••• Alguns dias depois •••

Essa será a última caixa... Tenho certeza! – John falou pausadamente enquanto guardava livros sobre medicina antigos com capas puídas, canetas, dois relógios, uma arma – que ele rapidamente colocou dentro de outra caixa menor e tornou a esconder no fundo de outra caixa de papelão. – diversos papeis soltos com anotações borradas e finalmente, alguns cadernos que ele deixou por final. Tínhamos a tarefa de ajuda-lo com a mudança que a principio parecia ser rápida para uma pessoa que “morava” em um quarto, deduzi que teria poucos pertences, no entanto Watson mostrou ter um apreço muito grande por objetos que me pareciam inúteis. – Essas são as minhas anotações sobre os casos, Sherlock. – Ele disse, folheando rapidamente e mostrando algo anotado. Sherlock estava sentado no piso de madeira passando fita adesiva em algumas caixas, a blusa estava meio aberta, os cabelos assanhados grudavam em sua testa pelo suor. Estávamos levando as caixas de um lado para outro da Baker Street e Sherlock era o que mais transportava os mantimentos enquanto eu e John ficávamos guardando em caixas para ele levar. – O cão dos Baskeville... Um escândalo na Belgravia... – Ele apontou, Sherlock pegou um dos cadernos e leu rapidamente um trecho sobre algo. Sorriu e entregou de volta.

– Eu gosto deste.

– Eu também. – John falou, pegando a fita adesiva ao lado de Sherlock e passando na caixa que estava no chão de madeira. Peguei duas xícaras de chá com leite que estavam em cima da bancada da cozinha e entreguei para eles.

Porque esse ar de tristeza? Você estará morando de frente para 221 B. – Comentei, enquanto afundava as mãos dentro da jaqueta preta. John sorriu e levantou-se segurando a caixa contra o peito.

– Verdade, continuaremos com os casos Sherlock. – Ele ajeitou-se e apontou para a porta, falando que iria levar a caixa para o apartamento. Já tinha reformado quase que completamente em frente a Baker Street, John estava alugando, já que um homem que recentemente tinha comprado não queria vender, entretanto eu e Sherlock conseguimos convencer o homem e comprar secretamente como presente de casamento para John e Mary, que ainda não sabiam. O quarto que faltava era o do inesperado bebê, que já estava envolto entre as apostas de Sherlock, Watson e Lestrade, que cada dia blefavam mais se seria garota ou garoto. Peguei a xícara de John e voltei com ela para cozinha. Hamish passou correndo para a sala, segurava algo.

Hamish o que você está escondendo? – Perguntei, quando ele virou subitamente escondendo algo atrás. – Porque está sem blusa? Hamish você sujou?

– Foi sem querer, juro! – Ele mostrou a blusa suja de um líquido laranja.

– Ham isso é corante. – Sherlock pegou a blusa dele e passou o dedo pela mancha. – Estava usando minhas coisas?

– Sim.

Porque precisa de corante Ham? – Peguei a blusa dele, imediatamente colocando-a na lava-roupas.

– Estava fazendo um experimento, já tentou mudar a pigmentação do chá?

– Hamish... O corante que você precisa tem que ser comestível... Não pode ser qualquer um.

– Ah. – Mrs. Hudson apareceu utilizando capa para a chuva, acenou rapidamente e desceu as escadas.

Aonde ela vai tão feliz? – Perguntei, escorando-me ao ombro de Sherlock.

– Pegar o vestido para o casamento de John.

Isso é maravilhoso. – Sorri.

– Sim. – Sherlock começou a fazer caretas e sussurrar o que os convidados iriam falar.

Poderia parar? Espero que John não veja você fazendo isso.

– John sabe que todos os casamentos são iguais... E como padrinho eu deveria fazer algo para contribuir de forma que não seja completamente entediante.

Você vai agir como combinamos. – Tentei ajeitar seus cabelos, mas eles voltavam para a postura assanhada. – Você falou em seus deveres como padrinho... Eu sei que John não está esperando e também não pediu nada... Mas... Você deveria leva-lo a uma despedida de solteiro.

– Não tenho paciência para isso.

É seu melhor amigo.

– Ele irá entender.

Sherlock... É uma vez na vida. Leve-o para fazer algo que ele goste... Algo divertido.

– Um caso, talvez...

Não, algo apropriado.

– Algo que ele goste você disse? Ele gosta de jogar.

Então leve-o para um Pub...

– Tanto faz.

Não, não é tanto faz! Uma despedida de solteiro é algo que fica na memoria... Um momento diferente com os amigos. Ligue para Lestrade, ele sabe do que eu estou falando.

– Ligue você para Lestrade, já que ele sabe do que está falando. – Ele disse carrancudo.

É algo que você tem que fazer, você é o melhor amigo, não eu. Prometa que irá pensar em algo.

– Tenho algumas ideias em mente, depois escolho alguma.

Ótimo. – Sorri. John voltou e apareceu na sala com o celular ao ouvido. Puxou o casaco que estava em cima do sofá e desligou o aparelho.

– É a minha última prova do terno.

Quantas vezes você já provou?

– Quatro... E continua mudando.

– Felicidade doméstica. Você está ganhando peso cada minuto que se aproxima do casamento, não precisa dessa ansiedade, agora que Mary sabe que está gravida não vai abandonar você no altar. Você fez acordo pré-nupcial? Também não precisa se preocupar com isso. – Apertei o braço de Sherlock e segurei sua cintura.

Mas que droga você.

– Não tem problema, eu já estou acostumado. – John acenou rapidamente e desceu as escadas.

– Estava confortando ele sobre as chances no altar.

Está fazendo errado.

– Hm. – Retirei da lavadora e atirei a blusa de Ham para dentro da secadora branca. A campainha tocou, não havia dia mais agitado na Baker Street, Sherlock estava reclamando dos nervos e cada vez mais estressado. Desci correndo as escadas e abri a porta apoiando-a por minhas costas enquanto assinava o papel de uma prancheta entregue pelo funcionário. Ele passou-me uma caixa preta com uma fita prateada e um laço que tomava quase toda a caixa de mesma cor. Fechei a porta deixando-a bater de qualquer forma e subi correndo de dois em dois degraus. Quando cheguei a sala, sentei no tapete com tamanha velocidade fazendo a mesinha de centro tremer ao meu lado. Coloquei a caixa no chão para desfazer o laço.

– Que raios? – Sherlock observava-me com os braços cruzados.

O casamento é amanhã, já estava pensando que o meu vestido não ia chegar. – Puxei-o percebendo ser mais pesado que o que eu esperava. Era longo, dourado, o tecido completamente cheio de brilho. Abaixo da cintura a costura formava espessas camadas em auto relevo e nos ombros o tecido era incolor até o busto onde a costura começava novamente. Na cintura um cinto dourado fechava por completo. – O que acha?

– Tudo funciona em você. – Ele começou a mexer em algumas coisas em cima da lareira derrubando o que não queria. Tentei salvar alguns objetos quebradiços deixando meu vestido na caixa, Quando ele finalmente achou o que queria, levantou a caveira e puxou um frasco e um pequeno estojo retangular azul escuro. Deixou-se cair ao sofá e injetou a seringa hipodérmica de qualquer jeito.

Sherl? – Perguntei enquanto colocava as coisas caídas de volta ao lugar em cima da lareira.

– Estagnação não é comigo. – Ele respondeu respirando profundamente. Puxou um livro que Hamish havia deixado no chão ao lado do sofá e começou a folha-lo.

O que aplicou? – Perguntei olhando entre os dedos o frasco vazio.

– Dessa vez foi cocaína... – Hamish apareceu no corredor e pulou em cima dele, exibindo uma xícara de chá laranja.

– Consegui! – Ele gritava, mexendo a xícara o mais alto que podia. – Sherlock olhou o para o chá e sorriu.

– É verdade, conseguiu.

– Com corante comestível dessa vez. – Hamish explicou, enquanto bebia o chá laranja. – Mas já está frio. – Ele fez uma careta, seguiu para cozinha e jogou a xícara na pia.

••• •••

Ao final da noite, Holmes jurava que o efeito da cocaína já tinha passado. John era totalmente contra qualquer uso de substâncias e examinou Sherlock duas vezes. Eu e Ham ficamos a noite inteira assinando papeis e escolhendo um colégio com prova de nível para Hamish fazer. Sherlock e Watson sairão para o Pub com Lestrade, eu e Ham aproveitamos o resto da noite para dançar ao som de Beatles na sala e escutar as histórias de Mrs.Hudson até de madrugada. Às quatro horas acabamos com dois travesseiros de Sherlock na briga de travesseiros e descobri que Hamish conseguia fazer alguns pulos de cabeça para baixo na cama. Adormecemos de qualquer jeito no quarto de Sherlock e acordamos tarde com a tevê ligada e o telefone sem parar de tocar. John dormia no sofá e Sherlock havia sumido. Não consegui encontra-lo em lugar algum. Atendi ao telefone pressionando-o contra a orelha.

– Watson está? – Observei-o dormindo desleixadamente no sofá.

Não, saiu.

– É Molly...

Oh sim, diga.

– Pode mandar um táxi para Sherlock? Acabei de encontra-lo debruçado na bancada de experiências no laboratório. Ele não parece bem...

Eu irei... – peguei correndo minha slipper preta e a jaqueta e desci as escadas correndo. Puxei a chave da Baker Street e deixei Ham de pijamas esperando por mim. Era de tarde, aproximadamente duas horas, quase não tinha movimento na rua e usar o Tube estava fora de questão, precisa pegar Sherlock o mais rápido possível. Fui andando enquanto me calçava procurando por um táxi. Na terceira rua a esquerda encontrei um que já estava indo embora, corri o máximo que pude e quando ele freou, quase cai por cima do carro. O taxista levou-me o mais rápido que podia, não lembro ao certo quanto dinheiro atirei nele, mas foi o bastante porque ele não reclamou. Conseguia ver o hospital St. Barts, empurrei a porta de vidro com força batendo em uma senhora que estava passando. – Desculpe! – Gritei, debruçando-me sobre o balcão. A recepcionista olhou-me lentamente.

– A senhorita está doente?

Não é bem isso...

– Pegue a ficha no final do corredor. – Ela apontou.

Não, a senhora... Não está entendendo. Eu preciso ir ao necrotério, Molly Hooper, patologista está me esperando.

– Suba as escadas, o segundo correndor branco à direita. – Ela apontou. Subi as escadas e cheguei ao necrotério que era conjugado ao laboratório. Bati no vidro da porta. Ela apareceu e passou um cartão destravando a porta. Dentro estava muito frio, o ar condicionado ligado e Sherlock debruçado sobre a bancada com uma xícara de café na mão esquerda.

– Sherlock...? – Perguntei, passando a mãos em seus ombros.

– Ele pediu café... Mas só isso... Não quer sair dai e não olha para mim. – Molly falou, encostando-se a parede branca perto de uma pessoa morta embalada em algo que parecia ser um saco plástico. Provavelmente ela nem percebeu.

Sherlock, John está no sofá e você aqui, o que aconteceu?

– Despedida de solteiro. – Ele balbuciou.

Precisa se vestir para o casamento, você sabe que horas já são?

– Não, mas tenho uma ideia.

Sherlock, vamos. – Levantei-o pela cintura, ele não queria sair. Segurei seu queixo e o virei para mim observando o que ele estava escondendo. Uma camada roxa absorvia todo o olho esquerdo, a boca tinha um pouco de sangue coagulado. – Oh... – Ele sentou-se e bebeu um longo gole de café, colocou a xícara entre os dedos.

– Foi um desentendimento no Pub.

Com John?!

– Não, no entanto, Mary ficará surpresa ao vê-lo mancando e com um arranhão no queixo.

Não vou questionar o seu dom para encontrar problemas.

– Eu gosto deles. – Ele sorriu. O corte em seu lábio inferior acompanhou o movimento e começou a sangrar.

Sei que sim. – Sorri também. Sherlock lavou o rosto e Molly trouxe um pouco de gelo. Observei seu ambiente de trabalho, era grande, calmo, limpo, claro e extremamente frio. – Porque estamos congelando? – perguntei.

– Sherlock pediu assim. – Molly respondeu enquanto examinava um cadáver.

– Hm... Molly estava pensando em transtornos de personalidade com psicopatia e morbidez.

– O que tem haver comigo? – Ela perguntou surpresa enquanto fechava cuidadosamente e lacrava o cadáver.

– Não... Não com você. – Ele levantou-se e chegou mais perto. – Pense um pouco, você é a pessoa mais normal que conheço, não faz mal a uma mosca, não seria capaz. – Ele estava sendo grosseiro de uma hora para outra, algo que já estava acostumada, não por suas respostas rápidas e sem paciência, mas por suas mudanças bruscas.

– Eu... Sherlock eu não entendo. – Ela corou e nervosamente passou as mãos finas no rabo de cavalo.

–Unf. Eu sei que não. – Ele rolou os olhos e deixou-se cair na poltrona perto da porta. – Falo de Moriarty.

Moriarty? Como?

– Jim Moriarty, namorado temporário de Molly.

Moriarty foi seu namorado? – Observei chocada Molly enquanto ela apoiava-se na bancada do laboratório. Ela parou por um momento, depois respirou e decidiu acenar com a cabeça positivamente. — Nossa... – Era óbvio que Moriarty tinha chegado perto de Molly para alcançar Sherlock, não que Molly não fosse boa o suficiente, todavia ela não era o tipo dele. Mesmo para mim que mal a conhecia ela sempre fora a Miss certinha.

– Mas... Eu descobri que ele era gay e nós terminamos... Ou ele fingiu ser gay... Não importa agora, de qualquer forma eu não sabia que ele iria fazer aquelas loucuras de roubar as joias da coroa.

– Ele não roubou. – Sherlock esticou-se e apertou o gelo entre os dedos. – Ele quebrou o vidro, adicionou meu nome, grande forma de chamar a atenção, devo acrescentar. Finalizando, apenas sentou-se na poltrona e usufruiu das joias por alguns minutos. Nenhuma lei especifica a prisão de vários anos por tocar nas joias da monarquia. – Ele sorriu.

– E... – Molly continuou, seu rosto parecia ficar mais abatido à medida que ela prosseguia com o assunto. – Não sabia que ele iria suicidar-se. Qual era seu problema...? Era genial e desapareceu em um piscar de olhos.

– Se serve de consolo, é ignorante o fato que você pressupõe que ele tenha algum problema. Você não vê o óbvio. Para você e muitas pessoas, alguma hora de sua vida você irá assumir que a psicopatia induz ao erro grotesco, como, qual o problema dele? No entanto, do mesmo jeito que você não consegue compreender a forma de raciocínio dele, era igualmente comum que ele não entendesse a sua forma também. Você assume que qualquer pessoa seja comum e estável até, como um computador, esse ser executar uma tarefa de forma diferente dos outros.

– Você executa diferente. – Ela disse com firmeza. – E é exatamente o que você é Sherlock Holmes. Um grande computador em um corpo humano alto e genuinamente inglês. Quando conheci você, pensei em psicopatia, sociopatia, síndrome de Asperger e personalidade de transtorno dissocial.

– Personalidade transtorno dissocial... – Ele sorriu. – Eu sei meu diagnóstico Molly. – Levantou-se, atravessou o laboratório e atirou o gelo na pia. – Não preciso que o estude por mim.

– Eu só...

– Irene, temos um casamento certo?

Sim. – Saltei da bancada que estava sentada, percebendo o horário. – Molly, encontramos você na Igreja?

– Sim, sim. – Ela respondeu com a expressão vaga. – Não posso sair antes do expediente de trabalho então vejo vocês mais tarde. — Caminhamos lentamente pelo corredor, as luzes doíam a vista. Estava seguindo pelo caminho que tinha feito para ir ao necrotério quando Sherlock apontou para outro lado do prédio e passamos por outros corredores mais escuros. Descemos pela porta de trás, já chovia e próximo conseguimos pegar a entrada do metrô. Pedi dois tíquetes e passamos pelos aparelhos. Na entrada do tube conseguimos com sorte pegar um lugar bom. Sherlock sentou-se e retirou o Iphone 4 de dentro do bolso, talvez não estivesse percebendo, mas seus dedos contraiam o logo da Apple nas costas do aparelho. Olhou as horas e guardou-o de volta no bolso interno. Eu estava segurando no ferro e observava seu rosto.

– Nós nunca andados de metrô. – Ele disse.

Como?

– Você e eu, juntos, nunca andados de metrô. – Observei seu rosto e sorri.

É verdade, no entanto, cá estamos nós. O que quer fazer? Explodir aquele compartimento?

– Adoraria. – Ele respondeu com sarcasmo. Sentei-me ao seu lado e segurei sua mão com arranhões. Apertei seus dedos contra os meus.

No que está pensando?

– Banalidades.

Como o quê?

– Número, figuras e progresso.

Gladstone pela primeira vez estará sozinho na Baker Street, estava pensando em como o coitadinho ficará. — Ele observou-me por um momento.

– Nossa parada. – Ele disse, puxando minha mão. Saímos desviando de pessoas, o fluxo não parava. Conseguimos depois de andar um pouco, chegar a Baker Street. John já havia se levantado, Hamish estava pronto e brincava com Gladstone e Mrs.Hudson provavelmente deveria estar se vestindo. Sherlock foi tomar banho. Sentei-me ao sofá observando Hamish.

– A pata Gladstone. – O pequeno buldogue sequer olhava para ele, apenas corria pela sala. – A patinha! – Gladstone parou surpreso com o grito dele. – Isso Gladstone, preste atenção. – Ham sentou-se no tapete. – A patinha, assim. – Ele pegou Gladstone e encostou na pata. – A P...A...T..I.N..H..A!

Hamish não acho que ele vá compreender de qualquer forma. – Sorri, mexendo em seus cabelos. Abracei-o apertadamente.

– Mãe, não consigo respirar!

Desculpe. – Soltei-o deixando voltar para o tapete.

– Esta porcaria – John gritou tentando ajustar a grava. Sherlock apareceu elegante no terno com a gravata borboleta, tentou ajeitar a de John. Aproveitei para tomar banho. Fechei a porta do banheiro e despi-me, colocando as roupas no cesto de roupa suja. Não utilizei a banheira, apenas o chuveiro para tomar uma ducha rápida. Utilizei o secador e prendi os cabelos perdendo muito tempo para fazer trança embutida. Deixei um fio solto ao lado da orelha e passei a maquiagem fraca. Vesti lingerie nude passei e para o quarto. Retirei o vestido de dentro da caixa e vesti lentamente.

Sherl... Ajude-me com o zíper por favor. – Ele estava passando no corredor, mas entrou no quarto e puxou o zíper. – Obrigada, como estou? – Perguntei enquanto calçava o escarpam também nude.

– Essa cor funciona.

Essa cor funciona? – Repeti incrédula.

– Eu prefiro quando você está com o lençol. – Ele riu baixinho. Apoiei minhas mãos em seu tórax.

Eu prefiro você sem lençol nenhum. – Sussurrei mordendo a lóbulo de sua orelha. Ele segurou minha cintura e retribuiu o sorriso. Beijei a ponta de seu nariz e peguei a caixinha de madeira que tinha o convite dele embaixo. – Falta a rosa.– Ele sentou-se a cama e deixou as mãos penderem. Prendi a rosa em seu terno, o contraste era simples – branco e preto – entretanto eu gostava. Peguei o estojo de pó que estava no banheiro e abri para passar uma camada ao redor de seu olho afetado. – Quem conseguiu a proeza? – Perguntei referindo-me ao murro.

– Alguém que estava no Pub... John estava bêbado, Lestrade tinha ido embora para atender uma ocorrência, pediu desculpas tantas vezes que eu estava a ponto de conduzi-lo eu mesmo para fora. Então, algo ridiculamente besta na conversa de John e de um homem que estava apostando na mesa fez com que Watson se exaltasse mais do que deveria.

Porque os machucados?

– Não poderia deixar John levar uma surra, eu estava despreparado, quando o homem partiu para cima puxei-o sem dar tempo de construir uma barreira... Para Watson EU fui a barreira. – Ele disse, apontando para o olho.

Entendo.

– O presente dele está saindo caro, eu espero que só se case uma vez. – Ele sorriu maldosamente. – Não está na nossa hora? – Olhou para o relógio no pulso e levantou-se . Acompanhei-o encaixando os dedos na clutch dourada.

– Todos estão prontos? – John perguntou. Percebi que realmente estava mancando, devidamente com gel no cabelo e de fato, com o arranhão no queixo, mas este contribuía para seu charme.


– Todos... Mrs.Hudson! – Sherlock chamou na ponta das escadas e acompanhou Ham para baixo. Ela surgiu trajando um vestido lilás com um chalé brilhoso de mesma cor. Levantei um pouco o vestido ao descer, John ajudou-me e finalmente trancamos a porta. Dois carros aguardavam: Um táxi para mim e Ham e um carro preto para Mrs.Hudson , Sherlock e John.



••• •••



Tradicionalmente estávamos na Igreja. John não parava de andar de um lado para o outro e sempre arrastava Sherlock pelo o cotovelo junto a ele. Acomodamo-nos no assentos designados, percebi que os convidados começavam a chegar. Não reconheci ninguém, não fazia ideia de suas histórias ou do grau de parentesco de cada um, todavia uma mulher loira que entrava na Igreja com um vestido vermelho deixando os ombros de fora e o salto gloriosamente alto chamou-me atenção. Era magra, possuía os lábios volumosos, cabelos lisos que iam até os ombros e olhos carregados em maquiagem escura para esconder o cansaço. John parecia surpreso ao vê-la.



Quem é? – Perguntei a Sherlock tão baixo que tive de observá-lo para ter certeza de que tinha me escutado.



– Hm... Imagino que seja a irmã de John. Vê a pulseira? – Acenei positivamente observando a pulseira fina preta ao redor de seu pulso. – Ela está a uma semana sóbria.


Algo nela lembra-me Mary.

– Talvez. – Ele observou-a, ela sorria e abraçava John.

Nunca escutei John mencioná-la.


– Problemas familiares. – Ao nosso lado diversas pessoas oculpavam os lugares. Flores estavam espalhadas pelas colunas da Igreja e várias garotinhas agora jogavam pétalas. Percebi que Mary entrava lentamente. Levantei-me assim como os presentes para prestigiar a noiva, entretanto diferente de muitos eu não gostava de acompanha-la, gostava de observar a reação do noivo. Era algo que Holmes havia dito que encaixava-se perfeitamente de uma forma que antes eu não compreendia. Era felicidade doméstica e conjugal. Eu estava feliz por Watson, eram poucas as pessoas as quais eu podia chamar de “amigo” , mas ali estava ele, entres os poucos e de certa forma um dos melhores. Estava contente em como sua vida estava saindo da forma que ele queria. Entre nossas diferenças nunca pensei que algum dia poderíamos ter um afeto maior, que o fiel escudeiro de Sherlock um dia seria um amigo querido. Ham levava as alianças que repousavam em uma almofada de veludo violeta com babados brancos. Ele estava andando quase que tão lento quanto Mary, talvez não estivesse percebendo, olhava para tudo e todos, menos para a frente. Quando chegou perto do altar, Sherlock teve de ajeitar a almofada nas mão de Hamish antes que caísse. Agora todos observavam-na em seu vestido branco que fora retirado de algum livro do final de 1999. O véu era imensamente grande, duas crianças seguiam atrás segurando as pontas. Mary estava com os cabelos presos, o rosto corado e as mãos que seguravam o buquê de orquídeas tremiam demonstrando que a ansiedade era maior que o sorriso em seu rosto. John estendeu a mão para tocar seu pulso enquanto podia-se ouvir gracejos como um coro meloso. Nunca tinha sido fã de casamentos, nem na adolescência ou infância. Nunca tinha pensando em estar com alguém por tanto tempo, por que sempre queria fazer as coisas ao meu jeito e não era o convencional. Quem iria apoiar a loucura e os problemas gerados por ela? E mesmo que alguém fosse suficiente para isso, porque nunca tinha amado alguém como com Sherlock? Sentei-me quando os noivos estavam começando a fazer os votos. Mrs. Hudson desmanchou-se em lágrimas ao lado de Holmes. Quando ele tentou acalma-la, ela se segurou ao braço esquerdo e voltou a chorar molhando seu terno. Hamish entregou as alianças e sentou-se na cadeira lateral sem retirar os olhos de mim ou Sherlock. Ao final das frases de comprometimento, todos batemos palmas e ficamos de pé para ver os noivos saírem. Rapidamente o fluxo para fora da Igreja foi projetando-se na escadaria gótica da frente. Eu ficava fascinada de ver todos mergulhados na alegria do casamento sem se dar conta do cemitério de séculos na lateral da Igreja, onde a grama parecia ser mais escura e as lápides de mármore acumulavam lodo. Quanta história jazia enterrada gritando por continuação enquanto assistia mais um casamento. Na hora de tirar fotos algumas moças sentavam-se a escada ao redor dos convidados. Sherlock estava ao Lado de John que segurava a cintura de Mary com uma mão e colocava a outra sobre o ombro de Sherlock. Eu estava ao seu lado com Ham e Mrs. Hudson. Sorri para câmera rindo quando Sherlock sorriu desconsertadamente. O pai de Mary surgiu dirigindo um carro branco cheio de latas e fitas com o nome: Recém Casados. Não seria de grande utilidade já que da Igreja, todos seguiriam para o buffet, contudo Mary adorou e arrastou John para o carro. Nesse momento Sherlock tinha as sobrancelhas arqueadas enquanto observava a cena.



••• •••



Não sabia o motivo de terem escolhido um buffet tão longe, contudo era enorme e a entrada muito bem iluminada. John tinha mencionado um tempo antes que quase todos os convidados de Mary escolheram dar de presente uma quantia para contribuir para o pagamento nos arranjes do casamento, mas eu não imaginava que seria tanto. O lugar todo era aberto, várias cadeiras eram distribuídas ao redor de mesas circulares com velas, pratos, talheres de prata e enfeites de mesa. A aparência era de uma espécie de tenda, com luzes que lembravam estrelas grudadas no teto. O vento corria livremente e a chuva não iria danificar ou molhar nada. Várias mesas recheadas de comidas, costeletas pingando gordura, carne assada e peru. Saladas com azeite carregado e pão recheado com todos os tipos de molhos. Os condimentos eram diversificados também e havia bastante bacon. Um vidro cheio de amoras e bebida ao lado. Champanhe e pelo menos quarenta tipos de vinho inebriavam o lugar. Existia grande preferência dos convidados pelo torta de Cumberland que estava em cinco travessas de vidro distribuídas pela mesa principal. Um vidro continha vários tipos de azeitonas , queijo suíço e pimenta. Nossa mesa era a mais afastada de todas, entretanto também era a mais próxima da dos noivos. Mrs. Hudson recebia lencinhos da garçonete enquanto Hamish comia pão com molho apimentado e não parecia ter intenção de parar. Uma equipe de filmagem cobria o evento, Watson abraçou Sherlock que estava confortavelmente sentado e apontou para a câmera.



– Sorria Sherlock! – Sherlock sorriu falsamente aparecendo covinhas.


– O que o padrinho do noivo tem a dizer? – O pai de Mary apareceu e deu batidinhas no ombro de John enquanto com a mão livre acenava para Sherlock. – O discurso.

– Oh... Então... Eu esperava me safar vendo que não escrevi nada e não esperar ser algo tradicional. – A maior mentira que ele poderia dizer. Todos nós fomos avisados de como seria tradicional, mas ele teimava em não querer seguir os padrões.

– Em todos os casamentos sempre fizemos discursos, visto que esse não pode ser diferente.

– Não precisa. – Watson sussurrou.

– Fale com o coração. – Mr. Morstan levantou Sherlock. Puxando por seu braço, conduziu-o até o microfone que estava muito baixo comparado a altura de Holmes. Ele desajeitadamente retirou-o da base e observou os convidados que batiam palmas e murmuravam surpresos. Depois que o barulho emocionado acabou, Sherlock tinha os lábios cerrados.

– Hm... Boa noite. – Ele falou, algumas pessoas responderam enquanto outras mal se continham de tanta ansiedade e risos. – Colocaram-me aqui com tamanha rapidez que ainda estou me acostumando ao palco... De qualquer forma, não escrevi nenhum discurso para John porque ele sabe que é admirado por mim... Também não escrevi nada sobre ele, entretanto por morar tantos anos juntos, penso que minhas faculdades não falharão ao seu respeito. Aparentemente o grupo mandado ao Afeganistão tem um superior estúpido. Quem raios deixaria John escapar por um mero ferimento? É um dos melhores médicos que já conheci. Tem um gosto brilhante por estudar novas patologias e consegue um diagnóstico preciso mais rápido que qualquer um. Sem contar que não existe negligência em seu diploma. Estão pensando porque falo de sua carreira no presente momento. É bem simples, no entanto o senhor na quinta fileira perderá um ótimo médico para sua clínica se não o contratar. – Evidentemente audacioso, Sherlock queria convencer o dono de uma clínica da família de Mary a contratar John no dia de seu casamento. Ri de seu desempenho assim como John. – Então Sarah... Digo, Mary... – Ele continuou fazendo Mary olhar para John surpresa. — Se fez presente na vida de Watson de uma forma importante e eu nada tenho haver com isso, mas naturalmente desejo felicidades ao casal. – Ele disse, encaixando o microfone na base e saindo antes que as palmas pudessem ser projetadas. Voltou para a mesa e sentou-se estralando os dedos.

Foi... Diplomático. – Falei rindo de seu discurso.

– Deveria agradecer meu desempenho.

Sherlock... Você estava indo bem até errar o nome da noiva.

– Eu não tenho culpa se ela não se chama Sarah. – Ele disse simplesmente.

Sherlock... Onde colocou Gladstone? Não o vi quando saímos.

– Está trancado em meu banheiro.

O quê?! É sério?

– Sim.

Não pode... Você não fez isso com a pobre criatura!

– Está feito. – Ele disse, sorrindo e beijando minha mão. Nossa mesa estava lotada de carne refogada com batatas e frutas secas. Bebi um ou dois goles de vinho frutado com canela e mel, desceu quente por minha garganta, talvez pela combinação. Ao longo da noite Tiramos mais de trinta fotos e Mary me escolhia com frequência para saudar os convidados a sua companhia. Estávamos caminhando para uma mesa quando ela apresentou um amigo o qual para minha surpresa eu o conhecia muito bem. Era alto e com porte físico musculoso, antes era bronzeado artificialmente, mas agora sua pele voltou a cor natural. Os cabelos pretos e os olhos castanhos acentuados não destacavam tanto quanto seu sorriso branco.

– Irene. – Ele riu, e segurou meu ombro com a mão livre, já que a outra segurava uma taça de champanhe. Eu sabia tudo sobre aquele homem e, no entanto não sabia quase nada sobre sua vida social. Eu tinha certeza que ele ainda tinha uma cicatriz de um arranhão meu quando tentou mexer-se de onde estava preso a cama. – Vejo que está em perfeita condição, não mudou nada, espero? – Falava lentamente e tentava flertar.

Hmm, Gabriel certo? – Comprimi os lábios e prossegui com toda a educação que tinha. Depois de escapar da mesa, mas não sem dar o número falso do celular porque ele insistiu, Sherlock tinha retirado o blazer e a blusa branca apertada em seu peito que me fazia morder os lábios. Passei meu celular para Ham que implorava por algo para fazer. Retirei os sapatos e coloquei-os perto da bolsa decidida a retirar o meu tédio e o stress de Sherlock. Segurei sua cintura e empurrei-o até conseguir chegar a grama afastada onde os pés afundavam confortavelmente, o som não era tão alto e os convidados não passavam. Apoiei meu queixo em seu ombro enquanto ele segurava minha cintura e eu lentamente forçava-o a dançar comigo.

– Vejo que conhecia alguém.

Muito bem, devo acrescentar. – Sorri quando ele continuou com a expressão impassível. – Ele parecia interessado, até perguntou se o meu vestido era krikor jabotian.

– Imagino. – Ele sorriu de novo com sarcasmo.

You are quite hot being ironic.

– Well, since we are defrocked, I see no reason to receding.

Sim Mr. Holmes?– Sorri. Ele encostou a ponta dos lábios nos meus por um tempo, mordi o lábio inferior sentindo o gosto do sangue quente na boca. – Desculpe. – Falei, vendo o sague escorrer onde ele havia machucado na briga do Pub. A blusa dele manchou-se com sangue enquanto ele limpava sentado na grama. Acomodei-me ao seu lado.

– Você sabia que existem um total de 88 constelações? – Ele perguntou, apontando para o céu.

Achava que não se importava com as estrelas.

– Não me importo, mas não significa que eu não possa aprecia-las. – Ele respondeu, olhando para o céu. O vento batia em seu cabelo fazendo algumas mechas assanharem-se. Sua voz rouca seguia-se a medida que a conversa mudava sobre seus experimentos. Ele prosseguia explicando-me sobre a porcentagem de chá e cocaína. Descobri que apreciava ouvir sua voz mais que qualquer outro som.

Notas finais
ÉEE! Estou de volta! xD

Pois é, fiquei sem computador e não tinha como digitar... Desculpe pela demora! Espero que tenham gostado e não vou abandonar a fic. Fico feliz que tenha ao todo 48 pessoas lendo, mas ao mesmo tempo é desconcertante ver apenas 3 pessoas comentando. Eu não mordo Sherlockians! :D
Mas enfim, saudades de todos vocês e decidi postar exatamente dia 15/08 porque hoje completamos UM ANO de WOULD YOU HAVE DINNER WITH ME! XD * sopra velinha * Obrigada a todos e já estou escrevendo o próximo capítulo!
Agradeço pelas novas recomendações ♥