Xis

5 V - X


Chegamos na ilha e a primeiro coisa que eu fiz foi sentar na areia. E, então, comecei a repassar os acontecimentos, tremendo.

Eu sonhara com Jean antes de o conhecer. Aí eu conhecera Jean. E o odiara. Então ficamos “amigos”. Aí ele me salva da morte de uma forma suspeita, mas não impediu de que eu quebrasse o joelho. Aí eu briguei com ele aí a gente voltou a se falar. Depois os carinhas suspeitos do dia do mato voltam pra minha casa, mexem nas minhas coisas e eu consigo fazer coisas com a mente. Tinha dois caras baleados (um, provavelmente morto por Jean) na minha casa.

E, como se não bastasse, ainda tenho coragem de fugir com ele. Sem deixar recado.

Irônico, não?

A vontade de chorar era maior que a de rir.

-Onde estamos? — perguntei.

-Ilha Castrea.

Silêncio. Racionei um pouco, mas não me lembro de existir uma ilha com esse nome.

-Por que exatamente vim pra cá com você? Quer dizer, eu não te conheço – eu disse quando a gente chegou na praia da ilha, sem olhar pra Jean. — Eu vou pra casa. — me levantei e já estava rumando em direção ao jet ski quando Jean segurou meu braço e me impediu de ir embora – Me solta – eu disse, indignada. Por que raios ele me queria ali?

-Espera. Por favor. Eu preciso te explicar o que está acontecendo. Não deveria, é verdade. Mas preciso. Fica.

-Eu não quero. Eu vou embora. Desde que te conheci, só deu merda na minha vida.

Puxei meu braço e segui para o jet ski.

-Então vai. Vai e conta pra sua irmã e pra sua mãe postiças como seu joelho voltou ao normal. Vai se fechar no seu quarto e pensar no que realmente aconteceu naquela viela ou por que agora você usa a mente pra iludir as pessoas. Volta pra sua vida de mentirinha e finge que seu pai morreu e que Cláudia é sua mãe. Vai. Eu tentei te ajudar.

-Como é que é?! — me virei pra ele – Que porra você tá falando?! Meu pai morreu e Cláudia é minha mãe sim!

-Não. A sua vida toda é uma mentira. Uma mentira atrás da outra. Mas volta pra lá. Você tem medo do que pode escutar se ficar aqui. Pode ir.

-Não acredito que está usando psicologia inversa comigo! Eu sou imune a isso, pra sua informação.

-Não estou usando nada. Só disse a verdade. Vai logo. — ele se virou pra ilha e foi andando.

Eu voltei pra perto dele emburrada e lhe dei uma série de tapas.

-Eu te odeio! Você bagunçou minha vida e ainda fica falando merda!

E então ele segurou meus braços e me encarou nos olhos.

-Pára e me escuta! — ele sussurrou.

E me desarmou. Eu me lembrei do quanto eu tinha me perdido em seus olhos durante aquele sonho, que parecia ter acontecido eras atrás.

-Vem comigo. A gente vai conversar e depois eu te levo pra casa.

-Tá. — falei, emburrada e ele me soltou.

Andamos lado a lado por uma avenida até uma casa aparentemente comum.

-Jaque? Mãe? — chamou Jean, quando abriu a porta.

Um bilhete na geladeira dizia que as duas haviam saído.

-Melhor.

Tentei rir da situação. Acho que estar sozinha numa casa grande acompanhada de Jean sem camisa era engraçado. Mas não rolava. Eu estava curiosa e confusa demais pra rir.

-Pode perguntar – ele disse, me entregando um copo d'água enquanto a gente sentava na sala de jantar.

-Não quero perguntar. Quero que você conte tudo. Desde porque está estudando em Povoado da Felicidade se mora aqui, até como você curou meu joelho.

-Ok. Se fosse você, eu não beberia toda a água agora. A história é longa. Começa quando seu tatatatatatataravô nasceu.

-Não precisa voltar tanto assim. — eu disse a gente riu por alguns segundos. Era bom sentir o clima ficar mais leve.

-Precisa. — ele disse – Durante o final do século XVII, o então rei do norte dessa ilha onde estamos entrou em guerra com o rei do sul. Decidido a vencer a guerra, o rei do norte contratou um cientista considerado maluco para criar os soldados perfeitos. Ele misturou os genes humanos com alguns elementos (até hoje desconhecidos) e criou o primeiro Xis. Seres mais ágeis, mais rápidos e mais fortes que os humanos comuns.

-Esse tipo de coisa não existia no século XVII. E, depois, isso aqui não é Fringe ou o filme do Capitão América.

-Você pode não acreditar e ir pra casa. Mas depois me liga pra contar como você faz as pessoas imaginarem o que você quer.

-Ok. Supondo que isso seja verdade, onde eu ou você entramos nessa história?

-Calma, morena. — ele sorriu e girou os olhos – O único problema desses soldados é que eles adquiriram mais habilidades que as premeditadas. Cada um tinha um poder diferente. Pra encurtar a história, a guerra acabou em um tratado de paz, mas os xis começaram a relacionar-se emocionalmente. E então nasceu a população xis dessa ilha. Todos os que moram aqui são xis e 1- podem correr mais rápido que humanos comuns; 2- podem modificar a estrutura molecular das coisas; e 3- possuem alguma habilidade especial. Tipo essa.

Então Jean ergueu uma flor do vaso de flores da mesa com a mente e a colocou no meu cabelo. Tentei lembrar que ele tinha namorada.

-Ainda não entendi como fui parar na história. — disse.

-Os dois reis acabaram procriando com mulheres xis e nasceram herdeiros de trono que são xis.

-Eles não só “meio-xis”? Quer dizer, os pais ainda eram humanos.

-Esse é o problema do relacionamento humano-xis. Só nascem xis. Mas voltando a história. Os herdeiros decidiram unificar os reinos e decidiram que seu tatatataravô, filho do rei do norte, seria o rei. A partir disso, ocorreu uma monarquia comum com o poder passando de pai pra filhos. O atual rei é seu verdadeiro pai.

-Então, eu sou uma princesinha?

Ele girou os olhos.

Eu estava desconfortável ali.

Abaixei os olhos para a toalha da mesa.

-Tá. Então por que, segundo você, Cláudia não é minha mãe?

-Os xis, apesar de serem muitos, são um segredo. Imagina a revolução que iria acontecer se descobrissem que existem seres com o habilidades avançadas no mundo. Mas algumas pessoas descobriram. E se dedicaram a matar cada xis que encontrarem. Por amor a você, seus pais pagaram uma humana para te criar até seus poderes aparecerem. Porque eles só aparecem dos 16 aos 19 anos.

-É por isso que nunca encontraram nada estranho nos meus exames de sangue e por isso que eu não corria rápido ou algo assim, certo? — eu estava começando a acreditar. Fazia sentido. Embora eu estivesse despedaçada por saber que nada na minha vida foi real.

Ergui os olhos pra ele de volta. Ele estava comendo uma maça como se eu não importasse muita coisa.

-Certo.

-Eu nunca soube dessa guerra idiota. Como esconderam tanta coisa dos historiadores humanos?

-Eles não sabem nem da existência dessa ilha. Todos que aparecem por aqui, passam por um xis com poder de fazer as pessoas esquecerem certas informações.

-E quando esse xis morrer?

-Nós envelhecemos mais devagar que os humanos. Até o surgimento dos poderes, temos o crescimento de um humano. A partir de então, envelhecemos um ano a cada vinte. Nós somos vulneráveis à uma bala de revólver, mas é muito mais difícil acertar um alvo que corre numa velocidade tão grande. Ou conseguir segurar uma arma quando é tão fácil pra nós pegarmos de sua mão. De qualquer forma, a gente pode se virar com alguns humanos.

Ele era sempre tão presunçoso assim?

Porque eu estava com medo da resposta da próxima pergunta:

-Como você entra a minha história?

-O rei não ia querer que sua filha morresse se descobrissem que você é uma xis, na verdade. Então ele pagou Cláudia pra cuidar de você até por volta de seus dezesseis, dezessete anos. Ano passado, ele pediu o filho de seu melhor amigo e braço direito para proteger você e te ajudar a lidar com isso.

-Você. — não era uma pergunta.

-Então, logo agora, Eles descobriram que você é a filha supostamente morta da rainha Carline.

-Minha mãe se chama Carline?

-É.

-E meu pai?

-Vossa Majestade Jonas Roberto Sumbrei Solais.

-Isso é ridículo. — eu disse e bebi o ultimo gole de água.

-Eu sinto muito por isso tudo.

-Quantas pessoas sabem que sou a princesa?

-Poucas.

-Minha irmã também é uma xis?

-Não, na verdade.

Minha garganta apertou. A pessoa que eu mais amava no mundo não tinha nada meu no sangue dela. Não éramos da mesma família. Adriana era a coisa mais valiosa que eu tinha e não era minha. Engoli em seco.

-Rosana também é uma xis, não é?

-É. Mas... de onde você tirou essa conclusão?

Aquele momento constrangedor em que você confessa um erro.

-Eu ouvi uma conversa entre vocês um dia. Ela disse que era sua tia.

-Isso não é digno de uma princesa.

-Eu não sou uma princesa – sussurrei. — Não quero ser.

Ele não respondeu, me dando algum espaço pra pensar. Mas eu não queria pensar. Pensar era muito pior. Quanto mais eu pensava naquilo, mais minha mente doía, mais mal eu me sentia, mais idiota eu me sentia. Minha vida era uma mentira, minha irmã não era minha, eu tinha um poder que não servia pra nada, estava enfiada contra minha vontade na realeza de uma sociedade secreta. Que raios de vida era essa? Talvez fosse melhor que Eles me encontrassem e matassem logo.

-O que acontece agora? — perguntei para Jean, que me analisava com pena ou algo parecido.

Não gostei.

-Agora você vai entrar na EX.

-EX? Deixa eu adivinhar... escola de xis? — perguntei, ironizando.

-Garota esperta.

-O que eu vou fazer lá?

-Bom, treinar seus poderes, basicamente. Quando eles tiverem certeza de que você não é uma louca que vai usar seus poderes para o mal, ou que vai contar esse segredo pra todos, ou usar seu poder sem querer, então eles te dão uma passagem pra qualquer universidade que você quiser em qualquer lugar do mundo.

-Aff. — eu disse, com um sorriso triste – Vou morar na escola, também?

-Depende. Se você quiser, lá é bem legal. Mas você pode voltar pra sua casa.

-Defina sua. Eu já não sei mais se posso chamar a casa de cláudia de minha.

-Para de drama, ok?!

Me dá um desconto,ok?

Pensei antes de falar, mas Jean respondeu antes de eu falar.

-Tudo bem, acho que você pode ser dramática hoje.

-Ok. Você tá me assustando, Jean. O que eu disse?

-”Me dá um desconto, ok?”?

-Mas eu não disse ainda. Eu só imaginei a cena. Isso não é nada legal, ter meus pensamentos abertos às pessoas.

-Mas você pode aprender a controlar isso na EX. É pra isso que ela serve.

Levantei da cadeira, andei até um filtro que eu vira quando entrei e peguei mais água. De repente, eu precisava de muita água.

-A minha.... Cláudia sabe do por que ela me criou?

-Não sei. Mas provavelmente sabe.

-Eu queria que fossem meus pais biológicos e que minha vida fosse normal. Sinto falta da ilusão, da mentira. Alguém disse uma vez que a ignorância é uma benção. E essa pessoa era muito inteligente. — sussurrei pra mim, mas eu tenho certeza que Jean escutou. — Me sinto dentro de um seriado de ficção científica.

Ficamos um minuto em silêncio.

-Quer ir pra casa?

-Acho que sim – respondi. Apesar de não querer, eu precisava pensar. Era muita informação pra ser digerida e eu queria dormir.

Jean me levou de jet de novo, mas agora estava escuro.

Na porta de casa ele murmurou um “se cuida, te vejo amanhã na aula” e foi embora.

Não sei porque, exatamente, mas me senti meio decepcionada.

Entrei em casa e a primeira coisa que eu vi foi a Dri jogada no sofá chorando porque estava assistindo Diário de uma Paixão. E, então, eu comecei a chorar. Mas subi para meu quarto correndo para que ninguém percebesse.

Tomei um banho demorado demais. As lágrimas se misturavam à água do chuveiro, me deixando irritada.

Saí do banho, vesti uma camiseta gigante com shortinho e deitei na minha cama com fone de ouvido. E eu não me lembro de ter chorado tanto.

Notas finais
Pronto gente! Segredo revelado, história começa a engatar.