Setembro, 22. 00:01 horas:

Hoje (Ou devo dizer ontem?) foi um dia onde tive um grande (E inesperado) avanço em meus estudos. Após o que ocorreu ontem resolvi esperar alguns dias até rever o Sr. Henry (Porém, minha decisão foi simplesmente ignorada por um capricho da vida), então resolvi cuidar de outros pacientes, e fazer a entrevista com candidatos que querem trabalhar aqui. Primeiro visitei a senhora Elizabeth Hawkins, 87 anos, não sofre de nenhum tipo de doença mental, mas foi internada aqui na outra gestão simplesmente por que os filhos recusavam-se a cuidar dela. Passei cerca de uma hora lá, na maioria do tempo apenas ministrei seus remédios e por cerca de 20 minutos tomamos um bom chá de limão acompanhado por biscoitos trazidos por uma freira para a boa senhora. Como meu estudo era basicamente sobre a mente humana resolvi anotar aqui tudo o que poderia achar importante. A mente da idosa Senhora Hawkins não era algo complicado de entender, ela não mentia, e se divertia com tudo, dava risadas um pouco forçadas, pois naquela idade tudo a cansava, ela é uma boa senhora, me faz lembrar minha falecida mãe. Pena que ela tem pouco tempo de vida. Após o tempo com a Sra. Hawkins, fui até o jardim, onde conversei com outros pacientes, infelizmente não pude tirar nada de muito importante dessas conversas. Passei pelo prédio onde o Sr. Henry estava, senti novamente os olhares gélidos dos pacientes, fulminando-me lateralmente enquanto caminhava pelo estreito corredor. Quando passava pela porta do Sr. Henry, não resisti e parei por alguns poucos segundos, observei atentamente aquele duro obstáculo de metal, até que um grito, aterrorizante, frio e macabro rompeu o silencio anterior do local. Um medo frio percorreu minha coluna, e batidas ecoaram da porta a frente. Dei dois passos para trás, e lá congelei, fitando os olhos cor de mel que me observavam, gelados e horripilantes. Dei meia volta e comecei a correr, parei somente quando estava fora do estabelecimento. Senti o suor frio escorrer pela minha face e então um cansaço terrível me abateu, andei lentamente até meu escritório, onde repousei um pouco até quando fui interrompido do meu descanso por batidas na porta.

Dei permissão para que a pessoa que em minha porta batia entrar. Uma freira entrou pela porta, vestia uma simples e longa túnica negra, com uma espécie de tecido branco por baixo, prendido no pescoço. Vestia também um habito em sua cabeça, mantendo seus cabelos loiros para trás. Creio que, seja quem for que um dia ler isso aqui, pergunte-se como eu sabia dos cabelos, correto? Bem, uma pequena mecha de seus cabelos caia-lhe sobre a face, que era branca e alva como a neve limpa e intocada pelas impurezas da terra, seus olhos eram de um azul marinho, que por um momento me fez sentir como um barco, perdido no meio do atlântico. Seus lábios, carnudos, eram de um vermelho brilhante, mesmo sem usar qualquer tipo de cosmético, pelo que pude notar. Senti tamanha tentação que, por um momento, creio ter sentido o mesmo que Eva sentiu ao ver a arvore proibida no Éden.

Ela apresentou-se como Irmã Amy, a nova enfermeira, e então disse que um de meus pacientes, o Sr. Henry, desejava me ver. Andamos por toda a extensão do Bright Dawn Treatment Center enquanto conversávamos, consegui arrancar dela que ela tinha 26 anos (Dois anos mais nova que eu), que tinha vindo da America após perder seus pais e que morava aqui mesmo no centro. Chegamos até o outro prédio do centro e pedi para que a Irmã Amy me deixasse a sós, ela concordou fazendo uma pequena referencia e saiu, me deixando a sós em frente ao quarto do Sr. Henry. Abri a porta e vi ele me esperando lá, dessa vez havia uma vela no chão e uma caixa de papelão próxima a vela.

- Venha doutor, venha ver meus novos amigos – Me disse ele, visivelmente diferente, em seus olhos cor de mel havia um brilho intenso, como o de uma criança que acabara de ganhar um carrinho de madeira de seus pais. Aproximei-me cauteloso, andando em passos lentos, e sentei-me. O Sr. Henry pegou o vidro de moscas e notei que hoje, ao invés de um numero considerável de moscas se debatendo lá dentro, havia poucos pares de moscas no vidro. Ele principiou-se a abrir o vidro quando sentei, uma mosca havia conseguido sair pela pequena abertura e voava pelo quarto. Forcei a vista para acompanhar ela voando, foi quando notei diversas teias de aranhas pelo quarto, nas junções da parede com o teto, na cama e nas junções da parede com o chão, porém, em nenhuma delas havia uma aranha. Quando a mosca principiou-se a voar próximo ao Sr. Henry, ele a pegou. Então cuidadosamente a colocou em uma das teias de aranhas e abriu a caixa de papelão, colocando uma mão dentro, pegou de dentro da caixa um animal que não consegui distinguir no começo, quando ele passou a mão próxima a vela foi que notei o que era, tinha uma coloração amarronzada, alguns poucos pelos, e oito pernas que se debatiam freneticamente. O Sr. Henry colocou a aranha na teia, que logo notou a mosca e avançou um ataque, cobrindo-a completamente com a sua teia. Eu observava tudo com uma expressão que não sabia ao certo se era duvida ou o principio de um fascínio para com o paciente em questão, que batia palmas animadamente enquanto via a aranha jantar a pequena mosca. Dei uma rápida olhada dentro da caixa e vi que haviam mais algumas aranhas, tentei contar mas só consegui contar cinco delas antes dele fechar a caixa, andar até a teia de aranha, pegá-la novamente e observá-la com fascínio. Colocou-a próxima a vela enquanto sentava-se, pegou novamente, dessa vez com os dedos, indicador e polegar, da mão esquerda.

- Aranhas gostam de moscas. – Dizia com uma cara animada enquanto movimentava sua mão ao redor da vela, fazendo a aranha parecer um barco navegando ao redor de um farol. Levantou sua mão próxima a sua boca (Após o que já tinha visto sabia o que ia acontecer agora) e colocou a pequena aranha em sua boca, principiando-se a mastigar e passando alguns segundos assim – E eu gostar de aranhas – Disse sorrindo de boca aberta, enquanto um liquido esbranquiçado, provavelmente uma mistura de saliva e sangue da pobre aranha, escoria por entre seus dentes. Aquela sensação de frio, que antes percorria minha espinha, voltou a ocorrer, mas não durou muito tempo, pois a voz do Sr. Henry a cortou.

- Qual seu nome doutor? – Perguntou-me, enquanto inclinava um pouco a cabeça para direita.

- Stroker. Doutor Bryan Stroker – Respondi diretamente, com um pouco de tensão na voz.

- Mim ser Henry – Disse, enquanto passava a mão direita nos lábios, retirando aquele liquido amarelado e depois estendia a mão em minha direção. Sem ver muita opção, apertei a mão do Sr. Henry, e nosso amigável (E relativamente nojento) aperto de mão foi interrompido por sua voz – Pode mim deixá sozinho doutor? – Perguntou-me olhando para a janela no alto de seu quarto.

- Claro. Tudo bem – Respondi me levantando, não sei ao certo o que foi aquilo que senti, mas algo me dizia que o Sr. Henry tramava algo um pouco maior que aranhas.

Sai da sala e voltei a meu escritório, lá peguei meu estimado diário, onde faço agora todas essas anotações (O que se tornou um prazeroso passatempo para mim) e principiei a andar para minha casa. Parei em uma pequena praça, próxima a Scotland Yard. Sentei-me num banco e passei a observar o local, das arvores caiam suas ultimas folhas, uma bela cerejeira havia abandonado quase todas suas folhas deixando o chão, de terra, ao seu redor coberto por uma tonalidade rosa clara. Sentadas abaixo da grande arvore estavam duas mulheres e uma pequena criança, dois ou três anos talvez. A criança brincava, sentada no colo da mulher da esquerda, que julgo eu ser sua mãe. Mas mesmo a beleza daquela pequena semente humana não foi o que me atraiu aquele local, mas sim a garota ao lado dela. Uma bela garota de cabelos castanhos, olhos verdes, pele clara, lábios rosados, não vou dar muitos detalhes dela para não prolongar o sentimento. Que sentimento? Saudade é claro. Aquela garota me lembrava muito minha noiva, que há três meses saiu de Londres para visitar um parente, em seu leito de morte, em Amsterdam. Parei de fitar a garota, com algumas poucas lagrimas nos olhos e principiei a andar para casa. Ao chegar aqui (Já que nesse momento escrevo em casa), fui diretamente para a dispensa, peguei um grande pedaço de carne que um amigo me enviara dias atrás, aparentemente ele havia matado um enorme javali na floresta de Sherwood, um feito e tanto para um caçador amador. Levei a carne até o fogão, onde principiei a assá-la. Deixei-a assando e andei até o porão de minha casa, procurava por um bom vinho. Achei um vinho do porto, feito há 25 anos, julguei que seria o melhor a tomar para destruir a saudade em meu coração. Comi a carne, subi para meu quarto ainda com o vinho em mãos, e aqui me encontro, escrevendo em meu diário enquanto bebo esse caro vinho e de quando em vez, derrubo algumas gotas de vinho nas paginas. Acho melhor eu parar e ir dormir.