Xis

4 IV - Fuga


Na outra segunda-feira (depois de uma semana em casa) eu já fui pra escola. É, rápido assim.

Minha mãe me levou de carro, me ajudou com as muletas até minha sala (sorte que ela ficava no térreo) e eu não saí do meu lugar até minha mãe me buscar.

Durante o intervalo, Cyndi foi procurar Mateus e eu fiquei na sala comendo meu lanche. Sozinha. Mas por pouco tempo.

-E aí? — eu ouvi a voz de Jean antes de vê-lo porque eu estava olhando pro chão.

Minha cabeça ergueu-se devagar, passeando pelo corpo dele, subindo. Eu fora carregada naqueles braços fortes, que agora estavam com os músculos tensos porque ele estava se apoiando na cardeira ao lado da minha. Eu queria levantar e agradecer a ele com um beijo.

Bati a cabeça com tanta força assim?

-Obrigada. Por tudo. Eu nem sei como te agradecer. — disse, terminando o suquinho que eu trouxera de casa e jogando a caixinha na lata de lixo. — Eu provavelmente estaria morta agora se não fosse por você – eu completei, finalmente olhando em seus olhos.

Ele sustentou meu olhar por mais algum tempo e suspirou.

-Eu faria isso por qualquer um – ele disse.

-Mas não é qualquer um que faria. Na verdade, eu não sei porque você fez. — eu disse, ainda olhando em seus olhos, esperando por um sinal que eu nem sabia o que significaria se ele viesse.

Ele sorriu e se sentou na carteira aonde ele esteva apoiado.

-Ao contrário do que você pensa, eu não te odeio. Na verdade, é você quem me odeia.

-Não te odeio. Ok, se não vai me diz por que fez, pode me dizer pelo menos como? — perguntei e baixei os olhos.

-Ameacei chamar a polícia e eles fugiram. Simples.

-Eu não vou cair nessa. — ergui a cabeça de novo.

-Como assim? Você acha o quê? Que eu sou um vampiro ou um anjo?

-Tá mais pra demônio.

-Nenhum dos três — ele respondeu

-Você admite que não é humano, então?

-Anda lendo muito Cassandra Clare. — ele, disse, desviando o olhar.

-Olha pra mim enquanto conversamos, por favor. — eu estava começando a me sentir brava.

-Mel, eu te salvei. Algumas pessoas diriam – fez aspas com as mãos — “obrigada”.

-Eu disse! — me irritei de verdade agora. Eu nem dei oi pra ele, já disse obrigada na cara! Ele não deveria falar isso pra mim!

-Disse por obrigação.

-Por que não me deixou morrer lá mesmo?! — gritei. Ele era um idiota completo.

-Por que não esquece o que aconteceu lá e a gente segue com nossa vida?

-Por que não diz o que realmente aconteceu e a gente segue com nossa vida?! — berrei e me odiei por estar presa no gesso.

Ele não disse nada, mas me encarou com os olhos semicerrados enquanto o sino do fim do intervalo tocava.

A turma voltou pra sala e a aula de história começou.

Não nos falamos no dia seguinte. Nem pelo resto da semana.

*

Na segunda, a ultima do mês, Jean lembrou do nosso trabalho que estava duas semanas atrasado e, no fim da aula, disse que ia na minha casa no dia seguinte para fazermos o trabalho, que já deveria ser entregue na quarta que vem. Eu disse que estava tudo bem e ele seguiu pra porta.

Antes de ele sair, criei coragem e disse:

-Desculpa.

Ele parou automaticamente se virou pra mim, parecendo não acreditar que eu dissera aquilo.

-Fui egoísta e mimada e chata. Você não tem obrigação de me contar nada. — finalizei com a cabeça baixa e uma culpa enorme rondando-me.

Ele se sentou na minha mesa e olhou pra janela do outro lado da sala.

-Engraçado como as coisas mudam em um mês. — ele parecia falar consigo mesmo. — No fim das contas, vou ter que te contar. Só tenha paciência, Melissa.

Melissa. Por algum motivo, o fato de ele me chamar de Melissa (e não de Mel), me deixou incomodada. Como se não fosse ele falando.

-Você vai saber na hora certa. Só... espere. As coisas vêm na hora certa.

Suspirei e ficamos ali, pensando se voltaríamos a nos falar. O silêncio era bom.

Minha mãe chegou pra me ajudar a ir pro carro. Ela cumprimentou Jean rapidamente e me ajudou a levantar e me apoiar nas muletas.

-Pode esperar lá fora, mãe? — pedi. Ela deu um sorriso desconfiado, mas saiu. — Quando vai ser a hora certa? — não resisti à pergunta.

-Não vai demorar muito. — ele respondeu, também de pé.

-E se eu descobrir antes?

-Então vou me livrar de um peso incrível na costas.

Rimos juntos. Eu mordi meus lábios, murmurei um “tchau” e ia saindo quando ele parou na minha frente e murmurou:

-Se cuida, Mel.

Fiquei tonta por alguns segundos, mas sacudi a cabeça e saí.

*

Eu queria correr pra atender a porta quando Jean chegou. Mas quem atendeu foi a Dri porque eu não podia sair do sofá, sabe.

-Oi – ouvi ele dizer pra Dri, que simplesmente se afastou pra ele entrar. — Oi – ele disse pra mim.

Não me lembro o que respondi, mas deve ter sido algo bem inteligente, tipo... “hm”. Ele estava simplesmente muito gato. Mais que o normal.

Minha mãe e Dri saíram e eu ia ficar a tarde sozinha com Jean. E ele estava lindo.

Não me entenda mal. Ele estava ali pra fazer um trabalho e eu também, mas, porra, que menino lindo!

Ele se aproximou e sentou no chão de frente pra mim que estava no sofá.

Tão lindo.

-Ok, por onde a gente começa? — ele perguntou.

-Não faço ideia. Eu durmo nas aulas de filosofia. Não sei como deve ser feito. — respondi, desviando o olhar dele.

-Tá. Então eu escrevo sobre a filosofia na minha vida e você escreve sobre a sua. Depois a gente troca as folhas e coloca o nome na folha do outro. Depois grampeia e entrega. Simples.

-Não é isso, é!? — questionei.

-Lógico que não. Mas a gente faz isso e tira nota.

Rimos juntos.

Fizemos o trabalho (do nosso jeito) enquanto conversávamos sobre assuntos aleatórios.

Ele chegara às três. Às quinze para as quatro eu já sabia a banda e a cor favorita dele (Aerosmith e azul), já sabia que ele tinha uma irmã gêmea (Jaquelinne com dois n's), já sabia que ele trocava tudo por um saco de amendoim com cobertura de chocolate (amendoim? UGH!) e ele me contou que tinha uma namorada chamada Liz. Mas isso eu já sabia por causa do episódio na sexta-feira.

Mas quando eu ouvi da boca dele que ele amava a namorada, o clima pesou. Eu não sei porque o atestamento de um fato tão óbvio causou tanto efeito sobre mim. E eu digo óbvio porque, dã!, ele tem 18 anos. É mais que normal que ele tenha uma namorada. Mas ainda assim, eu fiquei meio “esquiva” depois de ele falar isso.

E então, algo estranho aconteceu.

A porta de entrada da minha casa fora arrombada. Dois caras estavam parados. Os mesmos dois do dia do mato.

-Merda – sussurrou Jean.

Ele se ajoelhou, colocou a mão sobre o gesso da minha perna por alguns instantes e eu senti meu joelho voltando ao normal. Aí ele deu um soco e quebrou o gesso. Isso tudo em menos de 10 segundos.

Eu arregalei meus olhos. Ele levantou e me puxou junto.

-Não grita. — ele sussurrou, enquanto um dos caras subia as escadas de casa e o outro procurava na cozinha, do lado contrário ao da sala onde a gente estava – Quando eu disser, você foge por e para qualquer lugar. Eu te encontro.

-Aonde? – eu disse, mas minha voz saiu extremamente seca e esganiçada. Como se eu estivesse sem falar por muito tempo.

-Onde você estiver. — ele ficou mais ou menos na minha frente, me protegendo, me segurando de costas. Então ele começou a andar devagar em direção da cozinha.

-Como você espera que fuja com você me segurando atrás de você? E por que está indo pra toca do lobo? Corte a cabeça e ponha numa bandeja também. — ironizei. Quase ouvi ele girar os olhos. A gente estava seguindo até bem, mas Jean parou sem me avisar e eu continuei andando e trombei nele.

-AI! — gritei e me arrependi 0,002 segundos depois. O cara que estava procurando algo na geladeira (o gordinho do “dia do joelho”) se virou rapidamente pra mim.

-Puta que pariu, Melissa! — Jean disse.

-Ora, ora, se não é o casal do matagal.

-Suas bolas já estão bem? — Jean perguntou, puxando uma arma que estava nas costas dele.

Ele tem uma arma. Tá tudo bem. Eu posso lidar com isso. Quer dizer, não é grande coisa, não é?! Qualquer pessoa de 18 anos tem uma arma hoje em dia.

O gordo riu e coçou a barriga antes de responder.

-Acredita que já melhoraram?

-Então é hora de machucar de novo – Jean disse, atirando no meio das pernas do cara.

Ok. Isso doeu em mim.

Por causa do grito do gordo, o magrelo (que parecia mais alto agora) descera as escadas e ia falar com o gordo quando Jean apontou a arma pra ele e ele estacionou no penúltimo degrau.

-Não usaria a violência se fosse você, Pequeno Guerreiro – o magrelo disse. - A coisa pode ficar bem feia pro seu lado. Afinal, você não é o único com poderes aqui. — ele completou.

Poderes?

-Eu não me meteria à valentão com Mel por perto. Ela pode ser bem cruel às vezes.

Jean queria ameaçar o cara comigo? Mas eu provavelmente estava com uma cara de medo terrível! Minha única reação foi entrar no jogo.

-Experimente machucar Jean pra ver o que acontece – eu sussurrei.

Eu realmente queria conseguir fazer qualquer coisa. Eu podia até ver a imagem de eu mesmo imobilizando o cara.

-A quem querem enganar? — o magrelo disse.

Mas, então, algo muito estranho aconteceu.

No momento em que me imaginei a cena, ela simplesmente aconteceu. Tinha uma cópia minha agarrando o pescoço do cara.

E aparentemente, só eu e ele conseguíamos ver.

Olha, era uma cena engraçada pensar no cara se contorcendo daquele jeito, mas eu não estava enforcando-o. Era tudo coisa da cabeça dele.

Eu olhava para aquilo com os olhos arregalados. Jean ainda apontava a arma pro carinha, mas agora sorria. O cara estava mais espantado que eu.

-AGORA MEL! — Jean gritou, quando atirou no cara.

E eu saí correndo loucamente. Segui pela rua da minha por muito tempo. Eu não sabia pra onde estava indo e me intrigava pensar em como Jean me acharia.

E, de repente, senti alguém me pegando no colo.

-Jean! — gritei num misto de alívio e raiva. — Me solta! Lembra que você curou minha perna?

-Cala a boca, Melissa!

Jean pegou uma rua e a gente voltou pra orla da praia. Ele me colocou no chão quando chegamos na areia, mas me puxou pela mão.

-Pai – pai? — me arruma um jet? — ele disse, um pouco ofegante, mas nada comparado a como eu estava.

-Já vai voltar pra ilha? — um quarentão super em forma disse, virando-se para Jean e eu. E pareceu estar surpreso ao me ver, a questão é que não nos conhecíamos – Entendi – ele disse como se eu fosse a resposta para sua pergunta esquisita – Pega o número três. Ele está reservado pra amanhã, então volte antes das nove.

Jean pegou uma chave e um colete salva-vidas e quase me arrastou pra beira do mar.

Ele começou a tirar o tênis e, por um momento, eu achei que ele iria ficar só de sunga ali e me levar pra um passeio de jet ski. Mas ele não tirou a calça.

E nem precisou. Eu já tinha me perdido no labirinto do tanquinho dele. Eu poderia ficar horas olhando para aquele corpo e não me acostumar. O meu queixou caiu pra baixo e minha cabeça para o lado. Eu devia parecer muito boba.

-Eu tenho dona, tá? — ele disse, girando os olhos, já no jet ski.

-Eu não vou. — eu disse, depois de despertar do transe e fugindo do assunto “eu estava olhando descaradamente para o seu tanquinho”

-Como é que é? — ele perguntou, com uma sobrancelha erguida.

-Eu tenho uma vida aqui. Não vou fugir com você.

Ele desceu do jet ski, andou até mim, pegou o colete da minha mão, enfiou pelo meu pescoço e, literalmente, me arrastou até o jet ski.

-Eu não quero ir, Jean! Eu esqueci meu celular, precisa falar com minha mãe e tirar aqueles dois da minha casa!

-Cala a boca – ele disse, dando a partida e saindo da orla da praia, me levando pra uma ilha desconhecida.

Eu só consegui segurar na cintura (nua, diga-se de passagem) dele.

Dez minutos depois, não havia um centímetro do meu corpo seco.