X-Men : Magia e Pecado
1 A Bruxa e a Loba
Notas iniciais
Sempre quis escrever algo com relação à Magia, dado meu carinho pela personagem. Embora seja meio deixada de lado nas historias, dado à fama de oujtros como Wolverine, Homem Aranha e Capitão America, minha querida "floquinho de neve" vem ganhando fama e notoriedade nesses ultimos anos. Tambem pudera, ela é uma otima personagem, e o Claremont fez um otimo trabalho idealizando-a.
Enfim, essa fic se trata do tempo que a personagem passou encarcerada pelos XMen. E tem muita coisa que ela pode ter feito nesse meio tempo, então prometo de tudo nessa fanfic. Sem mais delongas, boa leitura! XD
E ela sentiu o peso irritante das algemas lhe incomodar outra vez.
Era irritante – embora, ela devia concordar, compreensível – como Scott mesmo tão condescendente quanto Emma gostaria que o líder dos X-Men tivesse sido, decidira algema-la completamente com a ajuda do próprio Stephen Strange. E para diversão de Magia, uma bomba acoplada em seu peito como um lembrete de seu cárcere cela mais guardada da X-Brig. Claro, solidão não era exatamente o problema, desde que recebia visitas frequentemente. Piotr, obvio, sempre olhando pelo seu “floquinho de neve”, ainda mantinha um fraco sorriso no rosto. Feliz por ainda ter sua irmãzinha; mas, claro, descontente com a decisão de Scott.
Já Katya? Não. Tão difícil quanto ter salvo o mundo dos Deuses Antigos após ter falhado tantas vezes, foi fitar Kitty Pryde aquele dia. Os olhos de sua melhor amiga, desde então, a encaravam como se dissessem “estou desapontada com você”. E, embora Illyana Rasputina jamais admitisse, aquele olhar doía tanto quanto o mais forte feitiço conjurado por Belasco.
E haviam os Novos Mutantes. Era como se as memórias de antigamente retornassem com força desde que vestira o traje preto e amarelado da equipe. Em seu âmago, uma nostalgia batera em seu peito. Quando eram apenas eles, os Nvos Mutantes contra o mundo que os temia e odiava. Quando tudo parecia mais fácil, e todos, mesmo portando o titulo de seus amigos, a olhavam constantemente apenas como um demônio maligno, e não como ela desejava ser vista. Como Illyana Nikolievitch Rasputina.
A exceção, porem, de duas pessoas: Rahne Sinclair e Dani Moonstar. De fato, de todos os membros dos Novos Mutantes, Rahne fora a única a qual tivera a audácia de chama-la frequentemente de “bruxa”, “demônio” ou qualquer outro derivado a qual Illyana se divertia ao tentar lembrar. Mas os dias de insultar Magia passaram, e no fim, se a mutante precisava de ajuda, era Rahne, ironicamente, quem estava prestes a apoia-la. Como uma amiga.
E foi a presença tímida da ruiva que tirou a atenção de Illyana do livro em mãos. não de todo mal, a propósito, pois logo jogou o objeto de lado, dando atenção à velha amiga. Ela ainda tinha algumas discussões a fazer com Scott sobre a qualidade duvidosa de livros que ela tinha para se entreter.
— Olá, Rahne. Quanto tempo.
De fato, fazia muito tempo desde que ambas se viram. Talvez a Rahne que viera a cabeça da feiticeira infernal ainda fosse aquela criança devota e ingênua, pronta para buscar o pior nome possível à companheira, e no fundo, Illyana divertiria-se com a situação. mas eram outros tempos, e Rahne, logo a russa percebeu, continuava amadurecida.
— Illyana – disse ela, em seu forte sotaque escocês – é bom vê-la novamente, acho...
— Acho? – ela deu de ombros, sorrindo – Pelos velhos deuses, garota. Se quer me insultar, me chame de bruxa como nos velhos tempos.
Rahne pareceu inquieta.
— Illyana, não seja assim. Sabe que deixamos essa época para trás. Não éramos amigas?
A loira meneou, como pouco se importasse. Tomou o livro em mãos outra vez e pos-se a folea-lo, sussurando baixinho. Rahne sabia que não havia espaço para ressentimentos, ainda mais se tratando de Magia, o qual tal traço de personalidade estava longe do seu ser. E foi por isso que a jovem mutante arrastou uma cadeira próxima a cela, e encarou Illyana. O ruído do objeto contra o chão irritou a loira, fazendo-a suspirar e deixar o livro de lado.
— Não esta aqui para me insultar, certo? Por que se for isso, entra na fila. Voce não é a primeira a querer um pedaço meu.
Rahne a olhou com dó. Não que a loira fosse do tipo sentimental, mas o que ela menos precisava era de mais ódio em cima dela.
— Não vim julga-la. E acho que como amigas, gostaria de conversar. – ela olhou em volta. A cela não parecia tão grande, consistindo apenas de uma cama e uma ducha fechada. Alguns livros e folhas estavam empilhados numa pequena mesinha. — Err, voce precisa de alguma coisa? Essa cela não parece ser muito divertida de se passar o dia.
Pensativa, Illyana levou o dedo à boca:
— Deixe-me ver, acho que alguns livros melhores. Não é como se me deixaram aqui com uma boa leva de entretenimento. Sério, quem achou que uma escola onde um lorde maligno anda solto e campeonatos suicidas entre alunos é segura para se estudar? E em pleno século XXI ainda aderem a essa crença boba de que bruxos tem de voar em vassouras? Isso é tão clichê.
— Harry Potter? – Rahne surpreendeu-se com a leitura da loira, inclinando-se para ver a capa do livro. De fato, aquilo mais parecia uma tortura do que mero cárcere, ela sorriu levemente. – Que tipo de prisão é essa? Acho que tenho pena de voce, Illyana. Bem, se quiser que traga algumas coisas para voce, não vejo problema.O que tem em mente?
— Não sei, talvez, Lovecraft? Ouvi falar que o cara é um mestre no ramo, e terror faz mais minha praia.
— Terror? É, é bem sua cara mesmo – disse a outra, sorrindo com a ironia de que a garota em sua frente fora responsável pela chacina dos próprios ditos Deuses Antigos. Mais irônico ainda era o fato de que Illyana parecia desconhecer a relação entre as duas coisas.
— Ah, e se puder arranjar uma tesoura e um Shampoo, eu agradeceria. Não é como se eu vivesse num Spa por aqui, e Scott e Emma não me concedem muitas opções – ela resmungou, cheirando a mecha que caia próximo a seu rosto.
— Anotado.
— Oh, e mais uma coisa. Desde tudo isso, não tenho visto tanto a Katya. Peça a ela – a russa murmurou, o sorriso se desfazendo levemente com a menção do nome da amiga.
Rahne podia imaginar o que havia acontecido a ambas. E como devia ser difícil para a própria Illyana olha-la nos olhos. Por dentro, Illyana estava quebrada. Ela só não admitiria isso.
– Se puder, quero que diga a Kitty que... que peço desculpas... De verdade. Sinto falta dela.
Era visível que mesmo com a habilidade em esconder seus sentimentos tão facilmente, tudo que a russa demonstrava era tristeza. E dizer aquelas palaras, se a ruiva bem conhecia Illyana, era tão difícil quanto. Os eventos daquele dia, Inferno, o sacrifício da jovem Illyana, reduzida a uma versão infantil e alheia a vida no Limbo. Sem memórias de seu tempo nos Novos Mutantes, mas carregando a gloria de uma heroína, apenas para mais tarde, morrer a mercê de um vírus letal. Nenhuma criança deveria passar por tudo aquilo. Todo o sofrimento e solidão, acumulados em uma criança de cabelos dourados.
Mas Illyana passou, e a garota algemada naquela cela era o puro reflexo do resultado que mais ninguém tinha, apesar de tudo, direito de julgar. Julga-la, como a propria Rahne já havia feito um dia.
— Illyana, quer conversar? Sabe... por que – a ruiva sentiu-se inquieta – por que fez tudo isso? por que usou todos?
O semblante da loira fechou-se, irritada por aquela frequente pergunta. Por que eles não podiam entender?
— O que Scott te contou? – Magia inquiriu.
— Só o necessário. Eu... eu preferia ouvir isso de você.
— Voce também agora, Rahne? Vai me condenar pelo que fiz? Pois que seja. Por que, se quer saber, eu faria tudo de novo. Não, espere! Eu fiz sim, tudo de novo, incontáveis vezes.
O olhar da loira perdeu-se pela sala. Todas as mortes, todas as vezes que falhara em deter os Velhos Deuses. Katya, Piotr, Dani... todos mortos sob seus pés, e o rastro de destruição das entidades que mal podiam ser compreendidas era deixadas para trás, apenas para voltar num loop outra vez. E a cada batalha que Magia fracassava, ela planejava seus próximos passos. Era como se a cada derrota dos X-Men que a mutante tentava impedir, um pouco da sua sanidade ia junto.
Por fim, ela conseguiu. Os Velhos Deuses foram apagados. E com eles, a confiança dos X-Men em um seus companheiros também.
— O que? – surpreendeu-se Rahne – Eu imaginei que seu período de redenção havia começado ao se entregar, Illyana. Eu rezo por você, para que voce se arrependa de seus pecados, por que eu acredito em você!
Illyana revirou os olhos com a inocência da amiga.
— Pecados? Não chamo de pecados salvar o mundo sem baixas pro nosso lado quando a única a ter de passar por tudo fui eu, Rahne. Acho que deviam, no mínimo, entender meu ponto, mesmo que não concordem.
— Mas voce usou os X-Men, Illyana! Libertou o filho de Charles Xavier, deixando todos em perigo, e tudo para sua vingança. Eu quero que saiba que a perdoo, de verdade. Mas os outros... Eles não parecem tão contentes.
— Bem – a mutante meneou, sentando-se calmamente em sua cama. – o que importa é que desejo continuar minha vida como antes. Então, aceitei essa prisão pelo tempo que Scott achar necessário.
A ruiva suspirou, olhando a amiga de relance.
— E você está satisfeita assim?
Magia assentiu.
— É o que combinamos. Ninguém tem de gostar de mim. Ninguém tem de falar comigo. Fiquem fora do meu caminho e eu não conjuro um sapo em seus refrigerantes. O que, admito, seria bem divertido – Illyana ponderou, um sorriso maligno desenhando-se em seus lábios.
— Essas algemas a impedem de usar seus poderes, certo? – questionou Rahne.
— Sim. Mas mesmo que não bloqueassem, minha cara Rahne, pode beber seu refrigerante a vontade. Prometo que não usarei minha magia fora da escola.
A mera menção de Harry Potter fez Rahne franzir o cenho. Ela precisava, urgentemente, aumentar o repertorio de obras para a pobre Illyana. Alguns livros não seriam problema ceder à feiticeira, e mesmo que tais livros fossem dotados de natureza mágica – o que , com certeza, traria mais interesse à Magia – escapar da prisão não era do seu interesse, mesmo que pudesse. Sua vontade em se provar de confiança uma vez mais, era, acima de tudo, verdadeira.
Desde que entrara naquela cela, Rahne só ouviu verdades. E isso a deixou contente. Illyana está mudada, ela disse a si mesma. Por que os outros não veem isso?
— Por quanto tempo acha que terá de ficar aqui? – a ruiva sentou-se outra vez, e o clima pareceu amenizar, pois um sorriso convencido surgiu no rosto da russa.
— Não faço ideia. Talvez se o Ciclope precisar de meus poderes algum momento, ele pedirá minha ajuda. Nosso destemido líder pode ser duro, mas não idiota.
— Bem, rezarei por você, Illyana. Não me agrada te ver nessa situação.
— Ah, sentimentalismo demais me deixa nauseada – a loira revirou os olhos, mas Rahne pareceu não se importar. Ela já estava acostumada. – Contanto que traga alguns shampoos e obras literárias com gosto não tão duvidoso como o Sr Potter aqui, estamos bem.
Fazia tempo que a irlandesa sentia-se a vontade perto de Illyana. De fato, não se tratava do passado, ou do que a russa fizera até ali – se tratava do que a mutante buscava estando presa. Mais do que isso, era pessoal, e Illyana apenas desejava retornar a sua vida como era antes. Quando tudo que a esperava em seu lar eram os sorrisos nos rostos de seu irmão e sua querida amiga Kitty.
Rahne perguntava-se se podia ajuda-la, de alguma forma, a passar por aquela solidão. Se assim pudesse, ela o faria.
— Eu me pergunto se você merece toda essa raiva sobre seus ombros. Embora, a antiga Rahne – ela engoliu em seco, lembrando de tudo que já pensou sobre Magia. Como suas palavras infantis e preconceituosas devem tê-la ferido pouco a pouco a cada insulto direcionado a loira – Embora a antiga Rahne te odiaria, e condenaria como todos os outros. Se tem algo que aprendi com minha fé, com o livro sagrado... Eu...
Naquela hora, as palavras vagaram na mente de Rahne.
“Uma Biblia? – a ruiva franziu o cenho, estendendo o objeto de volta à Sam – Obrigado, Sam, mas eu já tenho uma dessas.
Sam Guthrie encontrava-se sentado com a companheira no jardim do suntuoso Instituto Xavier para Jovens Superdotados. A neve caia forte naquele inverno, e os outros haviam tirado a tarde para fazer uma ida descontraída ao shopping. Se fazia algum tempo que o jovem Guthrie percebia o desgosto da amiga em relação à Illyana, ele não podia julga-la, pois havia cometido o mesmo. Todos haviam cometido.
Sam a interrompeu, pedindo que Rahne a abrisse. Uima pagina parecia estar marcada, e ela foleou o livro sagrado, mesmo conhecendo tão bem quanto qualquer um.
— Rahne, eu notei que não parece gostar da Illyana. Na verdade, acho que posso dizer que você a odeia, garota.
Rahne sentiu-se culpada, fitando o amigo com um olhar suplicante. Odiar era muito forte, não era? Ela não gostava da companheira. Mas odiar?
— Sam, eu... eu não a odeio. Mas ela é má, eu sei! Voces viram, ela é um demônio, e não podemos confiar nela! Algum dia, voce, a Dani, Beto, Doug ou Amara vão se machucar graças a ela, e eu não quero que isso aconteça.
Sam suspirou, coçando a cabeça. A inocência da menina parecia tão forte quanto a fé que ela carregava.
— Olhe, entendo como se sente. Eu também, admito, julguei a Illyana mal. Mas quando ela tentou apenas ajudar a Dani, eu a machuquei, e isso foi errado. Ela é nossa amiga, e acima de tudo, um ser humano. Não pode trata-la mal só porque você não confia nela. A Illyana é uma pessoa boa.
— Mas, Sam – a menina parecia irredutível.
— “Há apenas um Juiz, aquele que pode salvar e destruir. Mas quem é voce para julgar o seu próximo?” – repetiu Sam, deixando Rahne sem palavras.
Ele levantou-se, decidindo deixar a ruiva a sós para, no mínimo, pensar a respeito. Ela precisava entender, decidiu Sam. O silencio durou quando os passos do rapaz adentraram a mansão.
Rahne continuou a folear a Biblia em mãos, quando uma pagina marcada chamou sua atenção. “Provavelmente, Sam queria que eu a olhasse”, murmurou a garota para si mesma.
“E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria”
Uma lagrima escorreu suavemente pelo rosto da irlandesa, e Rahne se viu abraçando o livro sagrado. O livro a qual, ela, agora, percebeu não seguir tão fielmente quando achou que seguia. E ela percebeu que, apesar de tudo, não era Magia que precisava ser castigada.
— Me desculpe, Illyana... eu jamais pensei que estava te machucando. Me desculpe, me desculpe, por favor... Eu...
— Rahne?
O olhar divertido da loira a encarava do outro lado da cela. Levemente envergonhada, Rahne tentou se recompor.
— Illyana, eu sei que não encara dessa forma, mas eu te perdoo. Quero que continuemos amigas, como éramos antes. Imagino que , em sua empreitada, o que quer que tenha passado, deve ter te custado muito. Eu já falhei com você antes, e não desejo cometer o mesmo erro outra vez. Então – a ruiva a fitou nos olhos, dando aquele sorriso que sempre dava quando se divertia com Magia. Não tardou para que a mutante considerasse Illyana como amiga, e só então, ela pode ver que no fundo, a loira não era má como Rahne imaginou que fosse. – Estamos bem?
Magia sorriu levemente. Agora, um sorriso sincero e tênue, não debochado. O tipo de sorriso que Rahne raramente vira a amiga fazer.
— Eu não desejaria de outra forma, Rahne. Mas sabe que os abraços vão ter de ficar pra depois, né? – lembrou a loira, cutucando o espesso vidro que a separava de Rahne.
Uma sensação quente lhe apossou. Vê-las tão amistosamente outra vez, como nos velhos tempos, era, mais do que tudo, uma benção para Rahne. Sua chance de pagar por seus erros, a ruiva sabia. Ela só se perguntava se Dani, mesmo com forte amizade com Illyana, sentia o mesmo, apesar de tudo que havia acontecido naqueles tempos tão turbulentos...
—...enfim, se puder arranjar algo melhor do que sagas juvenis que estouraram nos últimos anos, eu agradeceria.
— oh sim – Rahne piscou, ainda distraída, para diversão da Senhora Infernal.
— Serio, garota, voce anda meio distraída. Eu não acredito que esta assustada comigo mesmo estando presa?
— Não é isso, Illyana. Mas sim, verei o que posso fazer.
— Oh, e só me esclareça uma coisa, Rahne...
O olhar pensativo de Magia deixou-a curiosa. Rahne viu-se inclinando próximo a cela.
— Fui só eu ou também acha que aquele doido do Snape sofreu uma baita retcon? Quer dizer, qualé, não acho que a tal da Rowling pensou em transformar ele num mártir heroico desde o primeiro livro.
O que?, balbuciou Sinclair.
Rahne mal segurou uma risada. Ajeitando-se na cadeira, ela decidiu que aquele dias eria um recomeço. Não só para Illyana, cuja vida normal desejava outra vez. Mas também à própria Rahne.
Um recomeço a sua amizade.
— Bem, sobre isso... – começou a ruiva.
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