Wraack
1 Surpresinha
Notas iniciais
Dylan acordou com um senhor banho frio, dado por sua irmãzinha querida. Então olhou o relógio:eram cinco horas da manhã. “Arg! Como odeio a semana! Eu quero minha sexta!”, pensou o jovem. O garoto não fazia ideia do porquê que Alice tinha o acordado tão cedo assim. Então lembrou que hoje era o dia da apresentação dela. A louca fazia aula de piano e havia convencido toda a família de ir vê-la tocar. Para animar mais ainda, o evento era às seis da manhã.
Dylan olhou com cara feia para sua irmã:
– Sabe, eu continuo achando completamente desnecessário irmos ver você tocar um piano ridículo de seis da manhã – disse.
– Cala a boca. Larga de ser preguiçoso e vai tomar um banho – Alice respondeu, logo em seguida se retirando.
“O que você já me deu?”, resmungou o jovem para si mesmo. Na verdade, gostava de Alice e achava fantástico vê-la tocando. Portanto, a preguiça somada ao sono inacabável dele, eram mais fortes que isso. Dylan ficou se remexendo na cama por cerca de cinco minutos, quando arrumou forças para se levantar. Levando em consideração que o “se levantar” do garoto era sentar na cama, não adiantou nada.
Bocejou profundamente, ecoando por toda a casa. Ninguém se incomodou, afinal, Dylan era preguiçoso desde que saíra do útero da mãe, então sua família já estava acostumada a ouvir isso todos os dias. Olhou para o tempo e se perguntou se teria que se apressar. Se tivesse, sabia-se que não ia acontecer. O garoto calçou o chinelo, que se encontrava jogado no chão.
Sem pressa nenhuma, ele apreciou o nascer do sol. Seu pai, que era fotógrafo, dizia-lhe que aquela era a hora mágica, onde a quantidade de luz era ideal. Voltou para o mundo real, se levantou e andou até o banheiro. Depois do banho frio que tomara, Dylan preferia se esquentar. Ligou o chuveiro elétrico e despiu-se, entrando no box.
Tomou um rápido banho, nem sequer lavou os cabelos. Enxugou-se e enrolou-se na toalha. Entrou em seu pequeno quarto, ainda brigando contra o sono. Dylan abriu o guarda-roupa, e pegou uma camisa polo listrada em amarelo e vermelho e uma calça jeansclara. Pode parecer que não é arrumado, mas o jovem era bastante simples, e só usava esse tipo de coisa raramente.
Ainda com o guarda-roupa aberto, pegou uma meia escolar e calçou-a. Fez o mesmo com sua basqueteira: o único calçado, tirando o sapato que usava para ir ao colégio, que o jovem possuía. Andou até a cozinha, onde Alice se encontrava.
– Onde está a mamãe? – disse Dylan.
– Ela disse que já estava indo – Alice retrucou, com cara feia.
– E quem vai levar a gente pra lá? – perguntou o garoto.
– Vamos a pé. Já ouviu falar? Ou você é preguiçoso o bastante para sair mendigando carona pela escola? – ela disse.
– Fico com a segunda... Agora pode chispar da cozinha, para eu fazer meu café? – ele resmungou.
– Eu achava que eu podia ser uma boa irmã e fazer um café especial para você – Alice sorriu.
Dylan sorriu também. A irmã estava preparando um cappuccino e torrando biscoito de Jucurutu. Os pais deles vinham do nordeste, então gostavam bastante desse tipo de comida. Claro, o hábito de tomar cappuccino foi obtido em São Paulo mesmo. Ah, mas se eles vêm do nordeste, porque o nome do garoto era Dylan? Segundo os pais dele, era porque tinham medo do preconceito e diziam que eram americanos, mas o nome que pretendiam pôr nele era Miguelito.
O garoto andou até a mesa e sentou-se. Olhava lambendo os lábios para Alice, de vez em quando. Ela sorria também, quando olhava para ele. Depois de uns cinco minutos, a comida estava na mesa. A irmã de Dylan sentou-se junto ao garoto. Fitou o cappuccino por um tempo, para depois tomar um gole deste. O jovem observou-a em tudo que fazia, parecia que ele estava a investigando.
– Você sabe dizer se o papai vai? – perguntou o garoto à sua irmã.
Ela deixou uma lágrima cair de seus olhos, afinal, já fazia um bom tempo que os irmãos não viam seu pai.
– Ele disse que não vinha – respondeu, entre soluços e choros.
Dylan pareceu querer afastar essa ideia da cabeça. Havia convivido mais tempo com seu pai, nesse tempo ele aprendeu que o velho rapaz gostava de fazer surpresas. Tomou mais um gole de cappuccino e comeu algumas bolachas.
– Não esquenta, nosso velho gosta muito de surpresas – o jovem tentou consolar Alice.
Ela bufou, tentando livrar-se da tristeza. Dylan sentia que seu pai ia estar presente. Terminou de comer e dirigiu-se ao banheiro de seu quarto.
Escovou os dentes e voltou à sala para esperar que Alice terminasse de se maquiar. O garoto conhecia a irmã, mesmo morando com ela a apenas dois anos. Ela não era muito de demorar. As patricinhas irritavam a menina, e o jovem sabia disso.
Dentro de cinco minutos, ela estava pronta. Sinceramente, até Dylan demorava mais que a garota para se arrumar. É claro, considerando que ele é um baita preguiçoso que demora dez minutos para se levantar da cama, isso não era elogio nenhum. O jovem observou a maquiagem da garota. Não era profissional, mas era bela. O suave rosto de sua irmã fazia refletir a luz.
“Tenho que admitir, ela está muito bonita!”, pensou o garoto. Infelizmente, ele não puxara a sua mãe, como era o caso de Alice. Dylan refletia a simplicidade do pai. Cabelos pretos e lisos, olhos castanhos, pele morena. Não era uma beleza esplêndida como a da sua irmã e sua mãe: cabelos ondulados e loiros, olhos castanhos claro e uma pele bem clarinha. Felizmente, o jovem percebera que isso era inveja e afastou o pensamento.
– Vamos? – perguntou Dylan.
– Eu já estou pronta, eu não sei você – respondeu a menina.
Abriram a porta, e saíram andando até o local da apresentação, um teatro que ficava a cerca de três quarteirões de distância da casa dos irmãos. A caminhada foi silenciosa, apenas apreciavam a paisagem. Chegaram ao local já um pouquinho atrasados. Dylan logo localizou sua mãe, e largou Alice, para que ela pudesse ir se preparar para a apresentação.
O garoto notou a presença de seu pai nas cadeiras, um pouco distanciado para dificultar a percepção dele.
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