (de tanto andar), na cabeça (de tanto pensar), nos olhos (de tanto chorar) e nos ombros. Essa última eu sabia que era psicológica. Como se o mundo estivesse nos meus ombros.
Peguei a chave do quarto no bolso de trás da calça encharcada.
Quando eu olhei pro meu quarto, percebi que não queria estar ali. Não sozinha. Eu precisava falar com alguém.
Não alguém.
Com ele.
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