Wonderwall.
20 Eu te amo.
Notas iniciais
Às vezes eu me sinto no meio de quatro paredes que se movem e vão se fechando comigo dentro. Eu fico sem ar, desesperada e acabo entrando em pânico enquanto as paredes continuam se movendo ao meu redor, me apertando, esmagando meus ossos até eu virar um grande nada. É assim que me sinto toda vez que tenho que fugir de Oliver para falar com Diggle e Robert, tenho sempre a impressão de que ele vai descobrir tudo.
E parece que hoje vou passar por um grande desafio. É o casamento de Diggle e Oliver vai me acompanhar. É como se eu fosse uma ovelha no meio de uma alcateia esfomeada. Até tentei desistir de ir ao casamento, mas é o casamento de John Diggle, meu melhor amigo, eu simplesmente não posso faltar. E Oliver parece ansioso para conhecer o homem que é quase da minha família.
Meu sábado começou assim, eu me sentindo sufocada e preocupada com tudo que pode acontecer mais tarde. Diggle me ligou e eu acabei desabafando, ele disse que já havia avisado aos poucos convidados para não falar sobre trabalho. E também eram poucos convidados do fbi e todos sabem manter sigilo, os outros são da família de Diggle e Lyla, acredito que a última coisa que eles vão querer conversar é sobre o FBI. Porém, isso não foi suficiente para arrancar a angustia que sentia.
Pedi um tempo sozinha para Oliver. Disse que precisava comprar um sapato que combinasse com meu vestido. Ele entendeu e ficou com Mogus no meu apartamento. Peguei as chaves do meu carro, minha bolsa e deixei Oliver e o Gato brincando no meu sofá. Oliver havia comprado um laser para brincar com Mogus, então acredito que eles nem vão sentir minha falta. Espero que não quebrem nada.
Fui até uma loja e comprei um sapato prata com pedras brilhantes, era um pouco caro, mas estava dentro do meu orçamento. Ele combinava com o vestido que usaria no casamento. Depois dirigi por horas, perambulei pela cidade. Até sentar em um banco no central park e ficar observando as pessoas. Acabei me lembrando do que Robert me disse quando estávamos em seu escritório.
As palavras pareciam tão claras, límpidas como água.
“Você não pode ter sentimentos verdadeiros por meu filho, porque uma hora ou outra ele vai descobrir e nunca mais vai querer olhar para sua cara. Você precisa protegê-lo, manter o foco. Se apaixonar por ele não é o certo, vai abaixar a guarda e não vai conseguir fazer seu trabalho direito, Felicity.”
Eu quis rebater, jogar na cara dele que a culpa não era minha e sim dele, por ser irresponsável e me mandar se aproximar do seu filho. Mas eu não tive coragem. Parecia uma formiguinha perto de um gigante. E logo depois Oliver entrou no escritório, fiquei muda e morrendo de medo de ele ter ouvido toda a nossa conversa. Robert acabou salvando o dia e Oliver ficou furioso com o pai.
No fundo eu sei que Robert está certo. Tinha que ter feito meu trabalho corretamente, não envolver meus sentimentos no meio de tudo, mas acabou acontecendo, me apaixonei por Oliver e agora fico morrendo de medo que ele saiba toda a verdade. Vai ser como Robert jogou na minha cara, seu filho nunca mais vai querer me ver, vai me odiar para sempre.
Quero contar toda a verdade, mas sou covarde. Não tenho coragem. Sou um verdadeiro desastre como guarda costas. Sei disso porque envolvi sentimentos em algo que era para ser fácil.
Quando Oliver me ligou notei que havia passado mais de 3 horas longe. Não atendi a ligação, mas decidi que estava na hora de voltar antes que ele colocasse a policia atrás de mim. Durante o trajeto de volta ele me ligou mais duas vezes. Um pouco exagerado, embora eu goste da sua preocupação comigo.
Cheguei ao meu apartamento e não tive tempo nem de tirar os sapatos. Oliver já estava me abraçando e perguntando se havia acontecido alguma coisa comigo, se alguém tinha feito algo contra mim e por que não tinha atendido o celular. Eu lhe dei um beijo e disse que havia acabado a bateria e que não estava encontrando o par de sapatos perfeito. Depois disso fui tomar um banho.
Escutei a porta abrir e puxei a cortina do chuveiro. Oliver estava encostado na porta e sorriu.
— Quer esfregar minhas costas? — indaguei, sorrindo malicioso.
Oliver cruzou os braços e deu seu sorriso safado que me fazia ficar mole.
— É quase um convite irrecusável. — disse. — Mas eu preciso pegar meu terno, que levei para lavar.
Confesso que fui infantil e fiz bico.
— Tem certeza que vai me deixar aqui sozinha?
Ele suspirou. E tive certeza que ia ceder. Mas estava errada. Oliver recusou meu convite e saiu do banheiro. Terminei de tomar banho e fui até meu quarto. Coloquei meu vestido esticado sobre a cama. Era lindo, Ana me ajudou a escolher. No inicio até pensei que era uma péssima ideia, ela usa aquelas roupas escuras. Mas Ana acabou me mostrando que tinha um ótimo gosto. É da cor salmão, com um decote V bastante aberto, alças caídas abaixo dos ombros e decotado nas costas também, é longo e todo delicado. Ana disse que ficou lindo no meu corpo, mas preciso saber o que Oliver vai achar.
Fiz um coque nos cabelos, com uma trança presa na lateral da cabeça e deixei alguns fios soltos. Depois fiz uma maquiagem em tons pasteis e marrom e um batom rosa claro. Esperei um pouco e então coloquei o vestido e as sandálias, finalizei com um brinco e a pulseira de pedras de topázio azul que Oliver me deu. Eu estava me sentindo muito bonita.
— Uau! Você está maravilhosa. — encarei seu reflexo no espelho, Oliver estava parado atrás de mim. Admirando-me, podia dizer que estava encantado, maravilhado e apaixonado.
Eu girei e o admirei também. Estava usando um terno preto, com gravata prata. Sorrindo como um bobo para mim. Ele estava sexy com aquelas roupas. Não pude deixar de pensar que o final da noite seria incrível para nós dois.
— E você está sexy.
Oliver sorriu e agarrou minha cintura, puxando-me para si. Começou a beijar meu pescoço, provocando-me calafrios por todo corpo.
— Você vai acabar amassando meu vestido. — empurrei seu ombro e saí de perto dele. Peguei minha minúscula bolsa e o celular. — Está na hora.
[...]
O casamento seria completamente ao ar livre. Em uma casa de campo que Diggle alugou especialmente para esse dia. Lyla sempre teve esse sonho e John Diggle ama aquela mulher e quando a pediu em casamento disse que realizaria todos seus sonhos, o primeiro seria um casamento do jeitinho que ela sempre quis, o que não deu certo, já que Lyla sempre sonhou ficar grávida e acabou acontecendo primeiro.
Claro que para John Diggle foi fácil arrumar uma casa extra grande para seu casamento, afinal ele é do FBI, tem contatos.
Oliver ficou bastante surpreso quando contei a história do casamento. Disse que John era um cara incrível e que quando nos casássemos ele ia tentar fazer melhor. Foi estranho, já que me casar nunca foi um sonho meu. Mas quando Oliver tocou no assunto eu senti um friozinho na barriga e fiquei imaginando nós dois em frente um altar, dizendo sim.
Mas isso nunca vai acontecer, porque logo Oliver vai me odiar e nunca mais vai querer olhar para minha cara.
Quando chegamos ao local, a organizadora nos levou para o quintal onde ia acontecer a cerimonia. Tudo estava muito bonito, havia duas fileiras de cadeiras brancas, uma de cada lado e no meio um caminho feito de luzes e pétalas de rosa branca que se estendia até o altar. Acima das nossas cabeças tinha mais luzes suspensas em cabos que deixava tudo ainda mais belo. Logo a frente, em baixo de uma tenda decorada tinha o altar. Diggle estava parado lá, todo sorridente e nervoso ao mesmo tempo. Com certeza é um dos dias mais felizes da sua vida.
Estou orgulhosa e preciso dizer isso a ele.
Puxo Oliver rumo ao altar. Diggle sorri quando nos vê. Caminho depressa, notando alguns colegas trocando olhares sugestivos, eu nem quero pensar no que estão pensando sobre mim. Continuo andando, com Oliver ao meu encalço.
— John. — digo, quando estou bem perto dele. — Você está lindo.
— Obrigada. — ele me abraça apertado. — Estou nervoso também. — olha sobre meu ombro e ergue uma sobrancelha. — Quem é esse?
Ele é um bom ator. Consegue atuar muito bem e agradeço por isso. Oliver está ao meu lado e sorri para Diggle.
— É o meu namorado. — aperto a mão de Oliver e ele arqueja. — Adam Cooper, falei sobre ele já. Numa ligação?
Diggle pondera, parece ir longe, forçar a memória para lembrar de algo que nunca aconteceu. Uau, ele é ótimo nisso.
— Ah sim. Lembro-me de termos falado sobre ele. — afirma. — Olá, Adam. — estende a mão para Oliver. — Me chamo John Diggle. Que bom finalmente te conhecer.
Oliver aperta a mão de Diggle.
— Adam Cooper. — pronuncia. — Felicity falou muito sobre você. E é um prazer finalmente conhecer alguém que foi como um pai para ela.
Depois dessa apresentação, dou um abraço em Diggle e digo que estou orgulhosa, ele beija minha testa e diz que Oliver é ótimo. Sentamo-nos na segunda fileira de cadeiras no lado esquerdo. Logo todos os convidados haviam chegado e se ajeitado. A orquestra então deu inicio a cerimônia com a marcha de núpcias. Olhei para trás e lá estava Lyla, olhando para Diggle e sorrindo.
Ela sabe que ele é o homem da sua vida, aquele que ela passará o resto da vida ao lado, aquele que vai construir uma família linda ao seu lado e que vai dividir cada momento. Ela está feliz, posso ver isso em seus olhos que brilham tanto quanto todas as luzes desse lugar. Lyla o ama tanto e estou feliz por ser ela quem vai fazê-lo feliz e preencher todas as lacunas do seu coração.
Seguro a mão de Oliver junto a minha. Estou feliz por ele estar ao meu lado. Estou feliz por ser ele quem está preenchendo as lacunas vagas em meu coração. Em pouco tempo ele tornou-se uma pessoa essencial em minha vida, alguém insubstituível que não consigo imaginar longe. Eu o amo tanto.
— Um dia vai ser a gente. — ele sussurra contra meu ouvido.
Sua promessa é tão verdadeira que chego me lamentar porque sei que isso nunca vai acontecer. Meus olhos estão transbordando, sinto um aperto na garganta, uma vontade quase incontrolável de chorar. Mas engulo essa vontade. Olho para Diggle e Lyla de mãos dadas, olhando um nos olhos do outro. Eu nunca vou ter isso que eles têm.
Me lamento por não ter conhecido Oliver antes, me lamento por ter aceitado trabalhar para Robert, me lamente por não conseguir falar a verdade, me lamento porque sei que quando ele souber vai sofrer por minha causa, me lamento porque vou fazê-lo sofrer, me lamente porque sei que depois que ele souber nunca mais vai querer olhar na minha cara, me lamento por amá-lo tanto.
Me lamento.
Me lamento.
Me lamento.
Me lamento tanto que quando percebo estou chorando. As lágrimas escorrem por meu rosto em grande quantidade, Oliver ainda não percebeu, está admirando os noivos. Abaixo a cabeça e limpo meu rosto com a mão enquanto escuto os votos de Diggle.
Ele diz que vai amar Lyla para sempre. Cuida-la para sempre. Ser sempre o seu herói mesmo sabendo que ela não precise dele nem para abrir uma lata de conserva. Ele diz que a ama tanto que não consegue se imaginar um dia longe dela. John Diggle está sendo romântico e isso é surpreendente.
Paro de chorar quando imagino John Diggle segurando um bebezinho todo delicado, estou rindo baixinho agora e Oliver está acariciando minha mão com os dedos. Ele me olha e sorri no mesmo instante que John e Lyla se beijam, Oliver me beija também, eu me perco em seus lábios, me afundo neles porque eles são tudo que quero.
Quando a cerimônia acaba, John a Lyla convidam os convidados para a festa. É no jardim também, mais ao lado, onde tem uma tenda enorme com mesas, um palco para a orquestra e uma pista de dança. Lá, cada padrinho faz seus votos de felicidades ao casal. A mãe de Lyla fala emocionada que ama a filha e que ela está em boas mãos. Finaliza dizendo que quer muitos netos.
Depois dos votos dos padrinhos e familiares. Os recém-casados se dirigem até a pista para uma dança. Diggle segura a cintura de Lyla e a puxa para si. Uma musica lenta começa e os dois dançam no ritmo. Outros convidados se juntam ao casal e começam a dançar. Formam um casal tão bonito. Fico admirando os dois.
— Dança comigo?
Encaro os olhos de Oliver e depois sua mão estendida em minha direção. Ele é tão lindo e carinhoso, estou me lamentando de novo, por nunca mais ter esse carinho.
— Você está bem?
— Estou. — digo. — E aceito dançar com você.
Ele sorri. Levanta-se e segura minha mãe. Seguimos até a pista de dança. Oliver segura minha mão e minha cintura, me puxa para mais perto e começamos a dançar. Não tiro meus olhos dos deles por nenhum minuto, eles me transmitem segurança e amor, um amor delicado e lindo que ele só dá para mim. Somete a mim. Meu coração se enche de alegria. Quero dançar só com ele, então aproveito e dançamos três musicas seguida. Quero ficar com Oliver para sempre.
Quando era pequena sempre desejei ter super poderes. Voar sempre foi meu poder preferido. Queria voar porque tudo lá de cima é mais bonito, queria voar porque conseguiria tocar as nuvens. Mas agora desejo ter outro poder, um em que eu possa apagar a memória das pessoas, então me apagaria da memória de Oliver e depois o apagaria da minha memória. Dessa forma ninguém sairá machucado.
A terceira musica acaba. Oliver continua me segurando junto a si. Ele beija o topo da minha cabeça.
— Mais uma. — eu assinto.
Pressiono meu ouvido contra seu peito e escuto as batidas do seu coração. Fecho meus olhos. Oliver me conduz, parecemos flutuar. Parece que estamos sozinhos, com apenas uma musica suave de fundo, ele me aperta e me segura junto a si tão forte. Segura meu queixo e ergue meu rosto, beijando-me com delicadeza e carinho. Quero dizer que o amo, mas se fizer isso sei que vai ser muito pior depois que ele descobrir toda a verdade.
— Será que John ficaria bravo se sumíssemos por um tempinho? — cochicha no meu ouvido.
Olho ao redor e encontro Diggle e Lyla sentados a mesa dos noivos, eles estão num mundinho só deles, acredito que não vão sentir a falta de ninguém. Fito os olhos de Oliver.
— Tenho certeza que não.
Oliver sorri e pega na minha mão. Passamos pela mesa de bebidas e ele pega duas taças e uma garrafa de champanhe. Tiro minha sandália e carrego na mão, é bom sentir a grama abaixo de mim. Nos afastamos o máximo da tenda. Logo a frente há um lago, sentamos a beira dele, eu entre suas pernas com seu peito grudado ao meu e seu queixo sobre minha cabeça, me aninhei em seus braços, enquanto ele beijava meu ombro.
E a única coisa que consegui pensar foi em me lamentar mais uma vez. Quando Oliver descobrir tudo isso vai acabar, momentos como esse em que estamos sozinhos, os momentos que nos divertimos juntos, os momentos em que me derreto com suas palavras, tudo vai ser destruído, só vai restar às lembranças. Eu não quero magoá-lo, mas deveria ter pensado nisso antes de embarcar nesse navio.
— Você me perdoaria se eu te magoasse?
— O quê?
Saio de perto dele e me sento virada de frente para ele.
— Não que eu esteja pensando nisso. Mas e se eu fizer algo muito grave, algo que te magoe. — encaro seus olhos e vejo um misto de curiosidade e incredulidade. — você seria capaz de me perdoar?
— Felicity, você.
Ele se cala e seus pensamentos vão longe. Acabo me arrependendo por ter feito essa pergunta. Preciso concertar o que fiz. Rastejo para mais perto dele e seguro seu pescoço, puxo seus lábios para os meus e invado sua boca, ele tenta se afastar, mas eu não deixo. Torno o beijo mais intenso e urgente e Oliver cede completamente. Gemo em seus lábios e suas mãos me puxam para o seu colo.
— Eu não quero te magoar. — sussurro segurando seu rosto. — Mas eu tenho medo de fazer algo errado.
— Você não vai. — ele diz, deixando um beijo sobre minha clavícula. — E se fizer eu juro que vou tentar entender seus motivos.
Afundo minha cabeça na volta do seu pescoço e começo a chorar. Oliver afaga minhas costas e beija meus cabelos. Eu nunca senti isso, nunca senti tanto medo de perder uma pessoa, e agora é a única coisa que sinto todos os dias, medo de perder Oliver.
— Eu não mereço você. — resmungo.
— Hey. — ele segura meu queixo e ergue meu rosto, limpa minhas lágrimas. — Sou eu que não mereço você. Felicity, eu era um babaca, que me achava incrível por ter o título de playboy que pegava qualquer garota da faculdade. E agora tenho vergonha de quem era no passado. Mas eu mudei porque você apareceu na minha vida. Você me mudou completamente. Se alguém não merece alguém nessa história, sou eu.
Engulo outra onda de choro. Oliver sempre foi verdadeiro comigo. Enquanto eu, todo dia minto para ele. Sou uma cretina mesmo. Tenho vontade de lhe contar a verdade agora mesmo, mas sei que não vou conseguir, então apenas o abraço com força. Não acredito que vou destruir uma das únicas coisas verdadeiras que já aconteceu na minha vida.
— Eu te amo. — ele diz baixinho contra meu ouvido. Seu corpo fica tenso e ele respira fundo. — Não quero que retribua só porque eu falei. Quero que fale quando estiver pronta.
Eu começo a chorar novamente. Tenho vontade de gritar que o amo, mas eu não consigo. Fica preso na garganta, não sai de jeito nenhum. Não posso falar a mesma coisa, Oliver não merece escutar isso e depois descobrir toda a verdade, ele vai me odiar ainda mais se eu retribuir.
Eu não mereço essas três palavras. Não mereço o amor de Oliver.
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