Mycroft tinha chegado à festa, acomodou-se na cadeira em frente à Sherlock. Molly observava-me como se eu não pudesse enxerga-la. Revesti minha atenção aos saltos.

– Marcaram algo para você na BBC One. – Mycroft disse.

– Como é? — Sherlock perguntou sério enquanto eu distraidamente calçava os saltos altos.

– Você irá entrar em um novo caso e precisam de você para o programa, desde que você virou uma pessoa pública, tudo está voltando à tona.

– Está dizendo que a imprensa quer me colocar em foco de novo?

– É o que parece, e a Scoland Yard te quer em destaque, tanto para distrações como para manter o olho em você.

– Isso é ridículo! Você é Scoland Yard, faça algo! Não quero fotos minhas de novo em jornais e muito menos atenção publica interferindo nos casos!

– Não posso fazer nada. – Mycroft falou lentamente. Retirou a carteira de dentro do bolso interno e passou um cartão fino para Holmes. – Mas estarei lá para você. Este é o endereço. – Apontou para o cartão. – Não se atrase.

– Dane-se, eu não vou. – Sherlock pegou o cartão e começou a passar por cima da chama da vela dourada de casamento que estava decorando a mesa. Com o cartão entre dedos, aos poucos ia desmanchando-se pelo fogo.

– Você vai, especialmente porque está escrito na sua pena.

– Minha pena é solucionar casos terroristas.

– Sua pena é fazer o que o serviço mandar. – Mycroft levantou-se vendo John se aproximar. – Você tem uma memoria boa, não precisa de outro cartão... John. – Sorriu e abraçou-o. – Meus parabéns.

– Obrigado Mycroft... Não sabia que vinha.

– O tempo que me falta é o mesmo que não tive para comprar seu presente de casamento, mandarei para o endereço.

– Agradeço, mas não precisa.

– Eu insisto, no entanto não sou muito ligado a festividades e por isso me encontro com uma terrível dor de cabeça, espero que entenda por que vou me retirar, sou um homem que nasceu para o trabalho e para o trabalho somente.

– Ele não quer ficar porque tem medo de não conseguir argumentar.

– Não discutirei com você. – Seu rosto se retorceu.

– Não é bem vindo aqui Mycroft.

– Os dois poderiam parar? – John perguntou, apontando a cadeira para Sherlock sentar-se quando se forma exaltada ele tinha se levantado. – Mycroft pode ficar o tempo que quiser e você... Tente não discutir por favor. – Ele disse, voltando para a mesa onde estava Mary com seu pai. Molly estava bebendo o terceiro copo de champanhe entre as discussões. Hamish estava dormindo e Mrs. Hudson estava conversando com a madrasta de Mary. Eu não tinha propriamente o que fazer e estava começando a concordar com Sherlock quanto ao tédio, mas observar Mycroft com desgosto solene era fascinante demais para qualquer um. O comportamento dele chegava a ser engraçado de tão enfadonho. Aos poucos, a concentração de pessoas aumentava na mesa do jantar, Sherlock partiu dizendo que ia pegar um prato doce. Continuei na mesa comendo algumas azeitonas e encarando Mycroft que decidiu passar a atenção para o próprio celular. Se alastrou tão rápido quão começou. As pessoas corriam para o gramado aberto e eu levei tempo demais para perceber o que estava acontecendo. Em uma fração de segundo tudo estava se desmanchando e as coisas quebrando. Acordei Hamish de forma rude puxando-o pelos braços quando me dei conta de que a tenda de casamento estava queimando, as luzes do tento agora faiscavam e as comidas já eram carvão. Mycroft ajudou Molly a passar por pedaços de vidro que acumulavam-se ao chão e já ligava para pedir socorro. No amontoado de pessoas no gramado eu não conseguia respirar direito e nem achar Sherlock. Então ele saiu da concentração de fumaça completamente sujo com meio copo de champanhe nas mãos. Cinco minutos depois, algumas pessoas choravam, outras tentavam respirar enquanto os bombeiros e duas ambulâncias tentavam atender todos. Ninguém se feriu pelo fogo, eu tinha alguns arranhões dos cacos de vidro, apenas. Conseguiram apagar o incêndio rapidamente, mas nada seria útil. John estava com uma expressão de raiva e Mary agradecia a Deus por ninguém ter se ferido. Hamish estava analisando as cinzas e adorava chutar os escombros. Uma moça olhava horrorizada para ele quando ele segurava um pedaço de algo derretido e gritava com felicidade que não serviria para mais nada. Lestrade chegou para relatar os fatos, o que não seria serviço dele, já que ele era Inspetor, mas ao que parece tinha pedido para fazer o serviço já que conhecia John. Mycroft tinha um rosto melhor do que tinha antes do tédio, o ocorrido parecia ter eliminado seu “mal estar”. Molly estendeu a mão para o champanhe de Sherlock.

– Não, você já bebeu demais. – Ele colocou o copo em cima de uma mesa que restava em pé e saiu para falar com Lestrade. Observei o vidro e uma ideia criou-se de forma sólida em minha cabeça. Peguei-o entre as mãos e cheirei o objeto, percebendo que não era bebida alcoolica e sim o próprio álcool. Bebida não surgiria tanto efeito na queima quanto a própria substância primária. As bebidas que tinham ali seriam 100 prof mas não passariam no vapor queimado de 50%. Demoraria muito para queimar, o único que tinha em mãos o que causaria um incédio tão rápido e de certa forma iria passar despercebido, era Sherlock. Ele queria contribuir para que o casamento não foi tedioso, ele disse, o mesmo que convenceu John a fazer seguro contra incêndio no bufet, estava planejando isso a tanto tempo. Procurei por Mrs.Hudson e encontrei-a com Hamish sentado na ambulância com um cobertor ao redor dos ombros encolhidos. Sua expressão era saudável e as leves marcas de aprofundamento na sobrancelha mostravam que ele estava analisando algo com vivacidade. Tentaram fazer exame em mim, entretanto recusei rapidamente vendo Mary empilhar os presentes – todos salvos – no carro para levar para casa. Sherlock havia chamado um táxi e Mycroft tinha ficado para engavetar o caso como acidente doméstico.

••• ••• ••• ••• •••

Porque fez aquilo? – perguntei quando chegamos a Baker Street. Ele tirava os sapatos e atirava-os na sala de qualquer forma.

– Estava calculando quanto tempo levaria para perceber... Foi rápido. O que me entregou? – Perguntou por fim depois um longo silêncio. Deixei-me cair no estofado do sofá afundando lentamente. Retirei os saltos.

O copo que segurava. – Respondi observando-o. Era errado, entretando o único olhar sincero que eu conseguia passar era o de real admiração.

– I was bored.

Era o casamento de John e acho que ele não ficou feliz com isso. – Ele sentou-se ao meu lado, sua respiração lenta e despreocupada.

– Ele queria que o casamento fosse lembrado e ele será, não de uma forma tradicional como toda aquela família obediente dos Morstan.

Você tem preconceito com essas pessoas.

– São tediosas.

Você deveria pensar que elas lidam com tédio melhor que você, como algo bom.

– Tem razão, e no entanto o que elas contribuíram para o mundo? Sabe que, a capacidade de suicídio de pessoas assim é de 67 % sem ser induzida por ninguém? Em um futuro próximo talvez... Um deles vá pensar constantemente sobre isso. – Ele levantou-se a apontou para o quarto.

Acho que a causa maior era para provar para sí mesmo que não é um herói. Afinal, se você fosse, estaria restringindo a si mesmo.

– É verdade, por enquanto o tédio se aplaca com pequenas demonstrações inusitadas, só me resta passar pelos anos vendo até quando vou me contentar, então quando a hora chegar, Lestrade não me terá ao seu lado para ajudar.

••• ••• ••• ••• •••

A cena era a seguinte: Eu usava um vestido, meias escuras e salto alto. Sherlock estava de pijamas acomodado na recepção de uma das locações da BBC. Mycroft olhava-o descrente de que pudesse ter feito tal coisa, contudo Sherlock tinha seu núcleo envolto em cinismo impenetrável. Estava folheando uma revista usada que tinha encontrado na mesinha da frente e bebendo gemada em uma xícara de vidro que afinava até em baixo. Uma moça chegou com uma caixa de cookies com coberturas variadas e entregou todos eles ainda quentes para Sherlock. Ele agradeceu e deu dois tapinhas no lugar ao lado para que eu sentasse. Encarei-o para que ele parece com as provocações, ele apenas sustentou o olhar. Suspirei e comecei a andar pela sala forçado concentração física. Um rapaz com uniforme apresentou-se a Mycroft.

– Mr. Holmes, creio que não vejo seu irmão. – Ele disse, sacudindo apressadamente a mão de Mycroft. – E quem são essas pessoas?

– Sherlock. – Ele apontou.

– Oh. O senhor, por favor, queira se dirigir a sala de figuração para escolhermos algo para você vestir. – Sentei-me ao sofá observando Sherlock sair do compartimento. Cruzei as pernas e retirei um biscoito de dentro da caixa com a ponta dos dedos. Não tinha me dado conta de que depois de trinta minutos Mycroft me analisava pelo canto do olho sentado de frente para mim.

Perdeu algo? – perguntei, pegando outro biscoito enquanto sorria para ele.

– Se tivesse perdido, você seria a última pessoa a saber. – Ele respondeu de forma brusca, o rosto em descontentamento. Começou a bater o sapato de coro detalhado no carpete. Mycroft em geral vestia-se muito bem, terno azul, sapato de coro, sempre guarda-chuva, e o celular metido que ajudava ele a ser mais esnobe do que era, mas eu não conseguia ter raiva dele.

Ambos sabemos que eu seria rápida para achar, só que você não quer admitir. – Ele sorriu um pouco. – Então fale para mim o que lhe incomoda.

– Eu não sei o que você está fazendo com Sherlock, mas ele está piorando.

Ao contrário do que você pode pensar, Sherlock é a única pessoa que eu não manipulo. Sabe que comportamento dele é assim e sempre foi, o que você quis dizer foi que não concorda com a minha presença ao lado dele. – Enrolei uma mecha de cabeço na ponta do dedo. — Porque não admite que a minha presença incomoda você mais do que deveria? – Ele ficou sério por um tempo. Continuei. — ... Ou você ainda não percebeu isso. – Levantei-me para pegar o celular de sua mão, no entanto com seu pé no meio do carpete, tropecei por cima da poltrona, seu polegar roçou na palma de minha mão fazendo ele se contrair involuntariamente. Sorri vitoriosa, meu rosto a centímetros do dele e seu olhar de completo choque. – Fascinante, talvez seja de família. Aparentemente sou propensa a causar reações inesperadas, exatamente na família Holmes. – Ajeitei-me rapidamente, passando pelo cômodo, encostei-me à janela. Eu conseguia perceber que o efeito do meu pequeno experimento tinha feito algum estrago em sua personalidade bloqueada, exatamente como fez com Sherlock. Pressionei a palma da mão contra o vidro gelado observando a chuva como uma cortina fina descer. O movimento na sala começou a aumentar, reconheci os apresentadores do programa chegarem à sala, um deles conhecia Mycroft e atirou-se para uma conversa. Sherlock voltou com um terno preto, blusa azul clara e sapatos. Tentaram cobrir com maquiagem no local do murro, mas só. Apoiei-me em seu ombro sorrindo.

– Precisamos começar, a equipe de filmagem está no set. – A moça da recepção falou enquanto repetia pelo walkie talkie que todos estavam indo. Prosseguimos andando por vários corredores. Sherlock estava com sono, assanhava o cabelo constantemente e estralava os dedos. Mycroft seguia calado, quando chegamos ao set do programa, Sherlock ficou atrás da porta onde foi designado e Mycroft e eu sentamos como observadores. O programa seria ao vivo e estaria sendo exibido dentro de alguns segundos. Todos fizeram silêncio e um homem com fone pioneer começou a contagem para o início do programa. Colocaram a entrada, então rapidamente o sinal verde acendeu-se.

– Good morning, we will start a wonderful day with News! – A apresentadora começou a falar sobre um caso político e as imagens foram projetando-se na tela. Depois de completo tédio vi a câmera prosseguindo para filmar a mulher que explicaria sobre o tempo, enquanto isso, alguém colocava um mini microfone grudado em Sherlock que era quase imperceptível. Por fim, no meio do programa, quando eu estava a ponto de sair, chamaram com uma piada nada engraça Sherlock.

– Então, — A mulher disse. – Sempre temos visitas importantes, mas hoje, você telespectador, irá ter algo mais. Hoje temos a presença do ex detetive Sherlock Holmes, que obteve grande sucesso alguns anos atrás desvendando casos extremos e grande destaque quando suicidou-se do hospital St. Barts. Mas você deve estar se perguntando, se ele suicidou, como pode estar aqui? – Ela sorriu para a câmera. O homem falou também , em igual emoção de interlocutor.

– É simples, nós respondemos para você. Fontes internas conseguiram descobrir que esse homem está vivo e não se matou. Obteve a liberdade pelo processo e voltou à vida em Londres, e é com ele que vamos falar agora. – O homem finalizou, chegou perto da porta e abriu para Sherlock. Ele entrou lentamente, seu rosto não transpassava nada. O homem ofereceu um lugar no sofá de frente para eles e ele sentou, abrindo o blazer.

– Como está? – A mulher perguntou.

– Bem. – Ele disse, sem mais.

– Agradecemos a sua presença na manhã de hoje.

– Já posso ir? – Ele perguntou, olhando para os dois. Então a mulher sorriu e acenou negativamente. Mycroft ficou sério e gesticulava para Sherlock por trás das câmeras.

– Fontes da Yard dizem que você solucionou o caso de Park Lane, o que tem a dizer sobre ele?

– Foi um caso singular e extraordinário. Sebastian foi mandado para exílio, mas não posso informar onde, porque obviamente a Yard não contou-me.

– O senhor trabalha para Yard.

– Infelizmente. – Ele sorriu. – De acordo com a minha pena, eu trabalho agora e não vejo a hora de me livrar. Não sou ex detetive, sou consultor detetive. – Com o programa ao vivo, ninguém podia fazer algo que não fosse escutar as respostas dele e olhar incrédulo para a câmera. Eu estava rindo de tudo e Mycroft estava vermelho de raiva.

– O senhor obteve fama de forma rápida por solucionar casos complexos, no entanto foi igualmente testado em vários desafios, o qual, por último provaram que era uma farsa, temos a matéria de uma jornalista reforçando.

– A fama que consegui não foi por apenas obra minha, na verdade, é parte de Watson que publicou todos os casos resolvidos no site de forma detalhada. Fui testado em vários desafios, inclusive prestando serviços a realeza. A jornalista que mencionou repercutiu uma matéria à favor de James Moriarty, uma das mentes mais brilhantes que já conheci.

– James Moriarty chegou a cometer suicídio.

– Sim, ele fez isso para que eu não tivesse provas de minha inocência.

– Que tipos de serviços o senhor prestou à realeza?

– Não posso informar. – Ele revirou os olhos e passou a mão no estofado vermelho.

– Pode nos presentear com uma demonstração de suas deduções? – O homem perguntou.

– Será fácil com você. – Ele disse. – O velho costume. O senhor passou a noite fora, tem um pouco de batom no pescoço, o que não bate com o batom dela. – Apontou para a apresentadora. – Por isso, julgo não serem mais que companheiros de trabalho. Constantemente está piscando os olhos, reação comum ao uso demasiado de colírio forte para encobrir o cansaço dos olhos por virar a noite. Tem um filhote de gato siamês em casa, o qual ainda está escolhendo o nome devido a lista que estava lendo quando chegou. Tem um pouco de tinta para carimbo de cartas em seu pulso esquerdo, o senhor tem algo de importante para tratar com alguém de alta classe econômica e claramente precisa com urgência... Devo continuar?

– Sobre o gato é fantástico. – O homem riu enquanto a mulher assumia uma postura tensa ao seu lado.

– O senhor tem algo a especular quanto a sua inocência?

– Eu não me importo. É normal as pessoas se sentirem intimidadas por outras, no meu caso, eu uso a cabeça. – Estava soando esnobe. – Bom dia Watson, sei que está ai! – Ele acenou para a câmera. – A apresentadora olhou para o homem que gerenciava as falas e ficou sem saber o que dizer.

– O que pode nos revelar sobre o caso da realeza?

– Oh just fuck it. – Ele disse, estralando os dedos e olhando para câmera. – Oh, isso é BBC One, eu não poderia... falar...

– Você já disse. – O homem continuou olhando para a câmera.

– Hmm, uma mulher sem maturidade, da realeza não consegue controlar sua libido por isso, tive de encobrir alguns fatos quanto a seu total descuido a assuntos privados. – Mycroft recebeu um copo com água para se acalmar.

– O senhor pode ser mais claro?

– É normal que algumas pessoas tenham poder nas mãos e não saibam o que fazer com ele, entretanto por outro lado, existem pessoas que sabem e quando surge a chance, ela não é desperdiçada. Serei direto. Fotos comprometedoras foram retiradas e não poderiam se espalhar. Fotos íntimas e informações do serviço secreto, tudo nas mãos de uma pessoa que não abria mão de nada e também não utilizava nada. Essas informações variam do grau de causar escândalos nacionais envolvendo a monarquia, até que passou a envolver o parlamento crescendo para a escala política. A pessoa que tinha em mãos essa informação poderia mandar de forma oculta na Inglaterra, mexendo em quaisquer setores e posteriormente podendo vir usar essas informações como forma de chantagem. Quando o problema tornou-se crítico, cancelaram um plano envolvendo embaixadas entre países, estaríamos falando de planos secretos. As informações estavam guardadas em um celular e a mulher que poderia vir a usufruir, finalmente decretou dinheiro.

– Uma mulher? Como ela teve acesso a esse tipo de informação?

– Com inteligência e algo mais.

– Poderia esclarecer?

– O senhor acha mesmo que eu vou falar em plena manhã de canal aberto como ela conseguiu as informações? – Ele falou, mexendo o rosto. – Mycroft pare de gesticular para mim, eu não consigo te entender daqui. – Ele disse, olhando para Mycroft. Continuaram gravando sem saber o que fazer.

– Sim, eu vou continuar falando, não foi para isso que me trouxe aqui? – Holmes respondeu a algo que Mycroft tinha sussurrado. — Dane-se. – Ele disse, retirou o microfone provocando um barulho insuportável e atirou no chão. Passou pela frente da câmera sem se importar, levantei-me quando ele sumiu pelo corredor e a câmera filmava-o indo embora. Saímos do set deixando Mycroft para trás. Estávamos passando pelo estacionamento, ele colocou luvas de couro e encaminhou-se para uma moto. Ofereceu-me o capacete.

Que está fazendo? – perguntei, pegando o capacete e analizando-o entre as mãos.

– Oferecendo meio de proteção. – Ele disse, retirando a moto e ficando em cima. Apoiou-se e colocou o capacete. Coloquei também sentando atrás dele, segurando em sua cintura.

Algo mais?

– Aproveitando meus últimos segundos de liberdade. – Ele disse, acelerando de uma vez, passamos quase rentes ao portão do set. A chuva havia parado, só restavam as ruas molhadas e ele acelerava cada vez mais. Passamos pelo sinal vermelho, ele virou à direita em um beco. Segurei-me firmemente quando consegui ver a velocidade no painel. Mais alguns minutos e estávamos estacionando em frente ao cemitério.

Estava com saudades do seu túmulo? – Perguntei, ajeitando a roupa e levantando-me tentando manter o equilíbrio. Devolvi o capacete. Ele retirou o dele e guardou, deixou a moto no lugar e apontou para o gramado solitário.

– Necessita fazer uma visita. – Segurei sua mão passando pelos túmulos. De manhã bem cedo e com a chuva recente, poucas pessoas estavam no cemitério. Chegamos ao túmulo dele, retirei algumas flores mortas de tempos atrás, tempos passados que ninguém mais vinha deixar algo para ele. Passei os dedos limpando um pouco de areia grudada na caligrafia de seu nome escrito na lápide. – Você poderia chamar de alterego. – Pisquei algumas vezes compreendendo.

Não... Esse tempo todo...

– Eu devo isso a você e à Watson. – Afastei-me do túmulo cobrindo a boca com as mãos. – Eu não... Eu quero abrir.

– Eu sei que quer. – Ele sorriu.

É estranho?

– Não para mim. – Ele parou pensativo. Retirou o celular do bolso da calça e discou o número no automático. – John... Preciso que esteja na minha lápide às sete horas. – Ele disse, visualizando o relógio. – Não, estou bem... Obrigado. Não é nada. – Ele repetiu. – Aguardo você, traga meu casaco e duas lanternas, por favor. – Desligou.

O que vamos fazer até sete horas?

– Incomoda-se de pular algumas refeições? – Ele perguntou, estendendo a mão.

Não. – Peguei-a deixando que ele me conduzisse.

– Preciso encontrar um ponto cego, vamos ficar até à noite, o cemitério fecha exatamente às sete horas. Quando Watson chegar, precisamos passá-lo pelo muro. Ele apontou para um mausoléu antigo. – Dizem que neste morreu uma moça. Sabe que antigamente essa área do cemitério era um pântano?

O que tem de especial?

– O namorado prendeu-a viva aí dentro. Em minha infância, quando meus familiares viam para cá, consequentemente eu visitava junto, Mycroft costumava contar-me histórias da segunda metade de 1888, mesmo ano de Jack o estripador. Ele dizia que a moça havia sido presa viva e gritara por ajuda até ficar sem voz. – Ele aproximou-se da grade. – Nem por um momento eu cheguei a duvidar de sua palavra. – Ele disse apontando para uma substância estranha grudada na terra.

Você diz... Que essa é moça? – Perguntei apertando o rosto contra as grandes para tentar ver na escuridão.

– Sem dúvida o corpo ou, verdadeiramente o que sobrou dele. Eu disse que antigamente aqui era um pântano. O tempo de decomposição do corpo humano junto às substâncias que existem nesse tipo de lugar é comum preservarem a estrutura e é indefinido. Afirmo que a primeira coisa que fez for preservar alguns órgãos... No entanto, agora não deve haver mais que protuberâncias de algo que algum dia foram os ossos.

Incrível. – Sorri. Embora a história dela tenha sido no mínimo trágica, era incrível colidir com o futuro. De alguma forma ela tinha estado presente em uma espécie de mumificação por longas décadas.

– Acho que talvez tenha sido motivado por algum tipo de vingança, o que ainda era comum se a mulher não aceitasse algo... Ou talvez, só talvez, eu compreenderia, se ele tivesse mumificado-a para observar ela parar no tempo enquanto ele continuava. Só assim ele poderia vê-la todos os dias como sempre quis. De qualquer forma, teria sido interessante solucionar este caso. – Ele sorriu.

Não fica bem sorrir em um cemitério. – Falei, quando de longe observava sua lápide.

– Você trouxe-me flores.



A ideia de mumificá-lo passou por minha cabeça. Não se preocupe, próxima vez trarei formol. – Ele riu por uns bons minutos, até sentar-se onde a estrutura era elevada, a grama verde e seca. – Sentei ao seu lado, observando com calma, os ricos detalhes para os olhos, do lugar onde meu corpo iria ocupar pelo resto da eternidade.



••• ••• ••• ••• •••



Sentia minha barriga doer de fome e isso me desconcentrava um pouco, não por não passar um dia sem comer, mas por esconder-me constantemente junto a Sherlock ao entardecer quando o cemitério foi fechado. À noite, o desgaste físico era notado, Watson estava atrasado e nós dois utilizávamos o celular como luz apenas para enxergar o rosto de um e do outro. Eu não me sentia confortável, longe disso. A sensação de estar sentada sob algo em decomposição no escuro me estressava, no entanto, outra parte de mim gritava em como a adrenalina bombeada em minhas veias era ótima. Quando John finalmente chegou, Sherlock atendeu o telefone indicando onde estávamos. Não escutei como ele estava explicando, entretanto, penso que era por marcação e metros. Watson Escalou o muro, em outros minutos estava ao nosso lado, estendendo a mão para Sherlock puxá-lo. Ele pousou firme e passou uma lanterna para Sherlock que acendeu a guardou o celular. Entregou-me o casaco que tinha pedido. Vesti seu casaco apertando o tecido quente contra meu corpo, acompanhei-os pela grama enquanto Watson dizia boa noite naturalmente como se estivéssemos em praça pública.


– Não acredito que você estragou o programa de manhã cedo.

– Mycroft destrói a pouca paciência que tenho. Eu estava lá de boa fé... Ou nem tanto. – Eu sabia que ele estava sorrindo, mesmo no escuro.

– Devo ao menos ser justo, foi hilário. – Watson riu junto à Sherlock , focalizando o nome de alguns túmulos. – Esse é o seu... Pelo que estamos procurando exatamente?

– Eu vou abrir. – Ele disse, puxando a pá que tinha escondido mais cedo ao lado da lápide.

– Abrir? – John perguntou. – Um caixão vazio?

– Sabe que não está vazio.

– É para dormir de consciência tranquila?

– Não me afeta. – Ele disse, entregando-me a lanterna e pegando a pá. Watson sentou-se no gramado e ficou observando Sherlock cavar e amontoar areia à esquerda. Não estava ciente de quantas horas ficamos ali ajudando-o, Sherlock pegou de volta a lanterna e colocou-a entre os dentes, pressionando os lábios e focalizando enquanto agachava-se e batia em algo. Devolveu-me a lanterna e pressionou a abertura do caixão, quebrando o máximo que podia com a pá. Cobri o nariz com o casaco quando o cheiro forte concentrou-se. Watson tossiu por algum tempo, Tentei focalizar na lenta decomposição que assistíamos de James Moriarty. E era apenas isso, o contentamento de preencher o vazio, de saber que de fato ele estava ali, à sete palmos do chão, tendo melhor utilidade para humanidade morto que vivo, contudo, uma parte daquele projeto inteiro em minha mente perguntava-se se Sherlock pensava assim, já que Moriarty vivo era uma boa distração de tédio para seu raciocínio. Ficamos ali observando de longe, John pediu para que fechasse, Sherlock tampou-o com mais rapidez. Assim, saímos os três, cobertos de terra e lama grudada, frio e suor, atrás da claridade da rua e do descanso da alma.



••• ••• ••• ••• •••



Quando chegamos à Baker Street, procurei por Gladstone sem encontrar. Abaixei-me e olhei debaixo do sofá.



Hamish, onde está Gladstone? – Perguntei.

– Agora que falou eu lembrei dele... Não sei onde está. – Ele respondeu. Sherlock surgiu tocando violino, já havia tomado banho, se trocado e agora usava pijamas novamente.

Sherlock... Onde está Gladstone? – Levantei-me.

– No banheiro, até a última vez que o vi.

Sherlock... – Levantei-me e segui para o quarto, puxei a porta do banheiro. Ele seguiu atrás ainda tocando violino. Gladstone tinha rasgado algumas roupas do cesto e estava sentado cheio de tecido grudado no pelo. – A culpa foi sua! – Gritei, puxando Gladstone e colocando-o na banheira.

– Estou começando a apreciar o temperamento desse cachorro mais do que deveria. – Ele disse, colocando o violino em cima da cama, voltou e arregaçou as magas, começou a catar os tecidos e a jogá-los fora. Segurei Gladstone enquanto tentava tirar os tecidos, ele gritava uma vez ou outra quando estava grudado.

Não está saindo.

– Vamos dar um banho nele. – Ele disse, enchendo a banheira. Gladstone começou a nadar pela banheira quando a água subiu. Ensaboei seu pelo, tentando fazer ele para de se mexer.

Não consigo, Sherlock, ele é só um filhote, está comendo sabão...

– Não vai fazer mal. – Ele disse, retirando os tecidos grudados. – Peguei uma toalha antiga no final do armário e trouxe para enxugar Gladstone. A água da banheira foi secando aos poucos, Gladstone começou a se secar espirrando água. Sherlock enrolou-o na toalha velha e levou-o para sala colocando sem eu colo. Gladstone deitou-se e continuou enrolado. Entrei o violino de Sherlock, quando ele começou a tocar, Gladstone grunhiu. A princípio achei que era coincidência, todavia, quando Sherlock mudava o a intensidade, ele também mudava acompanhando-o. Ele fez carinho entre suas orelhas sorrindo. – Parece que você finalmente escolheu alguém.

– Eu NÃO vou tolerar isso! – Mycroft gritou, subindo as escadas.

– Você custou, precisa fazer uma dieta. – Ele disse, tocando para Gladstone. Hamish sentou-se ao seu lado no sofá bebendo chocolate quente.

– Não podia ter falado sobre o escândalo! Está louco? Vão cortar minha cabeça fora de tanto trabalho para compensar isso.

– A Yard me quis lá, a Yard arque com as consequências. – Cruzei os braços encostando-me na lareira.

– Quero falar com você à sós. – Ele disse, apontando para o quarto de Sherlock.

Só... veja o que ele quer. – Disse, sentando no sofá ao lado de Hamish quando Sherlock passou para o quarto, Gladstone o acompanhou arrastando a toalha junto.

Ha-Hamish... Que raios.. Tem alguma coisa verde grudada... – Tentei tirar algo verde grudado em sua boca.

– Não! É corante verde para o chocolate!

Oh Deus...

– Eu fiz mais... – Foi para a cozinha e voltou com dois frascos mostrando um vermelho e um amarelo. – Qual é o sal e qual é o açúcar?

Hamish! – Watson apareceu na sala para pegar algo que havia esquecido no quarto e acabou por achar uma garrafa de vinho e se jogar na primeira poltrona vaga que achou. Mycroft desceu em uma velocidade impressionante quando um carro buzinou solene na rua. Estava ficando tarde, Mary apareceu na escada para chamar Watson, mas o tempo percorreu-se e acabou por se apoiar na poltrona de John. Sherlock estava deitado de bruços no chão jogando cluedo com todos nós. Taças com vinho misturavam-se a cartas e objetos de tabuleiro com verdadeiros risos e roupas quentes. Era mais uma noite que se terminava na Baker Street.



Notas finais
Estou escrevendo consecutivamente duas histórias então acabou que não pude postar a continuação desse capítulo porque eu preparei uma pequena surpresa. :)

Espero que tenham apreciado a leitura :D

Um grande Olá aos novos leitores, e um abraço especial aquem deixou maravilhosos reviews *-* A opinião de vocês tem grande efeito sobre os capítulos, por isso obrigada, e continuem comentando ;)

Aqui, eu queria lembrar o começo da fic, o cemitério, onde tudo começou, James Moriarty e ao Mycroft que foi vítima de Adler de forma fascinante.

- Laters!