Xis

6 VI - Adeus


No dia seguinte na hora do café, foi quase impossível não chorar. A única coisa que segurou minhas lágrimas foi o fato de Dri já ter saído antes e de que Cláudia saíra com pressa, só mandou um beijo no ar e não comentou sobre a tarde anterior ou meu joelho.

Fui para a escola pensando numa desculpa, porque só depois de sair de casa é que me lembrei que meu joelho já estava bom. Quando cheguei lá, disse que o médico me liberou do gesso, porque tive uma recuperação rápida. Aham...

Quando eu vi Jean entrar na sala, eu fingi não ver e continuei ouvindo Cyndi falar de como foi emocionante o pedido de namoro de Mateus e o quão feliz ela estava. Mas então me lembrei que agora ele sentava na minha frente e não ia dar pra ignorar ele por muito mais tempo.

Mas ele parecia estar me ajudando e não tentou falar comigo até a hora do intervalo. Eu estava enrolando, esperando Jean sair antes de mim, apesar dessa ideia ser tosca, já que eu deveria sair antes dele, se queria fugir.

E a tosquice da minha ideia se comprovou quando só sobrou eu e ele na sala de aula.

Eu me levantei e ia sair da sala, mas ele segurou meu cotovelo e perguntou:

-Por que está me evitando?

-Não estou te evitando

Não olhei nos olhos dele de jeito nenhum e tentava manter a cena real na minha mente pro caso de escapar outra coisa.

-A verdade é que eu estou fugindo de tudo isso. — respondi, derrotada, puxando o braço.

-Você não vai pra EX então?

-Não sei.

Andei até a janela e vi Cyndi abraçada com o novo namorado.

-Eu não sei nem se quero ser uma xis...

Jean veio até meu lado e encarou a cena comigo.

-Mateus é um xis — não respondi – Ele é o meu melhor amigo. Conheço ele desde sempre. E ele veio pro continente pra me dar apoio.

E então, algo muito estranho aconteceu. Jean passou os braços pela minha cintura e me abraçou com força, num tentativa de me confortar. Eu retribuí o abraço, com os olhos fechados.

-Fica bem – ele sussurrou – Por favor – e saiu para o intervalo.

Ao menos um xis no mundo se importa com meus sentimentos.

*

-Eu vou pra EX – eu disse pra Jean no intervalo do dia seguinte.

Eu decidira isso no dia anterior, quando eu vi Dri beijando o namorado na porta de casa. E, de repente, eu quis fugir de toda a mentira que fora minha vida. Precisava fugir. Perguntei à Cláudia se ela sabia do mundo xis e ela me disse tudo, pediu desculpa por não ter contado antes e disse que me amava mesmo assim. E não a culpo por nada disso. Mesmo. Já tinha dito minha decisão para ela, que não tentou me impedir, mas disse, de novo, que me amava e que eu podia ficar se quisesse.

-Como é que é? — perguntou Jean, com as sobrancelhas erguidas.

-Você ouviu. Eu vou para a EX.

-Por quê?

-Talvez porque eu sou uma xis? Eu vou. E você vai me levar. E vai me ajudar a me adaptar. E, antes de ir para a escola, você vai me levar até meus pais. E... é isso.

Falei tudo. Eu estava menos deprimida naquele dia. Boa parte porque eu tinha finalmente tomado aquela decisão.

-Eu não sei se posso te levar até seus pais – quando ele parou de falar, um casal que estava se agarrando entrou na sala, mas quando nos viu, saíram correndo, a garota mais vermelha que tudo. — E aqui não é um bom lugar pra gente conversar. Vem comigo.

Jean praticamente me arrastou até o corredor da administração da escola e pegou uma chave de um chaveiro, quase imperceptivelmente.

A gente entrou no tetro da escola e ele trancou a porta atrás de nós.

-Melhor aqui. Ás vezes me esqueço que isso ainda é uma sociedade secreta. — ele disse – Mas, diz aí. O que fez você tomar essa decisão?

-Minha vida foi uma mentira. Eu preciso fugir disso. E eu fiquei em casa criando ilusões pra mim mesma. Eu vou enlouquecer se ficar muito mais tempo na casa de Cláudia.

-Pera aí. O que quer dizer com “criando ilusões pra mim mesma”? — a voz dele tentando me imitar na ultima frase foi cômica e, pela primeira vez desde que essa loucura começou, eu gargalhei por mais de trinta segundos.

-Eu quero dizer tipo..... fiquei na frente do espelho pensando numa roupa e vendo como ficaria em mim. Ou eu pensava beber água e a sede passava. Esse tipo de coisa tosca.

-Você é a primeira xis que eu conheço que usa o poder em si mesma. O que funciona, pelo menos.

-Por que você não vai me levar aos meus pais?

-Porque isso atrairia atenção pra você. Seus pais não vão poder te acolher porque se tiver um espião lá dentro, e nós não temos total certeza de que não tem, eles vão te pegar.

-Dane-se – respondi. — Eu quero ver meus pais. Não interessa o que isso custe. E se você não me levar, eu vou sozinha.

-Você é muito chata – ele disse — Quando quer ir pra Castrea?

-Hoje? — perguntei.

-Hoje não vai dar. Eu vou... me encontrar com a Liz. Eu sei que estou sendo egoísta, mas... minha namorada não me vê mais e...

-Não, relaxa. — eu disse, mas sentindo o conhecido incomodo que vinha quando o assunto era Liz – No fim de semana, então?

-Beleza. Te pego na sua casa no sábado às dez. Esteja pronta.

-O que quer dizer? — ergui uma sobrancelha.

Ele apontou a saída do auditório com a cabeça e a gente andou até lá. Ele abriu a porta, e fechou depois que saímos.

Então ele passou um dos braços pelos meus ombros e disse:

-Eu namoro uma garota há três anos. Eu sei como vocês são com malas e maquiagem.

-Idiota! — respondi, sorrindo e balançando a cabeça com descrença.

-No fim da aula, a gente vai falar com a minha tia pra ajudar você, ok?

-Ok.

Voltamos pra sala assim, com o braço dele no meu ombro e meu braço na cintura dele.

*

Na quinta, nós recebemos o aviso que na sexta não teria aula e por isso chamei Cyndi pra ir em casa na sexta. E foi um dos dias mais tristes da minha vida.

-Eu vou me mudar. — eu disse, assim, do nada, quando ela chegou.

-Oooi? — ela disse, daquele jeito que só a Cyndi sabe. Ela me encarou por vários segundos e, apesar de vontade, faltou-me lágrimas pra chorar.

-Eu te chamei pra te explicar porque e como.

-Você não pode ir. A tia Cláudia tá te forçando?

-Cyndi. Entra. Não é nada disso.

Ela entrou e não esperou meu aviso pra ir até meu quarto. Eu já tinha deixado pipoca lá pra gente.

Eu entrei no quarto atrás dela e ela sentou na cama. A gente ficou comendo pipoca sem falar nada por algum tempo.

-Eu meio que fui adotada – comecei.

-Hã? — Cyndi estava monossilábica naquele dia. Ela devia estar mesmo muito chocada.

-E vou pra cidade natal dos meus pais biológicos.

Eu já tinha decorado tudo o que falar. Nenhuma mentira, mas sem detalhes.

-Você e a Dri são as duas coisas que eu vou sentir mais falta em Povoado da Felicidade.

Cyndi não falava nada. Isso estava me deixando apreensiva.

-Por que você vai agora? Você vai ter vestibular logo logo e...

-Cyn... não é como se isso fosse novo. Você sabia que isso ia acontecer um dia. Que eu teria que ir embora. Você sabia que eu não ficaria aqui por muito mais tempo. Você disse que também não ficaria.

-É verdade, mas eu nunca tinha considerado me apaixonar por alguém aqui. Eu gosto de verdade do Mateus. Não vou sair da cidade sem ele.

-Tudo bem, Cyndi, mas as circunstâncias são diferentes agora. Eu descobri isso agora e...

-Você vai fugir com Jean, né?!

-Oi?

-Você tá inventando toda essa história porque sabia que eu ia te zoar até a morte por causa disso e...

-Cyndi, para! Como Jean veio parar nessa história?

-Desde que ele chegou na escola, você não é mais a mesma. Desde que ele surgiu, você ta toda esquisita e chegou até a quebrar a perna. Agora faz todo sentido!

-Cyn, não viaja! Eu realmente não sou filha de Cláudia. E realmente estou indo pra cidade dos meus pais biológicos.

Agora que caíra a ficha dela, Cyndi parou de contestar e me abraçou. Não estávamos chorando, mas poderíamos estar. Eu estava com os olhos fechados e apertava Cyndi no abraço mais forte que já trocamos.

-Como assim, você é adotada? — ouvi a voz de Adriana, que estava na porta do meu futuro-ex-quarto. — Você não pode ir embora. — ela correu e me abraçou.

Foi a única vez em que cogitei desistir da EX depois que decidi ir. Eu não consegui falar nada.

-Como a mãe teve coragem de esconder tudo isso? E por que você não me contou? Lissa, você não pode ir embora. Não mesmo.

-Dri.... — eu sussurrei, mas não consegui continuar.

Ela então me soltou e sentou na cama do meu lado. Eu estava entre Cyndi e Adriana. Passei um braço pelos ombros de cada uma e apertei-as num abraço triplo.

-Eu vou morar em outro lugar, mas isso não quer dizer que não vamos mais nos ver. Eu volto pra ver vocês. Será como se eu tivesse ido pra faculdade antes do tempo. Não tornem isso mais triste do que já é. Agora, me ajudem a arrumar minhas coisas. Eu estou indo amanhã e quero estar linda na nova cidade. Deve haver carinhas muuuuito gatos lá.

Rimos e elas me ajudaram a arrumar minhas coisas. Ia ser muito triste me separar delas.

*

No sábado, levantei bem cedo.

Tomei banho rápido, arrumei o que sobrara no quarto e desci.

-Você tem certeza de que vai fazer isso? — perguntou Cláudia, no fim da escada.

Só balancei a cabeça.

E quando ela me abraçou, eu vi que seria muito mais difícil sair do lar onde cresci do que eu imaginava. E digo lar, e não casa, porque o prédio pouco me importa. Mas todas as lembranças vividas ali, com Cláudia e Adriana e Cyndi... aquilo sim era difícil de abandonar.

Abracei ela com força, sem conseguir desfazer o nó na garganta.

Cláudia fora minha mãe. E eu amava aquela mulher. E eu não queria perdê-la.

A gente tomou café juntas. Eu, Dri e Cláudia. Ficamos nos lembrando de coisas engraçadas. Não sei se isso tronava as coisas mais fáceis ou mais difíceis. E então deu dez horas e eu tive que dizer adeus. Pela primeira vez na minha vida, estava dando adeus de verdade para algo.

Abracei Cláudia primeiro.

-Promete pra mim que, se qualquer coisa acontecer, esse vai ser o primeiro lugar pra onde você vai correr? — ela sussurrou, no meu cabelo.

-Prometo – disse, sorrindo e chorando. — Eu te amo, mãe.

Soltei a minha eterna mãe e abracei Dri. Aquele seria o abraço mais difícil de soltar.

-Qualquer coisa, você sabe que meu celular tá sempre ligado, não sabe? — eu disse, fazendo ela rir um pouco.

-Vou te ligar quando eu ouvir o carro sair. — ela disse. Não tinha tanta certeza se era só pra eu rir.

Ficamos mais alguns segundos ali. A soltei antes de começar a chorar e Cláudia e Dri me abraçarem ao mesmo tempo, também chorando.

Eu não queria sair dali, não queria ficar, não podia não fazer nada e não conseguia fazer alguma coisa. Era horrível.

A gente se soltou depois de muito tempo. Minhas lágrimas molhava minha blusa deixando grossas manchas.

Antes de sair, olhei uma ultima vez pela porta da sala. A escada, o sofá, o tapete. E antes de desistir, sussurrei:

-Adeus, meninas. Eu amo vocês.

E fechei a porta atrás de mim.