Eu estou bem. – Respondi, enquanto a enfermeira analisava meu prontuário. – Sinceramente eu preciso sair desse hospital... – Gesticulei nervosamente mostrando o quarto.

– Vou levar para o médico analisar, talvez você possa receber alta. – Ela disse, sacudindo a prancheta cinza enquanto saia do quarto rapidamente. Eu continuava internada, mas agora eu já podia andar até o corredor e voltar, apenas. Levantei-me da cama abrindo a porta que dava para a sala de visitas e o corredor. Odiava aqueles vestidos de hospital com plaquinhas que pinicam a pele. Ridículo. Desde que Sherlock perdeu a memoria ninguém comenta mais sobre o assunto, todo mundo age como se existisse uma lei que havia decretado a censura para esse assunto. Ninguém me falava se ele tinha citado o meu nome, ninguém queria pressionar. O fato que é eu não o via há uns dias desde o ocorrido, não entrava em seu quarto que era ao lado do meu, não falava com suas visitas e nem me importava quem era. Continuei a andar descalça pelo corredor parando em frente a uma maquininha que vendia bebidas. Observei a propaganda do chocolate quente mentalmente fazendo uma nota para Mary ou John trazer algum dinheiro para eu poder comprar. Cruzei os braços observando meu objeto de desejo.

– Essa máquina está com problema. – Saltei para o lado com susto. Sherlock encostava-se a máquina e enfiava furtivamente uma cédula dentro dela. – Tem que bater. – Ele disse, enquanto batia com força os pulsos na máquina e ela fazia alguns barulhos mecânicos. Um copo lacrado de café rolou para a aba aberta, ele pegou ligeiramente e observou-me. – Embora seja totalmente errado ingerir esses produtos enquanto internado.

Não ligo muito para as regras. – Respondi. – E você está bebendo. – Ele analisou-me e continuou a beber lentamente.

– Não ligo muito para as regras. – Ele repetiu em um tom leve. — Qual é sua história? – Ele perguntou enquanto olhava as partes roxas em meus braços. Suspirei. Ele não lembrava. Começamos a andar pelo corredor para lugar nenhum, apenas andar.

Um corte no abdôm

– Eu sei os seus ferimentos, estou perguntando o que você fez para ganhar eles. – Ele disse, de forma arrogante.

Estava fugindo de um sequestro. – Respondi, tentando encontrar algum sinal em seu rosto de que ele lembrava. Nada. Ele franziu as sobrancelhas e continuou a tomar café fazendo caretas a cada gole. Tão típico dele. – E você?

– Me joguei de um prédio... Acho... – Ele parou um momento e colocou a mão nas têmporas apertando. – Não... Não, isso foi antes... Eu... Eu... John! – Sherlock gritou, atravessando o corredor rapidamente se colocando ao lado dele. John observava-me surpreso. Balancei a cabeça negativamente mostrando que Sherlock não lembrava.

– John, que bom que está aqui, preciso que chame Lestrade para que eu explique como concluir o caso de Dosert Square!

– Holmes... Você já concluiu esse. – John falou lentamente quase sussurrando. Sherlock ficou sério e começou a bater os dedos em sequência no copo térmico. John olhou para mim por um tempo. – Nós precisamos conversar... Eu trouce alguns casos que você já concluiu... – John disse, mostrando uma pasta cheia de papeis. – Trouxe fotos... Alguns objetos e passagens. Você vai conseguir recordar, o médico disse que é apenas um pouco de esforço e você consegue.

– Superficial, meu caro Watson. – Ele disse, espalhando as fotos de qualquer jeito enquanto sentava no chão do corredor.

– Levante-se, sabe que não pode ficar aí. – John falou, observando Sherlock olhando as fotos curiosamente. –Holmes...

– Quem é Mary? – Ele disse, passando um envelope entre as mãos.

– Não! Esse não era para você... Ver agora. – Ele suspirou.

– Casar?! Casar?! Desde quando você quer uma união de bens, preso a uma mulher pelo resto de vida que lhe resta? – Sherlock continuou lendo o envelope cuidadosamente. – Você não é tão sentimental.

– Lembra-se porque passou três anos para voltar?

– Tinha que investigar Sebastian Moran. – Sherlock respondeu prontamente.

– Certo, está indo bem.

– Casar?! – Sherlock repetiu. – Ela vai lhe privar de resolver os casos comigo! Eu não vou ficar ouvindo vocês dois no quarto ao lado toda noite. – Ele levantou com dificuldade. – Não vou parar minhas experiências químicas por ela...

– Não é “ela”, é Mary. – John respondeu irritado. – Mary Morstan, em breve Watson. Você não vai nos ouvir de noite porque não vamos morar com você. – Ele disse. Sherlock virou-se sem falar nada. Com o silêncio, John observou-me e Sherlock fez o mesmo.

Oh.. Desculpe eu.. – Fiz sinal apontando para meu quarto e caminhei lentamente para o mesmo. Fechei a porta e sentei no sofá cor de creme observando pela janela a chuva. Puxei a revista que estava na estante de madeira clara ao lado, procurando o que fazer.

– Posso entrar? – Algumas batidas na porta e John apareceu sem a pasta, provavelmente com Sherlock.

Sim, claro.

– Está sem data porque Sherlock não se lembra de muita coisa ainda, então eu e Mary resolvemos não falar a data do casamento. – Ele disse, entregando-me o envelope. – Acho que é melhor ficar com você, de qualquer forma.

Obrigada. – Peguei o envelope abrindo-o rapidamente. – Holmes é o seu padrinho, isso é realmente divertido... – Comentei, acabando de ver as fotos do convite. John sorriu. – Mary tem sorte. – Sorri guardando o envelope na gaveta da mini cômoda ao lado da cama ele começou a rir.


– Obrigado. – Ele acenou e saiu do quarto. Peguei a almofada do sofá e deitei-me na cama de bruços apoiando a revista em cima da almofada. Seria um longo tempo em busca do que fazer, poderia usar o computador, mas estava sem ideias. Talvez ligar a tevê, mas a um bom tempo não acompanhava a programação... Poderia... Poderia fazer qualquer coisa, mas sempre acharia uma desculpa. Atirei com raiva a revista no chão do quarto e deitei-me puxando o cobertor fino.



•••



– Shh. – Abri os olhos e levantei-me tateando em busca da luz. Quando finalmente encontrei o interruptor, apertei, esperando a claridade iluminar o ambiente.



O quê... O quê está fazendo aqui? – Perguntei, observando Sherlock atravessar o quarto e abrir a janela.


– Meu quarto possui uma janela minúscula, por alguma razão que eu não entendo, por isso...

Eu entendo. Você poderia tentar escapar como está tentando fazer agora. – Sai da cama e cruzei os braços observando ele continuar a abrir a janela.

– Observação rápida. – Ele sorriu. – Você poderia vir. – Ele disse lentamente.

Ir? Com você? O que te faz pensar que eu iria com você me esgueirar pela janela e sair furtivamente como um presidiário que quer fugir? – Provoquei. Ele parou e pensou por um momento.

– Talvez por que você me pareceu tão entediada quanto eu. – Ele disse, enquanto se debruçava pela janela. – Mas pode ficar se quiser. – Ele saiu, corri para ver onde ele estava, se segurava na janela e passava por uma espécie de plataforma de concreto que era grudada ao hospital.

Você vai cair! – Tentei puxar sua roupa, ele fez sinal para eu fazer silêncio e continuou andando. Senti o tecido desvaindo-se me minhas mãos acompanhado por um barulho como algo que rasgava. – Sherlock! – Gritei. Ele parou por um momento, voltou e entendeu a mão. Peguei-a segurando-me e sai pela janela esgueirando na plataforma. Continuamos passando pelos lugares espremidos rapidamente e desviando com cuidado de uma janela qualquer onde o paciente olhava chocado para nós. – Eu não vou pular! – Observei, sacos de tecido hospitalar agrupados no canto onde Sherlock vislumbrava olhando para baixo com um sorriso nos lábios.

– Nós vamos sim. – Ele estendeu a mão novamente.

– Isso é insano! – Gritei, ainda sem pegar a sua mão. – Nós vamos morrer!

– A altura da queda amortecida com os sacos lá em baixo não produzirão sequer um arranhão. – Ele disse, confiante com a mão estendida.

Eu não vou!

– Você vai e eu nem preciso insistir porque seres humanos ordinários não aceitariam se esgueirar pela janela do hospital com estranhos e você o fez sem pensar direito. Isso é adrenalina, talvez você goste mais do que quer admitir. – Respirei fundo enquanto éramos molhados pela chuva que começava a cair. – Algo mais a discutir?

Você é idiota!

– Aposto que sabe o que eu sou. – Ele segurou minha mão e respirou fundo. Observei seu rosto mostrando concentração, seus cabelos molhados pela chuva que grudavam em seu rosto e em seu pescoço. A roupa hospitalar que estava encharcada modelava-se em suas curvas do corpo. Ele virou sua atenção para mim, e percebi que realmente era a hora, iriamos mesmo fazer aquilo. Se jogar do segundo andar e esperar que confortavelmente existissem sacos com panos suficientes para nós.

Eu... Não quero ir só. – Repousei a mão livre sobre o antigo ferimento do abdômen.

– Certo, nós não vamos, mudei de opinião. – Ele fez sinal para eu voltar.

Como é?!

– Não vamos, ande! – Ele apontou para eu voltar. Respirei fundo e dei-lhe as costas, tentando refazer o caminho, quando suas mãos puxaram-me, percebi que estávamos realmente caindo, meus gritos desesperados encoram até quando batemos nos sacos confortavelmente e ficamos ali sentados em meio à chuva, o choque em meu rosto.

– Você me empurrou, está louco?!–Atirei um saco nele, enquanto tentava me recompor.

– Não empurrei, peguei você para cair comigo. – Ele disse, levantando-se gargalhando alto. – Do I look Exited right?

Manic!

– I... Am. – Ele disse, analisando-me. — Verging on... Ecstatic?

Psychotic! – Ele gargalhou mais alto, colocou as mãos na própria cintura, continuava sorrindo. Levantei-me com dificuldade, meu coração estava acelerado, minhas mãos tremiam. Ele começou a andar pelo jardim do hospital, acompanhei enquanto observava a chuva. Saímos em uma avenida movimentada, comprimi os lábios observando um carro buzinar feito louco para nós quando passávamos descalços. – Onde está indo? – Segurei a manga de sua blusa.

– Para casa. – Ele continuou andando. Parei por um momento sem saber o que fazer. Ele desviou de uma poça d’água e virou-se subitamente para mim.

– Você... Você disse Sherlock!

O quê? – Perguntei, observando-o.

– Você disse Sherlock! – Ele gritou, segurando meus braços, aproximando-se de mim.

Seu nome, não é?! – Gritei, sem entender seus gritos e sua rápida mudança de humor.

– Haha! É óbvio que é meu nome, o fato é que eu não me apresentei em momento nenhum. – Ele disse, diminuindo a distância, seu rosto a centímetros do meu. Abri a boca para tentar argumentar. – Não venha dizer que escutou John pronunciar, porque em todo o momento ele falou Holmes, como você saberia meu nome? – Ele disse lentamente.

– Eu...Eu-

– Momentos de desespero fazem as pessoas mostrarem seus comportamentos de forma limpa e singular... Você... – Ele disse, suas mãos desceram para os meus pulsos. – Gritou meu nome quando percebeu uma situação de perigo. – Tentei soltar-me de seu aperto, lembrando-se do que ele tinha dito um tempo atrás.

– “Sentiment, is a chemical defect found in the losing side.” – Ele repetiu o que estava ecoando em minha cabeça. Soltei-me rapidamente assustada com a repetição, como se ele realmente estivesse falando tudo de novo e lendo minha mente.

Eu não...

– Eu toquei o seu pulso. – Ele repetiu, chegando mais perto, novamente. – Elevado, as suas pupilas dilataram. – Ele continuou sério, mostrando ar de superioridade. – You love me. – Ele concluiu, cruzando os braços e curvando-se, encostando-se a parede molhada de uma loja fechada. Olhou para mim, esperando. Percebeu que eu não iria falar nada, sentia um nó em minha garganta e meus olhos começaram a lacrimejar. – Oh... I don’t remember you.

Você lembra-se de Hamish. – Continuei observando-o.

– Sim. – Ele disse. – Fragmentos.

Mas lembra do que ele é.

– Claro que lembro, eu... Oh. – Ele bateu a mão na testa e sorriu. – Hamish, nós... – Então parou e ficou sério. – Não, nós não...

Oh Deus. – Sai andando na direção contrária, tentando me situar. Ele segurou meu braço, puxando-me suavemente.

– Não, nós não fizemos, nós não...

É claro que fizemos! – Gritei, tirando sua mão de meu braço. – E você ao menos lembra o meu nome.

– Eu nunca me interessei em sexo.

The thing... Is that I know what you likes. – Ele parou surpreso. – Não era só isso... Nós convivíamos juntos. – Tremi de frio. – Eu não vou ficar na chuva esclarecendo sua memoria. – Continuei andando para a rua que me levasse a meu apartamento.

– Eu não sou do lado perdedor.

Obviamente você não controla a química de seu corpo.

– É um defeito.

Concordo. – Continuei andando pela rua, totalmente molhada com a roupa grudando em meu corpo. Sentia um frio tremendo, meus cabelos totalmente encharcados, meus pés ligeiramente nas poças de água da rua. Coloquei meus braços ao redor de meu corpo tentando me esquentar.

– Onde você está indo? – Ele perguntou, me seguindo de longe.

Para casa.

– Quando vou voltar a vê-la?

Eu não sei. – Ele apressou o passo, parando em minha frente me fazendo parar também.

– Baker Street é na transversal. – Ele disse, fazendo sinais com as mãos, mostrando o caminho.

Sei disso.

– É próximo e tem cobertas quentes... Vai pegar um resfriado.

Não estou certa se eu quero ir... Não com tudo isso acontecendo.

– Sabe que você parece totalmente absurda, mas eu ainda sou a mesma pessoa. – Ele disse, franzindo as sobrancelhas e cruzando os braços. – Estou me esforçando sim?

Sim. – Suspirei. Acompanhei-o lentamente enquanto andávamos para Baker Street. Durante o trajeto, apesar de estar de madrugada, as poucas pessoas que andavam pelas ruas olhavam para nós assustadas. Sherlock observava-me o tempo inteiro, não olhei para ele novamente, só queria um cobertor quente e chá. Quando finalmente chegamos a Baker Street, esperamos o que pareceu serem horas quando na verdade foram apenas minutos para John abrir a porta.

– Sherlock! – John olhou assustado para nós, totalmente encharcados tremendo na chuva forte. – Entrem, entrem! – Entramos e ficamos na escada esperando John trazer toalhas. Ele voltou com algumas, puxei duas enquanto cobria-me tremendo sem parar. Sherlock também pegava algumas, entretanto, apenas se enxugava. – Porque raios você saiu do hospital?!

– Porque estava entediado. – Ele respondeu, enxugando os cabelos.

– Sherlock, você não está em condições de sair ainda! Está todo machucado!

– Eu sei me cuidar.

– O problema é que você não sabe! Como saiu do hospital em meio aos médicos e guardas?

– Pela janela. – Ele olhou para mim sorrateiramente. – Com ela.

– Irene...

Eu sei... Mas a culpa não foi minha! Não podia o deixar sair pela janela e se machucar ou se sentir mal no meio da rua! – John suspirou resignado. O cachorro correu e deslizou pelas escadas caindo alguns degraus. Todos olharam o pobre cachorrinho caindo degrau por degrau gemendo. – Pobrezinho. – Sentei na escada pegando-o antes que ele caísse mais alguns degraus. Coloquei-o em meu colo, fazendo carinho em sua cabeça.

– Gladstone! – John correu, sentado ao meu lado, fazendo carinho na orelha do cachorro.

– Gladstone? Achei que o cachorro era meu. – Sherlock cruzou os braços observando-nos.

– Você lembra?

– Lembrei-me de que recebi esse cachorro dela. – Ele apontou para mim. – Todavia é apenas isso.

– Então qual nome vai dar?

– Vou pensar. – Ele disse, observando o cachorro que saiu do meu colo e andou até Sherlock cheirando-o.

– Gladstone é bom nome. – John defendeu.

– Meninos... O que está acontecendo?! – Mrs. Hudson parou na ponta da escada observando-os.

– Mrs. Hudson, Sherlock saiu do hospital... – John levantou-se tentando explicar.

– Sherlock!

– Estou bem. – Ele disse, enquanto beijava as bochechas dela.

– Farei chá, olhe para você, voltou mais magrinho e está tão pálido... Está tremendo! – Ela disse, passando a mão no braço esquerdo dele. Sumiu rapidamente caminhando para a cozinha.

Preciso de roupas e um celular. – Falei, levantando-me ainda com as toalhas. – Onde Hamish está?

– Dormindo no quarto ao lado de Mrs. Hudson.

– Você diz, no quarto mofado? – Sherlock perguntou lentamente.

– Sim... Coloquei-o lá porque Mrs. Hudson achava-se em casa e eu regressei quase agora... Ele ficaria desacompanhado lá em cima... – Sherlock atravessou o apartamento de Mrs. Hudson, rodou a fechadura grudada à porta e entrou no quarto escuro sem fazer barulho. Observei Hamish dormindo “embrulhado” nos cobertores coloridos. O quarto era todo fechado, com apenas uma janela pequena, tinha cheiro de antiguidade e apenas uma cama em todo o ambiente. A madeira era mais velha também, rangia com mais facilidade, percebia-se que estava sem uso. Sherlock Pegou Hamish nos braços, colocando o cobertor em volta de seu corpo para não encostar-se em seu peito molhado pela chuva. Levou-o pelas escadas rapidamente e colocou-o no próprio quarto. Cobri Ham com outra coberta da cama de Sherlock, ajeitei seus cabelos e dei-lhe um beijo na testa enquanto ele continuava dormindo. Peguei algumas roupas que estavam na antiga mala que John tinha deixado para mim antes de irmos a Baskerville. Tomei um longo banho quente no banheiro lutando para não fazer barulho para não acordar Hamish e com cuidado para não molhar minha gaze dos ferimentos. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto e reto, peguei meias pretas que iam até o joelho, um vestido preto e segui para a sala, jogando-me no sofá confortável que “afundava” ao lado de John que comia alguns biscoitos enquanto conversava com Sherlock que parecia apenas esquentar as mãos com o chá visto que em momento algum levava a bebida quente aos lábios. Peguei uma xícara de porcelana e tomei um longo gole sentindo o líquido esquentar-me por dentro. Reconfortante, pensei de imediato. Coloquei dois biscoitos no pires e tornei a descansar a xícara sob o mesmo.

– Gladstone é bom. – John falou. Observei Sherlock analisar o nome. – Irene Adler. – Ele sussurrou. Segurei o pires e a xícara firmemente enquanto John assustado colocava sua xícara na mesinha de vidro.

– Você lembra?! – Ele perguntou lentamente.

– Estava forçando a lembrar do nome... Sendo que Adler estava rodando em minha cabeça á séculos, entretanto não sabia o porquê e nem que era ela. – Ele apontou para mim. Comprimi os lábios na xícara voltando a beber chá com leite. Ele fechou os olhos com força formando o vindo entre as sobrancelhas. Colocou as mãos nas têmporas.

O médico disse que você lembraria logo se se esforçasse... Mas assim vai acabar tendo um aneurisma. – Falei, observando-o. Ele abriu os olhos e levantou-se rapidamente.

– Aonde vai? – John perguntou, comendo mais biscoitos apressadamente.

– Para o quarto, tomar banho e... Palácio mental. – Ele disse rapidamente, correndo pelo corredor até o quarto. Continuei tomando meu chá observando a claridade por entre a janela.

Watson... Que horas são?

– Cinco e algo, penso... – Ele disse, observando o cachorro que parecia querer nossa atenção. O filhote deitado sobre o tapete da sala, pulava varias vezes quando necessário, em algum momento, começou a espalhar ração perto da lareira e sobre ela achou perfeitamente normal deitar-se, pois o fez, em frente a lareira sobre a própria comida. – Necessito dormir um pouco... Logo serão oito horas e preciso trabalhar. – John falou, dando uma tapa de leve sobre o meu joelho. – Durma um pouco. – Ele apontou para o sofá. – Vou pegar travesseiros e lenções.


Obrigada. – Agradeci gentilmente ao mesmo tempo em que colocava a xícara na bandeja sobre a mesinha e fazia carinho no cachorro que agora sob os meus pés cochilava suavemente. Poucos minutos e ele voltou com dois travesseiros e um lençol. Agradeci novamente acomodando tudo no sofá. – Durma bem. – Ele acenou e sorriu enquanto sumia pelo corredor. Deitei-me acomodando no sofá, dando leves batidinhas no travesseiro enquanto o outro apoiava meus pés. Fechei os olhos por um tempo enquanto meus dedos ainda roçavam na cabeça de Gladstone.



•••



Irritante e incômodo. Isso era o que definia o barulho que eu escutava enquanto tentava voltar a dormir. Esperei ele atenuar, mas nada ocorreu. Levantei-me percebendo que vinha da cozinha, talvez não tivesse se passado muito tempo que tinha cochilado. Apertei um aparelho que emitia um alarme irritante e senti de imediato cheiro de cigarro. Observei o aparelho vislumbrando a inteligência. Então era por fumaça ou algo do gênero. Abri a porta de Sherlock observando Hamish ainda dormindo calmamente, sem sinal de Holmes. – Sherlock? – Bati na porta do banheiro sussurrando por seu nome. – Sherlock? – Repeti quando não escutei sua resposta.


– Está aberta. – Ele disse, um tempo depois. Empurrei a porta observando-o sentado na banheira cheia de água enrolado em uma toalha molhando-a sem a menor pena, enquanto a mão direita segurava um cigarro a esquerda repousava na borda da banheira. A água pingava de seus dedos enquanto ele tragava lentamente e suspirava fechando os olhos.

Sherlock o aparelho...

– Eu sei. – Ele disse, comprimindo o cigarro entre os lábios. – Passei na sala e voltei para cá, não tinha percebido que estava ligado.

Não acredito que está fumando. – Falei, cruzando os braços encostando-me a parede oposta.

– Não encontrei o meu saquinho incolor... – Ele disse normalmente sobre suas drogas.

Você ainda está se recuperando...

– Me sinto extremamente bem fisicamente e completamente impotente mentalmente. – Ele falou, visivelmente com raiva.

Se você sabe que vai lembrar, o que te incomoda?

– A falta de informação.

Que é passageira.

– Sobre a minha vida.

Você sabe sobre a sua vida, o que não sabe é sobre a minha. – Falei, enquanto sentava na borda da banheira. Ele observou-me sério.

– Estou atrás de um estimulo. – Ele disse suavemente. Peguei o cigarro entre seus dedos e encostei a minha boca, tragando lentamente.

Faz tempo que não fumo. – Soprei a fumaça em seus lábios que espontaneamente ficaram entreabertos. Sorri devolvendo o cigarro para ele. – Vai lembrar. – Falei, enquanto observava ele estender a mão encostando em meu braço.

– A vida é minha também. – Ele disse, depois soltou meu braço e afundou por completo na banheira, deixando apenas a mão com o cigarro de fora. Fiquei ali parada observando-o debaixo d’água de olhos fechados, então quando passou um momento, comecei a ficar preocupada. Puxei seu braço com força fazendo-o subir novamente.

Não faça isso. – Falei, observando ele abrir os olhos e puxar o ar.

– Father?! – Sherlock olhou para a porta, levantando-se da banheira e trocando a toalha molhada pela seca, foi para o quarto. Tirei a água da banheira eliminando-a pelo ralo aberto, voltei para o quarto com os braços cruzados observando Sherlock sentado na cama e Hamish deitado em seu peito.

– Pesadelos são pensamentos de sua imaginação Hamish. – Ele disse, passando os dedos por seu cabelo. – Vai se sentir oprimido, contudo é apenas isso, já passou, vê? Só foi parassonia.

– Para o quê? – Hamish perguntou. Sherlock riu por um breve momento. – São apenas pensamentos que você acumulou e sua mente fez o trabalho de colocar para fora de forma bem criativa... É por isso que não faz sentido e não deve deixar o seu medo dominar você. – Ele disse, cobrindo Ham e ajeitando seu travesseiro. – Pode ficar aqui? – Ele disse, segurando a mão de Sherlock. Ele deitou-se por cima do cobertor, imediatamente Hamish debruçou-se ajeitando ao lado dele.

Boa noite. – Falei, beijando sua mão enquanto ele observava-me.

– Também está aqui? – Hamish perguntou sorrindo.


Sim, durma bem. – Falei, tirando uma mecha de cachinho de seus olhos. Fechei a porta do quarto observando-os de olhos fechados tentando dormir. Sentei-me ao sofá, puxando minhas cobertas e finalmente cochilando em paz.



•••



– Não esperava essa hora... – Abri os olhos, rapidamente espreguiçando-me. John segurava a cadeira na cozinha enquanto Mrs. Hudson colocava alguns pratos na mesa. Levantei do sofá, querendo saber quem tinha chegado. Sherlock estava parado no corredor com seu robe azul e Hamish que ainda usava seu pijama segurava sua mão. – Sente Mycroft. – John falou novamente, apontando a cadeira. Puxei os travesseiros e o lençol e rapidamente levei para o quarto de Sherlock, Mycroft olhava sério para Sherlock que continuava parado no mesmo lugar. – Mycroft... Pode sentar. – John repetiu. Voltei do quarto e Mycroft já estava acomodado na mesa, John e Hamish também estavam sentados, Sherlock estava em pé, ao lado de John. Mrs. Hudson servia Roast Chicken nos pratos sem prestar atenção na quantidade.



– Sherlock, querido... Não vai comer? – Ela perguntou, entregando garfos para Hamish e beijou sua bochecha.



– O que quer Mycroft?


– Chegou isso em meu gabinete. – Ele disse, seus lábios se contraindo em desgosto enquanto jogava um pacote branco lacrado sobre a mesa. Sherlock pegou-o rapidamente antes que John o alcançasse. – Você está sendo cordialmente convidado ao tribunal para se defender da acusação perante a lei de falsidade ideológica. – Ele disse.

– Eu sei ler. – Sherlock respondeu simplesmente, enquanto acabava de ler o texto do papel.

– Nós podemos tentar usar sua repentina amnésia como defesa.–Mycroft disse, estrelando os dedos e observando Hamish comer. –Tenho um advogado muito bom. – Ele continuou.

– Não estou interessado em seus serviços, posso fazer minha defesa e argumentar muito bem. – Sherlock respondeu.

– Você sabe que é a lei. Será acompanhado por um de meus advogados...- Sherlock levantou o dedo para seu rosto preparado para brigar. – Por mamãe. – Ele disse. John engasgou e Hamish deixou o pedaço de frango cair de sua boca. Mrs. Hudson olhou surpresa para Sherlock assim como eu. Sherlock não disse nada, pegou o copo de John e bebeu todo o refrigerante sem pausar.

– Oh... Isso é um tanto... Diferente. – John falou, quando finalmente recuperou-se. – Hm... Sherlock você... Acho que você deveria fazer o que Mycroft está falando, afinal você sabe que não tem boas lembranças de um tribunal. Sherlock não disse nada, continuou amassando o envelope.

– Mycroft, gostaria de um prato? – Mrs. Hudson quebrou o silêncio depois de um tempo.

– Não, ele está de dieta. – Sherlock disse sem observar seu rosto. Mycroft olhou com raiva enquanto pegava o prato e ajeitava os talheres cordialmente na mesa. Sentei-me no lugar vago, ao lado dele e peguei um prato. Nunca tinha visto alguém comer com tanto desdém quanto Mycroft enquanto me observava. Sorri espetando um legume, ele cortou um pedaço de frango com tanta força que o prato tremeu. John observava-nos com uma sobrancelha arqueada. Hamish terminou de almoçar e desceu as escadas com Mrs. Hudson para comer sorvete. Sherlock levou o prato de Ham para a cozinha e atirou-o com raiva na pia, fazendo todos os presentes olharem. Voltou com raiva e apontou para Mycroft.

– Saia!

– Sherlock! – John levantou rapidamente. – Ele estava em seu quarto o tempo todo... – Ele disse lentamente, diminuindo o som quando Sherlock olhou para ele. – Quando estava internado. — Continuei comendo meus vegetais que estavam no prato porque o frango parecia ser mais difícil de engolir. Mycroft continuou comendo lentamente sem olhar para ninguém e Sherlock ainda fitava-o com raiva.

John... Acho que nós devemos... Deixá-los a sós. – Falei, levantando-me e encostando ao ombro de John, que seguiu comigo para seu próprio quarto.

– Lembra-se quando era pequeno e teve febre por passar muito tempo na chuva fria? – Mycroft perguntou. Fechamos a porta a tempo de escutarmos apenas isso. Observei o quarto de John, que era basicamente igual ao de Sherlock, porém, era estranhamente organizado, a cama completamente direita, tinha tapetes retos, a janela aberta iluminava o ambiente. Alguns livros que pensei serem de biologia estavam na estante e apenas um em cima de uma escrivaninha com anotações sobre amnésia.

Talvez eles precisem conversar. – falei, sentando na ponta da mesa da escrivaninha.

– Acho que sim. – Ele respondeu, colocando a mão na própria cintura enquanto olhava frustrado pela janela.

Você conhece os pais de Sherlock? – Perguntei, cruzando os braços.

– Não. – Ele disse, encostando o polegar no vidro da janela. – Sherlock não fala deles, fala de Mycroft com raiva... Então pensei que talvez ele sentisse raiva dos pais também... Mas ao que parece, não sente.

Hmm.

– Acho que ele está voltando ao normal... Digo... Está relembrando.

Sim... – Falei, folheando o livro sem prestar atenção. Viramos para encarar a porta quando escutamos barulho de algo quebrando. John saiu do quarto e eu o segui pelo corredor. Sherlock olhava para o violino esfolado no chão perto de Mycroft que continuava sentado bebendo água como se nada tivesse acontecido.

– Sua pontaria não é a mesma que outrora... Little brother. – Mycroft disse. Segurei o braço de Sherlock fazendo-o olhar para mim.

Não faça isso. – Ele olhou em meus olhos por um tempo depois seguiu para o quarto. John pegou o violino quebrado no chão e tentou analisá-lo enquanto sentava no sofá.

– Posso falar com você? – Mycroft disse, enquanto seguia para as escadas. Acenei levemente e acompanhei-o. Esperei ele falar observando seu rosto. – Você tem causado imensos problemas. – Ele disse. – Embora realmente tenha, não consigo entender como Sherlock gosta e se envolve neles... Meu irmão tem uma aptidão excêntrica para pessoas, o que me faz imaginar que você também tenha.

Aonde quer chegar?

– Você é totalmente errada e deveria estar presa, contudo, contrariando minhas crenças, penso que invejo Sherlock pelo o que ele tem. Ele sempre se referiu a você como “A mulher”. Nunca foi a mulher qualquer, foi “A mulher”. Aos olhos dele, você ofusca o brilho de todas as outras e devo dizer que sinto um pouco de gratidão pelo que fez levando um tiro por ele como me prometeu.

Oh. – Não consegui expressar qualquer coisa.

– Não entregarei você para a Yard e estamos quites. – Ele disse, rapidamente voltando a sua personalidade habitual. Puxou a porta e saiu, abrindo a sombrinha enquanto um carro instantaneamente parava em frente.

Goodbye Iceman. – Sorri, enquanto fechava a porta, deixando para trás seu rosto observando-me.

Notas finais
Desculpe se tiver algum erro, não tive tempo de corrigir e estou morrendo de sono.

Tentei dividir em momentos entre os personagens, espero que tenham apreciado a leitura... =)

Lembrando que está cheio de quotes, sobre Sherlock Holmes o livro, o filme e a série. Acho que perceberam ao longo da leitura. Grande abraço!

Curiosidade: Sherlock nunca disse " Elementar, meu caro Watson" só " Elementar" ou " Superficial, meu caro Watson."