Would You Have Dinner With Me?
1 I feel suffocated, Sherlock.
Notas iniciais
—Chegamos.
Irene olhou pelo vidro, essa época do ano, Londres estava mais fria e ventava mais. O céu estava totalmente cinza, nublado, provavelmente iria chover em breve. Sentada no banco de couro de trás do passageiro, seus finos dedos abriram sua bolsa de cetim preta com um broche de prata cravado.
—Senhorita?
— Aqui. — Ela disse, entregando ao taxista dinheiro pelo percurso – Poderia esperar? Não vou demorar. – Falou calmamente enquanto abria a porta do carro e puxava sua bolsa consigo, seus sapatos pretos encostaram o chão do velho cemitério, construído há séculos. Irene abriu o guarda-chuva incolor e fechou a porta atrás de si . Caminhou até a janela do motorista do lado direito. O motorista olhou para o rosto dela e rapidamente acenou com a cabeça fazendo um gesto positivo em resposta ao que ela havia perguntado.
— Obrigada— Com um sorriso que não era o costumeiro acalorado, mais parecia um sorriso de convenção social, daqueles que se dá a um estranho na rua ou a uma alma bondosa que gentilmente segura a morta e facilita sua vida, ela virou e caminhou lentamente por entre os túmulos. Quanta história tem esse lugar. — Pensou – Já enterrara um ente querido no mesmo cemitério, era criança, mas ainda lembrava de que tinha sofrido com a perda, porém, nada se comparava com o que ela estava sentindo agora. Sherlock. Pouco tempo atrás estava dando-lhe um beijo na bochecha e um último adeus antes que ele partisse, deixando-a salva no aeroporto. Uma lágrima rolou dos olhos para a bochecha, com um rápido movimento ela tocou a lágrima com a ponta dos dedos deixando seu rosto limpo novamente. Avistou o túmulo preto, estranhamente limpo e aproximou-se tocando a lápide. Seus saltos pisavam na grama e deixavam uma sensação estranha de que parecia que a terra estava sugando-a, que seus pés tremiam e de que tudo estava instável.
— Sherlock Holmes.— Disse olhando para o grande nome de cor dourada, escrito com uma caligrafia refinada. – Falar em voz alta dói mais. — Disse ela, com as lágrimas ardentes agora rolando de seus olhos — Eu não acreditei quando soube... Quando li...— Irene levou seu braço à lapide para se apoiar, já que não estava sentindo as pernas que pareciam adormecer a cada palavra — Eu comprei cada jornal do país, só para encontrar uma brecha, só para ver que você estava vivo... Que seria auto-confiante demais para se matar... Eu... Não achei que você fosse primeiro, nunca pensei que iria antes de mim nunca planejei perder e isso dói... Tanto. I feel suffocated, Sherlock.
Era Outono, o vento soprava com mais intensidade, Irene só escutava o barulho do farfalhar de poucas folhas secas da árvore e um choro que vinha ao longe, parecia ser de uma mulher. Aos poucos os pingos de chuva aumentavam e a tarde escurecia.
— Não faz bem guardar isso. – Disse uma voz atrás dela. Ela rapidamente virou para encarar uma velhinha que parecia ter 80 anos ou mais, com roupas claras e um casaco de crochê. – Uma moça tão bonita, não pode perder a vida por ele. – Disse a mulher entregando uma flor branca. – Representa a paz. A flor serve tanto para você quanto para ele. – Disse a mulher já indo embora, enquanto Irene segurava a flor com a mão livre.
— Obrigada. — Sussurrou Irene, os pensamentos em completa confusão, queria sentir raiva da mulher, mas não conseguiu sentir nada. – Se abaixou colocando a rosa suavemente perto do túmulo. – Vá em paz, Sherl. — Rapidamente colocou a bolsa na mão onde estava a rosa e andou para o caminho por onde tinha chegado, fazendo o sentido contrário, o vento batia nas pontas do vestido preto de Irene, que mexia os braços entre as mangas cortadas procurando aquecer-se.
Chegou ao taxi que a esperava com uma expressão contrariada. Rapidamente abriu a porta de trás e deslizou para o meio do carro, colocando a bolsa do lado direito, fechando o guarda-chuva e a porta, o taxista limpava os óculos e espiava Irene pelo vidro enquanto a moça pegava um lenço umedecido na bolsa e limpava os olhos.
— Para onde?
— Millennium Hotel, 44 Grosvenor Square, próximo a Oxford Street.
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