Written Memories
1 Capitulo 1
Setembro, 21. 18:31 horas:
Doutor Bryan Stroker. Quem dera que minha falecida mãe estivesse aqui agora para me ver, ganhei meu próprio escritório e a direção do centro psicológico, Bright Dawn Treatment Center, de maneira estupendamente rápida, nem mesmo eu esperava conseguir um cargo como esse de maneira tão fácil e rápida. Esperava mais alguns anos até chegar assim, mas parece que eu subestimei meu talento e a imagem que eu mesmo exerço nas pessoas, ou talvez o fato de que meu pai é quem paga as contas desse lugar tenha feito tudo isso ficar tão mais fácil. Não importa agora. Terei uma consulta com um paciente, a pedido do meu pai, em breve. Ao que parece, ele quer que eu estude o comportamento dele. Li a ficha dele, é um cara bem estranho, Henry Stantdford, 32 anos, esquizofrênico, sofre de constantes alucinações e tem uma maníaca obsessão pela cadeia alimentar. Pararei de escrever por agora, irei encontrá-lo e depois, escrevo tudo o que ocorreu neste diário.
Mesmo dia, 22:21 horas:
Descreverei aqui, com a máxima precisão de detalhes possível, a experiência que tive após parar de escrever. Levantei-me da cadeira, pegando meu jaleco branco, de um único bolso, onde se encontrava meu nome, Dr. B. Stroker. Coloquei-a e contemplei mais uma vez meu novo escritório, suas paredes eram brancas, no centro encontrava-se um carpete azulado, com bordados de pequenos anjos partindo circularmente das bordas até parar um pouco afastados do centro, onde encontrava-se sentado em uma cadeira a imagem de Jesus Cristo. Lembrete: Trocar de carpete. Percorri o olhar para direita, onde junto à porta encontrava-se uma cadeira de cedro, feita aos moldes do século XVIII, brilhava de tão bem cuidada pelas camareiras do centro psiquiátrico, percorrendo mais a direita havia uma janela, que dava para um jardim que ficava na lateral do centro, então virei meu olhar para o outro lado, onde havia um armário, com alguns de meus livros psicológicos preferidos, como “Grundzüge der physiologischen Psychologie”escrito por Wilhelm Wundt e “American Journal of Psychology”, entre outros e mais a direita, meu livro preferido, “Drácula”. Virei mais um pouco meu olhar e cheguei onde eu estava antes de ir até a porta, minha mesa, feita de carvalho, tinha em cima dela uma desorganizada quantidade de papeis, um pequeno abajur, e um caderno de capa grossa, preta e sem titulo, o meu diário.
Abri a porta e assustei uma das enfermeiras do local, que estava a poucos centímetros da porta, ela se desculpou rapidamente, e disse que tinha vindo até aqui para me chamar, que a sessão logo começaria. Agradeci a ela por todo esse trabalho e andei, observando o corredor onde me encontrava, não havia muitas portas nesse andar, apenas mais dois escritórios de dois outros doutores que trabalhavam aqui, e o quarto de enfermeiros, masculino e feminino, que fora criado para aqueles que algumas vezes fazem turno extra, e no receio de atravessar Londres pela madrugada, passam a noite aqui. Desci as escadas para chegar ao lobby, dei uma rápida olhada, vendo a construção. Havia na extremidade do canto direito, um pequeno circulo feito de uma madeira que eu desconheço. Lá um homem vestindo um paletó azul, o recepcionista, estava parado, analisando alguns papeis, acenei para ele, que me respondeu também com um aceno, andei mais um pouco, encontrando um grupo de freiras, que trabalhavam como enfermeiras aqui. Cortejei-as com um singelo “Boa noite” e fui respondido da mesma maneira. Passei pela porta de madeira, meio velha e desgastada pelo tempo, e andei pelo jardim, sendo cumprimentado por alguns guardas, enfermeiros, e pacientes. Andei mais uns poucos cinco minutos e cheguei até a 2° casa do Bright Dawn Treatment Center, a casa para pacientes.
Entrei nela, analisando o local. Havia aqui, uma estrutura bem diferente. Um grupo de enfermeiros, armados com porretes de madeira, ficavam no lobby, conversando animadamente enquanto uma freira servia chá para todos. Passei por eles rapidamente, chamando dois guardas para ir comigo. Subi as escadas e cheguei até o andar onde ficavam os pacientes, as paredes eram pintadas de um verde musgo, e todas as portas do local eram de um metal forte e resistente, aço talvez, em todas havia uma pequena janelinha e por onde eu senti olhos, de todas as cores, desde o verde mais claro até o negro mais escuro. Senti uma corrente elétrica percorrer meu corpo e me arrepiei. Eu e os guardas paramos na porta de numero vinte e um, e então um deles pegou de seu uniforme uma grande e pesada chave de metal, que encaixou na abertura da porta e a abriu.
Analisei o escuro ambiente do quarto, não haviam janelas, pelo menos não janelas como aquelas que conhecemos, tudo que havia era uma pequena abertura há uns dois metros e meio do chão, que não iluminava quase nada. Demorei um pouco para me acostumar com a pouca luminosidade do local, mas quando me acostumei notei que havia uma cama isolada no canto esquerdo do quarto, e um homem no chão de mármore do quarto, que colocava alguns pequenos torrões de açúcar no chão. E não pense que estou sendo desleixado com minha descrição, isso era tudo que havia no quarto.
Pedi permissão para entrar no local, mas não recebi nenhum tipo de resposta, mesmo assim, entrei no quarto, pedi que os guardas me trouxessem uma vela, e poucos segundos depois eles me trouxeram, coloquei a vela no chão, próximo ao homem de costas, e me sentei diante da vela, no chão de mármore, pedindo em seguida para os enfermeiros saírem e me deixarem a sós com ele. Por um momento eles duvidaram que pudessem fazer isso por causa do perigo, mas concordaram em ficar em frente a porta, fechada.
- Henry Standford, correto? – Perguntei.
- Açúcar... – Respondeu-me ainda sem se virar, ou sequer se mover.
- Como? – Perguntei, em duvida sobre o que ele disse
- Me traga mais açúcar, e falarei com você – Por um momento senti uma onda de raiva subir por meu corpo por ser chantageado de tamanha maneira, mas então, uma onda de fascínio substituiu a onda anterior. Afinal, me haviam contado que ele era um paciente semimorto, que não falava, e agia como um bebê. Mas pelos poucos segundos que passei com ele, já vi essa descrição desaparecer como um castelo de areia sendo atacado pela maré alta. Uma mente que chantageia em um esquizofrênico dado por todos como um retardado mental, com certeza essa experiência será bem lucrativa, pelo menos para mim.
Fui até a porta, e pela pequena abertura nela pedi a um dos guardas que me trouxesse um punhado de açúcar, meu pedido foi rapidamente atendido, devo dizer que aqueles que trabalham aqui são extremamente eficientes. Levei os recém obtidos torrões de açúcar para o paciente que de alguma forma notou o que eu trazia, e virou-se para mim, notei sua face, olhos de uma cor de mel, quase dourados, cabelos castanhos com poucos fios brancos, uma barba rala e mal feita encobria-lhe a face, seu nariz era reto até uma parte, e então se arqueava, como o bico de um pássaro, a pele dele era de uma palidez forte, e abaixo de seus olhos encontravam-se enormes olheiras, provenientes provavelmente de longas noites de insônia.
Olhando para mim, ele estendeu suas mãos, grandes, de unhas mal feitas e quebradas, grandes calos existiam em seus dedos e na palma de sua mão, além de que seu dedo mindinho estava levemente deslocado, algumas feridas estavam espalhadas por sua mão e havia sangue embaixo das unhas. Aparentemente o Sr. Henry havia tentado escapar de seu quarto de todas as maneiras possíveis, escalando e arrombando a porta. Coloquei os poucos torrões de açúcar em suas mãos e ele me agradeceu, virou-se novamente e os esfarelou no chão. Agora, desobstruído por seu corpo, notei um copo de vidro, onde dentro dele muitas moscas se debatiam.
- Moscas gostam de açúcar – Disse ele enquanto pegava com seu dedo indicador e o polegar uma mosca, que acabara de pousar no açúcar – E eu gosto de moscas – terminou enquanto colocava os dois dedos na boca e engolia a pequena mosca. Uma corrente de tensão e náusea passou por meu corpo enquanto via a cena. Comer animais vivos... acho que o termo canibalismo não se aplica a isso, talvez um outro termo fosse bom... zoofagia.
- Você captura essas moscas? – Perguntei para ele, que se levantou e foi até sua cama, onde se ajoelhou novamente e pegou um pequeno caderno, sem capa, de folhas amareladas, pegou também embaixo de sua cama um lápis, velho, pequeno e quase sem ponta, e começou a escrever numerais neles. Pude identificar de relance os números dois, quatro e seis. Havia também mais abaixo uma longa coluna de números e letras, mas não identifiquei nenhum.
- Eu gostar de moscas – Dissera o Sr. Henry, enquanto um feixe de luz prateada surgia, da pequena abertura no alto da parede ao nosso lado, e eliminava uma pequena parte da escuridão do quarto, embora mais parecesse que ela brigava para sobreviver contra a escuridão do local.
Algo aconteceu nesse momento, após aquele pequeno feixe de luz irromper a escuridão do quarto, o Sr. Henry levantou-se e jogou seu corpo contra mim, derrubando a vela no chão e apagando, deixando-nos na escuridão profunda, interrompida apenas por uma fraca fonte de luz. O peso de seu corpo me jogou no chão, e suas mãos logo alcançaram o meu pescoço, sentia a respiração dele batendo contra minha face, enquanto a minha respiração lentamente se esgotava. Meus olhos logo começaram a falhar, até que uma forte luz destruiu parcialmente a escuridão do local. E então a pressão sobre meu pescoço cedeu, e ouvi um baque ao meu lado. Virei minha cabeça para o lado e vi o corpo do Sr. Henry jogado no chão, de alguma maneira os guardas notaram o que houve aqui dentro. Então, tudo escureceu. Quando acordei novamente estava em meu escritório, sendo atendido por uma freira, que a me ver acordar me deu um sermão e saiu da sala, logo após esse evento inesperado, comecei a escrever novamente em meu diário, relatando todo o ocorrido até agora.
Notas finais
Grato, Doctor Hell.
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