Xis
8 VIII - Aulas
A primeira aula que eu assisti naquele dia foi de Estrutura Molecular. Essa deve ser a matéria mais difícil da escola. O professor se chamava Caio Augusto e foi gentil o suficiente pra me oferecer uma aula de revisão do que eu perdi durante o ano. Antes disso, eu precisava participar da aula que estava acontecendo.
Na teoria era simples: eu precisava tocar na folha de papel branca em minha frente e imaginá-la verde. Simples. Repito: na teoria. Fazer era bem mais complicado. Eu toquei na folha e fechei meus olhos e imaginei a folha perfeitamente verde.
Mas nada aconteceu. A folha continuou ali. Branca como neve.
Tentei mais algumas (trezentas milhões de) vezes, mas nada funcionava.
-Você precisa acreditar que pode fazer. — disse o professor, encarando minha cara de frustração.
Suspirei e fechei meus olhos. Coloquei a mão sobre a folha e tentei sentir a energia partindo dela.
-Seja a folha, Melissa. — o professor sussurrou – Sinta as moléculas.
“Seja a folha, seja a folha, seja a folha, seja a folha”. Fiquei repetindo o mantra por algum tempo.
-Isso aqui não é The Secret Circle, Melissa. Não é magia. Concentre. — ele disse.
Parei de ter medo. Abri meus olhos e encarei a folha. Talvez, com a pressão, a folha resolvesse me obedecer.
“Fiquei verde, por favor!” E essa era eu. Implorando a uma folha.
No final, decidi que deveria ter prestado atenção nas aulas de química da escola. Eu não fazia ideia da estrutura molecular da cor verde. Eu precisava ter tido as aulas de EM do começo do ano. Mas é claro que meus poderes só apareceram em junho, lógico.
Terminou a aula e minha folha não poderia estar mais branca. O professor disse que entendia meu lado e que até o fim da semana eu conseguiria mudar pelo menos o quebrar alguns objetos.
O que ele quis dizer com “pelo menos”?
*
Minha aula de Educação Física não começou bem. Eu podia escolher entre esporte, academia e natação, mas claro que academia e natação estavam lotadas e eu fui obrigada a escolher um time e participar. E não era como se eu pudesse escolher, sei lá, bocha. Minhas grandes opções eram vôlei e futebol.
Ah, qual é?! Numa escola onde se ensina a mudar estrutura molecular, era de se esperar algo mais emocionante no quesito esporte.
Acabei por escolher vôlei porque, sabe, minhas principais qualidades são originalidade e ironia.
Entrei no vestiário e encontrei Liz (ela me disse que preferia Liz) prendendo o cabelo olhando no espelho e conversando com alguém que estava dentro de uma cabine.
-Aí eu falei pra ele parar de ser chato e me levar com ele pro continente, mas é lógico que ele não me levou. Eu estou odiando a princesa. Eu não vejo mais meu namorado.
-Ah, amiga, relaxa com isso. Logo, logo, esse lance da princesa acaba e ele volta pra você. — respondeu Jaquelinne, saindo da cabine, com um short de ciclista verde e uma regata branca.
Quando me notaram, as duas arregalaram os olhos.
Eu não deveria saber que a princesa está viva, e Liz tinha contado tudo. Devia ser por isso que ela estava com os olhos arregalados. Jaquelinne não ia deixar eu dizer que eu era “o lance da princesa que logo, logo, acabaria”. O ponto era que eu já estava ali.
-Que foi, gente? Atrapalhei alguma coisa? — me fiz de desentendida, colocando minha bolsa em cima de uma bancada, tirando um short preto, uma camiseta azul, um desodorante e um pote de hidratante de dentro dela.
-Desde quando está aqui? — perguntou Liz.
-Acabei de chegar – eu disse, mas desviando os olhos delas, encarando minha bolsa. — Entrei para o time de vôlei. Vocês também jogam? — mudar de assunto: a solução de todos seus problemas.
-É! — exclamou Jaquelinne. Me assustei com a animação – Na verdade, a gente joga futebol, e a gente não é da sua turma, então...
-Não se preocupem comigo. Eu me enturmo – finalizei a conversa, entrando numa cabine para me trocar.
*
Aula de Poderes.
A professora era Nice, uma mulher com uma aparência de vinte e tantos anos e legal à beça. Ela não me perguntou qual era o meu poder, simplesmente pra eu mostrar. Então eu imaginei ela numa praia deserta com o céu azul e aquela coisa toda. E a trouxe de volta.
-Ok. Isso foi... interessante. Você é uma telepata. Não é muito fácil encontrar uma por aí. Isso vai nos dar trabalho.
-Imaginei que daria.
-Ou não, já que você conseguiu me iludir com certa... sabedoria. Eu vou atender aos outros alunos, te vejo no fim da aula. Você é especial, Telepata. — ela disse, com as sobrancelhas erguidas.
Me sentei na grama e fiquei ali vendo Maria brincar de massinha com um pedaço de mármore e Mateus ficar movendo as nuvens com o poder do ar.
-Meu poder parece sem graça perto do de vocês. — eu disse.
-Ah, qual é, Melissa, você cria ilusões nas pessoas. Mais legal que isso só o de Jaque. — respondeu Mateus.
-O de Liz também é muito legal. — disse Maria, me entregando uma flor de mármore. Ah, cara, eu era colega de classe da filha do Hulk....
-Qual o poder dela? — perguntei, me sentindo mais curiosa do que o saudável.
-Ela brinca com os quatro elementos. — respondeu Mateus.
-As aulas aqui são assim? Vocês ficam aqui e é isso? — perguntei.
A gente estava batendo papo, eles estavam brincando com a poder e essa é a grande aula que estávamos tendo. Acho que Nice não botava muito respeito. Me virei pra olhar pra ela.
-Eu preciso ligar pra Cyndi. — ouvi Mateus dizer e me virei de volta pra eles.
-Mudança de assunto rápida, hein. O que tem a Cyndi? — perguntei.
-Você também lê pensamentos? — ele perguntou.
-Não. Mas que mudança de assunto chata. O que tem a Cyndi? — repeti.
-Eu não falei na Cyndi. Eu só pensei nela. Por que está mentindo?
-Não estou, eu não leio mentes. Ou, não lia pelo menos.
-Ai meu Deus, você cria ilusões e lê mentes? Isso é incrível! — disse Maria.
-Não! Esse lance das ilusões... bem... meio que.... Se eu não me cuido, acabo transmitindo meus pensamentos sem querer para as pessoas... e agora eu posso ler a mente delas. Isso não é legal.
-Tá brincando, né?! — disse Maria. — Isso é incrível! Enfim, você perguntou das aulas e, não, hoje é dia de treinamento. Por isso estamos aqui na sua turma.
Ah, é. Eles estava ali há muito mais tempo que eu.
É óbvio que eles não seriam da minha turma.
*
Depois de um pequeno intervalo, começou a aula de história. Se existia algo de bom na minha antiga escola eram as aulas de história. E na EX era um porre. O professor era gato pra caramba e ficava falando com certa animação o que ele, com certeza, tinha decorado de um livro.
Jean estava sentado do meu lado e não parava de me encarar.
Aquilo estava me irritando e me agradando ao mesmo tempo.
-Hein, senhorita Melissa? — disse o professor. Merda. Eu não estava prestando atenção.
Tentei me concentrar, encarei ele nos olhos e li a resposta na mente dele. “1895”
-1895. — respondi, com medo de ter me confundido.
-Errado. — ele disse, se virando de costas pra mim – Meu poder é identificar poderes. E soube que você podia ler mentes. Soube também que estava prestado mais atenção em Jean que na minha aula. E quando eu pensei em 1895, era uma armadilha. A resposta era o nome da princesa. — ele se voltou pra mim, finalmente – Que, por sinal, é o mesmo que o seu. — ele finalizou, me encarando nos olhos, no momento em que o sinal tocou, e eu soube que ele sabia sobre eu ser a princesa.
É claro que isso aconteceria no meu primeiro dia de aula.
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