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••• 3 Dias Depois •••

Sherlock e eu não estávamos muito bem desde o dia em que nos desentendemos na sala de esgrima, mas hoje era totalmente diferente. Não era como se eu estivesse com raiva dele, só estava preocupada.

John, estamos aqui. – Sussurrei lentamente contra o telefone em minha orelha.

– Shh... Ele está chegando. Apague a luz, apague a luz! – John falou com Greg, provavelmente tentando apagar a luz do pub que tínhamos alugado – Por sorte – naquela cidadezinha que em minha cabeça, já estava ficando ordinária demais. O horário que conseguimos – De madrugada – era perfeito, iriamos comemorar apenas doze horas. Tivemos que encobrir o plano inteirinho, queríamos que Sherlock não soubesse que iriamos comemorar seu aniversário mesmo que o “caso” com Sebastian não tivesse sido finalizado. A princípio John de vez em quando fazia lembretes e Sherlock drama, falando em alto e bom tom que NÃO queria comemorar nada. Fingíamos escutar e concordar com ele o tempo inteiro, o plano estava seguindo perfeitamente bem até que eu fui escolhida para trazer Sherlock para cá. Claro, a tarefa mais difícil, John disse que meu sacrifício valeria a pena. Suspirei. Sherlock estava ao meu lado no carro, sentando no banco de couro confortavelmente. Olhava pelo vidro da janela diversas vezes, ou então, tentava remover a película do espelho, que tinha se tornado uma obsessão para ele, por estar formando bolhinhas. Eu estava dirigindo e não tinha sido fácil convence-lo a me deixar fazer isso e muito menos sem ele ficar desconfiado, mas penso que motivado pela curiosidade ele cedeu. Ambas as partes do plano eram difíceis porque Sherlock conhecia o caminho da charneca e quando ele percebeu mudança no trajeto, observou que não estávamos indo encontrar Sebastian e sim visitando outro lugar. Estacionei em frente ao pub, as luzes desligadas, guardei o celular rapidamente atirando-o em minha bolsa de mão. Sherlock saiu do carro observando o lugar, bateu a porta com força, começou a avaliar o local. O pub inicialmente tinha sido escolhido por John, porque para efeito surpresa era o único da região que não continha uma placa revelando o que era.

– Porque não estamos na charneca? – Ele perguntou lentamente. Parecia estar se controlando, mordi os lábios como se fosse para amenizar o que eu poderia vir a falar.

Você verá. – Segurei sua mão e sorri. Ele continuou desconfiado embora tivesse sorrido para mim também. Empurrei a porta lentamente, então John e Lestrade jogaram o que parecia ser confete e gritaram “Feliz aniversário”! Abriram-se as luzes e Sherlock estavam com raiva. – Vamos, não fique assim, nos deixe comemorar o seu dia.

– Não é meu dia ainda. – Ele disse, cruzando os braços e olhando o relógio.

– Verdade, poucos minutos. – Disse John, observando-o. Lestrade bateu em seu ombro de leve e entregou-lhe uma caixinha colorida.

– Pelo tamanho, peso... – Ele mexeu a caixinha violentamente entre as mãos. – Diria poder ser um relógio ou uma calculadora, mas como você é bastante previsível com certeza é um relógio. — Sherlock abriu atirando a tampa no chão de qualquer jeito enquanto sentava-se em uma mesa de madeira perto do balcão com bolo e algumas bebidas. Retirou um relógio prata com detalhes pretos e não mostrou interesse.

– Dê um sorriso. – John falou, enquanto colocava Greg ao lado de Sherlock e tirava uma foto dos dois. Sherlock estava visivelmente contrariado, tinha um sorriso falso estampado no rosto e continuava sendo sarcástico com todos. O inferno. Ele levantou-se da cadeira e pegou chá, diferente de todos que brindavam com champanhe. Tomei um gole significativo depois coloquei a taça no balcão.

– Feliz aniversário. – Sorri roçando os lábios nos seus. – Quantos aninhos? – Passei os dedos por seu cabelo, pegando na ponta dos cachinhos.

– Odeio comemorar. – Ele disse lentamente. Suspirei. Ele segurou meu pulso esquerdo, ficou ao meu lado. Abracei sua cintura enterrando a cabeça em seu ombro. – Você está aqui.

– Eu sei, estou. – Beijei seu pescoço sentindo o perfume. Afastei-me um pouco e deixei John falar.

– Feliz aniversário! – Ele disse, sorrindo, abraçou-o apertadamente.

– Não vou aguentar isso por muito tempo John. – Ele disse, quando finalmente John o soltou. – Dê-me problemas, casos, algo, eu imploro! Não faça isso comigo...

Drama Sherlock... – Comentei enquanto pegava uma caixa pequena um pouco pesada. Tinha aberturas nas laterais.

– Antes, gostaria de deixar claro que ideia foi completamente dela! – John prosseguiu, falando para Sherlock, gesticulando nervosamente.

– O que você está falando? – Sherlock perguntou com raiva, franziu as sobrancelhas e colocou a xícara de chá em cima da mesa.

Foi minha ideia... – Falei, colocando a caixa em seu colo. Ele ajeitou-se na cadeira e puxou a tampa da caixa. — Você gostou? – Perguntei tentando avaliar sua expressão. Não falava nada. Tirou um buldogue adormecido de dentro da caixa. Por ser filhote, cabia em apenas uma mão dele. Era branquinho com algumas pintas cor creme.

– Eu... Eu não sei. – Ele disse, avaliando minunciosamente o cachorrinho que ainda dormia em sua mão.

Deve dar um nome. – Falei acariciando a cabecinha do cachorro.

– Eu... Vou pensar... – Ele disse lentamente.

John... – Sussurrei. – Você sabe se ele gostou?

– Eu não sei... Com animais, penso que é diferente. Talvez ele tenha gostado, não foi indiferente nem nada. Uma verdadeira reação de surpresa. – Olhamos para Sherlock ainda segurando o cachorro sem expressão alguma. Encostei-me ao balcão tentando entender o que Lestrade contava para Sherlock e John que sorriram. Continuamos bebendo refrigerantes – porque não podíamos ingerir muito álcool antes de nos encontrar com Sebastian- e conversando sobre banalidades, alguns fatos sobre Sherlock.

– Então... Eu disse, “Como acha que vai pagar pelas roupas? Vendendo o corpo?” – John falou, enquanto contava algo muito engraçado sobre Sherlock. Mal conseguia falar sem parar de rir. – Ele disse, “Mas Watson... Não acho que essas pessoas paguem pelo corpo em geral”. – Comecei a rir.

Isso é ingenuidade. – Sorri, segurando o braço de Sherlock enquanto ele continuava sério.

– Estão ouvindo?...- Sherlock fez final com as mãos, seguiu para a janela quando rapidamente todos os vidros quebraram. Abaixei-me por instinto, atrás de uma mesa. Mesmo com as janelas espatifadas continuavam atirando para dentro do pub, de fato deveria ser uma metralhadora. Coloquei o buldogue na caixa e chutei-a para debaixo do balcão. O pobre cachorro continuava dormindo. Algum tempo depois sangue começou a deslizar e apareceu debaixo do salto de meu sapato. Observei o caminho de sangue vindo do ombro de John. Cobri a boca observando seu estado deitado no chão, encostando-se à parede. Rastejei até seu lado, tirei sua blusa e rasguei em tiras tentando passar ao redor de seu ombro e de seu peito.

Você... Você precisa de um médico. – Falei, tentando ajeitar seu ombro enquanto ele não falava nada. Acenou levemente com a cabeça. Com certeza a ironia. Você é um médico, você precisa de um médico.

– preciso ir com você. – Ele disse, segurando meu pulso.

– Ir para onde?

– Sebastian vai levar vocês... Eu preciso ir.

Não. – Arrastei seu corpo pelos pés passando até o banheiro do local. Consegui ver Sherlock espremido no canto da parede com uma janela estraçalhada ao redor. Greg estava nervosamente carregando a arma. Fechei a porta do banheiro masculino, puxei John enquanto tentava colocar água em seu ombro. – Você vai ficar com isso. – Tirei minha arma da liga direita de minha coxa e passei para ele com as mãos ensanguentadas. Meus saltos e minhas mãos estavam igualmente sujos de sangue, contrastando com meu vestido arrumado e meu cabelo preso. – Quando eu sair, você tranca a porta. – Falei, tentando ajudar ele a chegar perto da porta do banheiro. – Ok?

– Eu não vou deixar vocês! – Ele berrou, segurando o ombro.

– Nós temos Lestrade! – Falei, observando-o. – Nós vamos ficar bem.

– Não! – Ele gritou. Suspirei.

Desculpe John, mas é para o seu bem. – Falei, deixando-o sentado no chão do banheiro. Peguei a chave da porta rapidamente e tranquei-o no banheiro. Coloquei a chave na areia de um vaso próximo a porta, totalmente oculta. Os tiros continuavam, consegui ver Greg correndo com arma, atirando em alguém. – Quem ele pegou? – perguntei, quando Sherlock atravessou abaixado e ficou ao meu lado.

– Não sei. – Conseguimos nos aproximar da porta, até que a munição de Lestrade acabou. Estava obviamente fora de condição voltar e pegar a arma de John porque facilmente matá-lo-iam se o encontrassem desprotegido. Sebastian entrou no pub segurando uma pistola, atirou no peito de Greg, que caiu rapidamente.

– Finalmente podemos conversar. – Ele disse, sorrindo para mim. Segurei o pulso de Sherlock observando seu rosto. Ele não disse nada, tocou minha cintura, depois lentamente soltou-me. – Levem-nos! – Ele disse. Alguns capangas apareceram e colocaram algemas em mim e em Sherlock. Colocaram-nos em um Sedan. Rapidamente estávamos indo para dentro da charneca, quando o carro finalmente parou, saímos apressadamente. O francês checou para ver se estávamos armados e voltou a fumar lentamente um cigarro do outro lado. Estávamos em meio às árvores com uma pequena construção de apenas um quarto no meio do lugar. Provavelmente onde Sebastian estava se escondendo. Ao redor, existiam mesas, cadeiras e armas amontoadas sem qualquer ordem. Sebastian percebendo minha observação deu-me uma tapa. Cai por cima de Sherlock. – Quem vai ser o primeiro a falar algo? – Ele disse, carregando a arma. Estávamos ferrados, sem John, Lestrade ou Mycroft. – Senta aqui! – Ele disse, colocando-me em uma cadeira de plástico. Sherlock continuou observando-me de longe, enquanto o levavam para entre as árvores. Senti uma picada no braço, virei para me mexer, mas Sebastian aplicava alguma quantidade de uma substância que me era desconhecida.

O que é isso? – Perguntei, enquanto ele tirava a seringa e colocava de volta a uma maleta branca. – O que é...

•••


Abri os olhos pesadamente. Não sabia onde estava, tinham movido meu corpo, estava no chão do quarto de Sebastian com algumas picadas no braço. Tinha levado umas boas surras, constatei enquanto tentava me mover e tinha um corte profundo no abdômen que doía irritantemente. Tentei levantar para ir atrás de Sherlock, tropecei com os saltos e cai na madeira manchando-a com sangue. Vomitei um pouco no chão e coloquei os saltos na cama tentando apoiar-me a ela para ficar em pé. Descalça pisando em alguns cacos de vidro puxei a janela que dava para as árvores que eu estava antes de desmaiar. Minhas mãos estavam presas com lacres em vez de algemas, consegui ver Sherlock preso na mesma cadeira que eu estava antes, todo ensanguentado, no frio. Sebastian estava sentado bebendo whisky conversando com ele. Peguei um caco de vidro do chão e deixei meu corpo deslizar pela parede. Comecei o processo de tentar cortar os lacres com o vidro, que roçava nos meus pulsos, ignorei a dor que nem se comparava a que eu estava sentindo no abdômen. Continuei “serrando” o lacre por um bom tempo. Uma vez ou outra observava se Sherlock se mexia. Quando finalmente soltei-me, tirei o vestido, rasguei a fronha do travesseiro colocando-a ao redor do ferimento, vesti-me novamente com dificuldade, gemendo às vezes de dor. Peguei outro caco de vidro rapidamente quando um homem entrou no quarto. Encolhi-me para debaixo da cama. Ele correu pelo quarto sem me ver, pegou os lacres rompidos no chão e saiu.



– Ela não está... – Ele começou a falar, sai rapidamente e enfiei o vidro em suas costas, ele cambaleou contra o chão, puxei seu corpo antes que Sebastian nos visse. Ele empurrou-me contra a cama, puxei seus cabelos enquanto ele segurava meus pulsos e gritava comigo. — Vagabunda! – Ele disse, com dificuldade. Empurrei com o pé o vidro mais adentro de seu corpo, ele gemeu de dor. Bati no cinturão fazendo arma cair. Lancei-me contra o chão engatinhando atrás da arma. Tateei em busca dela, só conseguia ver vidro. Ele puxou meu cabelo, desfazendo meu coque.



Ah! – Lutei contra seu braço cravando minhas unhas eu seu rosto, arranhando pela extensão. Observei o sangue escorrer rapidamente. Ele empurrou o braço contra o ferimento em meu abdômen me fazendo cair contra a barra de ferro da cama.



Vadia... – Ele disse, pegando a arma do chão. Puxou-me pelo braço até a frente do espelho. – Está vendo o que você fez?! Está vendo vagabunda?!



Um charme. – Sorri. Observando o sangue escorrendo por seu rosto. Ele jogou-me contra o espelho, se desfazendo em pedaços. Puxei um pedaço do espelho que ainda estava no lugar enquanto sangrava entre minhas mãos. Ele puxou minha perna ajeitando-as nas dele arranquei o resto do espelho bem a tempo de cravar em seu peito quando ele se pôs em cima de mim. Sai de baixo dele arquejante, arrastei-me até a arma. – Ainda estou viva. – Sussurrei, limpando o suor do rosto misturando-o com sangue. – Ainda estou viva. – Repeti. Peguei a arma do homem que estava deitado no chão. Emergindo do outro lado da porta, o francês apareceu lentamente atrás de mim. Escondi-me atrás da coluna lateral. Quando ele puxou a porta, entrou no quarto em um rompante. Atirei sua cabeça vendo aquela silhueta enorme como em passe de mágica, cair no chão petrificado. O tiro alarmou todos inclusive Sebastian, que se levantou rapidamente e pegou Sherlock pelo braço. Sai do cômodo apontando com dificuldade a arma para Sebastian.



– Largue ele. – Gritei, observando apenas Sebastian segurando a arma para mim.



– Solte a arma!



Não vou soltar, largue ele!



– Pega ela! – Ele gritou, quando um homem musculoso apontou a metralhadora para mim. Continuei segurando firmemente a arma. Tanto trabalho para nada. Ele aproximou-se tirando a arma de minha mão. Já era fim de tarde, observei enquanto prendiam-me em uma cadeira entre as árvores. – Está louca?! – Sebastian gritou, encarando-me.



Não, perfeitamente bem. – Rebati ainda sentada. – Não tenho medo de você.



– Quebre os dedos. – Ele vociferou. Observei o homem pegar um alicate preto e apertar contra o meu dedo mindinho. Um estalo como algo se partindo acompanhou com uma dor enorme que tomou conta. Comecei a gritar esperando a dor passar. Tem que passar alguma hora. Curvei os ombros arfando observando Sherlock de frente para mim com sangue escorrendo pelos lábios. Respirei fundo percebendo que a dor diminuía. — Foi só o primeiro. – Ele disse, cravando as unhas na minha coxa. Sherlock observou-o com nojo.


Que venham os nove! — Cuspi em seu rosto.

– Um gesto louvável. – Ele disse, limpando o rosto na manga da blusa. – Eu vou realmente quebrar os seus nove, porque se você não percebeu... – Ele pegou a mão de Sherlock. – Eu já quebrei todos os dele. Você criou tempo, trouxe atenção para você, mas não vai adiar o inevitável, continue. – Ele disse, fazendo um sinal positivo para o homem.

•••

Acordei deitada novamente no chão do quarto escuro, percebi que Sherlock estava deitado ensanguentado na cama. Levantei-me sem o apoio das mãos que doíam infernalmente e sentei ao seu lado, desesperada tentando faze-lo acordar.



– Oh meu Deus! Sherlock! Sherlock! – Puxei a manga da blusa em seu braço querendo que ele acordasse. Ele abriu os olhos e franziu as sobrancelhas. –Não vou deixar você... Eu... Eu... Nós precisamos ir... – Passei a mão pelo meu rosto retirando as lágrimas. – Você tinha um plano? – Ele continuou me observando, se afastou um pouco e sentou-se na cama. – Sherlock?



– Era para ter fugido. — Ele disse lentamente. Sentou-se ao meu lado e pegou minhas mãos. Sua boca estava inchada pelos murros e seu corpo cheio de sangue e contusões.



– Seu... Seu ombro está quebrado? – Perguntei observando-o.



– Estava, mas eu coloquei no lugar. – Ele disse. – Deixe-me colocar os seus dedos. – Respirei fundo. Ele colocou alguns panos em minha boca, então começou a colocar no lugar enquanto eu gritava contra os panos. — Pronto... – Ele sussurrou em meu ouvido. Abri os olhos puxando as mãos ainda presas.



Que grande aniversário. – Falei, sem ter muito que dizer, enquanto sentava na cama. Ele sorriu um pouco.



– Bem, estou prestes a morrer, conceberia a honra de dançar comigo? – Ele se levantou com dificuldade em cima da cama e segurou-me. Passou os braços por minha cintura enquanto tristemente tentávamos segurar um no outro.



Você não vai morrer.– Sussurrei enquanto enterrava a cabeça em seu ombro. –Não vai.



– Não vou esquecer... – Ele disse enquanto continuava segurando-me em cima da cama. Minhas lágrimas molhavam sua camisa fazendo-a grudar em seu corpo. – Tem um telefone debaixo do assoalho, disque o numero de Mycroft, eu anotei no espelho do banheiro. A bateria está franca, tente ligar, eu não tenho mais forças para isso... — Sentei na cama esperando ele fazer o mesmo, mas ele cambaleou até a porta e deu três batidinhas. – Estou pronto. – Sebastian apareceu e levou-o arrastando pelo braço. Lancei-me para o banheiro tremendo com o celular entre as mãos. Observei o número escrito com sangue no espelho do banheiro, liguei errando, tentei novamente.



– Mycroft! – Gritei, quando ele atendeu.



– Onde vocês estão?! Tem uma equipe de buscas aqui e John está muito mal.



– Charneca... Charneca... Perto da casa de Henry... – Minha voz falhou um pouco. – Perto de um lago... Observei pela a janela do quarto. – Está aí? Está aí? – Gritei. Observei o celular se desligar. Coloquei no chão ao lado da pia e lavei o rosto mordendo os lábios. Sentei na cama observando pela janela Sherlock ajoelhar-se no gramado e o homem musculoso começar uma nova sessão de torturas. Seus gritos ecoavam fazendo meu corpo doer mais ainda. Meu coração parecia se apertar a cada murro. Mais ou menos uma hora depois ele estava deitado em sua própria poça de sangue, então, Sebastian apontou a arma para a cabeça dele. Outro homem com sotaque francês apareceu no quarto e ajoelhou-se me observando.



– Está vendo isso? – Ele disse, mostrando o símbolo de ouro da policia. – Estou aqui para ajudar.



– Quer ajudar? Ajude agora, faça algo! – Gritei.



– Não podemos ser precipitados...



– Precipitados?! Está louco?! – Gritei enquanto ele tentava me acalmar.



– Adler, estamos a anos investigando Sebastian. Não vou colocar em risco toda a operação...



Você está me falando que vai deixar Sherlock morrer para poder pegar Sebastian em um momento mais conveniente?– Cuspi as palavras para ele, o ódio tomando conta de mim.



– Eu preciso pegar Sebastian, se ele fugir, vai tornar as coisas bem mais difíceis para a polícia depois. — Puxei a arma do cinturão e atirei em sua perna. Ele gritou e caiu no chão. Sai do quarto sem ao menos ter remorso pelo homem. Segurei-me nas paredes enquanto procurava pelo homem musculoso. Atirei duas vezes contra seu peito. Sebastian tinha sumido, observei tardiamente. Corri para Sherlock e retirei suas amarras, fazendo-o segurar em meu corpo, ele pegou a arma e atirou em algo mais a frente. Seguimos por entre as árvores, ele segurava a arma e eu tentava leva-lo comigo segurando sua cintura, o peso de seu corpo no meu. Andamos por algum tempo, tropeçamos várias vezes em raízes e depois conseguimos chegar à estrada. Andamos lentamente pela direção norte, até ver o carro de Mycroft parado. O próprio estava em pé com o celular no ouvido. – Mycroft! – Gritei. Apenas ele estava ali, provavelmente à equipe de busca estava atrás de nós em outro lugar. Ele correu até nós, mas parou no meio da estrada e pegou a arma rapidamente, virei para ver Sebastian segurando uma pistola e mirando em Sherlock. Joguei-me por cima dele, fazendo nossos corpos rolarem com a batida. Observei Sherlock desacordado enquanto colocava minha mão em meu estômago. O sangue escorria de sua boca e sua cabeça. Meu corpo cedeu ao seu lado, minha visão ficou nebulosa até não conseguir enxergar nada.



•••



Abri os olhos lentamente tentando acostumar-me com a luz branca. Um aparelho ao meu lado fazia um bip descontrolado.



– Ela está bem Hamish, veja, foi só o adesivo que desgrudou. – Escutei uma voz feminina foi se aproximando. Senti uma pressão em meu tórax. Abri os olhos imediatamente enquanto segurava o pulso de Mary.



Mary... – Observei-a, soltei rapidamente seu pulso, ela me abraçou.



– Imagino pelo que deve ter passado, espero que esteja melhor... John me contou sobre o sequestro. – Ela disse rapidamente balançando os cabelos loiros que iam até pouco mais que os ombros. Eu não sabia a mentira que John tinha contado para ela, apenas assenti.



Hamish... – Meus olhos encheram-se de lágrimas. Ele sorriu e caminhou até onde eu estava, abraçando-me. – Senti tanto sua falta. – Apertei-o contra meu corpo sentindo dor. – Você está bem? Comportou-se?– Falei, passando os dedos por seu rosto.



– Sim, sim mãe. – Ele disse vermelho e quase chorando. – Sente dor?


Não, estou bem, estou ótima. – Falei, sentando na cama pálida do hospital.


– Eles tiraram uma bala de dentro do seu estômago... O médico disse que por sorte não vazou os ácidos gástricos...



Hamish não importa, eu estou bem, estou aqui. – Sorri enquanto limpava uma lágrima de seu rosto.



– Vou chamar John. – Mary disse, levantando-se e pegando a bolsa timidamente.



– Dói? – Ham perguntou, apontando para as agulhas na veia de minha mão.


Não... Não se lembra de quando ficou internado?

– Não. – Ele disse pensativo.

É... Acho que não lembra mesmo, era tão pequeno. – Sorri desarrumando seu cabelo. John entrou no quarto e chamou Hamish, que saiu com Mary para o corredor.

– Irene. – Ele disse, aproximando-se. – Abracei-o suavemente enquanto observava seu ombro.

Está bem?– Perguntei.

– Ótimo, o ombro já está bem, pronto para outra. – Ele sorriu.

– Desculpe por... Por ter te prendido no banheiro.

– Realmente não era para ter feito isso, mas obrigado por tentar me proteger. – Ele passou a mão nos cabelos muito bem cortados. – Irene eu... Eu não sei como te falar isso...

O quê? O que aconteceu? Sherlock... Foi algo com Sherlock?!– Minha voz saiu mais alta e o aparelho começou a bipar freneticamente.– Ele... Ele...

– Ele está bem, menos ferido que da outra vez.

Certo... E Sebastian?

– Sebastian foi preso por Mycroft que conseguiu a pena mínima de exílio.

Exílio?! – Gritei segurando-me no ferro branco da cama. Exílio não seria nada, deveria ter sido morto.

– Sim...

E Lestrade, está bem?... Ele levou um tiro. – Falei colocando as mãos sobre os lábios lembrando que tinha esquecido completamente Greg.

– Estava com colete a prova de balas. – Ele sorriu.

– Certo... Então... O que tem para me falar?– Ele mordeu o lábio inferior, abriu a janela do quarto e sentou-se na ponta da minha cama.

– No momento do tiro você se jogou por cima de Sherlock para leva-lo por ele, estou certo?

Sim, eu prometi.– Falei lentamente lembrando-me da conversa com Mycroft. – Eu prometi que faria tudo que estivesse ao meu alcance, mas eu já iria fazer antes, com ou sem promessa.


– Irene... Sherlock caiu batendo a cabeça no concreto ele... O médico disse que ocorreu uma pequena fratura e eles já estão resolvendo o problema, mas... Ele não recorda de tudo.



Como assim? Ele não se lembra de Sebastian...? Da tortura, do aniversário?– Falei lentamente.



– Eu não sei bem o que ele lembra Adler... Mas ele não lembra coisas que fez, palavras que disse e de algumas pessoas... Não se lembra de Mary, mas recorda de Hamish... É aleatório. Lembra-se de mim... Mas está confuso quanto à ordem cronológica... As maiores partes das lembranças estão misturadas e ele só tem fragmentos... O que eu estou tentando dizer é que, talvez ele não se lembre de você.



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Notas finais
Desculpe se tiver algum erro...

Não me matem! ;x

O capítulo está literalmente recortado porque Irene também sofreu tortura, difrente do "The Dark Room" que John narrava completo porque não tinha sofrido nada, não tinha interrupções.

O que acharam? ^-^

Para quem não sabe, o aniversário Sherlock Holmes é dia 06/01, ou seja, comemorando exatamente no dia na fic :D

Outra curiosidade, O Gladstone não é o cachorro de Sherlock e sim de John no filme com Robert D.Jr. e Jude Law. O nome do possível cachorro que Sherlock tinha nos livros era Toby.

Lembrando que Irene não é uma donzela em perigo, por isso Sherlock não está morrendo * a la príncipe Disney * para tentar salvá-la.