X-Men : Magia e Pecado
2 Um Acordo Infernal
Notas iniciais
ILHA MUTANTE UTOPIA
10 de Junho
O cheiro de fumaça invadiu fortemente as narinas de Illyana. Claro, embora ela estivesse acostumada ao forte odor de enxofre do Limbo, ainda assim era deveras insuportável. Se não fosse o tão estimado fator de cura, Illyana duvidava muito que Wolverine passaria tanto tempo tragando aqueles charutos. Com uma tosse forcada é um olhar cúmplice, ela abanou o ar a sua frente, deixando Logan sem jeito, que logo entendeu o recado.
Ele se aproximou da cela, descartando o charuto no chão. Batendo algumas vezes no vidro que os separavam, o baixinho peludo soltou um assobio. Ele imaginou como uma adolescente de 17 anos de repente havia se tornado uma prisioneira com tanto cuidado a se tomar. Com seu inseparável chapéu, o mutante largou uma mochila no chão, cruzando os braços e olhando a jovem dos pés a cabeça.
— Bom dia, guria. Não quero te aborrecer nem tomar teu tempo, então vou ser breve.
A loira deslizou os olhos pela bolsa e de volta aos olhos cerrados de Logan. Algo lhe dizia que o velho mutante estava de viagem, então a visita inesperada era, sem duvida, um passaporte de algum tipo para fora daquela cela. A questão era, pensou a jovem, se a liberdade lhe cobraria algum preço. E se tal preço ela estava disposta a pagar.
— Olha, se for para trabalhar com sua equipezinha de extermínio, Logan, eu tô fora.
— Boa escolha, na verdade. Sensata. Por que, na verdade, longe de mim pedir isso a ti – o mutante ergueu as mãos, meneando com a cabeça – Depois de tudo que tu passou, acho que se involver em mais sujeira não é a bem a melhor coisa para te meter, ainda mais com a X-Force. Não, jamais me passou pela cabeça.
— Que gentileza... – debochou Illyana, em forçada inocência.
O mutante tirou o chapéu e deslizou a mão pelos cabelos pretos assanhados. Não bastasse ser criticado e julgado pela mera existência de um grupo como a X-Force, e para piorar, seus nervos não andavam bem em relação a Ciclope. Tudo que ele desejava era deixar aquela Ilha o mais rápido possível, e, como que por obrigação – ou melhor, instinto – ele se sentira compelido a levar um ultimo aluno consigo. O Cisma havia sido pior do que pensavam. Bastou uma discussão, lembrou Logan. Uma discussão que logo se transformou em combate.
E com tal combate, em pouco tempo, a mutandade estava dividida outra vez. Ciclope e Wolverine, agora os grandes lideres dos Filhos do Átomo. Era como a Guerra Civil, pensou Logan. Só que pior.
— Na verdade, guria, eu tô deixando Utopia. E estou levando alguns alunos. Sabe, eu vou reabrir o Instituto Xavier. Eu e o caolho... – ele coçou a cabeça, desviando o olhar – Enfim, digamos que a nossa parceria foi pro brejo.
A mutante a olhou desconfiada.
— E o que tenho com isso? Quer que os teleporte de volta à Westchester?
Wolverine cutucou a cela espessa outra vez, olhando-a como se fosse obvia a resposta.
— Eu quero saber se tu quer ir com a gente. Sabe cumé, a Pryde não diz nada, mas acho que no fundo daquela cabeça oca dela, ela quer que tu vá junto. Amizade não é coisa que se joga fora tão fácil.
— Não – respondeu Illyana, estoica. Logan sentiu que mesmo com tal expressão, ela passou a cheirar levemente diferente. Ela cheirou a tristeza. E no fundo de tudo, uma ânsia havia a preenchido. Uma ânsia por liberdade. Por estar com sua família outra vez, mas que, ela sabia, não iria aproveitar de tal desejo tão cedo – Kitty, de fato, não quer que eu vá, eu sei disso. E talvez seja melhor assim. Eu já machuquei ela e meu irmão demais. Talvez seja melhor que fique longe deles, por enquanto.
— Ainda assim, se tu tiver a fim de ir, sabe...
Não era só um ato de professor. Se havia alguém a quem Logan temia por se entregar as sombras cedo demais, era Laura Kinney. Em seu âmago, ele simplesmente repudiava o fato de criançlas como Laura terem sua infância e inocência arrancadas para serem transformadas em meras maquinas de matar. Havia ocorrido isso com Laura, e o mesmo, de certa forma, havia atingido a vida de Illyana. Havia muito em comum entre as duas, na verdade.
Assim como Laura, ele lhe concederia uma outra chance. Uma chance de fazer o certo.
Illyana caminhava pela cela de lado a outro, como se pensasse na proposta deveras tentadora.
— Você está perguntando isso para os outros prisioneiros?
Logan negou. – Só você.
— Por que eu?
— Porque, Illyana, eu acho que tu merece uma segunda chance. Uma oportunidade.
A menina sorriu, incrédula. – No que?
— Na vida – foi a resposta de Logan, fazendo-a baixar os olhos – Algo além do que já te aconteceu. Algo melhor. E se eu puder te dar isso, como eu tô tentando com a Laura, então já é um ótimo passo.
“Algo melhor”, riu Illyana. Por mais que fosse seu mais desejado objetivo naquele momento, algo a dizia que não seria tão fácil, mesmo que aceitasse a proposta de Logan. Se sua reputação já não era das melhores, ela temia que sua presença inquietasse os outros alunos no Instituto – e, na pior das hipóteses, até mesmo Kitty.
A loira sentou-se, como se entrasse em meditação. Curioso, Logan a olhava pacientemente por baixo do chapéu.
— As pessoas que estão indo com você... Estarão bem com isso? Comigo indo junto?
Silencio. A resposta de Logan foi o silencio, como um sorriso formado no rosto de Illyana indicou sua dedução. Se Logan não era bom em manter a compostura, então aquele não foi bem o momento certo.
— É, eu já imaginava isso – ela respondeu, sorrindo ironicamente – Kitty... e o meu irmão. Eles já decidiram?
— Peter fica. Já a Kitty, ela tá indo, claro.
— Qual seria meu status se decidisse ir? Estudante? Instrutora? Conselheira? Limparia os banheiros? Ou... ainda uma prisioneira?
— Não sei, guria – Logan suspirou, balançando as mãos – Isso ficaria pro pessoal decidir.
Ela brincava com uma mecha de seu cabelo, relevando a proposta.
— Eu quero ser livre, mas... Suspeito que se sair, SE eu pudesse deixar esta cela... Seu grupo não admitiria isso. Não mesmo. Além do mais, eu não quero causar mais problemas a ninguém.
Ele sentiu apreensão. No fim, ele sabia como ela sentia-se. Uma bomba humana, prestes a explodir no menor sinal de descontrole, assustada para machucar os outros ao seu redor. Sim, ele sabia bem como era estar daquela forma. Pois o que mais, alem de machucar pessoas, Logan era bom?
— Não se preocupe, Logan, não precisa descobrir como acomodar o demônio. Eu não irei com você.
O velho carcaju grunhiu, ajeitando o chapéu.
— Você ainda se chama disso, menina?
— E do que mais me chamaria se estivesse em meu lugar? – retrucou a loira, deixando-o em silencio. Ela sorriu fracamente.
— É, eu já imaginava isso também. Como confiaria em alguém que nem mesmo telepatas podem averiguar, ou que nem mesmo você sabe quando falo ou não a verdade? Eu mesma não confiaria.
Agora que ele parara para pensar, havia uma constante inalterada em illyana. Os poderes olfativos do mutante eram tão bons quanto um detector de mentiras em qualquer dia da semana para descobrir as reais intenções de outra pessoa. Medo, raiva, excitação. Nenhum detalhe podia lhe escapar, assim como ele era capaz, se quisesse, de rastrear uma formiga em pleno deserto do Saara.
Mas aquela garota era uma incrível exceção, e aquilo perturbara até mesmo Hank McCoy, quando lhe fora perguntado sobre. O que a tornava tão indecifrável?
— Como isso funciona mesmo? Nada te altera. Seu cheiro, sua frequência cardíaca, tudo é sempre o mesmo, independente se mente ou diz a verdade. Como tu faz isso? Muito autocontrole? Ou alguma coisa a mais?
Illyana apenas meneou, olhando o reflexo de si mesma formada no vidro da cela.
— Eu não acho que... não acho que já deixei o lance demoníaco pra trás. Eu não seria boa para sua escola, muito menos, bem vinda. Acho melhor ficar aqui, Wolverine.
Ela lançou-o um olhar definitivo, e ele entendeu a resposta. Triste, ele pensou. Triste porque as coisas tinham que acabar daquela forma. Trágico como uma mera criança se passava por um monstro da pior espécie. Uma criança que não merecia a vida sofrida que lhe foi concedida. Havia sido assim com X-23, e agora, era Magia quem caminhava em uma tenue corda bamba entre a luz e a escuridão.
Com a mochila em mãos, ele deu um ultimo olhar a illyana, caminhando até a porta da prisão.
— Adeus, criança.
A loira o olhou de relance, um leve sorriso desenhado em seu rosto. Ela havia esquecido como as vezes, mesmo até homens como Wolverine eram gentis quando queriam. E como ele havia lhe trazido uma pitada de esperança naquele momento.
— Adeus, Logan. E obrigado pela oferta.
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Um dia depois – Utopia
O café ainda morno trouxe um saboroso aroma, e o líder dos X-Men deixou a ducha ainda cedo, os raios de sol mal tingindo o ambiente com o nascer de mais um dia. Com a toalha enrolada pelo pescoço, Scott molhou o chão enquanto caminhava pelo cômodo. Ele não conseguia dormir naqueles dias. Muita coisa parecia cair sobre seus ombros; a separação dos X-Men mais uma vez; a iminente incerteza do destino da raça mutante. O futuro apocalíptico o qual eles vinham tentando evitar.
E ele, como seu líder, deveria manter a postura. Quando não acordava Emma a noite, então era a cerveja que ocupava seu tempo, afastando seus e pesadelos. A preocupação que, não fossem seus raios ópticos, estaria estampada a todos em seus olhos. Dando um gole do delicioso café, Scott voltou os olhos a presença silenciosa de Emma Frost na sala de reuniões, entretida em alguns papeis.
Com certeza, mais dados sobre sua mais recente “paciente”, por assim dizer.
— Bom dia, Emma – o mutante disse, beijando a loira carinhosamente.
— Bom dia, querido – replicou ela, voltando os olhos ao amontoado de documentos em suas mãos. Era verdade, claro, que Emma em sua infinita dedicação tutelar, investiria em passar a manha tão cedo a analisar os testes psicológicos realizados em Magia.
Fora ela, afinal, quem havia sugerido a ideia.
Se houvesse alguma chance de compreender melhor – e ajudar Illyana, de qualquer maneira – então o tempo investido não seria de tão ruim. Na verdade, era melhor ocupar o cérebro com algo do que perder sono com a leva de alunos que havia deixado Utopia ao lado de Wolverine. Com isso, o líder dos X-Men massageou a cabeça, tentando esquecer aqueles pensamentos.
— Algum problema, Scott?
— Nada que valha a pena se preocupar. – ele gesticulou, em asco — E Illyana? Como está indo?
— Eu estava justamente a finalizar os resultados sobre a psique de Illyana – a loira explicou. – O Clube X a examinou fisicamente e as Cuckoos e eu realizamos inúmeros testes psicológicos. E claro, como só ela consegue nos surpreender, ela fora extremamente cooperativa.
Uma longa pausa, e Scott deu mais um gole.
— E?
Emma suspirou. – É complicado. Ela aparenta estar dizendo a verdade. Ela parece de fato, motivada a cumprir sua pena e voltar a, em suas próprias palavras, “a sua vida normal”, se é que nós podemos ter uma vida normal – ela brincou, fazendo Scott assentir levemente — A verdade é que tudo que eu e as garotas sabemos é que sua psique é muito complexa e contraditoria. E o pior, eu diria que ela é uma das maiores vitimas de abuso que já conheci.
— Como? Se refere a seu tempo no Limbo, imagino... – Scott sentiu-se inquieto, coçando o queixo.
— Acredito que sim — ela assentiu — foi seu tempo no Limbo. Mas é que as coisas se complicam aí. Sabemos pouco de como ela foi reencorporada e renascida após sua morte pelo Virus Legado. Acredito Scott, que o processo foi muito ruim. Horrível demais. Ela carrega muito traumas suprimidos, e pior ainda, adicione isso tudo com um comportamento demoníaco psicótico e sua personalidade fria se torna ainda mais complicada de se decifrar. É difícil distinguir quais suas reais intenções e o que ela decide transparecer para nós. Scott – Emma suspirou, coçando os olhos por baixo dos óculos de grau – ela ainda é, emocionalmente, uma adolescente de 17 anos. Illyana tem motivações e compreensão adultas, mas sua forma permanece de uma mera jovem, mesmo com seu histórico de viagens no tempo. Não temos como saber o que ocorre na sua cabeça.
Scott pareceu ponderar.
— Ela a deixou fazer uma analise psíquica mais a fundo?
Um sorriso irônico desenhou-se nos lábios de Emma, como se transbordasse desgosto com a mera ideia.
— Ceus, não! Nem mesmo pedimos isso. Apenas a estudamos exteriormente. Nem eu nem as garotas tínhamos vontade alguma de ir mais a fundo em sua mente, tampouco acho que ela permitiria. Há muito indesejado lá dentro, em parte devido ao que ela passou no Limbo, e claro, sua experiência com viagens temporais. Além disso – a loira lembrou – seu lado demoníaco.
A verdade era, por mais que todo olhar na ilha mutante lançado a Scott pedia o pior dos castigos à jovem, uma segunda chance era tudo que o líder dos X-Men podia pensar. E Emma, embora relutante a principio, agora também desejava o mesmo. Erik, que já tivera o papel de tutor dos Novos Mutantes, sabia bem como ela se comportava e, bem como Scott, aprovou a tentativa de reabilitar Illyana.
E a tarefa de auxilia-la a voltar a sua rotina com os mutantes era, alem de tudo, deveras desafiadora. Um desafio que interessava, e muito, Emma Frost.
— Bem, ela já fez algum progresso? – Scott ajeitou os óculos, se inclinando na cadeira.
— De certa forma, sim – Emma disse lentamente – Ela está mais estável e continua, como sempre vemos Illyana dessa forma, aborrecida. Porem, ela já não é a mesma Magia que aprisionamos após fazer a todos nós de idiotas. As garotas e eu achamos que a sua alma está voltando a ser como antes.
Scott a lançou um olhar quase aliviado. Ele imaginou como Peter, emotivo como sempre fora, reagiria a tal noticia. Muito embora essa mudança não faria diferença alguma nos sentimentos do herói. Seu amor era, acima de tudo, incondicional. Agora, quanto a Kitty, poucas eram as chances da jovem esboçar alguma reação otimista sobre a amiga, palavra esta que nem mesmo Scott tinha certeza se Katheryne Pryde ainda usava.
— Em resumo – Emma continuou , levantando-se e guardando os óculos de leitura – Acho, Scott, que nossa cara Illyana é uma candidata viável para o time que você queria formar.
Mordendo os lábios, Summers inquietou-se.
— E se tudo cair por terra? E se estivermos errados sobre ela? – disse ele, tão incerto daquelas palavras quanto tentou transparecer. No fundo, ele desejava sim, que ela estivesse pronta. Que seu desejo de mudar fosse verdadeiro.
— Realmente não sei. Espero que a ideia de liberta-la, no entanto, a retorne a um estado totalmente humano. Acho, querido, que precisamos ser flexíveis. E, se preciso, influencia-la com interações sociais. – concluiu a loira, em uma expressão que convencia Scott de que aquela era a melhor decisão.
— E para tanto, ela não vai conseguir isso dentro daquela cela – ela finalizou.
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Illyana Rasputin gostava de pensar que nada a assustava. Afinal, com o nada humilde posto de feiticeira viajante do tempo e governante do Limbo, o quê – no mundo dos vivos ou no outro mundo – a poderia amedronta-la? Nem mesmo Belasco, em sua infinita malevolência e poderes absolutos no Limbo, havia de causa-la pavor.
Ela vira os Deuses Antigos, seres capazes de enlouquecer a mais fraca das mentes; presenciara amigos caírem sob a corrupção infernal; tivera o desprazer de enfrenta-los e , no fim, mata-los. E acima de tudo, enfrentar ainda jovem, o mundo que a teme e odeia todos os dias. Nada a poderia, de fato, assusta-la.
Então, como se por ironia do destino, um portal místico decide formar-se em sua frente, fazendo-a retirar lentamente os fones de ouvido. O vento emanado pela feitiçaria bagunçou fortemente seus cabelos dourados, e ela afastou-se do portal, dando espaço para o misterioso invasor. O portal fechou-se num brilho azulado, atrás da figura esguia que agora a olhava cordialmente.
O homem, trajando um verde extravagante e um par de chifres dourados, em uma estatura pouco maior do que Magia, fez uma saudação exagerada para pedir sua mão. Rolando os olhos por reconhece-lo, Illyana estendeu uma das mãos, apenas para o rapaz beijar as costas dela e lançar a jovem um olhar sedutor.
O Deus nórdico da Mentira e Trapaça disse, então, as 4 palavras mais assustadoras que alguém poderia juntar na mesma frase.
— Preciso de um favor.
Loki trazia aquele típico olhar arrogante, comum em seres do seu patamar. Deuses, sempre vendo-se acima de todos, embora poucos argumentos pudessem, de fato, afirmar o contrário. Claro, ela julgou que ele deveria ter algum motivo para aquilo. Todos sabiam que Loki, fazendo jus a reputação que lhe seguia de nascença, sempre tinha um motivo a mais para tudo. A questão era qual seria o preço de tal favor. Qual seria a pegadinha. Pois, claro, sempre havia um, e Illyana, sendo expert em acordos, sabia muito bem disso.
— Não – ela disse simplesmente, sentando-se novamente na cama desfeita.
Com irritante naturalidade, Loki sentou-se do seu lado, ousando ainda inclinar-se e manter seu rosto próximo ao dela. Ela rolou os olhos.
— Ora, mas você não ouviu o que é ainda.
— Não me importo – ela retrucou.
O deus não se deu por vencido.
— E se eu a dissesse, Illyana Rasputin, que alguém lá fora tivera sua essência tomada, por seres grandes e terríveis, e que fora tragada até os anais da pura criação? Que essa pessoa , minha cara, foi usada, abusada e então, sacrificada?
Nenhuma reação de Magia, para pasmo de Loki. Não era necessário ser um gênio para perceber que o maldito estava fazendo um obvio jogo de palavras à loira. Para que ela se sentisse refletida naquela situação. Tornar a questão pessoal e lembra-la de si própria. Típico do Deus da Mentira. Loki deslizou seus dedos pelo seu rosto, olhando-a em seus olhos azulados. Se Magia não fosse tão irredutível, ele pensou, ele já a teria a seus pés, como sempre acontecia com todas as outras. Porem, ele teria de ser mais convincente se quisesse seu apoio. Muito mais. Ainda assim... Maldito seja..
Estava funcionando.
— E – ele pigarreou, reformulando suas palavras – Se eu a dissesse que só você pode salvar essa pessoa?
Illyana o olhou de soslaio.
— Está mentindo.
— Sim. Mas minhas melhores mentiras ocorrem logo após quando formulo uma verdade. Todos sabem disso.
Illyana deu de ombros. – Desembucha.
Como que teatralmente, o deus reapareceu na sua frente de pé. Ele ergueu as mãos e um brilho mágico cercou a sala. Olhando em volta, Illyana lançou um olhar questionador, pois se aquilo fosse problemático para si, no mínimo, aquela situação seria dada como uma tentativa de fuga por parte de Illyana.
E, com isso, sua promessa de bom comportamento iria por água abaixo.
— Um glamour, é so isso – explicou Loki – Não quero que ninguém nos atrapalhe por enquanto. Então lancei este feitiço. Aos olhos de quem nos vê, a senhorita estará meramente entretida em seus afazeres, e não conversando com o magnífico Deus Loki – gabou-se ele, fazendo-a gesticular impacientemente para que ele continuasse.
— Sim, sim... Ora vejamos, tu terás de ajudar essa pobre e infortunada pessoa a ter sua alma restaurada. Faça-a completa outra vez. E assim, a vida de alguém será salva.
Illyana deixou um sorriso sarcástico se formar em seus lábios.
— Isso é uma gigantesca situação coincidental, ou é alguma profunda metáfora sobre eu salvar a mim mesma?
— Receio não saber do que a senhorita estás falando – Loki disse, em forçada inocência – Mas se for este o caso, então estás implicando que tu ainda precisas ser salva. Bem, sobre o acordo, há algo que precises, Srta. Rasputin?
— Sim – ela respondeu, o olhando com olhos gananciosos – O que ganho em troca?
Loki riu. – Além da satisfação de ter ajudado alguém em tão difíceis circunstancias?
— Alem disso? Sim.
Loki pareceu extremamente interessado. Divertido era a palavra certa.
— O que tu desejas, então? Se seu pedido for razoável, eu pagarei o preço.
— Sua palavra.
— Minha palavra? – ele franziu o cenho, fechando o sorriso.
Ela assentiu, pondo-se de pé. Ela o fitou friamente.
— Sua palavra de que essa pessoa, seja quem for, não será afetada, diretamente ou indiretamente, por causa deste favor.
— Minha... Minha palavra? – ele gargalhou, meneando com a cabeça – Pedes minha palavra quando posso muito bem mentir? Este é um preço deveras barato, não achas?
— “Mas as melhores mentiras são quando formula a verdade”, não é? Torne esta a parte verdadeira, então.
— Oh, eu sabia que havia alguma razão de porque eu gostavas de ti, Illyana Rasputin.
— Alem do mais, eu sei que terá de jurar pelo seu poder, seu posto divino ou com seu próprio sangue, seja o que for...
Outra vez, Loki pareceu divertir-se, deslizando as mãos pelo rosto da loira.
— Ah, sim. Havia esquecido o quão bem tu és versada nas Artes Misticas.
Illyana sorriu, convencida. – Não, não esqueceu. Na verdade, é a parte do porque veio até mim. Obviamente, você precisa de alguém treinado em magia. Mas, por alguma razão, não pode ser você. Voce não foi até Stephen Strange, e algo me diz que está preocupado que ele diga “não”. O que indica que o que deseja que eu faça, se situa em uma área cinzenta, moralmente falando.
O deus cruzou os braços, ficando de costas. Assentindo levemente, ele a olhou de relance.
— Hnf. Que seja. Pense o que quiser.
— O que tenho de fazer? – ela inquiriu, finalmente, fazendo-o sorrir satisfeito.
— Junte as 3 partes da alma da pobre infortunada. Leah, é seu nome. Una-as outra vez. É relativamente simples.
— Espero pela parte onde você explica por que não pode fazer isso por conta própria...
Ele grunhiu, andando de lado a outro.
— É uma longa historia. Em resumo, não posso, nunca pude, e não poderei. Enfim, temos um acordo?
Ver aquele sorrisinho se dissipar do rosto do deus foi satisfatório o bastante. Claro, não era todo dia que um ser a nível divino realizava pactos a preço da própria honra – o que, para Loki, deveria doer tanto quanto qualquer outra coisa. Algo dizia a Illyana que aquela missão seria divertida. Infelizmente, Scott e Emma não poderiam saber de tal fuga temporária, ainda que com motivos tão nobres quanto juntar uma alma por completo outra vez. E, caso descobrissem sobre tal missão, nada que uma viagem temporal à segundos antes de deixar a cela não resolvessem.
Quando voltou os olhos à Loki, ele estendeu as mãos. Ao toca-las, uma sensação quente lhe apossou. Repentinamente, uma orbe, pura e branca, deslizou por ela, flutuando no ar a sua frente, e sumindo em seu braço, explorando cada parte do seu ser. A sensação, calmante e convidativa, pulsou em seu interior, e a russa logo entendeu do que se tratava.
A alma da tal Leah. Ou, como Loki deixara a entender, apenas uma porção de seu ser. Ela sabia como fragmentos espirituais pareciam. Claro que sabia.. Pois, um dia, ela já havia perdido a própria alma.
—Onde conseguiu isto? – ela perguntou, irritada, enquanto a orbe flutuava ao seu redor.
— Foi me dado por ela. De bom grado. Ela segurou minhas mãos, ela, Leah, e então... De repente, éramos melhores amigos. Fomos melhores amigos. E ela morreu, claro. Terrível. Ela foi criada apenas para ser sacrificada, entende? – ele murmurou, em um tom entristecido – Horrivel. Eu sempre achei isso extremamente ofensivo, se quer saber.
Quando o morno pedaço da alma voltou as mãos de Loki, Illyana sentiu-se pesada. Ela sentiu-se triste, sozinha, como sempre esteve. E por um momento, ela desejou aquela sensação aconchegante outra vez.
— Quem ? – a loira exigiu – Quem fez isso a Leah?
— Oh, que bom que perguntaste. Foi Hela. Cujo paradeiro será seu próximo destino. Lembre-se de levar sua espada espiritual. Tu precisarás dela, acredite. Embora ela não esteja mais no controle de Hel nestes tempos, receio que tal infortúnio não importe muito a Hela. Terá de ser cuidadosa se deseja obter mais um fragmento de Leah. E isso – Loki fitou as algemas que restringiam Illyana – Não se preocupe com elas, eu as desativarei agora e quando voltar para teu confinamento, as ativarei novamente, sim?
Com um estalar de dedos, a cela da prisão ficou para trás, e o portal conjurado por Loki os levou a um céu escuro, dotado de inúmeras estrelas. A ilha de Utopia fora deixada para trás, não à quilômetros de distância mas, sim, a uma dimensão diferente. Hel. O inferno nórdico. Um tipo de paisagem a qual ambos estavam muito bem acostumados. Deslizando pelas mãos de Loki, o tênue fragmento espiritual entrou outra vez em illyana. Com isso, Loki lembrou-se de mais um detalhe.
— Ah, sim! Tu terás de carregar a alma de Leah consigo. Assim, não só ficará mais fácil de rastrear os outros fragmentos, como logo poderá restaura-la quando conseguir todas as partes.
Sem as algemas a restringindo,, Illyana sentiu a leveza das mãos outra vez. Erguendo-as, a espada espiritual de Illyana surgiu subitamente, e com isso, uma aura mística azulada a cercou, deixando sua roupa de prisioneira de lado para dar lugar ao traje dourado e preto dos Novos Mutantes. Em seu braço, uma couraça metálica começou a se formar, traços de sua natureza demoniaca aliada a seus poderes. Em seu lado, um disco de teleporte conjurado por Magia se projetou , e ela lançou-lhe um último olhar.
— Pode deixar comigo a partir daqui, chifrudo.
Espada em mãos e deixando o Deus Nórdico para trás, ela mergulhou no portal.
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Se ela esperava que dor e miséria a aguardavam, agora o tão temido Hel parecia quase... pacifico. Muito se sabia sobra a saida de Hela após ser destronada com a vitoria de Angela, mas a situação no mundo inferior nórdico não parecia tão ruim quanto ela imaginava. Claro, a paisagem desértica e cavernosa característica do submundo nórdico ainda existia, mas nada perturbador lhe alcançava os olhos. Nada de almas torturadas ou vitimas acorrentadas gritando e clamando por piedade. Os sussurros dos condenados não arranhavam seus ouvidos como no Limbo. Muito menos, cães infernais surrupiavam os arredores. O inferno nórdico agora era apenas isso: uma sociedade não tão diferente de Asgard.
Porem, eram almas que vagavam pelas estradas, eram mortos que formavam aquela sociedade. E ao caminhar entre eles, Magia notou os olhares desejosos a si. Vida, era claro. Ela tinha algo que eles há muito perderam: o calor da vida. E foram os olhares tristes e depressivos que a acompanharam pelas ruas de Hel. Não que a irritasse, pelo contrario. Aquilo apenas a entristeceu. Tornava aquilo tudo pior de suportar.
Mas aquilo não fora a unica coisa a irrita-la. A passagem de tempo era distorcida em lugares como aquele. O que foram apenas algumas horas em Hel, pareceram anos, décadas... Assim como no Limbo, a distorção temporal se comportava diferente do tempo no mundo dos vivos. E assim foi, enquanto Illyana era guiada pelo medalhão magico cedido por Loki. O objeto redondo, dotado de runas asgardianas, a indicaria a direção que, segundo o deus, lhe levaria até o primeiro fragmento de Leah. A X-Men se viu atravessando corredores e tumbas por toda Hel, o que, para sua irritação maior, se mostrou um caminho particularmente amistoso, sem alguma real diversão.
Enfim, o medalhão passou a brilhar mais intensamente, e com ele, o calor emanado pela alma de Leah.
Uma sala de trono. O medalhão mágico havia a guiado até um trono; ruínas esquecidas e empoeiradas pelos deuses, deixadas para trás após a guerra pelo controle do reino Infernal. Cadáveres – ou melhor, esqueletos — de guerreiros caídos em armaduras cintilantes, banhavam o local, e o cheiro místico e arcano dali emanava forte.
Illyana parou ao ver aquela figura. De pé, a mulher lançou um sorriso surpreso ao perceber a presença de Magia. Tão cordeal quanto uma rainha deveria ser, ela a saudou, caminhando em passos elegantes e imponentes. A mesma figura extravagante em cores esmeraldas, como Loki, a observou com um olhar divertido.
— Ah, emissária de Loki. Eu imaginava quando ele a enviaria — disse ela, em uma risadinha estridente.
Illyana pensou em preparar meia dúzia de feitiços. Mas descartou a ideia; Hela podia ser do mesmo tipo de Loki, trapaceira e imprevisível, taciturna e maquiavélica. Mas também sabia ser cordial e polida, esperta apenas quando lhe provocavam. Não, a aproximação seria outra, Illyana decidiu.
Guardando a espada, a loira aproximou-se da rainha, já certa de como recuperaria o primeiro fragmento da alma de Leah. Uma forma que a deusa conhecia bem, e que dispensaria, se ocorresse de acordo com seu plano, um derramamento de sangue.
— Hela. Vim exatamente a sua procura. E acho que você vai gostar do que tenho a te propor.
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