Xis
7 VII - EX
O pai de Jean dirigiu até a orla da praia, onde Jean me esperava de barco pra ir pra ilha.
-Esqueça o estereótipo de escola que você conhece. — foi a primeira coisa que Jean me disse quando chegamos.
A Escola de xis da Ilha Castrea parecia qualquer coisa, menos uma escola.
A primeira coisa que percebi quando cheguei foram os vários adolescentes sentados num gramado enquanto escutavam algo no fone de ouvido.
-Aula de concentração. Eles precisam usar os poderes enquanto toca sua música favorita. Acredite, é bem difícil.
A gente entrou num prédio, Jean com duas malas e eu com uma mochila, mas foi ele quem foi até o balcão falar com a recepcionista.
-O número do seu dormitório é 24, logo é no segundo andar. — dormitório. Reprimi um bocejo ao ouvir essa palavra — E tem sorte de não ter que dividí-lo com ninguém. Seu horário é esse e, sim, você tem aulas de português, matemática e etc, e nas aulas de educação física você pode escolher entre esporte, academia ou natação. Alguma dúvida?
-O que é EM? — perguntei, analisando o meu horário.
-Estrutura molecular. E não se preocupe, no seu horário tem o lugar onde ocorre as aulas e quando você chegar lá vai entender.
-Você volta pra casa todo dia, ou você fica aqui também?
-Eu tento dividir meu tempo. Quando eu tenho algum trabalho pra fazer, acabo ficando aqui,mas ultimamente isso tem sido bem raro.
Abri a porta do quarto e joguei a mochila na cama forrada com um lençol branco. Aliás, tudo no quarto era branco. Desde a roupa de cama, até a madeira da cama e do guarda-roupas. O quarto era grande. A cama estava encostada na parede oposta à porta, abaixo da janela. Pedi pra Jean deixar as malas em cima da cama.
Peguei meu celular, tranquei a porta e Jean me levou para um tour pela escola.
Tinha o prédio dos dormitórios, o prédio de administração com a sala dos funcionários e professores. Tinha um prédio para a biblioteca e salas de aula. Do outro lado do gramado, tinha um campo de futebol, a academia (com uma piscina dentro) e uma quadra poliesportiva coberta. E tinha o refeitório separado do outro lado.
Aquilo não parecia real.
-E toda porta com essa placa é um banheiro – Jean disse, apontando pra um placa com um B na porta. Eu comecei a rir loucamente. — Que foi? Não pode ter um B na porta dos banheiros?
-Não, é só que... — parei de rir, finalmente – Isso me lembra de quando eu deveria te mostrar a escola. Quando tudo isso começou.
Ele sorriu e eu também.
-Eu te odiei assim que recebi a missão de te proteger.
A gente sentou na grama e ficamos conversando sobre qualquer besteira que fizesse rir.
-Valeu – eu disse – Não sei o que faria se você não tivesse que me proteger. Quer dizer... minha vida tá um caos, mas... estaria bem pior se fosse não estivesse aqui. Obrigada. De verdade. — eu disse, aproveitando o clima leve.
Ele não respondeu, mas sorriu. E eu sorri involuntariamente. Jean era assim. Contagiante. Dava pra sentir a energia saindo dele. Quase como se ele fosse um campo magnético.
-Acho que... eu vou pro quarto. Tomar um banho e descansar.
-Beleza. Te busco amanhã pra ver seus pais?
-É. Pode ser.
Ele subiu comigo até a porta do meu quarto e a gente ainda deu uma enrolada lá no corredor. Até...
-Te pego amanhã, ás onze.
-Tá.
-Tá.
Momento seriado americano. Eu e ele nos encaramos sem saber se deveríamos nos abraçar ou cumprimentar ou só dizer tchau.
-Tchau – eu disse.
Ele não respondeu, só bateu continência e saiu.
*
Quando eu entrei no meu quarto tinha uma garota pegando umas roupas de uma mala que não estava ali antes. A mala estava em cima de uma cama que não estava ali antes. E ela estava colocando as roupas num guarda-roupa que não estava ali antes.
-Ah, oi! — a garota disse.
Ela tinha o cabelo de um loiro natural perfeito e olhos verdes. Ela estava com um colar com um pingente de prisma que me pareceu familiar.
Mas o que mais me chamou atenção foi o quão magra ela era. Ela estava tão magra, que parecia que os ossos iam rasgar a pele dela.
-Meu nome é Eliza. — ela sorriu. E eu me senti triste com a beleza dela — Eu morava no andar de cima, mas acabou tendo um problema de infiltração e me mandaram descer por tempo indeterminado e esse era o único quarto com vaga. Não mexi em nenhuma das suas coisas, só troquei o guarda-roupas de lugar, mas como não tinha nenhuma roupa sua, então não mexi em nada seu. Mesmo.
-Ah... tá. Meu nome é Melissa.
-Igual ao da princesa. Deve ser muito legal ter o nome da princesa. — ela disse, se voltando para as roupas.
-Acredite, não é. — respondi e entrei no banheiro pra um banho.
Colega de quarto? O fundador dessa escola assistia muito seriado americano.
*
Eu acordei no dia seguinte e a cama de Eliza, minha nova colega de quarto, estava intacta. Ela me avisara sobre dormir com o namorado.
Tomei banho, me enfiei dentro de uma jardineira com uma regata branca e resolvi tomar café.
Eu e Eliza abrimos a porta ao mesmo tempo e ela estava com um garoto pendurado na cintura. Minha boca se abriu num 'O' tímido.
-Ah, oi, Melissa, bom dia. Esse é meu namorado, Jean.
É. Esse Jean que você está pensando. O mesmo Jean que eu conheço. E ele estava ali. Agarrado na cintura da minha nova colega de quarto.
Eliza. Liz. Eu devia ter feito a ligação. O destino estava de brinks comigo, não era possível.
-Ahn... oi. — eu disse.
-Oi. — ele respondeu.
-Ok, agora vocês se conhecem. Estava indo tomar café? — Eliza (ou Liz, não sabia mais como chamar ela) me perguntou.
-É.
-Pode ir. Eu vou dar uma enrolada com o Jean aqui.
-Sem mais detalhes. Tchau casal. — eu falei, igual a Cyndi, e saí.
*
Eu acordei na segunda com a cabeça doendo e brava porque Jean preferiu ficar com a namorada a me levar pra ver meus pais. Olhei para o lado e ver a Liz ali me deixou pior. Jean tinha me enviado um email dizendo pra eu não contar que eu era a “princesa”.
Encarei o espelho e decidi que aquele dia deveria compensar o fim de semana e tomei um banho, me enfiei numa camiseta preta , uma calça jeans clara e um all star vermelho e desci pro café com o iPod gritando no meu ouvido.
Peguei as coisas na bancada e coloquei na bandeja, com a cabeça balançando e viajando na música quando esbarrei numa garota que, por algum motivo, não disse nada além de:
-Melissa? — ela perguntou, com os olhos arregalados.
-Sou eu e você é...
-Jaquelinne. Irmã do Jean. Vem comigo – ela me puxou pelo braço até uma parte do grande gramado que era a EX.
Jaquelinne era a versão feminina perfeita de Jean. O mesmo tom estranho tom negro do cabelo, apesar de comprido e liso. Os mesmos olhos mel. O mesmo nariz reto. Ela estava vestida só com um jeans azul e uma camiseta branca e ainda assim deu um redshot na minha auto-estima.
-Como você sabe quem eu sou? — perguntei, com uma cara que deveria ser hilária.
-Sou irmã de Jean, esqueceu. Nossos pais e eu sabemos. Vimos algumas fotos suas.
-Isso é.... constrangedor.
-O que você está fazendo aqui? Você deveria estar o mais longe possível de Castrea!
-Segundo Jean, eu precisava ficar aqui pra controlar meus poderes.
-E ele não está totalmente errado. Então já sabe sobre ser uma xis? Mas você pode ser encontrada por um ips à qualquer momento.
-Ips?
-É como apelidamos um grupo de humanos que descobriu a existência de nós, xis, e...
-Tá, já sei. Só não sabia desse apelido super cool – a ironia saía na minha voz sem minha permissão. — Quem inventou isso?
-Não sei. Mas é a abreviação de Ípsilon. Uma brincadeira tosca com xis e Ípsilon.
-Bota tosca nisso. — sussurrei.
-Vem. Vou te apresentar pra uma galera. Evite andar por aí sozinha.
Ela me puxou de volta e só então lembrei da minha bandeja. E já ia perguntar onde ela estava quando...
-Meu poder é roubar poderes. E usei o de Jean pra deixar sua bandeja lá no refeitório.
Preciso controlar esse lance de liberar meus pensamentos.
A gente chegou no refeitório e ela me levou pra uma mesa no lado mais longe da entrada.
-Essa é a Alice, Júlio, namorado da Alice, Maria e Pedro, meu namorado. Acho que você conhece o Mateus, né? — Jaquelinne ia me matar de vergonha.
-É... — eu respondi, com os olhos baixos.
-Galera, essa é a Melissa, a garota nova.
-O mesmo nome da princesa. Cool! — disse a garota que Jaquelinne me apresentou como Maria.
-Nem tão cool assim – respondi. Todos riram.
-Você é a amiga da Cyndi, certo? — Mateus perguntou. Cara, ele sabia que eu era a princesinha. Aff. Eu estava morrendo de vergonha!
-Certo. Você é namorado dela, né?
-É... pelo menos era, eu acho – ele baixou os olhos. Nota mental: ligar pra Cyndi.
-Senta aí e toma seu café. Você tem um dia cheio hoje. — disse Pedro, falando algo pela primeira vez.
Eu sentei de frente pra ele e Jaquelinne sentou do seu lado. Não deixei de reparar no braço dele puxando ela pra mais perto pelo cintura.
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