Xis
9 IX - Pais
Até que minha primeira semana na EX não fora tão traumatizante.
Mas o fim de semana prometia ser.
Jean prometeu me levar para ver meus pais naquele sábado.
Falando em Jean, ele me evitou ao máximo, só falava comigo quando Liz estava junto e meio que o forçava. Mas o pior não era isso. O pior era que ele ficava me mandando mensagens a madrugada inteira, conversando normalmente, como antes de eu vir parar aqui.
Que raiva!
-Bom dia – disse Liz com um bocejo.
Encarar ela só se tornou mais difícil com o tempo. Ela fica o tempo todo dizendo como eu transmito sinceridade. Irônico? Só um pouco.
-Bom dia – respondi, jogando algumas coisas básicas numa mochila que eu levaria.
-Já tomou café?
-Já. Vou passear pela ilha. Não sei quando volto.
-Eu vou pra casa dos meus pais, em Angra dos Reis. Vou me arrumar e te vejo no domingo à noite.
-E Jean?
-Ele disse que vai pra casa de uma tia em Santa Catarina, ou algo assim. Mas ele prometeu me ligar pelo menos duas vezes no dia. Já sinto saudade.
-Você namoram há quanto tempo? — perguntei. Por quê?!!
-Três anos.
-Nossa. — respondi, sem olhar pra ela. Cadê meu celular, hein!? ~le ignora~
-A gente cresceu junto... não sei se conseguiríamos nos separar por mais que isso. Enfim, vou tomar um banho e ir embora. Te vejo na segunda! — ela disse, entrando no banheiro.
Desci com a mochila nas costas e Jean estava fuçando no celular.
-Bom dia. Preparada?
-Não. Mas vamos. Mais cedo começa, mais cedo termina.
-Vem.
A gente andou até uma pracinha e pegamos um ônibus.
Jean ficou me mostrando parques e clubes e baladas e shoppings até chegarmos na frente de um condomínio fechado.
Eu não sei o que eu esperava (talvez um castelo no estilo Disney), mas achei o fato da monarquia morar numa mansão comum (se é que uma mansão pode ser comum) muito estranho.
Os guardas nos deixaram entrar e ficamos esperando numa sala, sentados num sofá cinza, encarando uma televisão de 52 polegadas desligada, enquanto uma senhora disse que ia chamar meus pais.
-Para. Por favor. Você tá me deixando nervoso. — Jean disse, segurando minha mão, e minhas unhas, longe de minha boca.
Era praticamente impossível não roer a unha, mas quando Jean segurou minha mão eu fiz um esforço. Não queria que ele soltasse minha mão. De alguma forma e por algum motivo aquilo me acalmou.
-Melissa?
Levantei meus olhos (que antes estavam nas minhas mãos juntas com as de Jean) e encarei uma casal que pareceu jovem demais para serem meus pais.
A mulher tinha o cabelo com a mesma cor do meu, embora mais liso e comprido.
O homem... ok. Eu tinha que admitir que o homem era mesmo parecido comigo. Tinha a mesma curva estranha no lábio (embora no rosto dele parecesse bem melhor que no meu), o mesmo tom chocolate dos olhos.
Eles eram lindos.
E jovens.
Eu levantei, não pergunte por que.
Carline correu e me apertou nos braços, num abraço sufocante. Não sei exatamente porque, mas não pude deixar de retribuir o abraço.
Carline (ainda era estranho pensar nela como mãe) estava chorando muito. Mais do que eu quando sai da casa de Cláudia. E eu também estava com vontade de chorar.
Jonas andou até nós duas e nos abraçou, como se fossemos uma pessoa só.
A genética é mesmo algo incrível.
Eu podia não conhecer eles, mas existia algo de familiar naquele abraço. Eu acho que eles não me levaram para o continente sem antes de abraçar daquele jeito. Porque aquilo era incrível demais. Eu sentia finalmente a coisa de estar completa, já que meu suposto pai morrera.
Era estranho e assustador. Mas era bom demais.
A vontade de chorar passou depois que eu chorei (dã!) e a gente se separou.
-Você é tão... frágil, pequena... fofa... — disse Carline. A gente se sentou de volta no sofá. — Há tanto para conversarmos... — a voz dela saiu como num lamento.
-Sim. Há. E é por isso que ela veio – disse Jonas, passando a mão no meu cabelo. — Você está na EX, não é? — Balanceia cabeça. — Sabe por quanto tempo vai ficar?
-Até disserem que eu posso sair. Então... não sei. — dei de ombros.
-Vamos comer algo, enquanto conversamos. E isso inclui você, Jean. — ela levantou o olhar para o outro sofá. Me perguntei o quão desconfortável ele estava.
Jean sorriu de lado e eu quase sorri junto.
A gente segui até a uma sala de jantar enorme. Jonas sentou na ponta, Carline a sua direita, eu a sua esquerda e Jean ao meu lado. A gente comeu um pudim doce demais, mas eu quase não prestei atenção nele, enquanto ouvia meus pais (era muito estranho pensar neles como pais) falarem sobre amenidade.
Sério mesmo? Por algum motivo, aquele papo sobre o tempo, como eles queriam me levar para todas os lugares do mundo e como era difícil controlar os poderes na adolescência me incomodou demais. Eu estava quase bufando ali.
Eu fiquei brincando com o resto do meu pudim, até que eu realmente perguntei:
-Por quê?
Todos pararam num silêncio constrangedor pra me olhar.
-Por que vocês me mandaram para o mundo deles quando o mais sensato seria me deixar aqui, com os poderes de vocês me protegendo?
-Filha, não é bem assim... — disse Carline, com uma dor visível no olhar
-É assim sim. — eu disse, soltando a colher no prato. Apesar da minha revolta, eu estava com a voz calma. Ainda. — Por quê?
-Entenda que, era mais fácil te fantasiar de humana, do que te esconder – disse Jonas.
-Desculpa, mas isso parece coisa de pai com medo de responsabilidade – eu disse, levantei da mesa e segui pra porta da sala.
Quando minha mão parou na maçaneta, eu ouvi a voz de Carline.
-A genética é algo mesmo incrível.
E toda minha determinação de sair dali com uma frase de efeito caiu. Eu queria chorar agora. Ainda assim, não me virei.
-Eu sei que não te conheço tanto quanto uma mãe deveria, mas hoje eu vi muito de uma Carline universitária em você. A mesma vontade de mudar o mundo, o mesmo olhar de quem tá captando tudo em volta... o mesmo tom de cabelo – ela riu um pouco. — Mas, principalmente, a certeza de estar certa.
Eu me virei, finalmente, com lágrimas nos olhos.
-Quando você disse – fez aspas com as mãos — “pai com medo de responsabilidade”, você não estava totalmente errada. Era um pouco de medo e um pouco de irresponsabilidade mesmo. Mas, acredite em mim, se eu soubesse que isso ia causar tanta dor, eu nunca teria feito isso. Se eu pudesse voltar no tempo, eu juro que faria tudo diferente e te manteria aqui, comigo.
A gente se sentou de novo no sofá e sorrimos uma pra outra.
-Eu te amo. Nunca duvide disso. — ela disse – Eu realmente queria te ter comigo, mas na hora pareceu certo. E... funcionou por 16 anos, então...
Eu assenti e abaixei a cabeça.
-Telepata, hein? — ela disse. Eu ri.
-Aspirante a. — corrigi.
-O que exatamente você faz? — ela perguntou.
-Crio ilusões e leio mentes. — respondi, meio sem jeito. Parecia um universo paralelo aquilo ali. Acho que não tinha caído a ficha ainda.
-Por que não estou surpresa?
-O que quer dizer?
-Eu crio ilusões de palavras e seu pai sabe todos os pensamentos que já passaram pela mente de qualquer pessoa. Era quase natural que isso acontecesse.
E dissemos juntas:
-A genética é algo mesmo incrível. — e rimos.
Eu abaixei o olhar para nossas mãos juntas no colo dela.
-Eu acho que vou voltar pra EX agora – eu sussurrei, mas sem soltar das mãos dela ainda.
-É... está mesmo tarde. Mas, antes, posso fazer uma pergunta? Uma pergunta que uma mãe deveria fazer?
-Tenho um pouco de medo de perguntas de mães. Mas, vá lá. — sorri.
-Tá acontecendo alguma coisa entre você e o Jean?
Meu sorriso desapareceu na hora.
-Eu sabia – ela sussurrou.
-Não tá acontecendo nada – eu disse, mais por reflexo. — Ele tem namorada e nossa relação é estritamente profissional.
-Então por que você está corada? — ela perguntou, sorrindo. Eu soltei minhas mãos das delas e passei na bochecha.
-Estou? Não, não estou – eu disse, cobrindo as bochechas.
-Vem. — ela levantou. — Vamos nos despedir do seu pai e chamar Jean pra te levar pra EX.
A gente voltou pra cozinha e Jean estava com cara de namorado quando vai na casa da namorada pela primeira vez e é interrogado pelo sogro. Expulsei isso da mente ao lembrar que meu pai lia pensamentos.
Muito constrangedor...
-Melissa... — minha mãe começou.
-Lissa – interrompi. Ser chamada de Lissa me trazia uma sensação de conforto, familiaridade. Era mais fácil me acostumar.
-Lissa – ela sorriu – está indo. Ela só veio se despedir.
Meu pai se levantou e me abraçou. Beijou o topo da minha cabeça e então colocou uma mão em cada lado do meu rosto.
-Não quer dormir aqui?
-Acho que ainda é muito... novo. Talvez outro dia.
-Tem razão. Mas... lembre-se que eu só quero te proteger, tudo bem?
-Tudo bem.
Ele me abraçou mais uma vez.
Eles levaram Jean e eu até a porta, mas não sem antes pedirem meu celular e me fazerem prometer que voltaria no próximo fim de semana.
Eu fiquei calada até a gente chegar na porta do meu quarto na EX
*
-Vai ficar calada pro resto da vida? — Jean perguntou, já na porta do meu quarto.
Suspirei.
-É só... muito pra digerir.
-Imagino.
-Não. Você não imagina. Você tem a vida perfeita.
-Não é verdade.
-Não? Então me diz seu grande problema.
-Eu vivo com a Jaquelinne. O resto é resto.
-Nossa, seu grande problema é ter uma irmã. Sabe o que eu daria pra ter uma irmã agora? — eu gritei. Qual era o meu problema? Por que eu estava tão irritada?
-Pára de choramingar pela sua antiga vida e começa a fazer uma nova. Ou você é simplesmente mimada demais pra encarar as dificuldades?
Ele despertou o leão e eu dei a louca então.
-PARA DE GRITAR COMIGO!
-PARA VOCÊ DE GRITAR COMIGO! — ele gritou, antes de me puxar pela cintura e me dar o maior beijão.
Eu resisti por alguns segundos, mas as mãos dele na minha cintura estavam tão firmes e quentes, que eu me deixei levar e correspondi o beijo.
Uma batalha incrível das nossas línguas, dos meus dedos no cabelo dele, da mão dele na barra da minha camiseta.
E então eu percebi o porque Carline me perguntara aquilo sobre Jean.
A verdade é que eu me sentia atraída demais por Jean. Havia algo que mudava no ar quando ele estava por perto. E, aparentemente, ele também percebia isso. Ou ele não me beijaria. Não daquele jeito.
Eu não queria pensar em nada. Nem nos meus pais, nem na EX, nem nos ips, nem em Liz.
LIZ!
Parei o beijo ao pensar na Liz, mas não me separei muito de Jean. Deixei nossos narizes se tocando.
-Isso não aconteceu – sussurrei, lhe dei um selinho e entrei no meu quarto.
Não preguei o olho naquela noite.
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